A recente visita do Presidente da
China, Xi Jinping, aos Estados Unidos, é, por parte do presidente chinês, um
exercício de cinismo e de humilhação do país anfitrião. Não fora Donald Trump o
presidente em exercício, e seria duvidoso que a atitude de Jinping fosse a
mesma. Exceptuando Trump e os elementos mais fanáticos do movimento MAGA (Make
America Great Again), toda a gente já percebeu que os Estados Unidos, para além
de uma potência em declínio, tornaram-se, às mãos da actual administração, uma
potência ridícula, dirigida por crenças absurdas e políticos paranóicos. Esta
percepção dos EUA permitiu ao presidente chinês, para além dos floreados linguísticos
habituais nestas ocasiões, humilhar o seu potencial inimigo. Há dois momentos,
ambos protagonizados por Xi Jinping, que merecem especial atenção.
Comecemos pela compatibilidade
entre o movimento MAGA e o “rejuvenescimento nacional chinês”. “O Presidente
Trump comprometeu-se a tornar a América novamente grande (…) e a China está
empenhada em alcançar o grande renascimento nacional. Estes objectivos são
ambos ambiciosos e podem, sem dúvida, reforçar-se mutuamente”, disse Jinping.
Por que razão esta frase é de um claro cinismo? Porque Jinping sabe
perfeitamente que o movimento MAGA, pela sua irracionalidade política e social,
é um dos elementos fundamentais de desestruturação e decadência americana. Sabe
que quanto mais força tiver o movimento MAGA, mais forte será a possibilidade
da China, apostada no renascimento nacional, se tornar a potência dominante no
mundo, relegando os EUA para uma posição secundária.
A humilhação vem numa outra frase,
aliás recorrente, do presidente chinês: “A armadilha de Tucídides pode ser
superada.” Esta armadilha é uma interpretação das palavras dos historiador
grego Tucídides: “Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso provocou em
Esparta que tornou a guerra inevitável”. O professor de Harvard, Graham Allison,
cunhou o termo “Armadilha de Tucídides”. Segundo ele, nos últimos 500 anos,
houve 16 casos em que uma potência emergente ameaçou superar uma potência
dominante. Doze desses casos terminaram em guerra. Quando Xi Jinping diz que essa
armadilha pode ser superada, está a dizer que a China é uma potência emergente
e os EUA, uma potência em declínio. Diz ainda mais: o melhor será os EUA
aceitarem a sua decadência perante o poder chinês, que se tornará dominante.
Dizer isso em plena visita oficial é um aviso e uma humilhação. E mais, é a
prova de que, do ponto de vista chinês, a China é já a primeira potência
mundial.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.