domingo, 4 de outubro de 2026

Cinismo e humilhação


A recente visita do Presidente da China, Xi Jinping, aos Estados Unidos, é, por parte do presidente chinês, um exercício de cinismo e de humilhação do país anfitrião. Não fora Donald Trump o presidente em exercício, e seria duvidoso que a atitude de Jinping fosse a mesma. Exceptuando Trump e os elementos mais fanáticos do movimento MAGA (Make America Great Again), toda a gente já percebeu que os Estados Unidos, para além de uma potência em declínio, tornaram-se, às mãos da actual administração, uma potência ridícula, dirigida por crenças absurdas e políticos paranóicos. Esta percepção dos EUA permitiu ao presidente chinês, para além dos floreados linguísticos habituais nestas ocasiões, humilhar o seu potencial inimigo. Há dois momentos, ambos protagonizados por Xi Jinping, que merecem especial atenção. 

Comecemos pela compatibilidade entre o movimento MAGA e o “rejuvenescimento nacional chinês”. “O Presidente Trump comprometeu-se a tornar a América novamente grande (…) e a China está empenhada em alcançar o grande renascimento nacional. Estes objectivos são ambos ambiciosos e podem, sem dúvida, reforçar-se mutuamente”, disse Jinping. Por que razão esta frase é de um claro cinismo? Porque Jinping sabe perfeitamente que o movimento MAGA, pela sua irracionalidade política e social, é um dos elementos fundamentais de desestruturação e decadência americana. Sabe que quanto mais força tiver o movimento MAGA, mais forte será a possibilidade da China, apostada no renascimento nacional, se tornar a potência dominante no mundo, relegando os EUA para uma posição secundária. 

A humilhação vem numa outra frase, aliás recorrente, do presidente chinês: “A armadilha de Tucídides pode ser superada.” Esta armadilha é uma interpretação das palavras dos historiador grego Tucídides: “Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta que tornou a guerra inevitável”. O professor de Harvard, Graham Allison, cunhou o termo “Armadilha de Tucídides”. Segundo ele, nos últimos 500 anos, houve 16 casos em que uma potência emergente ameaçou superar uma potência dominante. Doze desses casos terminaram em guerra. Quando Xi Jinping diz que essa armadilha pode ser superada, está a dizer que a China é uma potência emergente e os EUA, uma potência em declínio. Diz ainda mais: o melhor será os EUA aceitarem a sua decadência perante o poder chinês, que se tornará dominante. Dizer isso em plena visita oficial é um aviso e uma humilhação. E mais, é a prova de que, do ponto de vista chinês, a China é já a primeira potência mundial.

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