Publicado em Espanha em 2021 e em Portugal, pela Antígona,
em 2024, Caruncho (Carcoma) é o romance de estreia de Layla
Martínez. Sobre ele formaram-se de imediato alguns clichés, como o de o
classificar como romance gótico e o de associar o seu estilo ao realismo
mágico. É verdade que há, na obra, a presença do terror e o recurso a uma narrativa
que recorda Juan Rulfo. Contudo, classificar a obra na categoria de romance
gótico é uma forma de a arrumar num canto onde não possa perturbar os
espíritos. O terror que se surpreende não é uma criação imaginária, mas aquele
que está presente no quotidiano, fundamentalmente num quotidiano cujas
fundações são o terror da Guerra Civil espanhola (1936-1939) e do regime que
dela nasceu e, também, o recalcamento que esse terror sofreu, na transição à
democracia, com o denominado Pacto de Silêncio, um acordo tácito entre os
partidos políticos espanhóis para que o país pudesse modernizar-se política,
social e economicamente. Quanto ao realismo mágico, ele está, de certo modo,
presente — a naturalidade do sobrenatural — mas, mais uma vez, o epíteto esconde
o que há de visceral e terrível no ressentimento social que a obra, como um
poderoso holofote, ilumina.
Uma característica central de Caruncho é o trabalho
sobre o ressentimento social, que manifesta um profundo conflito de classe,
numa Espanha do pós-guerra, entre as elites e as camadas populares. Esse
conflito é encenado numa aldeia sem nome. O rancor das duas protagonistas e
narradoras, uma avó e uma neta, também sem nome, dirige-se à família dos
Jarabos, senhores da aldeia, que surgem como agentes de uma opressão social e
económica, mas também existencial. Não é apenas a servidão que impõem, mas
também a capacidade de trazer a morte a quem os incomoda (os desaparecimentos
de pessoas — entre elas uma mulher, filha de uma das protagonistas e mãe da
outra — que são levadas a dar uma volta e nunca mais retornam), sem que isso
tenha consequências criminais. Este poder de terror dos Jarabos funciona como
uma forma de metonímia, ao tomar um exercício particular como uma parte desse
terror amplo, que foi o Terror Branco, exercido, após a Guerra Civil, pelos
nacionalistas vitoriosos, com um número assombroso, para um país católico, de
150 mil vítimas após o fim da guerra.
Particularmente interessante, neste exercício literário, é o
jogo das denominações. Funciona a dois níveis. Em primeiro lugar, como
reconhecimento social: avó e neta não têm nome, fazem parte de um mundo social
cuja invisibilidade se aprofundou com a vitória nacionalista na guerra e, de
seguida, com o regime do generalíssimo Franco. Os Jarabos são os vitoriosos, as
pessoas da situação. Eles são alguém naquele cosmos social. Por tudo isso, eles
têm nome. É uma modalidade de exprimir a luta de classes: os que têm um nome e
os que o não têm. Em segundo lugar, porém, a denominação tem um valor
invertido: serve para designar os culpados, aqueles que, após a transição à
democracia, deveriam ter sido punidos, mas que o não foram. Atribuir um nome é
um exercício que permite a identificação de quem é percebido como culpado. E,
se a punição não vem pela lei, ela virá por um ajuste secreto de contas. Onde a
lei não actua, emerge a vingança.
A memória é outro elemento central na narrativa de Layla
Martínez. É trabalhada a dois níveis. Por um lado, a memória histórico-social,
aquela que o Pacto de Silêncio quis recalcar. Ora, como se sabe desde Freud, o
recalcamento tende a manifestar-se, trazendo para a luz do dia, de modo
patológico, aquilo que se guarda no inconsciente. Ora, são essas patologias
que, em Espanha, como noutros países ocidentais, estão na base do crescimento
da extrema-direita e dos seus valores, que se pretende enfrentar, através da
rememoração das vítimas da repressão, num processo de anamnese dos
acontecimentos rasurados pela conveniência democrática. O segundo nível é o
intergeracional: a memória como herança. A memória traumática passa de avó para
neta. Não se trata apenas da memória do vivido individualmente, mas também
daquela que é vivida por transmissão familiar. Essa memória é internalizada por
aquela que não viveu os acontecimentos, mas que, de algum modo, fazem parte da
sua história. O romance mostra, de modo muito claro, que a memória do
ressentimento, do rancor, do mal sofrido tem um poder de transmissibilidade
muito mais profundo do que a memória dos acontecimentos felizes, que é
meramente pessoal.
Além de avó e neta, a casa da avó, onde ambas habitam, é
outra das protagonistas do romance. É nela que a avó comunica com o mundo
supranatural, onde mobiliza o poder de santos e santas para os seus ajustes de
contas com a vida; uma casa que, também ela, tem uma origem moralmente soturna,
fundada na exploração sexual de mulheres e símbolo de opressão do elemento
feminino pelo masculino. É concebida como um ser vivo, que tem os seus segredos
— pouco benévolos —, as suas recordações, o seu próprio sofrimento. Tem uma
espécie de vontade autónoma, como se possuísse racionalidade para gerir quem
vive nela e quem, por algum azar, cai dentro dela. Mais do que um espaço de
horror, é o lugar de vingança e de reparação, o espaço onde a justiça
retributiva funciona, desligada dos poderes do Estado e entregue ao confronto
entre classes e indivíduos.
Para além da personificação da casa, da subversão dos símbolos religiosos (a transformação de santos em agentes da vingança) e do anonimato das duas protagonistas, a autora recorre a um conjunto diversificado de estratégias narrativas. A mais importante, pelas suas consequências, é a existência de uma narrativa na primeira pessoa, mas de natureza dual. Avó e neta são ambas narradoras, existindo uma alternância de pontos de vista entre ambas. Para além do reforço do diálogo intergeracional, esta estratégia tem a função de tornar cada uma delas uma narradora pouco credível. E este é um dos elementos fundamentais do romance. Questiona a própria narrativa das protagonistas, as suas crenças e verdades. A sua pouca fiabilidade não elimina as causas do ressentimento e do rancor, mas torna-as um ponto de vista e não uma verdade universal. O que tem, do ponto de vista filosófico, uma consequência central: nos conflitos sociais, não há um ponto de vista universal, mas apenas perspectivas particulares, e cada um age em conformidade com elas. Uma afirmação clara de um relativismo que, sem um ponto de vista universal e objectivo, não abre caminho para o perdão e a reconciliação. Não há qualquer idealização dos debaixo nem diabolização dos de cima. Cada parte está muito longe de ser inocente, pois cada uma usa os poderes que possui para o exercício do mal, seja a dominação, seja a vingança. O relativismo é o que tranquiliza cada parte e justifica os seus actos.

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