quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Os burros e os cavalos

Chaim Soutine - The Donkey (1934)

Nem tudo o que nos ajuda a descarregar a bílis permite que pensemos mais fundo e compreendamos melhor. Um bom exemplo disso é o artigo de um dos nossos mais conceituados físicos teóricos, Carlos Fiolhais, sobre a situação política internacional. Parte da expressão latina "Asinus in tegulis" (um burro no telhado), que foi buscar ao Satyricon de Petrónio. Interpreta, a partir desta expressão, a ascensão de Trump à presidência dos EUA e o crescimento, na Europa, dos movimentos políticos em ruptura com as nossas crenças políticas correntes, aquilo a que, por comodidade de comunicação, se pode chamar populismos.

Eu percebo a necessidade de segregar o fel para ajudar a digerir a evolução da situação. Contudo, se o pensar a política com o coração é um passo decisivo para falhar completamente a compreensão do fenómeno, pensá-la com o fígado é, apesar de se fazer a digestão com mais tranquilidade, caminho certo para a desgraça. Imaginemos, então, que os asnos estão a tomar conta das nossas democracias, ainda por cima através de métodos democráticos. Chamar-lhes asnos não me parece que sirva para alguma coisa. Em vez da imprecação ou do ataque pessoal valerá mais colocar uma questão simples e que talvez dê que pensar. A questão, para nos mantermos ainda no âmbito da metáfora equídea, é a seguinte: por que razão partes substanciais dos eleitorados americano e europeu preferem burros a cavalos de corrida?

A própria metáfora talvez nos dê uma pista. Os cavalos, mesmo que não sejam de corrida, andam muito mais depressa que os burros, e a velocidade do galope está a assustar muitos milhões de pessoas. Em vez de culpar os burros, será melhor perguntar às pessoas o que as  assusta no passo dos cavalos. Perguntar - se a pergunta não for de retórica - implica disponibilidade para escutar o que as pessoas têm a dizer sobre o passo, o trote e o galope dos nossos super cavalos. O problema está todo aqui. Os burros, porque são lentos, têm tido tempo de escutar o bruaá lamentoso das multidões. Os cavalos, entregues ao desvario do galope, nem dão pela multidão. E esta, cansada de algumas cavalgaduras, entrega-se nas mãos dos burros. Estes agradecem à fulgurante inteligência dos rocinantes.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Alma Pátria - 7: Dr. José Afonso - Amor de Estudante




Balada do Outono, tanto quanto julgo saber, é o primeiro disco gravado por José Afonso. Um EP de 1960. Neste momento inaugural, José Afonso ainda não representa qualquer corte com o meio musical português. O Fado de Coimbra era um dos esteios culturais de um certo nacionalismo que suportava a ditadura do professor Salazar, também ele um estudante e um lente de Coimbra. Existiam vários programas radiofónicos dedicados ao fado e às guitarradas de Coimbra. Um desses programas era à hora de almoço. Lembro-me muito bem de vir na circulação (assim se chamava o autocarro, ou a carreira, que fazia, em Torres Novas, a ligação entre o Colégio Andrade Corvo e a garagem dos Claras ou o Grémio da Lavoura) e escutar no rádio o programa dedicado aos fados de Coimbra. Aqui fica um José Afonso ainda dr. e não revolucionário.

Nota: Graças a uma informação de um leitor - João Jales - descobri que Balada de Outono não é o primeiro disco gravado por José Afonso. A primeira gravação é de 1953, ainda um disco de 78 rpm, que inclui os temas Contos Velhinhos e Incerteza. O meu muito obrigado.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Descrições fenomenológicas 12. A rua

Lucio Muñoz - 27-85 (1985)

A rua era íngreme, a estrada empedrada, ladeada por passeios de terra batida. Ouvia-se o som dos cascos de um cavalo a bater na pedra. O cavaleiro endireitava-se, sem esforço, na sela e conduzia o animal com bonomia. Vestia um fato de montar que a escassa luz da iluminação pública mostrava como se fosse preto. Subia em direcção a uma curva apertada, que, depois de outra tão apertada mas de sentido contrário, levaria ao adro da igreja. A porta lateral desta, guarnecida por um pórtico triangular de granito, estava aberta, deixando coar uma luz amarelada vinda do interior. De ambos os lados, candeeiros de vidro lançavam sobre a noite um clarão breve e hesitante. Um padre de batina e barrete subia a rua, impulsionado pelo arquejo do coração. Às vezes, parava, parecia concentrar-se e reunir todas as forças para continuar. Tossia e murmurava, mas não se distinguia se era uma ladainha ou uma imprecação. Três mulheres, por volta dos quarenta anos, vestidas de negro, iam mais à frente. Conversavam em surdina, como se estivessem já dentro da igreja. Esta era antecedida pela casa paroquial, de janelas gradeadas no rés-do-chão e uma porta estreita por onde entrou o sacerdote. O luar débil era recortado pelo campanário. Dois sinos suspendiam-se ali. Quando o cavaleiro desapareceu na última curva, ouviu-se o bater das dez horas. As mulheres pararam, entreolharam-se. Pareciam hesitar, à última badalada, entraram na igreja. A rua estava agora deserta, tomada de assalto por um vento frio e um cheiro a pedra húmida, que dobravam o coração e o inundavam de uma estranha angústia nascida da súbita solidão. Acabara de chegar à terra distante do passado.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Jorge de Sena

Victor Couto - Jorge de Sena

A minha crónica no Jornal Torrejano.

A vocação literária, talvez toda e qualquer vocação, possui sempre uma dimensão misteriosa, a qual está muito para além das aparências quotidianas. Jorge de Sena não foge a esta regra. É um dos intelectuais portugueses mais importantes do século XX, um dos escritores mais polifacetados e interessantes dessa época. O curioso é que se tornou escritor apesar da sua formação estar muito longe daquela que nos leva a pensar que a escrita é o caminho natural a seguir durante uma vida. Sena começa por ser um candidato frustrado a oficial da Marinha, tendo frequentado com insucesso a Escola Naval. Acabou por se licenciar em engenharia civil, que chegou a exercer.

A obra literária de Sena é ampla e complexa. Possui uma sólida obra poética, mas também escreveu ficção, drama e ensaio, sendo este centrado na literatura e, em especial, na poesia. O que é notável em Sena é a qualidade geral da sua obra, a capacidade de rasgar caminhos com uma clara marca pessoal nas diversas áreas que o interessaram. Uma obra vasta e complexa para alguém que morreu, em 1978, ainda antes de completar os 59 anos. Uma obra onde perpassam, também, as vicissitudes da vida em Portugal, tanto na época do salazarismo como na dos primeiros tempos da democracia portuguesa. Na verdade, Sena exilou-se em 1959, primeiro no Brasil e depois nos EUA, e nunca voltou a viver em Portugal, com cuja sociedade manteve uma tensa relação de amor-ódio.

O meu primeiro contacto com Jorge de Sena foi através da poesia. Foi um dos poetas que, juntamente com Eugénio de Andrade, mais li nos verdes anos. O que mais me marcou, porém, foi o seu romance Sinais de Fogo, uma obra inacabada e publicada postumamente em 1979. A acção desenrola-se entre Lisboa e a Figueira da Foz, tendo por pano de fundo a guerra civil de Espanha (1936-1939). É um extraordinário romance de formação, onde a transição para a idade adulta se tece sobre os efeitos de um dos conflitos mais negros do século XX. Apesar de inacabado, é, para mim, o romance português do século XX mais importante. Agora que caminhamos para o quadragésimo aniversário da morte de Sena, esperemos que isso não signifique a entrada na obscuridade de uma grande obra, nomeadamente na poesia e na ficção. Sena pertence por direito próprio ao cânone da nossa literatura.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Cinza de Pedra - 4. No silêncio do musgo

Christian Morgenstern - Árvores junto à água (1832)

4. No silêncio do musgo

No silêncio do musgo,
perfumes de água
e restolho de estrelas.

As aves de Setembro
declinam então
a cinza de tuas mãos.

(Cinza de pedra, 1978)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A espera

A minha crónica em A Barca.

Vivemos em tempo de interlúdio. O país – governado à esquerda ou à direita – não possui os mecanismos necessários para a resolução dos problemas que atravessam a economia portuguesa. Esses mecanismos foram hipotecados pela adesão ao Euro. Uma das soluções seria a saída da moeda única, mas essa é uma aventura cujas consequências são imprevisíveis. Na verdade, todas as forças políticas estão convictas de que fora do espartilho do Euro seria mais fácil pôr a economia a crescer, mas nenhuma está disposta a arriscar uma saída unilateral e a arcar com o ónus de um possível apocalipse social.

Para além da retórica política e dos floreados parlamentares, toda a gente está à espera. Espera que o Euro se reforme – uma possibilidade improvável tendo em conta a posição alemã – ou que, por um qualquer acidente político, acabe. Até lá tratam-se de questões de mercearia, que foi aquilo que o governo anterior fez, roubando no peso, e é aquilo que o actual está a fazer, sendo generoso com os fregueses. Esta situação de impasse não deixa, porém, de ser perigosa. Independentemente da orientação política do governo, o que ela nos mostra é a fragilidade de Portugal.

A Europa e o Euro foram a saída encontrada por um país periférico e de escassos recursos. Agora descobrimos que estamos presos e que pela frente só parece haver duas possibilidades: ou esta dependência passiva sem fim à vista do Euro, que nos torna impotentes, ou esperar a implosão do projecto europeu, o que nos libertaria das grilhetas da moeda única, mas que nos confrontaria com o desconhecido. Na verdade, Portugal não está preparado nem para continuar no Euro nem para enfrentar a implosão do Euro e da própria Europa. Portugal espera. Espera porque não sabe o que fazer. E esta é a pior das atitudes que um país pode ter.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Aplaudir ou não aplaudir


Deveria o Bloco de Esquerda levantar-se e aplaudir o discurso do Rei de Espanha? Aqui estou de acordo com o ministro Santos Silva: Era o que faltava estarmos todos obrigados a aplaudir. Portanto, toda a retórica condenatória do BE é, no mínimo, exagerada, mas compreensível no âmbito da luta político-partidária. Sendo em absoluto legítima, a decisão do BE parece-me, no entanto, absurda. Absurda porque funciona contra o próprio BE.  Porquê? Em primeiro lugar, porque é uma atitude que é compreendida apenas pelo núcleo de eleitores mais fiéis do BE, mas não é entendida pelos eleitores potenciais. Estes eleitores potenciais, sem uma identidade política clara, têm tendência a não gostar de atitudes que lhes pareçam falta de educação e de cortesia (coisa que nunca se deve confundir, em política, com subserviência) e acabam por penalizá-las, sentindo que quem as comete não tem maturidade política suficiente para merecer o voto. Num regime de concorrência política, o reconhecimento pelos eleitores é essencial. Agir contra esse reconhecimento é irracional.

Em segundo lugar, e esta é a razão pela qual escrevo este post, é absurda do ponto de vista dos interesses mais gerais da esquerda e do próprio país. A pergunta que se deve colocar é a seguinte: uma atitude como a do BE – ou mesmo a do PCP, embora esta seja mais madura e sensata – ajuda a alargar ou a diminuir os aliados de Portugal perante o diktat de Bruxelas, das regras do Euro e da Alemanha? É claro que a atitude adoptada pelo BE, mais uma vez, vai contra os próprios desígnios da organização, já que, se fosse adoptada por todos os partidos portugueses, isolaria o país e eliminaria, num futuro mais ou menos próximo, aliados que serão preciosos perante forças que se podem tornar muito ameaçadoras para Portugal e para os portugueses, principalmente, para aqueles que fazem parte do universo eleitoral das esquerdas. Não me parece uma conduta racional afrontar possíveis aliados.

Perguntará o leitor: sendo o BE uma organização republicana, antimonárquica, aplaudir o discurso do Rei de Espanha, não seria uma quebra dos princípios? A resposta parece-me clara: não. A monarquia espanhola é um problema dos espanhóis. Por outro lado, desde Juan Carlos que ela tem sido um garante das instituições democráticas, e Filipe VI, até hoje, não evidenciou qualquer tique autoritário. A pureza principial e ideológica não seria manchada no que quer que fosse. O aplauso dos republicanos portugueses ao monarca castelhano é um gesto político de respeito institucional e de alargamento dos potenciais aliados. Em todos os actos políticos há que saber hierarquizar os objectivos, coisa que, para os lados do BE, nem sempre é muito clara. E digo isto apesar de ter um grande prazer pelo facto de Portugal ter o 1.º de Dezembro e o 5 de Outubro como datas políticas essenciais para comemorar.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Persistência e superação


Juan Botas - School (1989)

Os bons resultados de Matemática dos alunos portugueses do 4º ano, no TIMSS (um estudo internacional comparativo sobre o desempenho escolar em Matemática e Ciências) de 2015, acabam por sufragar as políticas educativas na área da Matemática que, desde a primeira participação portuguesa nesses estudos, em 1995, têm sido desenvolvidas. Antes de falar delas, chama-se a atenção para o facto de Portugal ter, em 2015, atingido a 13.ª posição e ultrapassado mesmo a Finlândia, um país de referência na Europa, no sector da educação. Note-se no entanto que Portugal, como a generalidade dos países ocidentais, estão ainda longe dos desempenhos dos países asiáticos. Note-se, por outro lado, que este aumento do desempenho da Matemático foi acompanhado por uma queda no domínio das Ciências.

Há agora uma grande disputa sobre os méritos políticos deste desempenho. Mais importante do que essa disputa entre PS e PSD é salientar três aspectos centrais que me parecem decisivos para esta contínua melhoria dos resultados. Em primeiro lugar, o aumento da carga horária dedicada à Matemática, que permitiu mais tempo de contacto dos alunos com uma linguagem abstracta e muito desligada das preocupações do quotidiano. Em segundo lugar, o Plano Nacional da Matemática, que generalizou novas práticas de ensino da disciplina e permitiu fortalecer o corpo docente. Por fim, os efémeros exames nacionais do 1.º ciclo, que criaram, em muitas escolas, um efectivo espírito de colaboração entre professores, alunos e pais com vista a assegurar um bom desempenho dos alunos, através de aprendizagens consistentes, na avaliação externa.

É lamentável que os exames nacionais no 1.º e 2.º ciclos de escolaridade, em vez de terem sido alargados a outras disciplinas, tenham sido, por este governo, eliminados. Eram um factor de mobilização importante, embora outros factores, como a formação de professores sejam tão ou mais decisivos que os exames. Seja como for, o país poderia aprender um pouco com este sucesso – esperemos que não seja um mero relâmpago – da Matemática no 1.º ciclo. Aprender o quê? Em primeiro lugar, que as transformações exigem tempo. Do miserável penúltimo lugar no TIMSS de 1995 ao actual 13.º demoraram 20 anos. Para haver frutos é necessário tempo e persistência. Em segundo lugar, que é preciso exigir e avaliar resultados. Sem essa pressão, os actores não sentem a obrigação de se superar. Persistência no tempo e um ideal de superação. É isso que o país precisa.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Livro do Êxodo - 35. Mãos de ardósia

August Macke - Despedida (1914)

Teciam com mãos de ardósia capas de linho e enfeitavam de pedra as ruas, agora avenidas rasgadas na terra dorida e dolorosa, e se ali passavam  viajantes, apressados na sua viagem e desdenhosos de quem fica, elas volviam os olhos para o chão, erguiam os dedos ao alto, assim o diziam, e sussurravam, emboscadas, à espera que os estranhos passassem, sustendo o vento com os braços, os olhos cobertos com folhas de jornal, capas de revista, anúncios em papel brilhante. Se chovia, instável era o tempo, corriam para debaixo das arcadas, se o sol vinha, as pobres raparigas retiravam o véu, a cabeça destapada e o rosto descoberto eram uma luz brilhante na tarde, enfeitada de malmequeres e rosas silenciosas, ornada de promessas, as vagas promessas que ninguém cumprirá.

Delicada azáfama a de abrir, com mãos de ardósia, corações e ver o pulsar do sangue, rubras paredes contaminadas pela ira, rasgadas na cal que as tapava, vestidos leves onde as pernas brancas se escondiam, para se abrirem ao desejo que de não vê-las tomava forma, crescia, rebentava diques, desaguando em gritos, enquanto os carros passavam, a lançar chistes de dióxido e urros luminosos, a desabar nos semáforos, a tarde regulavam. Árduo o trabalho do amor, a cirurgia que desvela o que se oculta nas paredes do corpo, na fímbria onde pés incautos deixam pegadas rutilantes que anunciam desejos, que proclamam um querer irrevogável, o tempo o revogará.

As cortinas do pátio, e suas colunas, e suas bases, e a coberta da porta do pátio, a tudo isso desprezastes quando a mão, a pálida mão que era a minha, caiu para a vossa e levantastes voo, erguendo-vos aos céus, as saias prendiam com as mãos exíguas, não fora eu espreitar-vos pernas acima, e compor um soneto de versos exíguos, ritmo cambado, sem métrica nem rima, que de mim vos fizesse gostar, como as crianças gostam de rebuçados, ou os velhos, gengivas gastas e dentes caídos, de amoras. Para quê desenhar catedrais, jardins, rudes avenidas por onde o vento desliza, tocar-vos os seios, apertar-vos a garganta com o pólen do sentimento? Para quê lançar o bisturi sobre a artéria do amor e ver um rio de sangue tresmalhado entre pernas? Para quê tecer com mãos de ardósia capas de linho?

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Cinza de Pedra - 3. Uma labareda lavra

Felix Vallotton - Sem título (1917)

3. Uma labareda lavra

Uma labareda lavra
a planície da solidão.

Dunas de caruma
à porta de casa.

Uma canção de ervas,
uma ferida matinal,
a fria flecha do fogo.

(Cinza de pedra, 1978)

domingo, 27 de novembro de 2016

Alma Pátria - 6: João Ferreira-Rosa - Fado dos Saltimbancos




Este é um post quase falhado. Não sei qual a data do Fado dos Saltimbancos, nem encontrei a capa do disco onde, pela primeira vez, João Ferreira-Rosa o grava. Fica, porém, uma imagem de um Portugal praticamente morto. Um Portugal monárquico, tradicionalista e amante de toiros a que a excelente voz de João Ferreira-Rosa dava uma aura que já fenecera. A Revolução do 25 de Abril e a entrada para a CEE liquidaram-no, mas as pessoas da minha geração ainda o conheceram muito bem. Ah, não se pense que sou inimigo de touradas. Não sou, embora não seja um aficionado e esteja convicto que têm os dias contados. Não é impunemente que se nasce no Ribatejo, perto da Golegã e da Chamusca, de toda a linha do Tejo onde a tradição taurina era bem forte. Seja como for, esta é uma parte da alma pátria em transformação acelerada. Continua, porém, a haver saltimbancos, aqueles rapazes, moços forcados, que, gratuitamente, teimam em pegar um touro de caras. E pegar um touro de caras, seja que tipo de touro for, real ou metafórico, não é para toda a gente.

sábado, 26 de novembro de 2016

António Costa, um moderador


Passado um ano de governo de António Costa já é possível perceber, para além das paixões de seita, o quão acertada foi a sua decisão de não suportar um governo minoritário de direita. Quando o actual primeiro-ministro decide romper com a tradição e aliar-se à esquerda, a direita anunciou que vinha aí uma radicalização do país e vociferou que ele apenas fazia isso para salvar a sua pele de uma derrota clara. É verdade que, sem o poder, António Costa tinha a carreira política por um fio. Porém, isso é apenas uma parte da verdade e uma parte bem limitada.

A decisão de António Costa foi também a salvação do Partido Socialista. Tivesse vencido a perspectiva de Francisco Assis e hoje o PS estaria a caminho da liquidação, como aconteceu com o PASOK grego ou, em menor escala, com o PSOE espanhol. Um governo de direita assente na cumplicidade dos socialistas iria atirar uma parte importante do eleitorado tradicional do PS para os braços do Bloco de Esquerda e, embora bastante menos, do PCP. A decisão de António Costa não salvou apenas a sua carreira política. Salvou também o PS como grande partido da democracia portuguesa.

Uma terceira consequência, a mais importante, liga-se ao todo nacional. Um governo de direita, fundado na cumplicidade dos socialistas, continuaria a abrir clivagens no todo nacional, radicalizando ainda mais a sociedade portuguesa. O que aconteceu é que a actual governação mostrou uma coisa que, para quem observa desapaixonadamente a vida política, parecia clara: a esquerda portuguesa, mesmo aquela que está à esquerda do PS, é bastante moderada. Depois de uma governação de direita apostada claramente na radicalidade político-económica, na  polarização social e na luta de classes, António Costa conseguiu um governo fundado na moderação e na busca da conciliação interclassista. António Costa é um moderador e isso, num tempo ansioso de radicalizações, não é pouco.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Descrições fenomenológicas 11. O relógio

Pablo Palazuelo - Orto V

A luz da manhã entrava pela janela e desenhava uma fronteira entre o que logo era visível e uma zona sombria que obrigava o olhar a uma longa habituação. Nessa obscuridade pressentiam-se presenças, talvez de objectos, mas isso gerava no espectador um sentimento de incongruência, pois a primeira sensação que se tinha era a de vazio. Onde a luz incidia com mais furor, no centro da divisão, talvez um quarto, havia, no chão, uma gigantesca almofada vermelha, rectangular, do tamanho de uma cama de casal, guarnecida, nos topos, com faixas de pequenas cordões dourados que mal tocavam o soalho. Num dos cantos da almofada, o que mais próximo estava da janela, havia um enorme prato, daqueles que servem para reter a água que se desprende de algum vaso com plantas ornamentais, talvez uma aspidistra, tão em uso nessa época. Estava pejado de pontas de cigarros, papéis rasgados, chamuscados aqui e ali, uma velha esferográfica de plástico transparente, sem carga e sem préstimo, aparas de unhas e, incompreensivelmente, um relógio, misturado com a cinza. Sobre essa almofada gigante, que alguém desatento poderia confundir com um tapete, havia uma outra, minúscula, cor de pérola. Sustentava a cabeça de um homem moreno, de cabelo negro, com um bigode regular sob um nariz pequeno, dirigido para cima, quase feminino. As pernas, vestidas por calças de ganga, presas por um cinto castanho de cabedal, e os pés, com botas de carneira, estendiam-se sobre a almofada gigantesca. O tronco estava despido. Um relógio de mostrador negro, idêntico ao que jazia entre cinzas e pontas de cigarros, ornamentava o pulso do braço direito, que, como o esquerdo, se estendia inerte pelo chão. A luz da manhã, uma luz fria, mas intensa, desenhava um auréola naquele corpo. Do canto esquerdo da boca, corria um fio de sangue, encontrava o caminho entre a barba por fazer há vários dias, escorregava, deixando um mancha viscosa de encarnado no pérola da almofada, e fundia-se no mar vermelho do que era, naquele instante, um leito de morte. Uma porta aberta deixava pressentir uma ausência ou a sombra de uma solidão. Olhava-se para o homem, mas, de imediato, o olhar fugia, talvez assustado pela morte, saltitava pelas paredes vazias, vagueava entre a luz da janela e a obscuridade que se adivinhava para além da porta do quarto, para se prender, como que enfeitiçado, no relógio perdido no cinzeiro improvisado. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Da democracia como terapêutica

Julio Gómez Biedma - Democracia. Siempre hay un ojo que lo ve

Agora que muito se fala no espectro de uma recessão democrática, não será inútil olhar para as virtudes do regime democrático. São múltiplos os aspectos que recomendam a democracia em detrimento de qualquer outra forma de governo. Há uma faceta que, por norma, não é notada, mas que é das mais importantes, senão mesmo a mais importante. Trata-se do carácter terapêutico da democracia. Quando se fala em terapia supõe-se, e não sem razão, a existência de  patologias. A questão que se coloca então é a de saber que patologias são tratadas pela ordem democrática.

Basta dar uma vista de olhos pelo discurso político e pela opinião pública que se movimenta em torno do fenómeno da política para compreender a natureza da patologia. Mesmo nos actores e comentadores mais sensatos, a posição política que defendem tende a ser apresentada como uma verdade. Verdade essa que lhes parece tão óbvia que se espantam pelos outros não a compreenderem. O que significa isto? Significa que política traz nela uma inclinação que dobra os homens para o delírio da verdade absoluta.

O carácter terapêutico da democracia não incide na cura dos doentes que sofrem dessa patologia delirante. A terapia limita-lhes a acção e ensina-lhes algumas boas maneiras. Obriga-os a disfarçar a loucura que arde dentro deles. Como o faz? Pelo confronto dos múltiplos delírios e das múltiplas loucuras. Na democracia, os agentes infectados vigiam-se entre si. A loucura e o delírio continua a arder em cada um, mas a exibição das diversas patologias, pressuposta pela democracia, acaba por criar uma clareira onde uma vida saudável é possível. E isto não é pouco.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Livro do Êxodo - 34. A cidade perdida

Nadir Afonso - Teerão

Expulsos fomos dos lugares, os mais veneráveis. A porta fechou-se, o bosque, sagrado bosque diriam, ardeu e nas labaredas voaram os pássaros de Apolo, os corvos brancos da cidade. Os milhafres há muito haviam partido para os campos devastados da melancolia, para as fontes imersas na bruma da tarde. Ao longe, tão ao longe, ainda soam harpejos, o som das escavadoras, o canto das gaivotas, no infindável anil do mar, o marulhar das águas nos esgotos pútridos das avenidas. Nelas, as tão solitárias avenidas, a vida mingua e desparece, perdida não se sabe onde, levada não se sabe por quem.

A cidade já não é uma cidade de comércio aberto para as ruas, gente que a correr, as mulheres de sombrinha, homens escondidos a espreitar e raparigas sedentas, os olhos a luzir e a boca a salivar. Sobe-se e desce-se, conquista-se colina a colina, em combate corporal, a espada erguida, a mão pelo corpo, um braço decepado, a perna partida. Se a boca para um seio vai, logo sangram as espáduas ao som dos fuzis, no estrondo das bombas que de longe caem. Enumero: alumínios, vidro acrílico, betão armado, verga de ferro, o néon, e ainda o plástico e a madeira e o mármore. Tudo se confunde, no incêndio da noite, bombeiros de carros cariados, água seca ao entrar no mar, uma árvore derrubada entre bolas de naftalina e um coro de gatos enfrenta a multidão na rasura da avenida.

Um dia, a tarde caíra, ela veio e sentou-se. A saia subiu pernas acima. Olhou ao longe, o mar a entontecia, e tomou duas tábuas de pedra em sua mão e desenhou bosques e pássaros e flores e figuras de homens e de mulheres. Dizia: estes são deuses e deusas, imortais são e se a sua voz não escutamos não é que tenham emudecido. Prendemos os ouvidos na pressa mecânica dos dias e só escutamos o rumor dos cilindros nas ruas, o bater pneumático do martelo, o ronco com que os automóveis, na pressa que levam, adormecem. A pedra, no labor daquela mão, ganhou vida. Primeiro respirava, logo adormecia e se ela a acordava um riso no silêncio medrava.

Assim, acabou a tarde e veio a noite e tudo era agora banhado por um rio. Cidade inquieta na água do rio, cidade de margens de pedra abertas ao labor dos olhos. A mão, pois do braço pendia, trabalhava, umas vezes cortava, outras esculpia, mas enquanto ela respirava e os seios se descobriam, tudo se iluminava. Quando a aurora chegou e anunciou o dia, o incêndio começou. A porta fechou-se e eu, preso pela mão, olhei: os pássaros de Apolo partiam e, por eles protegidos contra os ventos, vi dois corvos brancos. Não grasnavam, não sorriam, apenas voavam. No incendiado silêncio do coração, caiu uma noite de pedra e gaivotas azuis a voar rente ao chão. A cidade é agora uma saudade, a leve melancolia de um domingo à tarde, o sonho nunca sonhado do meio-dia.