segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Diálogos aporéticos (14) - O corvo

Philippe Halsman, Alfred Hitchcock, at the time of the filming of his movie The Birds, 1962

 - Meu Deus, pareces um filósofo a meditar o livre-arbítrio.

- Cala-te! Que sabes tu de meditação?

- E por que razão não haveria de saber?

- Não passas de um corvo. Negro, horrível, assustador.

- Concedo-te duas coisas. Sou um corvo e sou negro, como todos os corvos. Quanto a ser horrível e assustador, é uma opinião tua. Vale o que vale. Para nós corvos, vale zero.

- Claro, devem achar-se a espécie mais bela da criação.

- Nós, corvos negros, não achamos nem deixamos de achar. Nós sabemos e sabemos que, em toda a criação, não há espécie que se nos compare em beleza.

- Presunção, meu caro amigo.

- Não sou teu amigo. Apenas um conhecido e por motivos comerciais.

- Isso sim. Nisso tens razão. Pertences à espécie mais interesseira que existe ao de cima deste planeta.

- Vocês humanos nunca se olham ao espelho. Preferem meditar sobre o livre-arbítrio, em vez de encarar a realidade.

- E o que é a realidade?

- A minha ou a tua?

- A minha claro, ou julgas que quero saber da realidade de bípedes com penas negras?

- A tua realidade? É de quem perdeu o tino há muito e passa o dia a falar com um corvo.

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