sexta-feira, 18 de maio de 2018

Maio de 68 e democracia

A minha crónica no Jornal Torrejano.


Passam este mês 50 anos dos acontecimentos que ficaram conhecidos por Maio de 68, um conjunto de revoltas estudantis que se prolongaram numa onda grevista, sem precedentes, dos operários franceses. Por norma, salienta-se a natureza excepcional desses acontecimentos, onde se aliaram reivindicações libertárias dos estudantes, na área dos comportamentos sociais e sexuais, com as exigências sindicais bem mais prosaicas por parte significativa da mão-de-obra francesa. Aos acontecimentos – fundamentalmente, às exigências estudantis – ficou adstrito todo um folclore que nunca deixou de assombrar a política de uma certa Europa. Nem sempre se afirma, porém, com suficiente clareza, que as eleições democráticas de 30 de Junho desse ano liquidaram, no plano político, o processo começado na Universidade de Paris, Nanterre, com o movimento espontaneísta e libertário do 22 de Março.

As autoridades francesas começaram por tentar travar a crise estudantil através da repressão, recorrendo à violência policial. Foi como usar gasolina para apagar uma fogueira. Os acontecimentos políticos duraram cerca de dois meses e morreram nas eleições antecipadas. Ao devolver a palavra à população, o problema político ficou resolvido. O poder adquiriu uma nova legitimidade, embora o fim político do general de Gaulle tivesse ficado traçado. A revolta dissolveu-se como que por encanto. Passados cinquenta anos, numa altura em que a democracia representativa parece sofrer de uma grave doença, que alguns parecem desejar que seja fatal, não será descabido sublinhar este facto tantas vezes esquecido pela nostalgia dos soixante-huitards reais ou imaginários.

O Maio de 68 foi uma porta por onde passou muito do que estava em gestação na sociedade francesa e ocidental. O Vaticano II, a guerra do Vietname, a descolonização da Argélia, a prosperidade do pós-segunda-guerra, a descoberta e legalização da pílula, tudo isso tinha gerado tensões de natureza social, política e comportamental, as quais precisavam de uma abertura para emergirem no palco do mundo. O Maio de 68 foi essa abertura. Muito do que entrou por essa porta tornou-se o nosso modo de vida. Isso e a mitologia que foi produzida nos anos subsequentes criaram uma névoa que oculta o essencial. As dinâmicas libertária e esquerdista do movimento, ambas claramente antidemocráticas empalideceram e morreram na consumação de um acto eleitoral. É desconsolador chamar a atenção para o facto, mas nestes dias difíceis para a democracia, é bom não esquecer os recursos que esta possui.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A nossa pátria

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Ao comprar a nova tradução de Frederico Lourenço da Odisseia de Homero, lembrei-me da célebre frase de Fernando Pessoa ou, melhor, de Bernardo Soares: Minha pátria é a língua portuguesa. Há nesta frase um equívoco qualquer. A língua portuguesa, como outras, é apenas uma pátria de acolhimento. Na verdade, somos uma espécie de refugiados de uma pátria mais arcaica e fundamental. Que pátria é essa? É aquela que Frederico Lourenço, através das suas traduções de Homero e da Bíblia, está a expor aos portugueses. Não é uma pátria territorial, mas uma herança com cerca de três milénios.

A nossa pátria é a poesia dos gregos. De Homero, de Hesíodo, de Píndaro, de Ésquilo, de Sófocles e de muitos outros. A nossa pátria é a filosofia de Platão e de Aristóteles. A nossa pátria é a poesia latina de Horácio, Ovídio, Virgílio. Inclui Cícero, Marco Aurélio, Tito Lívio. A nossa pátria é o Antigo Testamento e o Novo Testamento, Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino. Apesar de esforços hercúleos de alguns – como Frederico Lourenço –, a nossa pátria arcaica está a ser corroída pelo abandono a que nós, seus filhos e cidadãos, estamos a votá-la.

É nos autores clássicos greco-latinos e nos dois Testamentos, que constituem o livro sagrado do Cristianismo, que estão os fundamentos daquilo que somos. É lá que residem as fontes que nos alimentaram nos últimos milénios. A descristianização e o abandono, na instrução escolar, da leitura dos clássicos estão a introduzir, desde há décadas, uma brecha entre as gerações actuais e fundo cultural que lhes deu origem, sentido e substância. A partir de certa altura, parece ter-se constituído uma conspiração com a finalidade de cortar as novas gerações da ligação ao passado e apagar, na sua memória, o conhecimento dessa herança que nos trouxe até aqui.

A aventura do homem ocidental não começou com a revolução científica do século XVII, o Iluminismo, a revolução industrial e tecnológica, o liberalismo e a democracia. Começou muito mais cedo, começou nesse tempo e com essa herança que hoje queremos esquecer. Esquecer a nossa origem não é apenas um problema de má memória mas um efectivo suicídio colectivo. Sem a memória do passado, a identidade torna-se de tal maneira frágil que seremos levados por um qualquer vendaval que a História está sempre pronta a oferecer. A leviandade com que estamos a descartar os clássicos greco-latinos e o Cristianismo, a matar a nossa pátria arcaica, é o sintoma de uma doença que tem todo o ar de ser fatal.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

No reino da caricatura


A minha crónica em A Barca.

Nos anos 90 do século XX vivia-se uma onda de democratizações, a qual teve início em Portugal, no ano de 1974, e se prolongou com o fim dos Estados ditos socialistas na Europa de Leste. A democracia representativa parecia ser o destino final de qualquer regime político. Seria uma questão de tempo para que Estados autoritários se tornassem democráticos. Passados vinte anos, a democracia representativa está moribunda em muitos lugares e mesmo na Europa e nos Estados Unidos apresenta sintomas de doença grave.

As causas económicas, sociais e políticas da patologia são múltiplas. Deixo-as de lado, para comentar um outro aspecto que os próprios regimes democráticos, pela sua natureza, não conseguem ver. Trata-se da dessacralização do poder. As democracias nasceram da decomposição dos Estados absolutos ou, mais recentemente, de regimes autoritários. Tanto num caso como no outro, a figura do governante estava sacralizada de tal maneira que o cidadão comum quase via uma auréola à volta da cabeça do homem político.

As democracias vivem da separação entre o poder político e a religião. Essa separação, contudo, não implicou de imediato que o governante de uma democracia fosse visto como um homem normal. A sacralidade do poder, herdada dos regimes depostos, envolvia-o ainda e dava-lhe uma legitimidade simbólica que completava a legitimidade dos votos. A partir de certa altura, com o crescimento dos órgãos de comunicação de massas, em especial da televisão, a visão do homem político pelos cidadãos muda. As pessoas começam a perceber que ele é um homem como qualquer outro e não um representante da divindade.

Com o advento das redes sociais, a dessacralização do político torna-se total. Escrutinado impiedosamente dia e noite por voyeurs ávidos, caluniado por adversários sob a cobertura do anonimato, o homem político emerge aos olhos das pessoas em toda a sua venalidade. A máscara da velha gravitas do poder cai. Vaidoso, arrogante, mentiroso, pleno de caprichos, muitas vezes corrupto, é isto que o homem comum vê nos políticos, agora que o véu sagrado que cobria o poder foi queimado na praça pública.


Perante o desencantamento, o eleitor parece ter um plano de vingança. Se aqueles que têm governado, apesar da gravidade e ar respeitável que ostentam, são pessoas comuns e venais, então que se escolham aqueles que não disfarçam. Os eleitores passaram a eleger autênticos clowns, gente claramente não confiável e, muitas vezes, risível. Através de escolhas caricatas, o eleitorado – irado e irónico – parece apostado, agora que lhe roubaram a ilusão de um poder sagrado, em transformar as democracias em reinos da caricatura.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O desafio

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Tenho estado a ler The Benedict Option: A Strategy for Christians in a post-Christian Nation, um livro do conservador Rod Dreher. O autor, um cristão ortodoxo americano, defende que os Estados Unidos são já uma sociedade pós-cristã. O livro apresenta uma proposta de resistência dos cristãos ao modo de vida actual. Uma parte dessa estratégia passa pela educação das novas gerações. Dreher defende que as famílias cristãs devem evitar educar os filhos nas escolas públicas. Caso não tenham dinheiro para uma escola de orientação religiosa, a opção é fazer a escolaridade em casa, para as novas gerações não serem contaminadas pela cultura existente na sociedade pós-cristã.

Deixando de lado a visão apocalíptica do autor, há um problema crucial que se coloca relativamente à educação das novas gerações. E esse problema toca a cristãos, agnósticos e ateus. Como fazer passar os valores familiares para os filhos? A questão surge pelo peso desmesurado que os grupos de amigos, que se constituem, por norma, na escola, têm na formação dos jovens. Esses grupos inscrevem-se numa cultura que rompe, de forma radical, com os valores da família, cultura essa que é um produto híbrido entre a imaturidade das novas gerações e a manipulação a que elas são sujeitas por adultos obscuros, mas poderosos, escondidos atrás dos produtos de consumo, dos grandes meios de comunicação de massas e das redes sociais. As chamadas culturas juvenis fomentam, no mundo ocidental, a afirmação do jovem não pela emulação de um modelo parental mas pela revolta sistemática contra ele.

O resultado de tudo isto é aquilo a que o sociólogo polaco Zygmunt Bauman chama modernidade líquida. Nada no mundo contemporâneo é sólido. Não o são as instituições e ainda menos o é a cultura. As culturas ditas juvenis são uma das principais armas de liquefacção do mundo e introduzem rupturas, quase sempre dolorosas, entre gerações. O diagnóstico de Rod Dreher não é despropositado, pois o problema é real, tanto nos EUA como na Europa. A rasura dos valores das gerações anteriores é um problema não apenas porque afecta a transmissão de uma identidade colectiva, mas porque desarma os jovens perante as ciladas do mundo. Ao contrário do que propõe Dreher com o seu anátema da escola pública, precisamos de uma estratégia em que famílias e escolas (públicas e privadas) encontrem meios que ajudem as novas gerações a enfrentar o mundo e a preservar as tradições morais e culturais, de âmbito religioso ou não, que lhes darão uma identidade sólida mas adaptável a um mundo em dissolução contínua. É este o desafio.

sábado, 7 de abril de 2018

Alma Pátria - 43: Manuel Freire - Pedra Filosofal



Da realidade do sonho. Pedra Filosofal é uma das canções emblemáticas do fim do salazarismo e do início da chamada primavera marcelista. Na verdade, é, se se estiver atento e não embotado pela saudade ou enviesado pela ideologia, a confissão de uma impotência ou, melhor, de um desejo a que falta potência. A realidade, essa meretriz que se vende a quem tem o poder, era pouco dada ao devaneio onírico. Restava tomar o sonho por realidade, a boa e desejável realidade que “eles” não conhecem. Este “eles”, na sua imprecisão referencial, é sintomático de um tempo de censura, mas também de uma incapacidade de inscrição do desejo na realidade, para falar à maneira de José Gil. Eles não sabem nem sonham / Que o sonho comanda a vida. O pior de tudo no devaneio onírico é que o sonho de uns é o pesadelo de outros. Uma bela balada.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Transparência e terror

Raoul Hausmann, Corbeilles de lumière, 1931

A caminho da completa transparência. "Pensamentos" transformados em palavras através de um dispositivo com inteligência artificial. Esta notícia deveria alarmar-nos, mas não alarma. Pelo contrário, é observada com boa disposição. No entanto, transformar o nosso diálogo interno em sons é abrir as portas para o inferno. O inferno é a transparência absoluta. Até hoje, a vida interior estava resguardada pelo silêncio. Há coisas que pensamos e que não queremos que ninguém saiba. Há coisas em nós que nós próprios não sabemos e não queremos saber. Fazem parte do fundo sombrio que todos os seres humanos trazem em si e que, por norma, aprendem a domar ou a recalcar. A vida de cada um de nós é, e deve ser, translúcida. Nem completamente opaca, nem completamente transparente. Esta descoberta inscreve-se no caminho para a total transparência. A transparência total é a destruição da privacidade e, em última análise, a destruição da pessoa, com a possibilidade da sua total exposição pública. Não se trata já de se saber tudo o que fazemos e tudo o que dizemos, mas também de tudo o que pensamos e, mais grave ainda, aquilo que se pensa em nós, apesar da censura que lhe fazemos. Estamos alegremente a criar os dispositivos para um terror absoluto.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Ensaio sobre a luz (33)

Deborah Turbeville, Anh Duong and Marie-Sophie in Emanuel Ungaro, VOGUE, Chateau Raray, France, 1984

A luz que se esconde no negro da nostalgia abre-se radiosa sobre a pele e, pura, traça um caminho de esperança no corpo em expectativa.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

No Limiar da Porta 4. Um rumor rasga

Claude Monet, The Bodmer Oak, Fontainebleau Forest, 1865

4. Um rumor rasga

Um rumor rasga
os trilhos da aurora.

Morros e medronhos.
Casas de cinza.

A armada da manhã
no bulício do bosque.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Descrições fenomenológicas 32. A Praça do Silêncio

Lucio Fontana, Concetto sapziale, Attese, 1959

Ao fundo, erguem-se as torres da catedral, crescem para o céu, fendem a névoa e a noite. No cimo de uma, a luz rasga a escuridão e deixa um sinal para os que esperam a agrura da aurora ou ainda sonham uma salvação. A chama dos candeeiros públicos deixa suspeitar o vazio silencioso que cobriu a praça. Sob as arcadas de um prédio antigo, o comércio dorme embalado pelo longínquo murmúrio da cidade. Ninguém passa por ali, como se o lugar fosse interdito e uma maldição caísse sobre o transeunte incauto. O cedro, a única árvore que se avista daqui, treme e inclina-se pelo peso do vento. Um anjo de bronze repousa hirto num pedestal de betão. As asas presas nas costas anunciam a sua condição. A cabeça inclina-se para a frente e o olhar fixa-se na terra. Ao lado, a poucos metros de distância, outro pedestal suporta o peso de um homem de bronze. Também ele inclina a cabeça e olha para o chão. Anjo e homem, despidos, exibem os sexos. A luz de um candeeiro reverbera naqueles corpos metálicos e deixa ver os braços decepados. O silêncio progride no vazio da praça. Um cão atravessa-a e deita-se junto ao pedestal do anjo. Espera.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

No reino da caricatura

A minha crónica em A Barca, de Abril.

Nos anos 90 do século XX vivia-se uma onda de democratizações, a qual teve início em Portugal, no ano de 1974, e se prolongou com o fim dos Estados ditos socialistas na Europa de Leste. A democracia representativa parecia ser o destino final de qualquer regime político. Seria uma questão de tempo para que Estados autoritários se tornassem democráticos. Passados vinte anos, a democracia representativa está moribunda em muitos lugares e mesmo na Europa e nos Estados Unidos apresenta sintomas de doença grave.

As causas económicas, sociais e políticas da patologia são múltiplas. Deixo-as de lado, para comentar um outro aspecto que os próprios regimes democráticos, pela sua natureza, não conseguem ver. Trata-se da dessacralização do poder. As democracias nasceram da decomposição dos Estados absolutos ou, mais recentemente, de regimes autoritários. Tanto num caso como no outro, a figura do governante estava sacralizada de tal maneira que o cidadão comum quase via uma auréola à volta da cabeça do homem político.

As democracias vivem da separação entre o poder político e a religião. Essa separação, contudo, não implicou de imediato que o governante de uma democracia fosse visto como um homem normal. A sacralidade do poder, herdada dos regimes depostos, envolvia-o ainda e dava-lhe uma legitimidade simbólica que completava a legitimidade dos votos. A partir de certa altura, com o crescimento dos órgãos de comunicação de massas, em especial da televisão, a visão do homem político pelos cidadãos muda. As pessoas começam a perceber que ele é um homem como qualquer outro e não um representante da divindade.

Com o advento das redes sociais, a dessacralização do político torna-se total. Escrutinado impiedosamente dia e noite por “voyeurs” ávidos, caluniado por adversários sob a cobertura do anonimato, o homem político emerge aos olhos das pessoas em toda a sua venalidade. A máscara da velha gravitas do poder cai. Vaidoso, arrogante, mentiroso, pleno de caprichos, muitas vezes corrupto, é isto que o homem comum vê nos políticos, agora que o véu sagrado que cobria o poder foi queimado na praça pública.

Perante o desencantamento, o eleitor parece ter um plano de vingança. Se aqueles que têm governado, apesar da gravidade e ar respeitável que ostentam, são pessoas comuns e venais, então que se escolham aqueles que não disfarçam. Os eleitores passaram a eleger autênticos clowns, gente claramente não confiável e, muitas vezes, risível. Através de escolhas caricatas, o eleitorado – irado e irónico – parece apostado, agora que lhe roubaram a ilusão de um poder sagrado, em transformar as democracias em reinos da caricatura.

domingo, 1 de abril de 2018

Cânticos pascais 4. Domingo de Páscoa

Edward Burne Jones, La mañana de la Resurrección, 1882 

4. Domingo de Páscoa

As cinzas desvaneceram-se no cinzeiro da manhã.
Aberto, o túmulo era uma câmara de silêncio,
sitiado pela quieta radiação da música da aurora.

A erva renascida do pálido pavor da noite brilha
sob a floresta dilacerada dos raios solares. O mundo
rumoreja rotinas e os mortos repousam na sua morte.

Noli me tangere! A vida ressurgida, imponderável,
uma lira de luz que os dedos não sabem dedilhar,
sementes lançadas no poroso pórtico do futuro.

De tudo isso, fizeram páginas do livro de História,
sereias cantantes de promessas e equívocos, ramos
de flores presas à prosa que mancha a alvura do dia.

Que faremos nós, tão tardios, dessa vida ressurecta?
Cegos, caminhamos no oceano da cegueira e
cantamos esquecidos do silêncio do túmulo vazio.

Março, 2018

sábado, 31 de março de 2018

Cânticos pascais 3. Sábado de Aleluia

Hans Holbein the Younger, The Body of the Dead Christ in the Tomb (c. 1521)

3. Sábado de Aleluia

O espírito desce e descansa na pedra porosa do túmulo.
Longas e negras as horas para que as chagas cirzam
e da terra, ressurecta, a giesta cresça para a Primavera.

O dia corre, arrasta consigo a espuma da misericórdia,
promete a grande tempestade, folhas bravas caídas
da árvore tecida pelas lâmpadas do bem e do mal.

Sinos silenciam-se no temor da tarde, estremece o lódão,
abre os ramos nus para a respiração divina e espera
que as alfaias da vida sulquem a terra dura da morte.

O sono arde na escuridão das pálpebras e o pneuma
desliza nos meandros das trevas, esgueira-se na morada
do fogo e escuta na artéria do silêncio o gemido da dor.

Folhas de púrpura elevam-se, são diamantes no céu,
nuvens a sibilar sobre a fortaleza cercada pelo vendaval.
Absorto no jardim, o anjo da história canta hallelu Yah.

Março, 2018

sexta-feira, 30 de março de 2018

Cânticos pascais 2. Sexta-feira de Paixão

Pierre-Paul Prud'hon, Christ on the Cross, 1822

2. Sexta-feira de Paixão

Talvez nos possas salvar da sombra feita de sombras
e haja ainda no rumor da paixão um ritmo de vida,
a música que nos abra para a sedição do sofrimento.

Nas linhas desenhadas na pele, o corisco do chicote
cresce para a noite de luar em que o corpo se enrola
e reverbera, mistério após mistério, glória após glória.

Transparência da tarde, a mais escura das tardes,
o sangue a gorgolejar na garganta e a força a deslizar
na flagelação dos braços, a cair no planalto da agonia.

A lança abre no flanco a fonte de água e sangue, uma luz
rompe a terra e o espírito abre-se à cizânia da escuridão.
Lacerado e sôfrego, o corpo bebe o vinagre da morte.

A cabeça derruída, a coroa de espinhos, a cruz nas
mandíbulas do silêncio. Por que abandonou o pai o filho
à ferocidade das trevas, ao trémulo tumulto do terror?

Março, 2018

quinta-feira, 29 de março de 2018

Cânticos pascais 1. Quinta-feira de Endoenças

André Louis Derain, Last Supper, 1911

Quinta-feira de Endoenças

O lívido lençol da morte tece-se de silvas e sangue,
rumoreja na sombra como um anjo ávido de luz
preso a uma geometria de água e crepúsculos.

Eis que sobre o mundo desce a voz primitiva
e trauteia na proximidade do grande momento,
a época de maturação do fruto ferido da figueira.

Os convidados da última ceia dançam e cantam,
em sono e alucinação imersos, e distante
se turvará o tilintar das trinta moedas da traição.

As crinas do cavalo da morte avistam-se ao longe,
oscilam ao vento, enquanto na páscoa dos judeus
o filho do homem espera o pão ázimo do incêndio.

Vejo na vigília da verdade a rosa do vale de Cédron.
O horto das oliveiras, sangue e suor, lágrimas de
luz como pétalas de âmbar sombreadas na solidão.

Março, 2018

quarta-feira, 28 de março de 2018

Seguro de saúde

Marc Chagall, A revolução, 1937

O artigo de David Dinis sobre as alianças à esquerda refere o óbvio. No entanto, aquilo que é óbvio perde muitas vezes o essencial. O texto diz “ O PCP é diferente (do BE): já só espera a oportunidade para saltar para as ruas, que é onde está a alma do comité central — e a razão da sua subsistência.” Não é que o PCP não goste de rua, mas, muito provavelmente, o PCP conseguiria melhores resultados eleitorais se estivesse no governo do que estando apenas na rua. Duvido que o PCP precise para subsistir de estar sempre na oposição, mas o regime democrático, tal como foi desenhado, em 25 de Novembro de 1975, precisa do PCP na oposição. Um PCP na rua, com as suas bandeiras, manifestações e greves, é um seguro de saúde do regime.

O governo de Passos Coelho, por exemplo, deve muito ao PCP. Este canalizou, de forma legal, ordeira e disciplinada, a contestação às tropelias da troika e do governo. Essa contestação não teve nenhum impacto na diminuição das tropelias mas evitou que emergissem formas de contestação erráticas, anarquizantes, imprevisíveis e, por isso mesmo, perigosas. Aquilo que se passou nos anos da troika já se tinha passado anteriormente. Não será tanto o PCP que precisa da rua, embora goste muito dela. São os partidos do regime que precisam do PCP na rua. Quando tudo corre bem, o PCP parece não ter papel algum na democracia, mas quando chega o tempo das vacas magras, o que é recorrente neste país, o regime inteiro precisa do PCP para que as energias negativas sejam canalizadas ordeiramente. Veja-se a confusão que aconteceu em Espanha, França e, sobretudo, Itália com o desaparecimento dos velhos Partidos Comunistas. Perderam o seguro de saúde com as consequências que todos conhecemos.