sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O bode expiatório


Comecemos com números. França: 1,56; Bélgica: 1,43; Países Baixos: 1,42; Portugal: 1,41; Inglaterra: 1,39; Alemanha: 1,32; Itália: 1,14; Espanha: 1,14. Estes são os índices de fecundidade dos países referidos. O índice de fecundidade necessário para repor a demografia, nas regiões desenvolvidas, é de 2,1 filhos por mulher. Em todos estes países, está-se longe desse indicador. Mesmo estes índices devem-se, em todos estes países, ao contributo de mulheres estrangeiras (imigrantes). Sem elas, o panorama demográfico seria mais catastrófico. Perante este quadro demográfico, como se explica que em todos estes países estejam a crescer os partidos políticos de extrema-direita, racistas, xenófobos e anti-imigração? É plausível pensar que sempre existiu uma espécie de limiar de tolerância ao estrangeiro. Ultrapassado esse limiar, desencadeiam-se movimentos de exclusão. 

O apoio popular a essa agenda política pode ser explicado pela ultrapassagem desse limiar de tolerância. Contudo, ao olharmos para os índices de fecundidade, percebemos que há qualquer coisa que os eleitores dessas áreas pretendem dissimular. O ódio ao imigrante é, ao mesmo tempo, um dispositivo ideológico para esconder o niilismo que se apoderou desses povos. Ter filhos é uma coisa desagradável, dão trabalho, é preciso investir na sua educação e tornam-se, durante longos períodos, numa prisão. Talvez tenha sido sempre assim, mas ainda não se tinha descoberto um método eficaz para separar o prazer da sexualidade e a reprodução. Com a pílula contraceptiva, tudo mudou. E conforme os níveis educacionais da mulher e os níveis de vida subiam, os índices de fecundidade  desciam. Entre a reprodução e o prazer, os europeus escolheram o prazer. 

E o prazer escolhido não foi apenas o sexual. Foi também o material, aquele que é permitido por economias desenvolvidas. Chegou-se, nos dias de hoje, a uma equação de difícil resolução. Não se quer ter filhos, quer-se ter todos os benefícios que a economia traz e, ao mesmo tempo, não se querem ter por perto imigrantes, os que permitem que a economia continue a funcionar. Sem eles, como se sabe, qualquer dos países referidos acima entraria em colapso. A raiva crescente aos imigrantes é, ao mesmo tempo, uma forma de ocultação das decisões que as pessoas tomam. São elas que escolhem não ter filhos, são elas que querem ter um nível de vida cada vez mais alto. Foram e são as opções das pessoas que exigiram e exigem a vinda em massa de imigrantes. Ora, como não querem assumir as suas responsabilidades no caos social instalado, fazem dos imigrantes o bode expiatório dos seus desejos e da sua culpabilidade.