Descansemos do triste estado do mundo e falemos de outra
coisa. Façamos mesmo como os jogadores de Xadrez do poema de Ricardo Reis: Ouvi
contar que outrora, quando a Pérsia /Tinha não sei qual guerra, / Quando a
invasão ardia na Cidade / E as mulheres gritavam, / Dois jogadores de xadrez
jogavam / O seu jogo contínuo. Há dias, sem que descortinasse a razão,
perguntei-me quais seriam os três filmes de que mais gosto. Não me questionei
sobre os três melhores filmes que vi, que é uma questão diferente. Uma resposta
inequívoca surgiu-me de imediato. Em primeiro lugar, Morangos Silvestres
(1957), de Ingmar Bergman. Depois, Táxi Cor de Malva (1977), de Yves
Boisset. Por fim, A Festa de Babette (1987), de Gabriel Axel. Todos
eles, embora cada um a seu modo, são filmes contemplativos, operam como se o
tempo se dilatasse para que o espectador possa ver, sem ser perturbado, os
rostos humanos e a própria natureza. Não são filmes de acção, mas de revelação.
Contudo, a viagem tem um papel central nos três. O velho e
solitário Dr. Isak Borg, personagem central de Morangos Silvestres, faz
uma longa viagem de carro para receber um doutoramento Honoris Causa.
Nela, confronta-se com o seu passado e aquilo que fez da sua vida. Philippe
Marchal, um escritor de sucesso, em Táxi Cor de Malva, tendo abandonado
França, confronta-se na Irlanda rural com a dor da perda de um filho e o
desabar do casamento. No filme de Gabriel Axel, também Babette se instala numa
pequena e remota aldeia rural, agora da Jutlândia (Dinamarca), depois de ter
fugido da Comuna de Paris (1871). Em todos estes filmes, a viagem, mais do que
física, é de natureza interior. Os protagonistas viajam dentro das suas
memórias, confrontando-se consigo, com a dor da existência e com o destino.
Ora, este viajar interior é uma condição para curar o que a
vida e o mundo fizeram adoecer, para abrir caminho à redenção. E talvez seja
por isso – pela possibilidade da redenção – que sempre gostei destes filmes. O
cristianismo teve uma intuição genial, ao fazer da redenção de cada um o
elemento central da religião. Ora, mesmo em tempos de retracção religiosa no
mundo ocidental, a ideia de redimir a sua existência nunca foi abandonada.
Saltou do culto e espalhou-se pelos diversos campos da acção humana, em
especial da arte. Ao secularizar-se, a redenção religiosa tornou-se prosaica,
mas não menos fundamental: significa agora encontrar um sentido para a vida,
que permita dizer que valeu a pena ser vivida, mesmo quando a cidade arde e os
invasores estão dentro dela, e sejamos aqueles xadrezistas que no só jogo
encontram o sentido da sua vida.
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