quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Ensaios sobre a luz (15)

Francis Wu - The Dreamer

Inclinada pela luz, sonha-se num sonho de silêncio e árvores tocadas pela imaculada imagem do Inverno.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Micropoemas - Elementos 7

Paul Klee - The Light and So Much Else (1931)

7. Relâmpago

Relâmpago.
De súbito, a luz acontece.

E logo vem a noite que a desvanece.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

domingo, 19 de novembro de 2017

Os gatos

Myron Wood - Cat Sunning, 1966

Mesmo no lugar mais pobre, um gato está nele como se estivesse num trono. Os gatos são majestades distantes, e olham-nos umas vezes com bonomia, outras com desprezo. As mais das vezes, o seu olhar transborda de comiseração. E é esta comiseração que os inibe de exercerem sobre os humanos um despotismo contumaz. Dão aos homens espaço para que estes tratem, nem sempre da melhor maneira, da sua vida. Por vezes, cheios da gravitas que lhes é própria, concedem-nos uma graça, mas logo impõem aquela distância que anuncia um verdadeiro poder. Se Marcelo Rebelo de Sousa ou António Costa possuíssem metade da gravitas de um gato e se mantivessem um décimo da distância que este impõe, ainda haveria lugar para uma esperança redentora.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Escola, religião e cidadania


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Por motivos profissionais estou a fazer formação na área da Filosofia da Religião. As reorientações que o programa de Filosofia do ensino secundário está a sofrer implicam, entre outras coisas, que a área dos valores religiosos se torne obrigatória e não seja, como até aqui, uma opção, a qual, por norma, é preterida pela dos valores estéticos. Vão ser as duas obrigatórias. Faz sentido, no contexto em que vivemos, tornar obrigatória, no ensino secundário, uma reflexão filosófica sobre a religião? Do ponto de vista tanto da formação do indivíduo como do cidadão, e é este que aqui interessa, faz todo o sentido.

A religião tornou-se um fenómeno político global. Confinada durante muito tempo, no Ocidente, à consciência do indivíduo, com o advento do Islão na esfera política mundial, tendo-se tornado um dos grandes actores geopolíticos, a questão religiosa deixou de poder ser vista como um mero problema pessoal. Concomitante a isto, está a relação – não poucas vezes conflituosa –, no mesmo território, entre populações secularizadas e de práticas religiosas meramente convencionais e populações de fortes convicções, onde a identidade pessoal é construída a partir da fé professada. Para crentes, agnósticos e ateus, a questão religiosa está de volta e deve ser pensada.

O contributo que a Filosofia, no ensino secundário, pode fornecer no âmbito deste assunto é muito específico. Não pode visar nem a uma catequese nem a uma contra-catequese. Isso é um problema que as diversas Igrejas e movimentos religiosos ou anti-religiosos devem fazer no respectivo âmbito de acção. A Filosofia visa antes fornecer um conjunto de ferramentas críticas, para que os alunos possam avaliar o problema religioso que o actual estado do mundo nos impõe, assim como as suas convicções pessoais, sejam elas quais forem.

Do ponto de vista político, esta missão da Filosofia é da mais alta importância. As questões religiosas, ao lidarem com a relação do homem com o sagrado, têm um enorme poder para desencadear paixões mortíferas. Introduzir na esfera da crença a reflexão racional e crítica não serve para destruir as crenças, para fazer conversões ou promover apostasias. Serve para diminuir as paixões, para que o fanatismo dê lugar ao debate sereno e à análise crítica rigorosa. Trazer a Filosofia da Religião para a formação dos alunos é um contributo para que a cidadania futura se torne melhor, mais racional, mais crítica e menos permeável ao vírus do fanatismo e aos rituais da violência.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ensaios sobre a luz (14)

Otto Steinert - Structures en fer et en bois, 1949

Pálida, a luz trouxe o Inverno e deixou-o cair sobre a cidade. As folhas mortas, invisíveis, são agora uma recordação na seiva suave dos filamentos de ferro.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Distopia

Heinz Hajek-Halke, Friedhof der Fische, 1939

A primeira vez que vi esta fotografia de Heinz Hajek-Halke, um dos grandes fotógrafos germânicos, não pensei nem em peixes nem em cemitérios. Ocorreu-me estar perante um ensaio - e a fotografia de Hajek-Halke pode ser vista no âmbito do ensaio -, um ensaio, dizia, sobre um projecto de arquitectura futurista. Como em muitos projectos futuristas, haveria nele a sombra ameaçadora e mortal de uma distopia. Quando descubro o título, Cemitério de peixes, não abandono a percepção de uma arquitectura distópica e, por inferência, a própria distopia. A conexão entre cemitério e arquitectura torna patente que toda a distopia é a construção de um espaço onde a vida está submetida às estruturas da morte e voltada para a morte. Não dessa morte que faz parte da vida, mas de uma morte que, tem no seu núcleo central, a eliminação da vida. Uma morte eterna. Não por acaso, os regimes políticos nascidos de distopias fizeram da morte não apenas um instrumento mas um fim. A distopia é, deste modo, uma anunciação e uma celebração da morte. As grandes cidades são enorme cemitérios.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Micropoemas - Elementos 6

Franz Marc - Animal in Landscape (Painting with Bulls II) (1914)

6. Animal

Animal,
vertigem, vento e voz.

Na noite, uivo selvagem e feroz.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Abandono

Deborah Turbeville - Unseen Versailles - Aurelia Weingarten, 1980

Olha-se a fotografia de Deborah Turbeville e percebe-se, se súbito, que todo o abandono é uma encenação, uma encenação que é uma estratégia para lidar com a desmesura, com o que há de excessivo. O corpo no chão, perdido na decomposição outonal, parece esmagado pela altura do palácio e, no entanto, não é a morte aquilo que vemos, antes um fingir-se morto, uma diminuição de si, como o fazem certos animais, para que o excesso envolvente não dê por aquela presença. O abandono é, então, um longo exercício de auto-defesa, de preservação, de conservação. Um recurso da esperança.

domingo, 12 de novembro de 2017

Ensaios sobre a luz (13)

Kurt Hielscher - Windmills in Dobrogea or Basarabia, Romania-Bulgaria, circa 1930s

Leve, a luz levita e move o vento nas velas do moinho, e logo se dissipa nos dedos que, lentamente, tocam o segredo do cereal.

sábado, 11 de novembro de 2017

Progresso moral da humanidade

Marc Chagall - Abraham and the Three Angels (1958-60)

O psicólogo Steven Pinker tem uma agenda de investigação cujos resultados tendem a contrariar as nossas percepções. Talvez tenha sido sempre assim, talvez a humanidade julgue que o presente é sempre pior e mais problemático que o passado. O presente nunca deixa de servivido sob o signo do apocalipse. Mesmo que isso não seja verdade para todas as épocas, parece ser uma evidência para aqueles que estão vivos hoje e que ainda viveram largo tempo no século passado. O século XX, com o seu cortejo de horrores, tem funcionado como o sinal de que a ideia de um progresso moral da humanidade é coisa destituída de sentido e já lançada para o lixo. No século XX aprendeu-se a dissociar, de forma sistemática, o progresso técnico-científico do progresso moral. O primeiro seria inegável, enquanto o segundo estava num fase de retrocesso. Os campos de concentração nazis e o gulag soviético surgiam como provas irrefutáveis desse retrocesso moral da humanidade. Um cepticismo antropológico tomou corpo e inundou as crenças de muitos, entre os quais me encontro. 

Mas mais importante do que ver as nossas crenças corroboradas é, segundo a lição de Karl Popper, vê-las destruídas. É isso que faz Steven Pinker (ver aqui). Contra as nossas intuições sobre o Zeitgeist, ele afirma que o mundo não se está a desmoronar. Pelo contrário. Nunca o mundo foi tão pacífico como o é hoje. Nunca os homens se mataram menos do que hoje em dia. A análise empírica que Pinker faz em Os Anjos Bons da Nossa Natureza torna patente, ao longo da História, um declínio contínuo da violência. Este declínio contínuo da violência pode não ser uma prova evidente da existência de um progresso moral da humanidade, para falar à maneira de Kant, mas é um sintoma forte desse progresso. Por falar em Kant, o mais importante filósofo do Iluminismo, Steven Pinker prepara-se para lançar um novo livro, em cujo título, Enlightment Now: The Case for Reason, Humanism and Progress, ressoa, quase palavra a palavra, a voz do filósofo de Königsberg. Talvez o cepticismo antropológico esteja errado e as esperanças do século das Luzes não tenham sido em vão. Esperemos.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Reconhecimentos

Charles Émile Jacque - Sheep

Conforme a ciência vai produzindo conhecimento sobre animais não humanos, mais difícil é manter a atitude e a distância que a nossa espécie ostenta perante as outras. A ciência mais do que nos mostrar a existência de uma diferença absoluta, trata antes, sem qualquer objectivo ideológico, por nos mostrar a proximidade entre as espécies animais que partilham o planeta. Esses animais não são meras coisas que estão aí à nossa disposição, mas, surpreendentemente, são, também eles, o nosso próximo. Isso não significa que o homem tenha de deixar de ser omnívoro, mas implica um relação diferente da que existe numa cultura que olha para tudo do ponto de vista da mercadoria. O facto de elas reconheceram a face humana não deixa de suscitar alguma reciprocidade. Em certas culturas tradicionais - talvez na generalidade dessas culturas - não havia as fantasias do vegetarianismo, mas cultivava-se um grande respeito pelo animal. Esse respeito significava - e significa - comprometer o homem numa relação moral com os animais não humanos.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Micropoemas - Elementos 5

Amedeo Modiagliani - Cypress Trees and Houses (1900)

5. Séculos

Séculos,
ciprestes tocados pelo vento.

O corpo, um astro perdido no firmamento.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Um rolo de feno

Rodney Smith - Don Jumping Over Hay Roll, Monkton, Maryland, 1999

Elegi esta fotografia de Rodney Smith como uma metáfora da vida desde o primeiro momento em que me deparei com ela. Aparentemente, saltar sobre o rolo de feno é uma inutilidade, pois para prosseguir no caminho basta contorná-lo. Quando os indivíduos, as instituições ou as sociedades inventam obstáculos onde eles não existem, manifestam, desse modo, uma vontade de superação, um desejo de ir mais além, uma não conformação com aquilo que está. A vida pulsa dentro deles e anseia por se descobrir na superação do obstáculo. Quando indivíduos, instituições ou sociedades se desviam dos obstáculos que a vida lhes coloca e escolhem o caminho raso, sabemos então que a morte, disfarçada de inteligência, já tomou conta deles. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Ensaios sobre a luz (12)

Francis Wu - Harvest Summer

A luz desliza das nuvens e é restolho que, descalços, os pés pesados pisam a caminho da solícita sombra da noite.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Alma Pátria - 38: António Menano - Menina e Moça



Coimbra, Fado de Coimbra. Quais os grandes nomes? Certamente, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, também Luís Goes ou mesmo Luís Piçarra. Mas na arqueologia dessa canção encontramos gente como Augusto Hilário, Edmundo Bettencourt e o grande António Menano, melhor, o Dr. António Menano, ou o fado não fosse de Coimbra. Se o Fado de Lisboa expressa a alma popular portuguesa e, de certa forma, a aristocrática, almas muito mais próximas do que se pensa, o Fado de Coimbra é a expressão intelectual e burguesa da alma pátria. Mas aqui surpreende-se uma alma burguesa estranha à burguesia europeia, pois a saudade e o passado, mas não o futuro e a sua dinâmica dissolvente e progressista, são os elementos ideológicos estruturais. Uma burguesia fatalista, fixada no que foi e saudosa sabe-se lá do quê, explica muito daquilo que ainda somos.