terça-feira, 28 de março de 2017

Diálogos aporéticos (01) - Amnésia

Wassily Kandinsky - Black and Violet (1923)

- Estou grávida.
- Como?
- Como? Sei lá. Talvez me tenha esquecido de tomar a pílula. Ultimamente, tenho esquecimentos frequentes. Ainda ontem foi o autor de um livro, há dias, ao entrar na farmácia, reparei que não me lembrava do nome do medicamento. Valeu-me…
- Estás grávida?
- Estou.
- Estás grávida porque sofres de amnésia, é isso que queres dizer.
- Bem, nunca tinha pensado nisso. Amnésia é uma palavra forte. Parece quase uma teoria e eu não me predisponho muito para teorias, como sabes.
- Sei, sei… e estar grávida é uma questão prática.
- Nunca pensei ficar grávida.
- Achas que deves abortar?
- Bem, também não tinha pensado nisso.
- Pois, estás mesmo grávida?
- Fiz o teste e deu positivo.
- Positivo, logo positivo. Não será melhor fazer outro?
- Também já fiz o segundo. Confirmou o primeiro. Estou grávida.
- E agora?
- Agora, apetece-me gritar.
- Será caso para tanto?
- Não sei, é a primeira vez que estou grávida.
- Irrita-me a tua irresponsabilidade.
- A minha?
- Sim, a tua. Não tens idade para esquecimentos. Não acredito nessa história. Até daquilo que seria melhor esqueceres te lembras, quanto fará...
- Estás a insinuar o quê?
- Eu…
- Estás a insinuar que fiz de propósito?
- Bem…
- Achas que estando no meu juízo, e eu estou, alguma vez iria dar um pai como tu a um filho meu?
- Talvez fosse o efeito da amnésia, esqueceste-te de tomar a pílula e de quem eu era.
- Estou grávida e tu espumas ressentimento.
- O ressentimento não traz ninguém ao mundo.
- Mas envenena. Queres matar o feto com a tua exalação? É isso que queres?
- Estás grávida. E logo agora.
- O que é que tens contra este momento? Julgas que haveria outro melhor? Estás…
- Não estou, não.
- Não estás o quê?
- Sei lá. Esqueci-me...

segunda-feira, 27 de março de 2017

Europa, pobre Europa


A Europa, precisamente nesta hora do seu máximo sucesso, parece ter-se tornado vazia a partir de dentro, paralisada em certo sentido por uma crise do seu sistema circulatório, uma crise que põe em risco a sua vida, que vai confiando, por assim dizer, em transplantações que, depois, acabam por eliminar a sua identidade. A este enfraquecimento interior das forças espirituais basilares corresponde  o facto de que também etnicamente a Europa parece estar a caminho da despedida. (Joseph Ratzinger (2005), Europa – Os seus fundamentos hoje e amanhã. Paulus Editora, pp. 24/25. O texto citado é de 2000)

Nestes dias em que se celebra o 60.º aniversário do projecto europeu, dias em que BE e PCP trazem, mais uma vez, para o espaço público uma visão eurocéptica, aliás presente, com mais ou menos intensidade, na generalidade dos países que fazem parte da União Europeia (U. E.), o importante não é sublinhar o estado crítico em que se encontra a U. E., mas tentar compreender a cegueira que se abateu sobre os europeus que não lhes permite perceber as causas efectivas que os estão a conduzir ao lugar assombrado em que passaram a viver. Contrariamente ao que pensa o BE e o PCP – que não é particularmente diferente daquilo que pensa o senhor Dijsselbloem, apenas o horizonte é outro –, os problemas não se centram na economia, nas finanças ou na existência ou não de soberania monetária. Isso são apenas sintomas, entre muitos outros, de uma crise estrutural muito mais profunda e para a qual os preconceitos – isto é, a ideologia – dos diversos actores funciona como um véu que os torna cegos.

O diagnóstico de Ratzinger feito no ano 2000 torna manifesta as causas profundas da crise europeia. O vazio que tomou conta da Europa. O vazio não diz respeito nem à produção e consumo de mercadorias, nem aos sistemas financeiros, nem ao desenvolvimento da técnica. Esse vazio tem uma natureza espiritual, cuja marca mais ostensiva é a grave crise do cristianismo, a sua cada vez maior irrelevância na vida do europeus, mesmo dos que se dizem cristãos e ainda mantêm uma qualquer ligação prática com a respectiva igreja. Esta crise na vida religiosa dos europeus não deixa de contaminar as outras áreas espirituais, nomeadamente a filosofia – no contexto filosófico internacional, em poucos decénios a filosofia praticada em Itália, Alemanha e França tornou-se irrelevante, perante a filosofia de cariz analítico praticada em Inglaterra e EUA – e a arte, como se em todas as áreas do espírito a Europa tivesse sido tragada pelo niilismo.

Esta crise que os actores políticos são incapazes de ver, até porque o nosso sistema político nasce da crença da separação entre religião e política, está a corroer todas as outras esferas da vida europeia, nomeadamente o domínio das condutas individuais e comunitárias, com uma evidente erosão da responsabilidade e da solidariedade. O texto de Ratzinger citado tem o ainda o condão de tornar patente a ligação entre a crise espiritual e a crise biológica dos europeus. Também etnicamente a Europa parece estar a caminho da despedida, escrevia o então cardeal. Dito de outra maneira, os valores pelos quais os europeus se regem mostram-se incapazes de os conduzir à sua própria reprodução, à manutenção das antigas comunidades e dos seus valores estruturais. A crise económica e política da Europa está intimamente ligada à sua crise biológica (veja-se o caso de Portugal) e esta parece estar correlacionada com a profunda crise de fundamentos espirituais, com o principal destaque para a crise religiosa, que assola toda a Europa. Estes são os problemas que os europeus se impediram de ver, enquanto se deixam seduzir pelas artimanhas da economia e das finanças, e são eles que estão a alimentar o crescimento dos extremismos, a impotência política do europeus e a contínua perda de referências e de horizonte.

Nota: todos os livros de Ratzinger sobre a Europa - e são vários - merecem ser lidos com muita atenção.

domingo, 26 de março de 2017

Domingos de chuva

Daniel González Ruiz - Paisaje de Montmartre con lluvia

Domingos como o de hoje – cinzentos, frios e com chuva – não deixam de ser luminosos. Se nos for permitido antropomorfizar o estado do tempo, dir-se-á que estes domingos são o exercício de um cepticismo moderado. Não entoam loas ao esplendor do sol, às grandes festividades do bom tempo, mas também não brandem, com mãos poderosas e razão céptica, um temporal negador de qualquer vontade de viver. Moderam os entusiasmos com o que tem demasiado brilho e espalham uma suave nostalgia não destituída de uma leve esperança. Trazem uma luz sobre a condição dos homens, uma luz não destituída de melancolia, que lhes permite perceber que o mundo não é o paraíso, mas também não tem de ser o inferno.

sábado, 25 de março de 2017

Descrições fenomenológicas 23. Quinze minutos

Gerardo Rueda - Athos (1958)

Quinze minutos. É o que o sinal pendurado num poste de iluminação eléctrica indica. Pode-se estacionar um quarto-de-hora e, depois, há que ir tratar da vida para outro lugar, sabe-se lá onde. A noite, persistente e vestida de veludo e humidade, não cessa de cair sobre o silêncio. Os passeios estão desertos. Nem um transeunte sob a mancha amarelada da iluminação pública. Um carro preto, solitário, estacionado. Sobre ele, a luz do candeeiro abre-se em reflexos sem constância nem propósito, revérberos a voltear num mundo votado ao esquecimento. Se houvesse vento, talvez a neblina se dissipasse e levasse com ela esta dor de irrealidade que se abate sobre o coração de quem olha a rua. Uma correnteza de casas, do lado esquerdo, recorda que há pessoas na cidade. Prédios de altura mediana, enterrados na noite, obscuros, aqui e ali recortados pelo néon que anuncia um café, talvez uma ourivesaria, um stand que oferece carros que ninguém quer comprar. De súbito, um vulto surge no fundo da rua. Caminha devagar, parece cambalear. Agarra-se à parede, respira fundo e dá mais alguns passos. Faz um gesto com  a mão direita, parece querer afastar a neblina, mas logo pára. Olha para os lados e toca com os dedos a cabeça, fazendo-os deslizar pelos cabelos. Encolhe os ombros. Atravessa a estrada e pára mais uma vez, agora frente ao stand de automóveis. Encosta a testa ao vidro como se quisesse entrar por ele e ver de perto algum dos carros. Depois, põe as mãos nos bolsos do sobretudo e recomeça a andar. Ziguezagueia no passeio, passa defronte do café. Torna a atravessar a estrada, em passo lento, e dirige-se para o único carro ali estacionado. Detém-se longos instantes diante da porta, depois, hesitante, abre-a, olha a noite e, com um novo encolher de ombros, senta-se ao volante. Fala sozinho, passa a mão pelo queixo, olha o espelho retrovisor. Suspira, faz a chave ranger na ignição, o motor obedece de imediato. O carro arranca alvoraçado, deixa uma baforada de fumo que se funde na neblina, e desaparece, tragado pelo destino que o espera, deixando a rua mais abandonada e mais livre. Permitido estacionar 15 minutos entre as 8:00 e as 20:00, lê-se na placa pendurada no poste de iluminação pública.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O Rumor das Ruas - 10. Se o calor florescia

José de Togores - Aurora (1930)

10. Se o calor florescia

Se o calor florescia
no rufar da aurora,
a memória cantava
a náusea da noite,
as horas perdidas
pela pedra de areia
que cobre de sílica
o eixo do mundo.
               
(O Rumor das Ruas, 1978)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Inspiring Future

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Assisti há dias, na escola onde lecciono, a uma intervenção da Yorn Inspiring Future que, para além de trazer consigo um conjunto de sessões e workshops, onde 37 universidades e politécnicos tentaram cativar os alunos do 12.º ano, explicou, numa sessão de pouco mais de uma hora, o processo de candidatura. Foi a esta sessão que assisti e foi, para mim, verdadeiramente inspiradora. A candidatura ao ensino superior é um processo burocrático e completamente desinteressante. O animador da sessão, porém, transformou aquilo num espectáculo, que, devido aos seus dotes de entertainer e de comediante, prendeu os alunos do princípio até ao fim. Quem organiza estas coisas está bem preparado, conhece os auditórios. Sabe adulá-los.
                                                                                                                                                  
Conforme me comprazia e espantava com a capacidade comunicacional ali exibida, uma preocupação nascia dentro de mim. Não se tratava sequer de estabelecer conexão entre o que estava a ver e o célebre livrinho de Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo. A coisa era mais prosaica. Ao olhar os alunos na sessão ia-se tornando claro o ideal de professor que, sem ninguém ter consciência disso, se manifestava. Não é o saber, o rigor científico ou sequer a clareza na comunicação que são fundamentais. O essencial é que o professor seja um misto de animador de plateias e comediante. Que saiba transformar os conteúdos lectivos num espectáculo leve, onde a comédia desempenha um papel central. A degradação da profissão de professor teve um ponto alto quando se começou a dizer que os alunos não eram estudantes mas clientes e os professores não passavam de gestores de aprendizagens. Esta tontice, porém, está ultrapassada.

Os alunos continuam a não ser estudantes. Talvez sejam clientes, não de aulas mas de espectáculos. O ideal que deverá agora guiar o professor não é o da ciência e do saber – não são inconvenientes, mas não são o essencial – mas o da capacidade de animar os alunos, de os entreter, de os fazer rir. Depois de morta a figura do professor às mãos dos gestores de aprendizagens, são estes que terão de ceder o seu lugar ao animador-comediante, que não prepara aulas mas espectáculos. Em tudo isto, há apenas dois problemas. Olhando para o corpo docente que existe país fora não estou a ver como é que toda essa gente com idade provecta vai conseguir fazer rir quem quer que seja. Em segundo lugar, a formação de professores está completamente deslocada. Técnicas de animação, preparação de comediantes, colecção de anedotas para teenagers continuam a não fazer parte dessa formação. O que é lamentável, pois falhar-se-á o inspiring future que nos aguarda.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Alma Pátria - 22: Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula



Este vídeo pertence a uma apresentação de Os Conchas (José Manuel Aguiar de Concha e Fernando Gaspar) na RTP, em 1960. O Rock'n' Roll estava no auge da sua popularidade nos EUA e as novas gerações europeias ansiavam pela americanização, vista talvez como uma certa libertação dos constrangimentos que a velha Europa impunha. Portugal, apesar da ditadura do Prof. Salazar, não ficou imune. Os Conchas são uma prova disso. Também por cá tivemos o nosso rock’n’roll paroquial, mesmo que nos faltasse, por proibição ditatorial, a imagem de marca da juventude americana, a Coca Cola, que o regime não permitia que se entranhasse. A capa apresentada não corresponde às canções do vídeo. Diz respeito ao primeiro EP gravado pelo duo, mas um EP partilhado com Daniel Bacelar. Duas canções para Os Conchas, duas para Daniel Bacelar. Era equitativo, o vinil estava caro e éramos todos pobres, mesmo os remediados, como se dizia na altura.

terça-feira, 21 de março de 2017

Flashmob e tradição

Papa Francisco (foto daqui)

A mensagem do Papa às jornadas da juventude tem duas notas que sublinham a dificuldade da Igreja Católica nos tempos que correm (ver aqui). A primeira diz que a verdadeira experiência na Igreja não é uma "flashmob". Uma flashmob, como a própria notícia explica, é uma concentração espontânea e de curta duração de pessoas num lugar público. Pretende assim o Papa reafirmar que uma instituição como a Igreja exige compromisso e persistência no tempo. A questão nasce do confronto entre as tendências existentes naquilo que Zygmunt Bauman classifica como sociedade líquida, a nossa, e tudo o que pressupõe a solidez que permite enfrentar o desgaste do tempo. A nossa sociedade deixa-se retratar, na verdade, como uma flashmob, onde pessoas e coisas se manifestam por instantes e desaparecem do espaço público. Liquefazem-se e correm a dissolver-se na indiferenciação dos oceanos. A crença religiosa dificilmente se poderá desligar do destino que atinge todo o resto da realidade social.

E isto é dramático para a Igreja Católica. O drama está expresso na seguinte passagem: temos de aprender a fazer com que os eventos do passado se convertam numa realidade dinâmica, para reflectir sobre ela e obter ensinamentos e um sentido para o nosso presente e o nosso futuro. A Igreja Católica, ao contrário das Igrejas protestantes, vive da tradição, dessa conexão entre o passado remoto e o futuro por vir. Se tudo, porém, se dissolve em encontros espontâneos que logo se desfazem, as próprias condições de manutenção de uma tradição desaparecem. Mesmo nos países de maioria católica há uma espécie de triunfo do protestantismo e da sua negação da autoridade da tradição. Não por acaso, se assiste, nesses países, à propagação de Igrejas evangélicas. De certa maneira, elas estão intimamente ligadas ao espírito do tempo, à vida líquida em que se transformou a existência nas actuais sociedades ocidentais. Evocar uma longa linha e continuidade, entre um passado longínquo e os dias de hoje pouco sentido faz para quem vive no e para o instante. E é isto que, nos dias de hoje, parece atormentar o Vaticano.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Voltar a casa

Ken Howard - Going Home (1997)

A cultura ocidental é marcada por dois acontecimentos - ainda que possam ser apenas acontecimentos narrados - que sublinham a importância da casa. No Antigo Testamento, a terra prometida dá-nos a ver o lar como uma promessa a realizar. Na Odisseia narra-se as aventuras de Ulisses no retorno a casa. Seja como promessa, seja como retorno, a casa é o centro estruturante da cultura ocidental. Mesmo num tempo em que os valores do nomadismo parecem tomar a dianteira aos do sedentarismo, a casa - e a casa é também a metáfora para os elementos estruturais de uma cultura - ainda oferece o ponto referencial ao qual se volta sempre.

domingo, 19 de março de 2017

O Rumor das Ruas - 9. Por esses dias, cantavas

Lorenzo Bonechi - Figura su paesaggio (1990)

9. Por esses dias cantavas

Por esses dias, cantavas.
A boca visível
pousada na água,
o vestígio de vidro
surrado na sombra,
o sargaço do medo
tolhido no espelho
quebrado da vida.

Falavas do futuro.         
Sobre ti avançava,
oculto no fumo,
nas rosas azuis
esculpidas na parede,
na dor do olhar
preso na paisagem.

Abraçado nessa voz,
um cântico erguia-se
e o braço inclinado
para os dias de Abril,
procurava a água
que das nuvens
no solo da memória
em silêncio aluía.

(O Rumor das Ruas, 1978)

sábado, 18 de março de 2017

Descrições fenomenológicas 22. Estender a roupa

Ana Peters - Homenaje C.D.F. (1995-98)

Ao fundo, um muro miserável enrugado pelo tempo, lancetado pelo desvario de quem nele fendeu a cor de tijolo com traços brancos, já amarelados pelo devir, que dão a ler não se sabe qual indisposição de espírito, desejo frustrado ou amor talvez nunca consumado. O próprio passar dos anos trouxe consigo uma ânsia de grafitos manifestada em manchas de humidade, vestígios de antiquíssimo reboco, agora quase desaparecido, símbolos escavados no barro cozido que, vítima de violências esquecidas, foram nascendo com a queda de pequenos pedaços daquele muro, tão alto que parece simbolizar uma fronteira entre dois mundos, os quais, por um decreto providencial, têm a estrita obrigação de viver separados, sem que palavras possam entre eles serem trocadas, sem que os olhares de um lado possam contemplar os do outro. O que está para além não se pode daqui divisar, nem sequer há qualquer pista que o deixe suspeitar. Do lado de cá do muro, ergue-se um estendal para secar roupa, um arame zincado suspenso de dois postes de ferro oxidado, sem a comodidade de umas roldanas, fio baço e cansado que, havendo alguma coisa estendida, é erguido, ao centro, por uma cana grossa e alta, com uma fenda no cimo, na qual o arame fica preso, enquanto, com o peso da roupa, o poste improvisado hesita entre deixar-se arquear até se estilhaçar ou enterrar-se no chão de terra batida, um chão habitado por restos de lixo, plásticos, beatas de cigarro, um chapéu de chuva de varetas partidas. Umas mãos finas e esguias prendem, com molas de plástico descolorido, peças de vestuário ao arame. Essas mãos prolongam-se nuns braços também eles finos, presos a uns ombros brancos, tão bancos e tão leves. A mulher, de negro, veste um elegante vestido que deixa ver grande parte das costas e se ajusta ao corpo, dando-lhe um contorno voluptuoso, a cintura fina que se abre, sem desmedida, nas ancas e desliza pelas pernas, que o vestido descobre bem acima do joelho, as quais se terminam dentro de uns sapatos, também eles negros, de salto tão alto, que imaginamos as pernas de uma deusa, vinda do passado e perdida naquele lugar sem nome. E as mãos, que tão bem se deixam ver, sem destreza, vão cingindo ora um casaco ora uma camisa com o plástico que as prenderá ao arame. No intervalo, o corpo desce, colhe no alguidar a próxima peça, e ergue-se, num ondular de seara batida pelo vento, num volteio de onda que se ergue no mar, para se desfazer em terra, enquanto o cabelo se sobressalta, abrindo-se e fechando-se sobre o pescoço. E nesse vai e vem, o alguidar fica vazio e a roupa suspensa, como o corpo hirto de um enforcado, brilha contra o muro grafitado pelo tempo, corroído de memórias e de pobrezas, espantado pela sombra de uma deusa que ali se perdeu, esquecida de como voltar ao Olimpo, desprezada na incongruente elegância de um corpo que a não resgatou da corveia de cada dia.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Liturgias das redes sociais

Pat Steir - Abstraction, Belief, Desire (1981)

Viajar numa rede social como o facebook não deixa de ser uma experiência instrutiva. Estamos perante uma espécie de voz do povo ou, melhor, dos diversos povos que habitam por aqui. As postagens políticas são mais instrutivas do que os artigos de opinião e as declarações dos próprios agentes políticos. Muitas dessas postagens - e não interessa a cor ou a inclinação do postador -, mesmo quando têm alguma elaboração, não representam mais do que a expressão do desejo, esse desejo de confirmar a crença que se possui. São postagens rituais cuja finalidade é aumentar a fé na própria crença política. E como, por norma, e não há norma sem excepção, as pessoas acabam por se aproximar dos que possuem a mesma fé, gera-se um círculo religioso em que as crenças e os desejos de uns fortalecem as crenças e os desejos dos outros, através de uma liturgia marcada pelo momento do post e pelo momento dos comentários. Deste ponto de vista, cada post é, na verdade, uma acto litúrgico, uma acção piedosa. Estes exercícios excluem sempre duas coisas, embora, os oficiantes nunca o reconheçam. Excluem a realidade, a qual é reduzida pela acção do desejo e da crença em mera abstracção, e excluem qualquer tentativa de colocar-se no lugar do outro, de tentar perceber a lógica e as razões do outro lado. O outro é sempre ou corrupto ou idiota, na verdade um não humano. E um homem que se preza não se põe a falar com coisas que não fazem, apesar da aparência, parte da nossa distinta espécie. Também aqui o ecumenismo parece ser uma utopia. Entre fés não há diálogo possível.

quinta-feira, 16 de março de 2017

A ameaça

Juan Genovés Candel - Amenaza (1969)

As principais figuras da política europeia rejubilaram com os resultados das eleições holandeses de ontem. Estas reacções de júbilo, porém, não deixam de ser sintomáticas da situação em que se vive. Em cada acto eleitoral parece estar suspensa uma guilhotina que ameaça cortar a cabeça do projecto europeu. Aquilo que um dia pareceu ser uma caminhada triunfal para uma Europa unida tornou-se numa marcha titubeante, marcada por sobressaltos sem fim, na qual qualquer minúscula sombra é sentida como uma ameaça potencialmente devastadora. O júbilo das reacções é apenas o negativo do temor que habita o coração da Europa.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Os primeiros sinais

Marcel Duchamp - Joven triste en un tren (1911)

Todos os acontecimentos possuem aspectos mais visíveis do que outros. Na história do cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto o aspecto visível foi o da criação de uma situação que pôs, objectivamente, em causa a liberdade de expressão. Há nele, porém, um outro aspecto que acabou por passar despercebido. O da entidade promotora da conferência, um grupo denominado Nova Portugalidade. Não vale a pena chamar-lhe fascista ou clamar que é de extrema-direita. Este tipo de linguagem, por mais que apareça ajustada, tem o condão de tornar invisível o que está a germinar. Etiquetar tranquiliza quem coloca as etiquetas, mas impede-o, ao mesmo tempo, de dar atenção ao fenómeno, criando uma boa consciência cívica através do exorcismo discursivo dos espíritos impuros que poluem a democracia.

Neste momento em França os jovens que até há pouco tempo não assumiam publicamente o apoio à Frente Nacional e a Marine Le Pen, fazem-no agora abertamente (ver aqui). Hoje em dia a grande força da Frente Nacional reside na juventude. De nada valeram os exorcismos feitos durante anos, de nada tem valido gritar que é uma organização fascista e de extrema-direita. Pode-se pensar que grupos como a Nova Portugalidade têm apoio muito residual em Portugal. De momento, isso é um facto. No entanto, entre os mais novos começa a desenhar-se um apetite por este tipo de soluções políticas. E não se trata de pessoas que estão na situação descrita por Pacheco Pereira no Público de sábado passado. As novas gerações têm estado, nas últimas décadas, afastadas da política. É possível que esse afastamento esteja a abrir caminho para um tempo em que ela se irá tornar o centro da atenção dos mais novos através de opções ideológicos idênticas às dos promotores da conferência de Nogueira Pinto. E quem está nas escolas, se não for completamente desatento, começa a notar, apesar de dissimulados, os primeiros sinais.

terça-feira, 14 de março de 2017

O Rumor das Ruas - 8. Olho-te e apenas

Maurice Denis - Orpheus and Eurydice (1910)

8. Olho-te e apenas

Olho-te e apenas
vejo a madeira
de onde
rasgo as tábuas
para cerzir
de negro
o negro coração.

(O Rumor das Ruas, 1978)