terça-feira, 6 de outubro de 2026

Raiz da Permanência 8

Joaquim Rodrigo, Vau-Praia, 1982 (Gulbenkian)

Trazem as palavras enredadas na vertigem do coração,

cestos de sílabas colhidas na vinha

da memória, em pomares sulfatados pelo cobre

do esquecimento.

As frases dançam no vento promíscuo da cidade,

abrem-se à inclemência da Primavera,

rasgam avenidas na nostalgia de um texto

tecido no crepitar do trânsito da tarde.

 

Um uivo estremece o alfabeto das ruas,

desfaz a sintaxe que soldava as acções

e compunha histórias contadas de casa em casa

por aedos vestidos pela seda do cansaço.

O fervilhar das noites iluminado pelo fogo

do sentido, uma semântica crua

crestada pelo vigor de um sol cinematográfico

perdido no vazio da sala de jantar.

 

O silêncio soletra-se ainda nas palavras caídas

de um velho coração, murmúrios

vindos na traineira do tempo, um rumorejo

de creolina no crude do desejo.

Nas praias, os destroços do naufrágio das línguas.

Homens correm despidos pelas marés,

são lobos mudos, alcateias de sombra,

um bando estrídulo perdido na casa da mudez.

 

Julho de 2025

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