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| Philippe Halsman, Alfred Hitchcock, at the time of the filming of his movie The Birds, 1962 |
- Meu Deus, pareces um filósofo a meditar o livre-arbítrio.
- Cala-te! Que sabes tu de
meditação?
- E por que razão não haveria de
saber?
- Não passas de um corvo. Negro,
horrível, assustador.
- Concedo-te duas coisas. Sou um
corvo e sou negro, como todos os corvos. Quanto a ser horrível e assustador, é
uma opinião tua. Vale o que vale. Para nós corvos, vale zero.
- Claro, devem achar-se a espécie mais
bela da criação.
- Nós, corvos negros, não achamos
nem deixamos de achar. Nós sabemos e sabemos que, em toda a criação, não há
espécie que se nos compare em beleza.
- Presunção, meu caro amigo.
- Não sou teu amigo. Apenas um
conhecido e por motivos comerciais.
- Isso sim. Nisso tens razão.
Pertences à espécie mais interesseira que existe ao de cima deste planeta.
- Vocês humanos nunca se olham ao
espelho. Preferem meditar sobre o livre-arbítrio, em vez de encarar a
realidade.
- E o que é a realidade?
- A minha ou a tua?
- A minha claro, ou julgas que
quero saber da realidade de bípedes com penas negras?
- A tua realidade? É de quem perdeu
o tino há muito e passa o dia a falar com um corvo.

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