sábado, 15 de junho de 2019

Beatitudes 9. Na clareira

Josef Sudek, Promenade from Kolin island, 1923

Davam na clareira demorados passeios, protegidos pela leve penumbra, não pelo amor da arte de passear, mas para serem vistos e, naturalmente, para verem. Há nesse acto de ver e ser visto uma necessidade cuja realização é inegociável. O estar na clareira, nesse sítio aberto à visão, é a porta da felicidade, pensa-se. Um encontro súbito, uma revelação inopinada, e a vida que até aí era destituída de sentido, ganha um horizonte e promete um destino. Por isso, os seres humanos precipitam-se para lá, ávidos e esperançosos. Sem quimeras, a vida seria insuportável.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Crónicas Normandas III - No cemitério americano

JCM, Cemitério americano na Normandia, 2007

Li algures que todas as campas deste cemitério estão voltadas para a América. Como se um dia fosse possível estes homens abandonarem o reino dos mortos, caminhar sobre as águas tenebrosas do Atlântico, chegar à terra prometida, onde abraçariam pais e filhos, as mulheres, as jovens namoradas que por lá deixaram. Nesta simbologia patriótica há um trágico desígnio. Voltados para ocidente, para as terras americanas, não é para a luz que eles olham, mas para o crepúsculo do poente. É nesse continente longínquo que, para quem vive na Europa, está o lugar onde a luz do dia vai morrer. Ironia funesta, o sítio de luz e redenção afinal não é mais do que um espaço de trevas e morte. Os mortos para a morte estão voltados.

São pomares de cruzes brancas, aqui e ali salpicados por estrelas de David, pomares cujo fruto foi colhido e não mais retornará. Percorrem-se as áleas, pisa-se a relva, olham-se os nomes no mármore frio de amargura, tocam-se as flores que por lá foram deixadas. A brisa marítima fustiga as faces. Há gente, muita gente, por todo o cemitério, estamos no lugar dos vencedores, mas aqueles que estão debaixo da terra, esses há muito que perderam, por mais que digamos a heroicidade dos seus gestos, a dádiva da vida para nos livrar do horror, eles perderam, transviaram-se do caminho da vida, encontraram a fria glória e o aconchego na terra húmida de um país estrangeiro. Penélope não os acolherá.

Há famílias que procuram, ainda hoje, a campa dos seus, recolhem-se perante a voraz pedra da morte, rezam uma oração, deixam flores, enquanto o vento continua a soprar gélido e cortante. Às vezes, chuvisca; outras, porém, o Sol rompe e ilumina por instantes as gotas de água que crescem nas folhas verdes da relva. Ainda há gente que chora, mas há muitos que apenas excursionam por ali, gente inoportuna, gente a coleccionar locais, paisagens, igrejas, cemitérios, recordações turísticas de quem perdeu a alma ou a vendeu num saldo de fim de estação. Aqueles mortos não são os seus, mesmo se a liberdade que ora usufruem foi comprada com a vida dos que dormem sob o peso da pedra.

Aqui e ali surgem velhos soldados fardados, trazem no peito o peso das condecorações tidas e, na memória, o horror da metralha incandescente, o sorriso de não saberem como não são eles a quem se visita, o esgar perplexo de terem escapado daqueles campos e de retornarem, como Ulisses, à pátria e aos níveos braços de Penélope, que no tear teceu os dias, os longos dias, que haveriam de trazer o bem amado daquela Tróia ignota. Agora, antes que a luz da vida se apague, vêm visitar o campo sagrado da morte; é um campo de glória para os que morreram e uma bênção para os vivos, vivos que caminham entre as sombras dos que, no fundo da terra, chamam por eles. (07/10/2007)

[Agora que fez 75 anos o desembarque aliado na Normandia, republico a série de seis crónicas normandas escritas em 2007 e publicadas num outro blogue.]

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Villa Cardillio 27. Confissão

Diana caçadora com arco e flecha


27. Confissão

Se luz e ruína se erguem
e em campo raso demoram,
se uma flecha de sombra
meus dias, Avita, trespassa,
se a porta onde o desejo mora
fosse branca e a noite lívida,
entre tuas mãos molhadas
o destino ou a vida deporia.

1979

terça-feira, 11 de junho de 2019

Curzio Malaparte, O Sol é cego


Ao acabar de ler o romance O Sol é cego fiquei a olhar para a capa da edição portuguesa e para o título, tradução literal do original italiano Il Sole è cieco (1947). Depois pensei que aquele título serviria muito bem para fazer uma introdução a um curso de tropologia, tal a densidade expressiva desviante do sentido literal que ali se encontra. Atribuir a cegueira ao Sol é de imediato, se não uma personificação, um animismo. No entanto, enunciado o Sol é cego interpretada a partir da experiência de leitura do romance mostra-se como uma expressão metafórica, onde a cegueira é o indício da indiferença com que o Sol presenceia a desgraça humana da guerra. Por outro lado, o Sol é uma sinédoque, através da qual o todo da natureza é dita por uma das suas partes. É a natureza que é cega perante as idiossincrasias da humanidade, é ela que fecha os olhos e, assim, permite que os homens se batam e se matem. Esta natureza, todavia, não será mais que uma máscara dessa figura trágica que é o destino Por que razão o autor condensará no título um tão grande arsenal retórico?

Falar da guerra – ainda por cima de uma guerra considerada inútil – talvez só seja possível pelo abandono da literalidade da língua, pelo recurso a uma hipertrofia expressiva que transforma o prosaico em poético e, desse modo, sublinha o patético do enfrentamento entre os homens. A guerra não é a norma da experiência quotidiana da humanidade. Ela é um estado de excepção que exige uma linguagem que vá para além da literalidade prosaica. O título é um indício da linguagem que o leitor vai encontrar. O romance é criado a partir da experiência de Malaparte como correspondente de guerra, na Batalha dos Alpes, em Junho de 1940. O autor não é propriamente um pacifista. Aos 16 anos foge do colégio onde estudava em Itália e vai oferecer-se ao exército francês para combater na primeira guerra mundial. No entanto, o combate que agora acompanha está marcado por dois pecados que ele não perdoa. Em primeiro lugar, o facto de a Itália ter declarado guerra a França, estando esta já enfraquecida pelo ataque alemão. Depois, porque o batalha alpina vai pôr frente a frente italianos e franceses, habitantes dos Alpes, que sempre mantiveram relações de amizade. A declaração de guerra italiana ultrapassa os limites da honradez que, uma antiga tradição guerreira, colocava entre beligerantes.

A irracionalidade da guerra e daquela guerra em particular ganha corpo na desrazão que atinge a personagem central, um capitão italiano que tem por missão estabelecer ligações entre diferentes grupos do exército italiano, percorrendo assim os Alpes, entabulando conversa aqui e ali, descrevendo os homens confrontados com o terror e o temor. Essas descrições são entrecortadas por outras, as que fazem ressaltar a beleza da paisagem que, indiferente, assiste aos combates e à agonia dos homens e dos animais, que a guerra também mobiliza. A perda de razão do capitão está ligada ao destino de um soldado, Calusia, um pobre e inocente camponês alpino, um homem simples que ama as vacas e que se passeia com um chocalho ao pescoço. Calusia está naquele limiar entre o animal e o homem, sendo, na verdade, mais animal que homem. Essa condição torna manifesto o que há de criminoso naquela guerra, onde, como referido acima, a gente simples dos Alpes, que sempre tiveram laços de proximidade, se vai agora matar.

A morte de Calusia atinge em pleno o capitão. A sua loucura é o resultado da responsabilidade que sente perante o destino daquele ser tão próximo de uma inocência primitiva. Esta insânia resgata a humanidade que as máquinas de guerra tendem a destruir. Exércitos são dispositivos onde se cumprem ordens, mas nos quais há uma irresponsabilidade pelo desencadear da guerra e pelo destino dos que nela morrem devido ao acaso dos combates. Ao perder a razão, ao sentir-se culpado daquilo que parece estar fora da sua alçada, o capitão sublinha um princípio de solidariedade que vai muito para além daquilo que formalmente é o seu dever. A natureza é indiferente aos combates, o sol é cego perante a vilania, o destino parece inexorável, mas um homem pode ainda enlouquecer porque se sente responsável pelo destino de outro. Há, na desrazão que acometeu o capitão, um princípio de esperança que poderá resgatar a humanidade afundada na loucura.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O 10 de Junho


10 de Junho de 1966

Por mais voltas que se dê, o 10 de Junho nunca deixa de parecer um feriado irreal, uma espécie de pesadelo vindo dos tempos do professor Salazar. Marcado, no início, pela exaltação nacionalista do Estado Novo, depois, durante as guerras coloniais, transformado em cerimónia de preito às Forças Armadas e de condecoração de militares, alguns a título póstumo, sempre ostentou uma marca sombria, fúnebre. Por mais garridice que a democracia tenha introduzido no feriado, por mais que lhe tenha trocado a denominação, o 10 de Junho continua a ser um feriado postiço, que serve para o Presidente de serviço dar recados, distribuir condecorações e mostrar desvelo pelas comunidades emigrantes. Camões, claro, não tem culpa nenhuma e nunca teria imaginado que o seu nome iria ser usado para tais desideratos. Amanhã, será outro dia e ninguém mais se lembrará de Camões.

domingo, 9 de junho de 2019

Crónicas Normandas II - No cemitério alemão

JCM, Cemitério alemão na Normandia, 2007

É um cemitério quase vazio, pontuado apenas pela silhueta fugaz de alguns visitantes. Dos que perdem, a memória desvanece-se velozmente. O silêncio da derrota, matizado pela luz da manhã e pela névoa sombria que do mar chega, entranha-se no visitante, abre-lhe o espírito à angústia, dá-lhe uma sensação de compunção inexplicável. Há um estreito caminho de lajes rodeado de campos relvados. Nestes, aos mortos, os caídos em combate, foi dada a última morada. Na sua companhia silenciosa, caminha-se em direcção a um monumento em louvor do soldado desconhecido, um hossana para aqueles que, além da vida, perderam o nome, o segredo da identidade, o fio ténue que os ligava a uma história, a uma tradição, à terra longínqua onde nasceram, para virem morrer, em nome de uma causa pestífera, nos campos da Normandia.

Todo o cemitério está pensado segundo uma racionalidade geométrica, como se, depois da aventura da desrazão nazi, os alemães tivessem sentido a necessidade de voltar aos fundamentos da razão moderna, à natureza matemática que a habitava. É um cálculo vindo das trevas o que ali se encontra, o produto de uma ilusão, a transformação da violência do combate e do pânico da morte – sim, entre todos os que ali estão sepultados, haveria algum que, no mais fundo de si, não sentisse esse pânico? A falência da ordem normal da vida, que todo o combate traz, não acenderia nas suas almas uma angústia inexplicável, mesmo se esquecida na hora de mostrar a coragem? – numa paisagem de recolhimento meditativo, num jardim onde o visitante espera, a todo o instante, descortinar monges a passear lentamente, de espírito recolhido, enquanto aguardam a revelação do deus.

Por vezes, há uma flor deixada na campa que ostenta um nome, um nome que ainda alguém reconhece como sendo de família. Talvez um amigo querido que por ali ficou, um companheiro de escola, um namorado que não chegou nunca ao tempo das núpcias. Mas tudo é tão raso, um mar de campas, muitas delas ocupadas por dois viajantes, que juntos, quem sabe se não se odiariam, entraram para a expedição eterna de onde nunca retornarão. O barqueiro que a todos recolhe não faz acepção de nomes, nem de ódios ou amores. Movido pela lei do capricho que habita no frio coração que é o seu, junta amigos e inimigos, conhecidos e desconhecidos. Aqui e ali, segundo um obscuro desígnio arquitectural, erguem-se conjuntos de cruzes de Malta, cinco cruzes, sublinhando a esperança da ressurreição ou o mero anúncio do retorno silente dos alemães à casa da cristandade, esquecidas as pulsões heróicas da mitologia bárbara que os animava durante a guerra. Nem Odin, nem as valquírias, apenas a humilhante cruz do Cristo.

Quando saio, deparo com dois enormes livros. São, à maneira de um apocalipse judaico, suprema ironia, os livros dos mortos. Neles se inscreve o nome daqueles que ali estão sepultados e ainda lhes restaram os traços caligráficos da identidade. Namenbuch, o livro dos nomes, diz cada um deles. Tremo perante a visão e olho-os de longe. Tenho vontade de os folhear, acariciar as capas, mas a mão pára. Uma voz diz-me: e se lá estiver o teu nome? (28/09/2007)

[Agora que fez 75 anos o desembarque aliado na Normandia, republico a série de seis crónicas normandas escritas em 2007 e publicadas num outro blogue.]

sábado, 8 de junho de 2019

Agustina, a crise na direita, a doença da social-democracia e a teia


AGUSTINA BESSA-LUÍS. O século XX português teve uma mão cheia de excelentes romancistas. A atribuição do Nobel a Saramago reconheceu isso. Se tivesse sido a Agustina, não teria ficado mal entregue. A sua obra é a mais desafiante de todas as obras romanescas portuguesas do século passado. A iluminação da natureza humana, a exploração das suas motivações mais recônditas, a capacidade de ver o real, tornam-na uma leitura obrigatória. Morreu na segunda-feira, ao 96 anos. Fará parte do cânone da literatura portuguesa. É preciso, porém, que os leitores continuem a ler os seus livros.

A CRISE NA DIREITA. O Presidente da República, saudoso do papel de comentador, decidiu perorar sobre uma eventual crise na direita. Rui Rio respondeu dizendo que se há crise, ela é do regime e não da direita. Centeno afiançou-nos que o regime está de saúde. É verdade que o regime tem tido capacidade para encontrar soluções políticas diferenciadas e sobreviver. Claro que o PSD e o CDS parecem viver uma crise, mas isso apenas se deve ao facto de estarem afastados do poder. Os partidos de vocação governativa sempre que estão na oposição parecem moribundos, mas se conseguem chegar ao poder, revigoram-se e tornam-se atletas de alta competição.

A DOENÇA DA SOCIAL-DEMOCRACIA EUROPEIA. Verdadeira crise é aquela que se abateu sobre a social-democracia europeia. Com exclusão dos socialistas portugueses e espanhóis, a tradição política social-democrata europeia está em estado comatoso. O desaparecimento do PS francês e as votações humilhantes dos trabalhistas ingleses e do SPD alemão, nas europeias, dão-nos um quadro clínico de prognóstico muito reservado. É possível que estas velhas instituições políticas, nascidas dos efeitos sociais da Revolução Industrial, comecem a não encontrar lugar no novo universo político gerado pela globalização e a revolução digital.

O PROBLEMA DA TEIA. O novo processo judicial que envolve autarcas socialistas do norte do país é, esse sim, uma péssima notícia para o regime. Independentemente da existência ou não de culpa por parte dos arguidos, este tipo de processos reforça a voz popular que tende a generalizar, de forma injusta, a ideia de que todos os políticos são corruptos. Aquele lugar-comum que os partidos propagam, quando são atingidos por casos de polícia, de que as questões de justiça são tratadas pela justiça, é um expediente inútil para não assumir que casos de justiça que envolvem políticos são também, aos olhos dos cidadãos, casos políticos. Não vale a pena tapar o sol com a peneira.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Villa Cardillio 26. Senhorio

Vila Cardílio, Torres Novas

26. Senhorio

Cardílio governava a terra,
o cortejo de sonâmbulos,
a inclemência de Agosto
sob o firmamento de cal.

A mão erguia um mundo,
uma paisagem de paciência,
o trabalho de tanger os dias
na obstinação da ordem.

1979

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Crónicas Normandas I - Crateras e destroços (Point du Hoc Ranger Memorial)

JCM, Viagem na Normandia, 2007

O mar ao fundo, não o de esmeralda da nossa costa, mas um mar de cinza e névoa, a lembrar, por instantes, o betão. O vento frio bate nas faces e há à minha frente um campo imenso de destroços e crateras. Um lugar quase inacessível a quem vem do mar, impossível de tomar, pensavam os alemães. Passados mais de 60 anos, a razão tenta adoçar o espaço, torná-lo visitável, recuperá-lo, em forma de memorial, para o turismo, para o insólito turismo de guerra.

Aproximo-me da falésia e espreito a praia, as águas escuras do mar normando e imagino o desembarque dos homens lá em baixo, 225 Rangers norte-americanos, e penso nos homens cá em cima. Tudo está já demasiado civilizado para se perceber a natureza militar da operação, o fogo dos alemães sobre os americanos, estes a escalar a falésia, aqueles sob o bombardeamento da aviação aliada. A respiração quase se suspende e caminho, vou campo fora. Aquilo não foi um filme. Os homens bateram-se até à morte, até à suspensão da respiração, ao explodir das entranhas. É um campo de crateras, vestígios dos bombardeamentos da aviação, um mapa lunar, como o imaginamos a partir dos nossos sonhos mais nocturnos. Estranhas covas cobertas de erva e, sabe-se lá por quê, atravessadas ao centro por um carreiro, como se os transeuntes seguissem os caminhos de uma geografia sagrada, pontuada por estações onde os crentes descem para se recolher no sítio onde a bomba explodiu. Lugares de hierofania, penso.

Entre crateras, há ruínas das instalações militares alemãs, bunkers destruídos pela força das bombas. Quantos alemães ali teriam morrido? Não digo nazis, custa-me, perante o espectáculo, pensar aqueles soldados como nazis. Quantos dos que aqui morreram seriam mais novos do que os meus filhos? O cimento armado permanece em silêncio. Sim, em silêncio, pois o memorial canta a glória dos Rangers vitoriosos. Inclino-me perante o feito desses homens, mas como poderei esquecer os outros, os que retrospectivamente sei que eram meus inimigos. Tinham corpo e alma como eu, e espírito e desejos e fantasias como eu. Vieram ali para morrer. No meu coração há um eterno reconhecimento aos americanos, mas que homem serei se esquecer os derrotados?

Fogo e aço terão caído por todo o lado. Um corpo dilacerado, um corpo incendiado, que diferença fará a língua que falou. A morte caiu sobre ele e roubou-o à glória dos dias. Olho a praia e o meu coração treme, é uma praia ambígua feita de luz e trevas. A luz normanda que incendiou a imaginação dos impressionistas e as trevas que habitam o coração desesperado dos homens. Lá em baixo há mar e areia e gaivotas. Não vejo homens, apenas as sombras do passado se erguem e estendem-me a mão. Oiço-as surpreso, estás aqui, dizem-me os americanos, porque morremos para que viesses. Olham-me com gratidão, toda a gratidão que lhes devo. (22/09/2007)

[Nos próximos dias, embora de forma intercalada, republicarei a série de seis Crónicas Normandas escritas em 2007, após uma visita aos locais do desembarque das tropas aliadas no chamado Dia D. Estas crónicas já foram publicadas num outro blogue, encerrado há muito.]

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Ensaio sobre a luz (62)

John Payne Jennings, England, c.1870

Ali, naquele lugar onde a luz se aquieta, o silêncio das águas acolhe a brancura das velas. Os barcos deslizam vagarosos e um homem aguarda a evidência que o ilumine e lhe trespasse o peito para que se recolha e se deixe tomar pelo mistério que se abre aos seus olhos.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Sobre o êxito do PAN

Julio Gómez Biedma, En otros mundos

Uma das coisas que o êxito político do PAN (Partido das Pessoas, Animais e Natureza) torna manifesta, apesar de não ser tema de reflexão, é o fim da cosmovisão cristã nas sociedades actuais. Desde os séculos XV e XVI que essa cosmovisão está sob cerrado ataque. No entanto, durante muito tempo, esse ataque concentrou-se apenas na secularização dos grandes valores cristãos. Nas diversas doutrinas dos direitos humanos, ainda se sente a influência de uma cultura onde os homens foram criados à imagem e semelhança de Deus, onde Deus, feito homem, morreu pela salvação da humanidade. Mesmo numa ideologia aparentemente tão antagónica ao cristianismo como o comunismo se ouve o ressoar nítido dos valores cristãos.

Não há nada de mais anticristão do que essa linha de continuidade “pessoas, animais, natureza” presente na própria designação do PAN. Se o cristianismo mostra alguma coisa, essa é que o homem não é um ser natural. A permeabilidade da sociedade a ideologias que não compreendem já uma linha de ruptura entre o homem e as outras espécies significa que ela deixou já de ser – ou está prestes a deixar de ser – culturalmente cristã, mesmo que de forma secularizada. A atracção que o PAN exerce não é uma coisa inócua. Nela revela-se algo de novo. Não se trata de um neopaganismo como, por vezes, se pensa, pois os deuses pagãos são um sinal da descontinuidade entre o homem e os outros animais. Trata-se antes de algo que ainda não compreendemos e muito menos conseguimos avaliar as consequências políticas e civilizacionais.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Eleições europeias


Os portugueses são um exemplo típico de europeus não praticantes. Não se dizem politicamente anti-europeus, pelo contrário. Também não contestam os milhões de euros que entram no país através dos fundos estruturais, que os ajudam a não terem uma vida miserável, e até aceitaram com bonomia o castigo que, por mau comportamento, a União Europeia lhes impôs através da troika. Mas assim como os católicos não praticantes não vêem necessidade de ir à missa dominical, os portugueses têm mais que fazer do que ir votar nas eleições europeias. A União Europeia poderia ruir eleitoralmente e eles não mexeriam um dedo para pôr a cruz no boletim de voto. Esta é a primeira ilação das eleições europeias.

Do ponto de vista dos resultados nacionais, o dado mais saliente é o da fragmentação do sistema partidário. Até há poucos anos havia em Portugal quatro famílias políticas sólidas, apesar dos altos e baixos. CDS, PSD, PS e PCP. Depois chegou o BE, que consolidou o seu lugar nas opções dos portugueses. As eleições europeias deste ano trouxeram uma novidade, o PAN. Ecologia e redefinição do estatuto dos animais parecem encontrar em Portugal um espaço político em expansão. Se assim for, o sistema partidário institucional passa a seis partidos. Esta fragmentação indica-nos que será cada vez mais difícil a obtenção de maiorias absolutas. Os portugueses já fizeram a experiências diversas vezes, mas talvez não tenham apreciado particularmente o resultado. Outros dados importantes são a rejeição da extrema-direita, bem como a irrelevância das pretensões de Santana Lopes e da Iniciativa Liberal.

Na Europa, as coisas correram melhor do que se supunha e as sondagens anunciavam. Os soberanistas e a extrema-direita cresceram, mas de forma contida. No entanto, há uma novidade interessante no campo europeísta. Este deixou de ser comandado pelos acordos entre as famílias do PPE (centro-direita) e do S&D (centro esquerda). Intrometeram-se os liberais e os verdes, o que representa também uma tendência de fragmentação do mainstream europeísta. Olhando para o panorama político europeu, este tornou-se mais complexo e mais exigente. Há medos e preocupações relativos à identidade política que se manifestam no soberanismo, mas também as preocupações com as alterações climáticas e a liberdade encontram uma forte expressão no novo Parlamento Europeu. Estes resultados globais dão à União Europeia um momento para respirar. Veremos se há força e talento político suficientes para evitar a decadência do projecto europeu.

[A minha crónica em A Barca]

sábado, 1 de junho de 2019

Villa Cardillio 25. Memória

Vila Cardílio, Torres Novas

25. Memória

O vento desliza pelo rosto
e quase se soltam lágrimas
quando do olival chega
o aroma das azeitonas,
a súplica para que mãos
quebradas pelos anos
as colham com mansidão
e da ruína das pedras
tragam o azeite da vida.

1979

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A crise da direita

Salvador Dali, En busca de la cuarta dimensión, 1979

Deixo de lado a interpretação que o Presidente da República faz do seu papel na hora actual. Centro-me na crise da direita, por ele referida. Na verdade, é uma falsa crise. A verdadeira crise, para um partido de poder, é estar na oposição. Assim que lhes chega ao nariz um leve odor de poder, a crise desvanece-se, as tropas marcham disciplinadas e cantantes e os chefes exultam de peito feito. Na oposição, os socialistas estavam de rastos. Tiveram um resultado medíocre nas eleições de 2015. O poder deu-lhes o tónico que precisavam. É esse que falta ao PSD e CDS.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Ensaio sobre a luz (61)

Piet Mondrian, Along the Amstel, 1903

No princípio era luz. Depois veio o silêncio e dele nasceu a água. Quando esta tomou a forma de rio, o mundo descobriu um espelho onde se reflectir. Vieram então ás árvores, os animais e, por fim, o homem, aquele que mergulha na corrente para segurar a imagem que as águas levam para a foz.