sábado, 14 de julho de 2018

Sem enredo


Alguém se queixa não sem indignação, numa caixa de comentários de um grande armazém de livros, de que os contos de uma certa autora não têm nada que se pareça com um enredo. Com um plot, pois a queixa vem em língua inglesa. Percebo o drama dos que contestam a literatura sem enredo. Usam a leitura como uma fuga ao mundo, uma consolação que os protege do facto inaceitável de a sua vida não possuir qualquer enredo. Coisas acontecem, umas repetem-se e outras não, mas, na verdade, nas nossas tristes vidas o arbitrário, o ocasional e o acidental são a regra e não a excepção, mesmo que teimemos no contrário, mesmo que pareça o contrário. "O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai." Também o evangelista João sabia que a vida não tem enredo. E se estamos todos in media res isso significa apenas que estamos no meio de um turbilhão sem sentido nem trama, esbracejando até morrer de cansaço.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Um concubinato de conveniência


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Desde o início que a actual solução governativa sofre de um pecado mortal. Este reside num governo onde só um dos partidos de esquerda tem assento. Ao escolher o caminho mais fácil, a esquerda resolveu alguns problemas de momento. António Costa evitou o fim da sua carreira política e o Partido Socialista conseguiu não passar pelas humilhações que outros partidos socialistas europeus sofreram. O Bloco de Esquerda alcançou o estatuto de força política respeitável. Veja-se a condecoração póstuma de Miguel Portas, fundador e dirigente do BE. O Partido Comunista, por seu lado, pôde apresentar-se como uma força de construção de soluções governativas e não de mera contestação. Durante mais de dois anos a fragilidade da solução foi disfarçada pelos aparentes sucessos governativos.

Quando nos aproximamos do último orçamento da legislatura, mesmo que haja uma convicção geral de que será aprovado, os problemas saltam aos olhos de toda a gente. Estes problemas pouco têm a ver com as leis laborais, a distribuição do dinheiro no próximo orçamento ou com as reivindicações dos vários corpos da função pública. Tudo isto é apenas um simples reflexo de uma debilidade estrutural existente desde o início desta solução governativa. As esquerdas não têm um projecto político para o país, um projecto ponderado, negociado e partilhado pelos vários partidos. Viveram até agora num concubinato de conveniência meramente circunstancial. De facto, seria muito exigente negociar um governo com todos os parceiros de esquerda, pois isso implicaria duas coisas.

Em primeiro lugar, haveria que olhar seriamente para a realidade do país. A debilidade financeira, a inconsistência da economia, a frágil situação de grande parte dos portugueses (pobres e com pouca autonomia), a dependência perante os parceiros da União Europeia e os chamados mercados financeiros. Em segundo lugar, seria necessário um forte espírito de compromisso, com todas as partes a terem de aceitar não apenas coisas agradáveis mas também aquilo que lhes desagrada. Um governo assim fundado evitaria tudo a que estamos a assistir, desde as aproximações de Costa a Rui Rio até ao retorno do BE e do PCP às políticas de contestação. Teria outra virtude. Asseguraria ao eleitorado que a esquerda possui um projecto credível para o país e não um mero programa de entretenimento enquanto a direita se recompõe para chegar ao poder e executar as suas políticas. Temo, porém, que os partidos de esquerda sejam mais sensíveis às suas conveniências particulares do que aos anseios do eleitorado.

domingo, 1 de julho de 2018

Futebol e Estado-Nação

A minha crónica em A Barca.

Olhamos para um campeonato do mundo de futebol e percebemos, de imediato, uma das causas dos problemas políticos que atingem o projecto europeu. O campeonato do mundo é um hino ao Estado-Nação. As selecções representam os Estados-Nação e recebem um inequívoco apoio popular. As pessoas sentem-se representadas pela sua selecção, vibram por ela, alegram-se com as suas vitórias e sofrem com os seus desaires. A causa principal não reside no facto de serem equipas de futebol mas de serem selecções nacionais. Um campeonato do mundo é uma manifestação global de um nacionalismo soft.

Em nome do nacionalismo cometeram-se atrocidades sem fim. No entanto, os Estados-Nação permitiram a evolução dos regimes políticos nacionais para democracias representativas. Substituíram a ideia de superioridade da nação, de um patriotismo como último refúgio dos canalhas, como dizia Samuel Johnson, pelo patriotismo constitucional, fundamento de um Estado democrático e de direito, como defende Jürgen Habermas. Se há um nacionalismo perigoso, onde o pior do homem pode vir ao de cima com facilidade, há também um virtuoso, que faz depender a vida política da lei e da liberdade.

Uma das marcas fundamentais dos países que fundaram a União Europeia (UE) – e daqueles que, posteriormente, aderiram ao projecto europeu – é serem exemplos do patriotismo constitucional. São Estados-Nação, regulados pela lei e com regimes democráticos. O problema é que, a partir de determinada altura, dentro da UE, se sonhou com o fim dos Estados-Nação europeus e se começou a socavar os seus alicerces. Não foi um jogo claro e limpo. Pelo contrário. Foi acção obscura, feita nas costas dos eleitorados pelas elites políticas que, com a ajuda de alguns meios universitários, tentaram vender a narrativa de que a destruição do Estado-Nação seria inexorável e um passo para o paraíso.

O resultado deste desvario tem sido catastrófico. O sinal mais claro foi o Brexit, e o crescimento da extrema-direita nacionalista tornou-se uma moda que chegou já ao poder em vários países europeus, começando a destruir os fundamentos constitucionais das democracias. Um campeonato do mundo de futebol é sempre uma manifestação do peso que o Estado-Nação tem no coração das massas populares. Se esse coração não for cultivado por uma ordem nacional constitucional e democrática, então o desvelo com que vemos as massas populares a apoiar as suas selecções nacionais transferir-se-á para o pior dos nacionalismos que começam a pulular por todo o continente.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Dias difíceis


A minha crónica no Jornal Torrejano.

A situação política está mais confusa do que parece. Só há um dado claro e inequívoco. Exceptuando os socialistas, todos os actores agem com o objectivo de evitar que o PS obtenha maioria absoluta nas próximas legislativas. CDS e PSD pretendem recuperar terreno e penetrar no centro político. BE e PCP sabem que uma maioria absoluta dos socialistas será obtida à custa dos votos da esquerda. Ainda menos interessado numa maioria de António Costa está Marcelo Rebelo de Sousa. Isso libertaria o governo da actual submissão ao Presidente da República e tiraria a este qualquer possibilidade de influenciar decisivamente a governação do país, como tem feito desde os incêndios do ano passado.

Numa sondagem da Aximage, as intenções de voto no PS caem pelo quarto mês consecutivo. Este declínio – aliado aos conflitos laborais, ao preço dos combustíveis e à memória da tragédia dos incêndios – torna imprevisíveis as negociações do próximo orçamento de Estado. Até há pouco toda a gente estava convicta de que se o BE e o PCP derrubassem o governo socialista teriam pesadas perdas eleitorais. Esta percepção, porém, pode estar a mudar. Neste momento, não é claro que, em eleições antecipadas, os socialistas consigam ir buscar votos à sua esquerda. Devido, principalmente, à acção do Partido Comunista, instala-se a convicção, em parte do eleitorado de esquerda, de que um voto no PS é um voto inútil, caso esse PS não esteja dependente dos partidos à sua esquerda.

Os socialistas pensaram que iriam capitalizar o sucesso político da solução governativa e ficaram presos nesse sucesso. A retórica da saída da austeridade abriu a porta para que no Estado as reivindicações dos vários corpos existentes se tornassem cada vez mais impiedosas. A narrativa do fim da austeridade desfaz-se perante essas exigências e, também, o cansaço da sociedade civil com a carga fiscal. Por outro lado, uma certa arrogância típica dos socialistas está a escavar-lhe as bases de apoio. António Costa, que parecia ter uma vida fácil, tem, a cada dia que passa, a vida mais complicada. Nem os seus adversários políticos, nem os aliados actuais, nem o Presidente da República, nem a população parecem dispostos a estender-lhe um dedo. Pelo contrário. Desde há uns tempos que olho para António Costa e me lembro de Agamémnon, o rei grego que encontrou a morte – isto é, a derrota – no regresso vitorioso de Tróia. Dias difíceis para o PS.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

O governo e os professores

A minha crónica no Jornal Torrejano.

O que terá levado o ministro da Educação a afirmar que, perante a posição dos sindicatos, o governo, que tinha prometido recuperar quase três anos do tempo em que as carreiras dos professores estiveram congeladas, não contará qualquer tempo para a progressão docente? O ministro pode achar que é uma estratégia brilhante para enfrentar os sindicatos, mas não percebeu como ela é humilhante para os professores, que se sentem tratados como crianças que são castigadas por um ministro a quem, na verdade, não reconhecem qualquer autoridade política ou educativa. Como professor, não vou aqui advogar em causa própria. O assunto é complexo e ambas as partes possuem razões que devem ser ponderadas com sensatez e serenidade. O que me interessa é o aspecto político.

O governo, ao optar pela intransigência, acordou de imediato na memória de muitos professores os tempos de Sócrates e de Lurdes Rodrigues. Isto é o pior que pode acontecer para qualquer governo. A maioria absoluta de Sócrates desfez-se com as peripécias de Lurdes Rodrigues. Quando Passos Coelho chegou ao governo, a sua maioria foi conquistada com um apoio inesperado e inusitado dos professores. As pessoas não se lembram já, mas o fim dessa maioria começou num duro conflito entre o ministro Crato e os professores. Estes que tinham dado o seu apoio ao PSD numas eleições retiraram-no nas seguintes. Assim como Sócrates e Lurdes Rodrigues, também Crato e Passos Coelho desapareceram do panorama político. Esse desaparecimento não se deve aos conflitos com os professores, mas foi neles que as maiorias políticas se começaram a desagregar. O conflito com os professores funciona como uma espécie de profecia do fim.

Não compreendo como António Costa não percebe no que se está a meter com este tipo de provocação. Se ele pensa que se vai poder gloriar como uma certa ministra que proclamava que tinha perdido os professores mas ganho a população, então não percebeu nada da realidade. Apesar da redução drástica do número de docentes, o professorado é um corpo profissional enorme e com uma presença capilar na sociedade portuguesa. Um corpo cansado de ser vexado desde 2005, um corpo profissional que, a continuar a ser tratado como o foi pelo actual ministro, não hesitará em contribuir para enviar António Costa para o limbo político onde residem os seus antecessores. Repito, há razões dos dois lados que merecem ser ponderadas, mas tratar os professores como o fez Brandão Rodrigues pode ter um preço político incalculável para António Costa.

sábado, 2 de junho de 2018

Um desafio ao Estado

A minha crónica em A Barca.

Volto ao futebol. Em A Barca de Agosto do ano passado, escrevi sobre o tribalismo que se apossou desse jogo e como a vida tribalizada é necessária para os negócios, a começar pelos da comunicação social. Os acontecimentos nas instalações de um dos maiores clubes portugueses, com a sua invasão por um exército de adeptos e o espancamento subsequente de jogadores e treinadores, manifestam a escalada desse tribalismo para níveis inusitados. O que se passou na Academia sportinguista de Alcochete não foi um mero acto arruaceiro ou uma simples acção criminosa. Há algo muito mais grave do que as cenas de espancamento.

Para perceber a gravidade da situação é necessário tentar olhar para o que desencadeou os acontecimentos. Na origem do ocorrido está, na verdade, um conflito laboral. Uma parte – mesmo que ínfima – dos adeptos, isto é, de alguém que se sente como fazendo parte da entidade patronal, não está contente com o desempenho profissional dos empregados do clube e toma a decisão de agir. O que significa isto? Significa que uma função essencial do Estado – a da justiça – foi tomada de assalto não se sabe bem por quem. Secretamente, um conjunto de indivíduos instituiu um processo informal a esses funcionários, julgou-os, proferiu uma sentença e executou-a ou fê-la executar.

A acusação de terrorismo imputada aos adeptos presos parece deslocada, mas a usurpação de funções soberanas do Estado é clara. Assistimos a uma das tribos do futebol a constituir-se efectivamente como um Estado dentro do Estado, a agir segundo uma lei privada e dentro de instituições alternativas ao Estado. O que se viu não foi um mero exercício de violência mas a manifestação indisfarçável da fragilidade das nossas instituições políticas. Não foi o Sporting que saiu mal na fotografia, não foi o futebol nacional que foi vilipendiado. Tudo isso é irrelevante.

Relevante é o facto do país ter sido humilhado ao tornar-se patente que as suas instituições são desafiadas por instituições secretas de natureza tribal, com os seus códigos do trabalho e penal, cerimónias processuais e procedimentos de execução de penas. Um Estado dentro do Estado. O mais preocupante é a complacência instalada. Instalada na comunicação social. Instalada nas elites políticas. Estas assobiam para o lado como se o que aconteceu tivesse sido uma escaramuça entre adeptos exaltados. Não foi. Foi um desafio deliberado à soberania nacional e ao ordenamento jurídico que determina que o Estado possui os monopólios da justiça e da violência legítima.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A eutanásia, dois problemas

Salvador Dali, El caballero de la muerte, 1934

Ontem foram discutidos na Assembleia da República quatro projectos de lei que visavam legalizar a eutanásia. Todos os projectos foram chumbados. Contudo, segundo alguns deputados, o problema voltará ao parlamento na próxima legislatura. A questão parece-me demasiado complexa para que não haja sobre ela uma discussão muito mais ampla e profunda. Até à tomada de posição do Partido Comunista Português, a questão estava inquinada com a suspeita de que a oposição à eutanásia se devia, em última análise a motivações religiosas, as quais não podem ser impostas a não crentes. A recusa do PCP em apoiar a legalização deslocou a discussão para outro plano que não o religioso.

Há dois problemas que me afligem na legalização da eutanásia. O deputado comunista João Oliveira argumentou que "a legalização da eutanásia não pode ser apresentada como matéria de opção ou reserva individual". É aqui que se encontra um dos principais problemas. Não terá qualquer pessoa o direito à propriedade de si mesma e a dispor de si e da sua vida como entender? Não estará incluído no direito de dispor de si o direito a determinar a sua morte? Coloquemos de lado o espinhoso problema de alguém ser propriedade de si mesmo. Poderá haver um direito a morrer?

A morte é o momento em que cessa a capacidade de uma pessoa reivindicar os seus direitos. Reivindicar um direito a morrer é exigir um direito para fazer cessar a capacidade de reivindicar qualquer direito. Ora os direitos humanos – onde vem em primeiro lugar o direito à vida – são considerados no mundo ocidental inalienáveis. Será compatível com a estrutura dos direitos humanos um suposto direito a morrer, isto é, um direito a alienar todos os seus direitos? Se considerarmos os direitos humanos – entre eles, o direito à vida – como incondicionais, então não me parece possível, sem que o direito à vida se relativize e se torne alienável, invocar um direito a ser auxiliado a morrer.

Vejamos o caso de outro ponto de vista. A morte, na verdade, não é um direito é um facto. Um indivíduo, com poder para isso, pode produzir esse facto suicidando-se. É um acto privado que se funda numa capacidade pessoal e não em qualquer direito. Muitos doentes terminais não estão em condições de o fazer. A defesa da legalização da eutanásia responde a essa incapacidade criando a possibilidade de, em certas circunstâncias, o Estado não criminalizar a participação de terceiros na morte daquele que é incapaz de pôr fim à vida.

O que significa isto? Significa que se passa do suicídio como acto privado para o suicídio assistido e a eutanásia voluntária como actos públicos, juridicamente permitidos. Esta transição não é inócua. Será admissível ao Estado permitir, através do reconhecimento do direito a executar a eutanásia, que alguém participe na morte de outra pessoa, mesmo que a pedido desta? Se exceptuarmos o caso extremo da guerra, o Estado não apenas não permite que alguém mate outra pessoa como se impediu a si próprio de matar. Legalizar a eutanásia é permitir que alguém ponha fim a uma vida e, se o Serviço Nacional de Saúde fosse convocado para tal, é conferir a um serviço do Estado o poder de tirar a vida.

A eutanásia, para além das questões religiosas, as quais dizem apenas respeito aos crentes e não podem ser projectadas sobre a vida dos não crentes, e dos dramas terríveis que envolvem as pessoas em estado terminal, vem colocar em cheque duas crenças fundamentais do nosso modo de vida. Nós acreditamos que os direitos humanos são incondicionais e inalienáveis. A permissão da eutanásia mostra-os como relativos e alienáveis. Acreditamos que o Estado não pode permitir que alguém mate e que ele próprio não pode matar. A eutanásia vem abrir uma excepção numa crença tida, também ela, como incondicional. A sociedade precisa de pensar mais maduramente o problema.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Maio de 68 e democracia

A minha crónica no Jornal Torrejano.


Passam este mês 50 anos dos acontecimentos que ficaram conhecidos por Maio de 68, um conjunto de revoltas estudantis que se prolongaram numa onda grevista, sem precedentes, dos operários franceses. Por norma, salienta-se a natureza excepcional desses acontecimentos, onde se aliaram reivindicações libertárias dos estudantes, na área dos comportamentos sociais e sexuais, com as exigências sindicais bem mais prosaicas por parte significativa da mão-de-obra francesa. Aos acontecimentos – fundamentalmente, às exigências estudantis – ficou adstrito todo um folclore que nunca deixou de assombrar a política de uma certa Europa. Nem sempre se afirma, porém, com suficiente clareza, que as eleições democráticas de 30 de Junho desse ano liquidaram, no plano político, o processo começado na Universidade de Paris, Nanterre, com o movimento espontaneísta e libertário do 22 de Março.

As autoridades francesas começaram por tentar travar a crise estudantil através da repressão, recorrendo à violência policial. Foi como usar gasolina para apagar uma fogueira. Os acontecimentos políticos duraram cerca de dois meses e morreram nas eleições antecipadas. Ao devolver a palavra à população, o problema político ficou resolvido. O poder adquiriu uma nova legitimidade, embora o fim político do general de Gaulle tivesse ficado traçado. A revolta dissolveu-se como que por encanto. Passados cinquenta anos, numa altura em que a democracia representativa parece sofrer de uma grave doença, que alguns parecem desejar que seja fatal, não será descabido sublinhar este facto tantas vezes esquecido pela nostalgia dos soixante-huitards reais ou imaginários.

O Maio de 68 foi uma porta por onde passou muito do que estava em gestação na sociedade francesa e ocidental. O Vaticano II, a guerra do Vietname, a descolonização da Argélia, a prosperidade do pós-segunda-guerra, a descoberta e legalização da pílula, tudo isso tinha gerado tensões de natureza social, política e comportamental, as quais precisavam de uma abertura para emergirem no palco do mundo. O Maio de 68 foi essa abertura. Muito do que entrou por essa porta tornou-se o nosso modo de vida. Isso e a mitologia que foi produzida nos anos subsequentes criaram uma névoa que oculta o essencial. As dinâmicas libertária e esquerdista do movimento, ambas claramente antidemocráticas empalideceram e morreram na consumação de um acto eleitoral. É desconsolador chamar a atenção para o facto, mas nestes dias difíceis para a democracia, é bom não esquecer os recursos que esta possui.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A nossa pátria

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Ao comprar a nova tradução de Frederico Lourenço da Odisseia de Homero, lembrei-me da célebre frase de Fernando Pessoa ou, melhor, de Bernardo Soares: Minha pátria é a língua portuguesa. Há nesta frase um equívoco qualquer. A língua portuguesa, como outras, é apenas uma pátria de acolhimento. Na verdade, somos uma espécie de refugiados de uma pátria mais arcaica e fundamental. Que pátria é essa? É aquela que Frederico Lourenço, através das suas traduções de Homero e da Bíblia, está a expor aos portugueses. Não é uma pátria territorial, mas uma herança com cerca de três milénios.

A nossa pátria é a poesia dos gregos. De Homero, de Hesíodo, de Píndaro, de Ésquilo, de Sófocles e de muitos outros. A nossa pátria é a filosofia de Platão e de Aristóteles. A nossa pátria é a poesia latina de Horácio, Ovídio, Virgílio. Inclui Cícero, Marco Aurélio, Tito Lívio. A nossa pátria é o Antigo Testamento e o Novo Testamento, Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino. Apesar de esforços hercúleos de alguns – como Frederico Lourenço –, a nossa pátria arcaica está a ser corroída pelo abandono a que nós, seus filhos e cidadãos, estamos a votá-la.

É nos autores clássicos greco-latinos e nos dois Testamentos, que constituem o livro sagrado do Cristianismo, que estão os fundamentos daquilo que somos. É lá que residem as fontes que nos alimentaram nos últimos milénios. A descristianização e o abandono, na instrução escolar, da leitura dos clássicos estão a introduzir, desde há décadas, uma brecha entre as gerações actuais e fundo cultural que lhes deu origem, sentido e substância. A partir de certa altura, parece ter-se constituído uma conspiração com a finalidade de cortar as novas gerações da ligação ao passado e apagar, na sua memória, o conhecimento dessa herança que nos trouxe até aqui.

A aventura do homem ocidental não começou com a revolução científica do século XVII, o Iluminismo, a revolução industrial e tecnológica, o liberalismo e a democracia. Começou muito mais cedo, começou nesse tempo e com essa herança que hoje queremos esquecer. Esquecer a nossa origem não é apenas um problema de má memória mas um efectivo suicídio colectivo. Sem a memória do passado, a identidade torna-se de tal maneira frágil que seremos levados por um qualquer vendaval que a História está sempre pronta a oferecer. A leviandade com que estamos a descartar os clássicos greco-latinos e o Cristianismo, a matar a nossa pátria arcaica, é o sintoma de uma doença que tem todo o ar de ser fatal.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

No reino da caricatura


A minha crónica em A Barca.

Nos anos 90 do século XX vivia-se uma onda de democratizações, a qual teve início em Portugal, no ano de 1974, e se prolongou com o fim dos Estados ditos socialistas na Europa de Leste. A democracia representativa parecia ser o destino final de qualquer regime político. Seria uma questão de tempo para que Estados autoritários se tornassem democráticos. Passados vinte anos, a democracia representativa está moribunda em muitos lugares e mesmo na Europa e nos Estados Unidos apresenta sintomas de doença grave.

As causas económicas, sociais e políticas da patologia são múltiplas. Deixo-as de lado, para comentar um outro aspecto que os próprios regimes democráticos, pela sua natureza, não conseguem ver. Trata-se da dessacralização do poder. As democracias nasceram da decomposição dos Estados absolutos ou, mais recentemente, de regimes autoritários. Tanto num caso como no outro, a figura do governante estava sacralizada de tal maneira que o cidadão comum quase via uma auréola à volta da cabeça do homem político.

As democracias vivem da separação entre o poder político e a religião. Essa separação, contudo, não implicou de imediato que o governante de uma democracia fosse visto como um homem normal. A sacralidade do poder, herdada dos regimes depostos, envolvia-o ainda e dava-lhe uma legitimidade simbólica que completava a legitimidade dos votos. A partir de certa altura, com o crescimento dos órgãos de comunicação de massas, em especial da televisão, a visão do homem político pelos cidadãos muda. As pessoas começam a perceber que ele é um homem como qualquer outro e não um representante da divindade.

Com o advento das redes sociais, a dessacralização do político torna-se total. Escrutinado impiedosamente dia e noite por voyeurs ávidos, caluniado por adversários sob a cobertura do anonimato, o homem político emerge aos olhos das pessoas em toda a sua venalidade. A máscara da velha gravitas do poder cai. Vaidoso, arrogante, mentiroso, pleno de caprichos, muitas vezes corrupto, é isto que o homem comum vê nos políticos, agora que o véu sagrado que cobria o poder foi queimado na praça pública.


Perante o desencantamento, o eleitor parece ter um plano de vingança. Se aqueles que têm governado, apesar da gravidade e ar respeitável que ostentam, são pessoas comuns e venais, então que se escolham aqueles que não disfarçam. Os eleitores passaram a eleger autênticos clowns, gente claramente não confiável e, muitas vezes, risível. Através de escolhas caricatas, o eleitorado – irado e irónico – parece apostado, agora que lhe roubaram a ilusão de um poder sagrado, em transformar as democracias em reinos da caricatura.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O desafio

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Tenho estado a ler The Benedict Option: A Strategy for Christians in a post-Christian Nation, um livro do conservador Rod Dreher. O autor, um cristão ortodoxo americano, defende que os Estados Unidos são já uma sociedade pós-cristã. O livro apresenta uma proposta de resistência dos cristãos ao modo de vida actual. Uma parte dessa estratégia passa pela educação das novas gerações. Dreher defende que as famílias cristãs devem evitar educar os filhos nas escolas públicas. Caso não tenham dinheiro para uma escola de orientação religiosa, a opção é fazer a escolaridade em casa, para as novas gerações não serem contaminadas pela cultura existente na sociedade pós-cristã.

Deixando de lado a visão apocalíptica do autor, há um problema crucial que se coloca relativamente à educação das novas gerações. E esse problema toca a cristãos, agnósticos e ateus. Como fazer passar os valores familiares para os filhos? A questão surge pelo peso desmesurado que os grupos de amigos, que se constituem, por norma, na escola, têm na formação dos jovens. Esses grupos inscrevem-se numa cultura que rompe, de forma radical, com os valores da família, cultura essa que é um produto híbrido entre a imaturidade das novas gerações e a manipulação a que elas são sujeitas por adultos obscuros, mas poderosos, escondidos atrás dos produtos de consumo, dos grandes meios de comunicação de massas e das redes sociais. As chamadas culturas juvenis fomentam, no mundo ocidental, a afirmação do jovem não pela emulação de um modelo parental mas pela revolta sistemática contra ele.

O resultado de tudo isto é aquilo a que o sociólogo polaco Zygmunt Bauman chama modernidade líquida. Nada no mundo contemporâneo é sólido. Não o são as instituições e ainda menos o é a cultura. As culturas ditas juvenis são uma das principais armas de liquefacção do mundo e introduzem rupturas, quase sempre dolorosas, entre gerações. O diagnóstico de Rod Dreher não é despropositado, pois o problema é real, tanto nos EUA como na Europa. A rasura dos valores das gerações anteriores é um problema não apenas porque afecta a transmissão de uma identidade colectiva, mas porque desarma os jovens perante as ciladas do mundo. Ao contrário do que propõe Dreher com o seu anátema da escola pública, precisamos de uma estratégia em que famílias e escolas (públicas e privadas) encontrem meios que ajudem as novas gerações a enfrentar o mundo e a preservar as tradições morais e culturais, de âmbito religioso ou não, que lhes darão uma identidade sólida mas adaptável a um mundo em dissolução contínua. É este o desafio.

sábado, 7 de abril de 2018

Alma Pátria - 43: Manuel Freire - Pedra Filosofal



Da realidade do sonho. Pedra Filosofal é uma das canções emblemáticas do fim do salazarismo e do início da chamada primavera marcelista. Na verdade, é, se se estiver atento e não embotado pela saudade ou enviesado pela ideologia, a confissão de uma impotência ou, melhor, de um desejo a que falta potência. A realidade, essa meretriz que se vende a quem tem o poder, era pouco dada ao devaneio onírico. Restava tomar o sonho por realidade, a boa e desejável realidade que “eles” não conhecem. Este “eles”, na sua imprecisão referencial, é sintomático de um tempo de censura, mas também de uma incapacidade de inscrição do desejo na realidade, para falar à maneira de José Gil. Eles não sabem nem sonham / Que o sonho comanda a vida. O pior de tudo no devaneio onírico é que o sonho de uns é o pesadelo de outros. Uma bela balada.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Transparência e terror

Raoul Hausmann, Corbeilles de lumière, 1931

A caminho da completa transparência. "Pensamentos" transformados em palavras através de um dispositivo com inteligência artificial. Esta notícia deveria alarmar-nos, mas não alarma. Pelo contrário, é observada com boa disposição. No entanto, transformar o nosso diálogo interno em sons é abrir as portas para o inferno. O inferno é a transparência absoluta. Até hoje, a vida interior estava resguardada pelo silêncio. Há coisas que pensamos e que não queremos que ninguém saiba. Há coisas em nós que nós próprios não sabemos e não queremos saber. Fazem parte do fundo sombrio que todos os seres humanos trazem em si e que, por norma, aprendem a domar ou a recalcar. A vida de cada um de nós é, e deve ser, translúcida. Nem completamente opaca, nem completamente transparente. Esta descoberta inscreve-se no caminho para a total transparência. A transparência total é a destruição da privacidade e, em última análise, a destruição da pessoa, com a possibilidade da sua total exposição pública. Não se trata já de se saber tudo o que fazemos e tudo o que dizemos, mas também de tudo o que pensamos e, mais grave ainda, aquilo que se pensa em nós, apesar da censura que lhe fazemos. Estamos alegremente a criar os dispositivos para um terror absoluto.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Ensaio sobre a luz (33)

Deborah Turbeville, Anh Duong and Marie-Sophie in Emanuel Ungaro, VOGUE, Chateau Raray, France, 1984

A luz que se esconde no negro da nostalgia abre-se radiosa sobre a pele e, pura, traça um caminho de esperança no corpo em expectativa.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

No Limiar da Porta 4. Um rumor rasga

Claude Monet, The Bodmer Oak, Fontainebleau Forest, 1865

4. Um rumor rasga

Um rumor rasga
os trilhos da aurora.

Morros e medronhos.
Casas de cinza.

A armada da manhã
no bulício do bosque.