quarta-feira, 10 de março de 2021

Descrições fenomenológicas 65. No parque

Pier Luigi Lavagnino, Alberi, 1969

Cruzado por ruas largas de terra batida, talvez como recordação desse tempo arcaico em que os homens não pavimentavam os caminhos, o parque era o coração da cidade. Esta vivia ao ritmo da sua pulsação. Se havia ali uma atmosfera de tristeza, a cidade entristecia. Se os dias se tornavam nele melancólicos ou alegres, a cidade era tomada por uma súbita melancolia ou transbordava de alegria. Tudo o que acontecia no parque reflectia-se na cidade que o acolhia. Era um dia de Primavera, um sol amistoso brilhava no cerúleo do céu. A folhagem verde do arvoredo e dos arbustos reverberava. Nos lagos, a água cintilava, deixando ver cardumes de pequenos peixes a brilhar, se os raios solares lhes tocavam a pele. Uma multidão invadia o parque. Havia nas pessoas alegria e expectativa. Caminhavam despreocupadas, dirigiam-se para uma praça central, toda ela rodeada por enormes plátanos. Ali amontoavam-se, conhecidos com conhecidos, mas também com desconhecidos, e falavam, riam, como se aquele fosse um dia de festa. Num recanto, um pouco afastado, uma rapariga estava deitada na relva. Os seios alteados, as pernas nuas, os braços perdidos pelo corpo. No ventre, sustentava a cabeça de um rapaz deitado, de pernas flectidas. Segurava nas mãos uma viola. Indiferentes à multidão, deixavam-se embalar pela música dedilhada por ele. Por vezes, cantavam em uníssono, como se fossem apenas uma voz, um corpo, um ser. Ela calava-se e escutava-o. Depois, voltavam ambos a cantar, num dueto, em que se respondiam, como numa conversa vinda muito de trás. Quando se cansaram, ele poisou a viola, deitou-se ao lado dela e ficou a olhar para a copa das árvores e o azul do céu. Quando voltou a falar, ela rolou para cima dele e beijou-o na boca. A multidão continuava a afluir, os grupos ocasionais iam-se desfazendo e refazendo, enquanto ela olhava para dentro dos olhos dele. Quero ver o que há no fundo dos teus olhos, disse-lhe. Ele riu-se, puxou-a mais para si e beijou-a com sofreguidão. Da praça, chegava agora uma música de dança e a multidão segregava-se em mil pares que rodopiavam pelo chão de terra batida, enquanto o rapaz e a rapariga se perdiam na noite que havia nos olhos de cada um, descendo cada vez mais fundo, inundando-se de desejo, de pressa que os levasse, naquele instante, para o futuro.

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