terça-feira, 25 de julho de 2017

A Flor Precária 13. Naus ardem no mar do esquecimento

Emil Otto Hoppé - Ms. Ann Hayes, England, 1934

13. Naus ardem no mar do esquecimento

Naus ardem no mar do esquecimento,
lemes e velas abrem-se em fogo
e crepitam no palácio da memória,
na combustão das acácias da noite,
na flor precária, branca e bravia,
suspensa no gesto da tua mão.

(A Flor Precária, 1979)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A conversão

Marc Chagall - A Revolução (1937)

Há uma interessante entrevista de Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego e líder do Syriza, ao Guardian. O Público fez um breve resumo. O que me interessa são duas interrogações que, retoricamente, Tsipras faz: «Sair da Europa e ir para onde? Para outra galáxia?» Certamente que Tsipras não se está a referir ao continente europeu, mas à Europa política, à União Europeia. A chegada ao poder do Syriza na Grécia foi, na verdade, um momento inaugural. O que se inaugurou, porém, não foi uma alternativa à UE, nem o novo caminho para a revolução, mas a conversão da esquerda dita radical à realidade. Ainda houve um momento de hesitação, mas a intuição política de Tsipras percebeu que não havia nenhuma alternativa credível e sair do Euro e da União seria muito, muito mais gravoso para os gregos do que ficar. Despediu Varoufakis - um académico brilhante não tem de ser um político brilhante ou sequer suficiente - e deixou a realidade entrar no seu governo. Tsipras percebeu, ao chegar ao poder, os limites da ideologia. Não quis, para bem dos gregos, tornar a Grécia numa Venezuela europeia. Isto não significa que não haja alternativas no quadro político em que vivemos. Significa que, nas actuais circunstâncias (e a política implica sempre lidar com as circunstâncias em que se vive) as alternativas só existem num quadro geral partilhado por diversas opções políticas e dentro da União Europeia. Tsipras tem toda a razão. Quando se advogar que se deve sair do Euro e da União, a única resposta é: Para onde? Para outra galáxia?

domingo, 23 de julho de 2017

Descrições fenomenológicas 26. O lago

Joan Hernández Pijoan - Acotació 0-81-162-243 (1974)

O pontão entra uma dúzia de metros lago adentro. Assenta em pilares de cimento que, depois de rasgar a água dócil e transparente, penetram vigorosos na terra. Na parte final, de cada um dos lados, erguem-se três colunas de madeira, nas quais estão presas bóias de salvamento. Chove sobre o silêncio, uma chuva fina, caída de nuvens baixas, tão baixas que, sobre elas, se olhado de longe, se avista o cume dos montes, de dimensões insignificantes, que ladeiam as margens opostas. No sopé de um deles, uma aldeia parece adormecida, talvez embalada pelo ronronar do chuvisco, amarrada à brancura das paredes, impotente para se libertar do encantamento que sobre ela cai. Também o lago, apesar da chuva e da névoa, está contaminado pela imobilidade. As próprias árvores das margens não bolem, hirtas como sentinelas no posto de guarda. De súbito, um ruído longínquo. De um pequeno cais da aldeia, um barco com motor fora de borda é posto a trabalhar, para de seguida começar a deslizar, com lentidão, deixando uma pequena esteira que logo é tragada pelo desejo de imobilidade das águas. Avança muito devagar até meio do lago e depois flecte para esquerda, desenhando uma curva larga, e dirige-se para o pontão. Quando se aproxima, o motor é desligado, e a embarcação resvala na água, perdendo a pouca velocidade que trazia, até parar junto a um dos postes. Um homem, de gabardina, amarra o barco, depois sobe, com um salto vigoroso, para o pontão e estende a mão à mulher que o acompanha. Esta aceita a mão e sai, sem esforço, quase graciosa, do barco. Olham-se silenciosos, tornam a dar a mão um ao outro e viram-se para terra. Os seus passos no chão de metal ressoam na imobilidade do dia. Depois, ao chegarem a terra, o silêncio retorna triunfante. Eles voltam a olhar-se, sem pressa e sem desprender as mãos, ensaiam novos passos, chegam às primeiras árvores, ainda hirtas, e perdem-se na floresta.

sábado, 22 de julho de 2017

O velho Trabant

Thomas Hoepker - Damaged Trabant car and boy carting coal. Dresden, Saxony, RDA, 1990

Esta fotografia de 1990, o ano seguinte à queda do Muro de Berlim, é o sinal cruel da derrota do chamado socialismo real. Na verdade, as experiências socialistas iniciadas em 1917 - há um século atrás, portanto - falharam por todo o lado. Não conseguiram, enquanto vigoraram, fornecer aos cidadãos dos respectivos países dois bens essenciais segundo o credo do progresso que alimentou as crenças tanto de liberais como de marxistas. Nem a liberdade nem a prosperidade. Relativamente à liberdade, o sinal foi dado de imediato por Lenine em 1918, com a dissolução da Assembleia Constituinte democraticamente eleita e a imposição de uma ditadura, a qual se tornou o arquétipo para as outras experiências da gloriosa marcha em direcção ao homem novo e à sociedade comunista. Do ponto de vista da prosperidade, a economia planificada e estatizada foi completamente incapaz de concorrer com a economia de mercado ocidental assente na iniciativa privada e na liberdade de investimento, embora escorada, muitas vezes, num Estado social forte. O sonho de várias gerações de revolucionários adeptos do novo mundo, por muito que o neguem, acabou resumido a um velho Trabant, sem rodas, que ninguém quer ou sequer lamenta.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Vergílio Ferreira

Meena Rawi - Vergílio Ferreira

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Vergílio Ferreira é uma figura simbólica do quadro cultural de nosso país. Simbólica dos limites que a ditadura do professor Salazar fazia cair sobre Portugal, impondo-lhe uma grande distância cultural relativamente ao que se passava na Europa e nos Estados Unidos. Como é que Vergílio Ferreira surge como símbolo, um dos símbolos maiores, desse nosso desencontro com o tempo histórico? São as suas oposições, os seus conflitos intelectuais, que tornam isso patente. Esses conflitos são, em primeiro lugar, com o neo-realismo e, posteriormente, com o estruturalismo.

Se se atentar à biografia do escritor, ela parece, por si mesma, uma história neo-realista. A pobreza original, a ida para o seminário, a ruptura com a igreja, o curso universitário em Coimbra e, depois, o professorado no ensino liceal. E é como neo-realista que começa a sua carreira de escritor em 1939. A ruptura com o neo-realismo foi terrível e conduziu a que fosse sistematicamente ostracizado, como escritor, por uma parte da intelligentsia portuguesa afecta ao Partido Comunista, a qual tinha durante os anos sessenta, setenta e ainda em parte dos oitenta um grande poder em Portugal. Essa ruptura é feita em nome de opções estéticas e filosóficas marcadas pela influência do existencialismo filosófico e literário importado da Alemanha e de França. Na verdade, e esse era o problema cultural do país, foi a substituição de uma moda estética e cultural por outra, ambas sinais de uma dependência atávica do que vem de fora, por norma, com atraso e desligado dos contextos que animaram essas correntes.

A segunda grande polémica é com o estruturalismo, representado na figura de Eduardo Prado Coelho. O estruturalismo francês surgiu como reacção ao existencialismo e trouxe consigo a ideia da morte do homem e do autor. É contra ela que se ergue Vergílio Ferreira. O grande problema é que a Vergílio Ferreira faltava o traquejo académico, o domínio conceptual e, mais que tudo, a vivência dos grandes debates dos países democráticos. Eduardo Prado Coelho, com outra preparação teórica, era uma estrela em ascensão e tornou patente os limites do pensamento do escritor beirão. Dito isto, vale a pena voltar a ler Vergílio Ferreira? Para lá das polémicas reveladoras do nosso atraso cultural, ele é um dos principais escritores do século XX português, autor de Para Sempre, um dos grandes romances desse século. Quem nunca o leu pode começar com o popular Manhã Submersa e, depois, deitar-se à descoberta, tanto da obra romanesca como da diarística, ambas mais interessantes do que a sua obra ensaística.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A Flor Precária 12. Abre com a mão o portal do júbilo

Jeanloup Sieff - Queen, London, 1964

12. Abre com a mão o portal do júbilo

Abre com a mão o portal do júbilo,
o ritmo da palavra no pó do poema.
Sobre o peito, a cabeça inclinada,
um rio de sal no vendaval dos versos.

O cabelo de chuva escorre nos dedos,
água a arder na clareira da boca.
Fogos de Verão cantam-te nos lábios,
são larvas de luz na sombra do vento.

Dedilho a relva pura do teu corpo,
oiço o riso de lume na prosa da noite.
Uma serpente desliza em silêncio
e toca-te com o seu hálito de erva.

(A Flor Precária, 1979)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A arte

Berenice Abbott - Light through Prism, Cambridge, Massachusetts, 1958-61

Diferentemente do desvio angular da luz ao incidir num prisma, que pode ser calculado, o desvio sofrido pela luz ao incidir no homem não entra no reino da quantificação nem do cálculo. A relação do homem com a luz pertence ao domínio das coisas incertas. De tal maneira incertas que devemos evitar depositar alguma esperança no mero cálculo das probabilidades. Por isso, a humanidade inventou a arte. Para falar de si, da luz e das trevas.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Eternidade

Cecil Beaton - Three models dressed in Ladurée macaron colours, 1948

Há fotografias que nos devolvem de imediato a sensação de passado. O mundo que nelas vemos já se retirou. Outras, porém, têm uma dimensão metafísica. Mostram-nos a eternidade. Esta fotografia de Cecil Beaton seria um belo argumento para defender que, para lá do tempo, existe a eternidade. Não é que nela não se encontrem ostensivas marcas temporais. Encontram. Aliás, tudo o que nela vemos são marcas do tempo, objectos datados, pessoas que, provavelmente, já não estão entre nós. Contudo, olhamos e o que vemos - dado por um cuidado trabalho cenográfico - é algo que ultrapassa o tempo. Ali pousa, muito ao de leve, talvez como uma sombra, a eternidade. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Encenação da beleza

Rodney Smith - Two Women in Black, 1992

O que é a beleza? Esta é uma das perguntas a que se aplica a resposta dada, nas Confissões, por Santo Agostinho à questão o que é o tempo? "Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar, a quem me fizer a pergunta, já não sei." A beleza como o tempo parecem escapar ao regime da explicação. Dificilmente se deixam capturar por redes conceptuais e entrar no jogo da argumentação. Contudo, ao olharmos esta fotografia de Rodney Smith não podemos deixar de cair na tentação de falar sobre a beleza. 

Se me perguntassem qual o objecto desta fotografia, do que é que trata, eu diria de imediato que trata da beleza. É um ensaio sobre a beleza. Revela uma característica que não será condição suficiente para a explicar, mas que é, por certo, uma condição necessária. A beleza é encenação. Tudo aquilo que apreendemos como belo resulta de um trabalho, mais ou menos consciente, de cenografia. A beleza é assim o fruto de uma arte dramática. 

Somos então tentados a dizer que não há beleza sem a arte da dramatização e esta pressupõe o trabalho de um cenógrafo atento e cuidadoso. É isto que a fotografia nos mostra, ao ser ela própria o resultado da encenação da beleza. Qual é o corolário da conclusão a que se chegou? Não há uma beleza natural, se entendermos por natural a ideia de uma beleza espontânea, não dramatizada, não encenada. A beleza não é um dado ou um facto. É um processo, um tornar-se, um exercício de representação, em que a beleza para ser bela tem de ficcionalizar-se como tal.

domingo, 16 de julho de 2017

Versos e civilização

Santiago Rusiñol Prats - Alegoria da poesia (1895)

Meter equals verse, equals poetry, equals culture, equals civilization.
Charles O. Hartman, Free Verse, an Essay on Prosody, p. 6

A recepção hostil da poesia escrita em verso livre – isto é, em verso que não obedece às regras métricas de distribuição dos acentos tónicos e dos limites da dimensão do verso – levou a que muitos estudiosos da poesia considerassem a emergência do verso livre, em finais do século XIX e inícios do XX, não apenas uma aberração poética como, em última análise, um ataque à civilização. É isso que Charles O. Hartman sintetiza de forma irónica na frase citada em epígrafe. A frase tem o poder de, ao falar de versos e de poesia, nos mostrar aquilo que consideramos ser uma vida civilizada, a qual é sempre erigida em contraposição com a vida dos bárbaros.

A vida civilizada, se a perscrutarmos a partir da analogia com o verso, é aquela que tem uma certa medida, tal como os diversos tipos de versos tradicionais obedecem a certas medidas, as quais impõem um limite para o tamanho do verso. Esta concepção da civilização tomada em analogia com a métrica dos versos não deixa, porém, de obedecer a uma concepção moderna de civilização. Uma ideia que se liga de imediato à civilização é a de limite. Um ser civilizado é, contrariamente a um bárbaro, alguém que reconhece limites à sua acção e à satisfação das suas faculdades de desejar e de conhecer. Ser civilizado significa reconhecer que tanto o que pode desejar quanto o que pode conhecer é limitado. Esta ideia de limite é central na modernidade e, fundamentalmente, no Iluminismo e épocas subsequentes.

O carácter moderno deixa-se compreender, talvez ainda com mais intensidade, numa outra característica presente no verso metrificado, no verso não livre. Trata-se do próprio conceito de medida. A poesia estaria aberta a uma compreensão matematizante e quantificada através da escansão das sílabas poéticas. Escandir um verso é uma forma de medir o verso, de introduzir o cálculo e a quantidade nesse elemento que, na imaginação popular, está mais próximo de uma visão qualitativa do real do que de uma visão quantitativa. É esta ligação do verso à quantidade que permite, juntamente com a ideia de limite, que se estabeleça a analogia entre verso e civilização, isto é, aquilo que nós ocidentais modernos consideramos civilização. A vida civilizada do Ocidente tem no seu fundamento o cálculo e a quantificação. Basta olharmos para o peso que a economia tem, desde há muito, na vida social e política. Basta compreender que os sistemas políticos civilizados – isto é, as democracias – fundam-se na matematização das opiniões expressas em votos e, também, em sondagens.

No âmbito da analogia entre verso e civilização, podemos, agora, perguntar o que significa a emergência do verso livre, do verso que abandonou, na sua estratégia prosódica, o cálculo das sílabas poéticas e a ideia de limite do verso, isto é, que rompeu com as convenções anteriores. A primeira coisa que é possível compreender é que uma civilização – tal como um verso – está fundada em convenções. Assim como a métrica dos versos é uma convenção, a vida civilizada é também uma vida convencional, uma vida que adoptou certo tipo de convenções e que proscreveu outras. Isto tem um impacto muito maior do que se possa pensar. Significa que a civilização ocidental não é a civilização mas uma civilização possível entre outras. Tem as suas convenções diferentes de outras convenções adoptadas por outras formas de vida civilizada. O verso livre, ao relativizar os versos métricos, diz-nos, ao mesmo tempo, que a nossa civilização é meramente relativa, um modo de vida entre outros modos de vida possíveis e civilizados.

Uma segunda consequência do verso livre, se se continuar com a analogia entre verso e civilização, é que a ideia de limite ou de fronteira foi estilhaçada. Não é que os limites ou as fronteiras tenham deixado de existir. Tornaram-se, porém, mais difusos se não mesmo mais confusos. Curiosamente, foi isso que sucedeu no mundo desde o início do século XX (e o século XX começa, efectivamente, em 1914, com a Grande Guerra) até aos dias de hoje. Neste caso, o verso livre teve a capacidade de antecipar o destino da vida civilizada, onde as fronteiras entre civilizados e bárbaros, para recorrermos à distinção grega, se tornaram completamente porosas.

Onde a analogia parece não fazer sentido é na questão do cálculo e da quantificação. Se o verso livre trocou a quantificação métrica por outras formas de prosódia para a construção do ritmo e do sentido poéticos, a vida da nossa civilização continuou – aliás, tem-se assistido a uma intensificação – dependente do cálculo e da matematização da realidade. Se o ritmo de um verso já não é dado pela quantidade métrica, a vida civilizada depende, cada vez mais intensamente, de uma compreensão quantificada da realidade, seja esta qual for. Aceitando isto, poderemos dizer que a analogia, há muito intuída, entre verso e civilização falhou completamente. Ou então, uma possibilidade sempre atraente, pode-se afirmar que o verso livre se constituiu como uma profecia, acerca da nossa civilização, ainda não realizada, uma profecia que contém a ameaça do fim de uma vida dependente continuamente do cálculo e de uma interpretação quantitativa da realidade.

sábado, 15 de julho de 2017

A Flor Precária 11. A vida é um aquário de palavras

Autor desconhecido - Cleo de Merode, 1910

11. A vida é um aquário de palavras

A vida é um aquário de palavras.
Dentro dela, peixes, limos, pedaços
de mim a arder no fundo do teu corpo.

As palavras que te dei em Dezembro
trago-as nas águas deste aquário.
São tuas. E tuas, aquelas que invento
quando os sentidos se perdem em ti.

(A Flor Precária, 1979)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Da infância sem fim

Toni Schneiders - Fykesunds bru im Hardanger Fjord, 1959

A espécie humana é muito cansativa na sua previsibilidade. Basta dar um pouco de atenção a uma determinada personagem para que, sem grande surpresa, se consiga antecipar comportamentos. Fundamentalmente, os que são negativos. É preciso um certo refinamento para dissimular com eficiência o desejo de praticar o mal. E refinamento é coisa que está ao alcance de poucos. Para certas pessoas, a ânsia da maldade é tão grande que não conseguem deixar de semear sinais e pistas por todo o lado. E o mais interessante é que o fazem com uma infantilidade quase comovente. O que não é de todo um prejuízo para os outros. Seria bem mais grave que à propensão para o mal se aliasse a maturidade. Por norma, essas pequenas personagens maldosas que cirandam por aí são imaturas, uma espécie de crianças perdidas num mundo cheio de ameaças imaginárias, ameaças nascidas da sua incapacidade de crescer e tornar-se adulto. Ora a quantidade de adultos que, na verdade, nunca cresceram é desanimadoramente muito maior do que se pode pensar. A ideia kantiana de que o Iluminismo é a saída do Homem da menoridade choca com essa realidade. Nem as mais intensas luzes da razão têm o poder de fazer amadurecer parte significativa do género humano, de fazê-la atravessar a ponte que liga a infância ao estado adulto.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Declínio

Paul Huet - O abismo, paisagem (1861)

A notícia de que defensores ambientais estão a ser mortos ao ritmo mais elevado de sempre (ver aqui) é sintomática de que uma luta decisiva está acontecer. O que está em jogo nesse conflito é a possibilidade ou não de, num futuro próximo, haver vida humana sobre a Terra. A incompreensão que uma parte da humanidade ostenta relativamente à degradação ambiental e aos limites do planeta é um sinal de podemos estar a aproximarmo-nos do fim. Este fim não será já o resultado do declínio do Ocidente, segundo a profecia de Oswald Spengler, mas do declínio global da responsabilidade ética do humanidade. O abismo parece atrair, de forma cada vez mais decisiva, a humanidade e, dentro desta, os mais poderosos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Alma Pátria - 29: João Villaret - Cântico Negro (José Régio)



Hoje a Alma Pátria sai dos caminhos da canção e entra nos da declamação poética. A rádio in illo tempore passava poesia (hoje, penso que só a Antena 2 o faz). Recordo Villaret e também Manuel Lereno. João Villaret morre em 1961. Se olharmos para a capa do disco "João Villaret no São Luís" há qualquer coisa que é inconcebível. Em plena ditadura, um actor consegue encher um teatro apenas para ser ouvido a declamar poesia. Mais, esse mesmo actor tinha um programa semanal na RTP, de larga audiência, onde dizia os grandes poetas. Esse mundo acabou. Ainda David Mourão-Ferreira e Mário Viegas tiveram programas do género, mas tudo isso está definitivamente morto, no contexto cultural pós-moderno em que vivemos. A poesia tornou-se um assunto esotérico, onde os que escrevem se lêem uns aos outros, quando se lêem. No vídeo, um poema de José Régio, um poema que li muitas vezes e que ouvi também muitas vezes declamado pelo meu colega de escola e amigo Luís Filipe Pisco. Dizia-o bem, muito bem.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A desmedida


Volto a um dos meus temas políticos preferidos, o da educação do homem político. A raiz de toda a educação do candidato a homem político deveria ser a tragédia grega. Ela forneceria ao aspirante a político a possibilidade de uma meditação sobre os limites do homem e da sua acção. O resto - aquilo que hoje em dia parece ser fundamental - é mera informação e treino nas artimanhas dos jogos partidários. A tragédia tem o papel de nos dar a ver as consequências da desmedida (hübris). A némesis, a vingança dos deuses - isto é, da realidade - não deixará de ocorrer sempre que a desmedida se faz sentir na acção política.

Veja-se o caso do governo de António Costa e a desmedida - o optimismo e o contentamento exibido como uma humilhação dos adversários - com que ele se vinha comportando nos últimos tempos. A humildade que deveria ser a tónica de um governo assente num partido que perdeu as eleições e numa coligação inabitual foi, com os resultados do campo da economia, sendo substituída pela irresistível tentação de gerir a res publica como se o governo fosse constituído por heróis divinos acima dos mortais. A vingança dos deuses não se fez esperar e mostrou que a política não é só economia. Um fogo terrível, um roubo caricato e umas contas a ajustar com a justiça tornaram de imediato patente a natureza humana - demasiado humana e demasiado portuguesa - do governo.

Quer os políticos o creiam ou não, nada há pior para a sua carreira do que a desmedida. Muitas vezes, a hübris parece ser uma condição necessária para atingir os objectivos e triunfar sobre a concorrência. Na verdade, é uma artimanha para perder o herói. Sabemos também que a virtude da humildade não é coisa que tente os egos inflacionados daqueles que se dedicam à vida política. O contacto com o poder retira-lhes o discernimento dos seus limites e leva-os, como se isso fosse a coisa mais natural, a desafiar os deuses - isto é, a realidade. A factura muitas vezes não se faz esperar e mostra que os encargos de tal ousadia não compensam o prazer de se sentir deus por alguns instantes.