domingo, 20 de setembro de 2026

Raiz da Permanência 7

Frantisek Kupka, Gouache, 1921

Descido da cruz e entregue ao sepulcro, o dia

ficou turvo na queda da noite, sem margem

para erguer a voz e ressoar

como sino embalado pelo ângelus.

Dia morto em louvor do porvir,

sepultado na madeira da memória,

pronto para o grés do esquecimento.

 

Os dias são flocos de neve tocados

pela candeia da miséria.

Derretem assobiados pela prosódia do vento,

formam um lago de memórias,

de onde a água do tempo se evapora,

formando nuvens tóxicas

em céu de terebentina e sal-gema.

 

Pobre exército a desfilar na parada, o dia

oferece o coração às balas inimigas,

cai trespassado pelo livor do vazio,

morre no rubor do nada.

Rosa desfolhada no friso da passagem,

entrega-se na cruz

do instante, no sepulcro da eternidade.

 

Abril de 2024

 

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