sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Complacência

Gerardo Rueda - Alcalá (1960)

Barcelona grita "no tinc por" (não tenho medo) escreve o El País, referindo-se ao minuto de silêncio, de hoje, na Praça da Catalunha de Barcelona. Cerca de 130 mil pessoas estiveram presentes. O problema de tudo isto é que, na verdade, estas reuniões, estes minutos de silêncio, estas afirmações sobre o não ter medo são, na verdade, confissões de uma impotência humilhante perante uma realidade cuja natureza, por complacência, estamos longe de querer compreender. Começamos a ficar cansados de minutos de silêncio e de demonstrações vazias de coragem. Os países ocidentais parecem, apesar do terror, fascinados pelo Islão, de tal maneira que persistem num estado de negação perante a conexão entre este tipo de comportamentos e a estrutura ideológica do Islão. Enquanto não se perceber o que é o Islão enquanto ideologia de dominação do mundo, quais as suas reais pretensões e a forma como se desmultiplica para as atingir, nunca se compreenderá por que motivo há gente disposta a matar inocentes (para os assassinos os inocentes são o inimigo, mesmo que sejam crianças recém-nascidas). Há um momento em que a complacência se torna traição.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O especialista absoluto

Arpad Szenes - Niño con cometa (1935)

Devo a Carles Álvarez Garriga, no seu Prólogo a Classes de Literatura, de Julio Cortázar, o conhecimento da fórmula do especialista absoluto, cuja autoria pertence a Alfonso Reyes. Na verdade, é uma bela fórmula. Refiro-me à sua aparência estética. Ei-la: ∞/0. Ela dá-nos a ideia reguladora – ou o ideal, se preferirem – do especialista. O processo de especialização, um imperativo da busca da eficácia do conhecimento, intensifica-se em todas as áreas, incluindo as da Filosofia e da Literatura. Refiro-me às praxis universitárias, mas não só. Os especialistas sabem cada vez mais de cada vez menos. Se universitários, produzem uma montanha de informação sobre o mais ínfimo grão de areia.

O que significa então, neste contexto, a fórmula? Ela diz-nos que o ideal que regula toda a actividade de conhecimento é a de um saber infinito sobre absolutamente nada. Estamos longe do lamento husserliano sobre a crise do fundamento das ciências. Estamos perante a consumação, na área do saber, do niilismo anunciado por Nietzsche. O ideal que regula, hoje em dia, a actividade universitária aproxima-se de um saber infinito sobre coisa nenhuma. Se isso é pouco visível nas áreas das ciências da natureza, devido às aplicações técnicas que o conhecimento especializado proporciona, parece evidente nas áreas das humanidades, onde a Universidade é um dispositivo de produção de lixo cognitivo, lixo esse que exige uma grande dedicação, perseverança e capacidade de trabalho, diga-se.

A ironia  de ∞/0 visa tornar patente um problema que assombra a orientação do saber na modernidade. Esse problema é o da ruptura entre saber e sabedoria. O saber sobre um dado objecto de estudo acaba por afunilar a compreensão que se tem do mundo e do homem. Hoje em dia, possuir um conhecimento sólido, na ambiência universitária ou em qualquer outra, nada nos diz sobre a capacidade de compreender a realidade em que se vive ou quem se é. O homem moderno desenvolveu essa profunda capacidade de ter muito conhecimento sem, na verdade, deixar de ser uma espécie de adolescente retardado, sem ter qualquer sabedoria. Talvez fosse esse o destino do homem ocidental, descendente dos gregos, como não deixou de o registar Platão na palavra do sacerdote egípcio (Timeu, 22b): “Ó Sólon, Sólon, vós, Gregos, sois todos umas crianças; não há um grego que seja velho”.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Descrições fenomenológicas 28. Algumas mulheres 1

Joan Ponç - sem título (1949)

Sentou-se. Estendeu a perna direita. O pé ficou, ao inclinar-se, assente na parte interior, deixando o longo salto do sapato encostado lateralmente à madeira do soalho. A outra perna permaneceu flectida, apoiada no sofá. O corpo descaiu levando o rosto quase a tocar no joelho erguido. Os cabelos louros, ondulados ao de leve nas pontas, taparam-lhe a face; apenas se entrevia parte do queixo. O vestido preto subiu um palmo acima dos joelhos. A mão esquerda, com um anel coroado por uma enorme pedra de fantasia no dedo mínimo, aproximou-se da perna erguida e prendeu a meia entre o indicador e o polegar. Puxou-a e deixou-a ir, para a tornar a puxar e a deixar ir de novo, num movimento ininterrupto, cadenciado, ao mesmo tempo que baloiçava as costas, fazendo com que a boca quase tocasse o joelho. Durante alguns minutos não parou. Por fim, quedou-se hirta. Ouviu-se então um soluço. Puxou a meia até esta se romper. Nesse instante mordeu o joelho. Um fio de sangue deslizou pelo nylon lacerado.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Alma Pátria - 32: Petrus Castrus - Marasmo



A Alma Pátria recua até o ano de 1971. A influência das banda de rock progressivo começava a fazer ouvir-se na nossa paróquia, por exemplo, na música do Quarteto 1111. Marasmo é o título do primeiro single do grupo Petrus Castrus, um grupo de José e Pedro Castro, onde tocaram múltiplos músicos, entre 1971 e 1978, com destaque para, logo no início, Júlio Pereira. O título do disco, Marasmo, não deixa de ser uma referência ao ambiente social que o país vivia no início da década de setenta, uma referência também ao sentimento de um ego esmagado pela totalidade social. Um retrato da pátria focado de um outro horizonte, do qual já se pressente claramente a morte do que aí está. O marasmo como essa apatia funda que a estagnação mórbida de um regime moribundo e de uma sociedade anquilosada provocam nas novas gerações.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 4

Jack Delano - Foggy night in New Bedford, Massachusetts, 1941

4. Noite


A noite é um rastro.

Rosa leve e húmida
cega pelo silêncio do astro.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

domingo, 13 de agosto de 2017

Brincar com o fogo

Salvador Dali - Jirafas ardiendo

A eleição de Donald Trump pareceu o resultado de uma brincadeira de mau gosto. Existirão múltiplas explicações para o facto, mas nenhuma delas põe em causa o mau gosto da brincadeira. O problema é que não se trata apenas de uma questão de gosto. O caso da sua reacção às manifestações de extrema-direita em Charlottesville estão a indignar o próprio Partido Republicano, ou parte dele. Uma coisa é uma brincadeira de mau gosto, outra é brincar com o fogo. Trump parece gostar de exercícios de pirotecnia.

sábado, 12 de agosto de 2017

A bela humanidade

Francis Bacon - Cabeza III (1961)

António Guerreiro, no Público (vale a pena ler o artigo), cita um especialista americano no mundo digital que escrevia, há tempos, na revista The Atlantic o seguinte: "Quantos comentários devo eu ler, na Internet, para perder a fé na humanidade? Muitas vezes, a resposta é: um comentário". O interessante de tudo isto é que o universo digital é uma consequência do projecto da modernidade e, ao mesmo tempo, o exemplo da negatividade que habita esse projecto. O projecto da modernidade só foi possível pelo advento do humanismo, no Renascimento, e na substituição, no centro das atenções humanas, de Deus pelo Homem.

O incensar da humanidade não parou de crescer desde o XVII até hoje, apesar dos contínuos desmentidos trazido pelo Terror na Revolução Francesa, pelas condições de trabalho a que a Revolução Industrial sujeitou os trabalhadores, os campos de concentração nazis ou soviéticos. A Internet tem o condão de iluminar essa humanidade, de a mostrar sem edulcoração, a sua natureza . Hoje em dia já nem vale a pena ler os velhos reaccionários como Joseph de Maistre para perceber de que material é feito a humanidade. Basta olhar para as redes sociais e para as caixas de comentários dos jornais e revistas. O anonimato - e às vezes já nem isso é necessário - permite perceber o que está dentro dessa humanidade tão incensada ao longo dos último séculos.

A crueldade que vimos na acção do Estado Islâmico está ali ao virar da esquina, por agora na ponta dos dedos. Precisa apenas que se sinta à vontade para se mostrar na rua. Não é apenas o sonho de uma esfera pública civilizada (burguesa), de debate e de procura da verdade que se mostra uma ilusão. A democratização da palavra e a extensão das decisões democráticas para além da esfera estrita da representação, esses sonhos utópicos, mostram-se já como uma ameaça à vida civilizada. Durante anos, as críticas liberais a Platão, o pai de todos os totalitarismos, no dizer de muitos liberais, pareciam fazer sentido. Hoje, porém, vale a pena voltar a Platão e à sua crítica à democracia grega. Ele terá alguma coisa a dizer aos nossos dias.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

As poltronas burguesas

Gustav Klimt - Lady in an Armchair (1897)

Até ler este artigo de André Ventura no Correio da Manhã, confesso que as suas declarações e a polémica instalada em seu torno não me interessaram por aí além, embora fossem preocupantes. Era expectável que a direita, nomeadamente o PSD, fizessem explorações em áreas que a sensatez política recomenda muita moderação. Esta candidatura do PSD, em torno da figura e da linguagem de André Ventura, é uma experiência. Loures é um concelho dominado eleitoralmente pela esquerda. Se André Ventura conseguir um bom resultado, isso significa que o PSD terá encontrado uma chave para penetrar nos eleitorados tradicionais da esquerda. Um certo desespero pela dimensão eleitoral da esquerda e também uma certa franja militante do PSD podem conjugar-se para fazer aproximar o partido de posições políticas já não hiper-liberais, como as do PSD no anterior mandato, mas do radicalismo de direita. Loures é um balão de ensaio.

O que neste artigo de André Ventura me fez escrever não foi a retórica contra o politicamente correcto. Hoje em dia é politicamente correcto ser contra o politicamente correcto e, portanto, André Ventura cavalga a onda do novo politicamente correcto. Também não foram as suas declarações de amor às pessoas, às suas preocupações e aos seus anseios que me moveram a escrever. O que detonou o artigo foi a frase, atirada contra os que o criticaram, podem continuar sentados nas vossas confortáveis e aburguesadas poltronas. Um candidato do PSD, professor universitário, trazer para o combate político, em forma de crítica, as aburguesadas poltronas não é apenas uma brincadeira surrealista ou um dito de mau gosto. É, efectivamente, um programa político, uma declaração populista. A retórica da direita civilizada era a da democratização das poltronas burguesas, a do acesso de cada vez mais pessoas ao conforto burguês. A da direita populista é a guerra às aburguesadas poltronas. Isto é notável. Há aqui uma inflamação retórica que não preludia nada de bom. Até agora, a direita e a esquerda têm sabido manter o debate em níveis civilizados e têm poupado o país a derivas irracionais. A experiência do ataque às aburguesadas poltronas, sob a égide do PSD, é a primeira experiência para ver se é possível abrir a caixa de Pandora.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Degradações

Tal-Coat - Paisaje (1954)

Não bastava o radicalismo islâmico. Como é possível que personagens como King Jong-un e Donald Trump sejam os principais animadores, por estes dias de calor e fogos florestais, da comédia mundial? O pior é que a degradação da qualidade das personagens reflecte uma degradação ontológica do próprio mundo. Resta decidir se a doença antropológica é causa ou consequência da perda ontológica do cosmos.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 3

Nobuyoshi Araki - Untitled, not dated

3. Cabelos

Cabelos,
novelos de névoa na estrada.

Abrem-se na mão que os aguarda.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A Venezuela e a esquerda

Eugène Delacroix - A Justiça (1833-37)

Dois dos argumentos que são mobilizados, em certos sectores da esquerda política, para a defesa do regime de Nicolás Maduro, na Venezuela, estão relacionados um com o passado histórico de opressão e de violenta discriminação social, que o chavismo terá começado a mitigar, e outro com a suspeita de que os oposicionistas a Maduro não são gente recomendável, justificando-se, com esses argumentos, o apoio ao regime actual e à deriva autoritária a que se entrega. Podemos, contudo, aceitar os argumentos sem que seja necessário aceitar a conclusão, a necessidade de apoio ao regime venezuelano. Podemos encontrar um critério, vindo da esquerda, para pensar o problema de outra maneira?

Um bom ponto de partida é a Teoria da Justiça de John Rawls. Não quer dizer que todo o pensamento de esquerda tenha de derivar de Rawls, mas ele é um bom ponto de partida para conjugar as tradições da liberdade e da equidade sociais. A questão central na teoria rawlsiana é a dos dois princípios de justiça que devem regular as sociedades. Aqui não nos interessa nem a dedução teórica desses princípios, nem a discussão filosófica em que surgem, nem o debate com as perspectivas libertárias de direita. Bastam os princípios.

O primeiro princípio, o princípio da liberdade, diz-nos que cada pessoa deve ter um direito igual ao mais amplo sistema de liberdades básicas que seja compatível com sistema semelhante para todos. O segundo princípio, princípio da diferença e da igualdade de oportunidades, diz-nos que as desigualdades económicas e sociais devem ser distribuídas para que, simultaneamente: a. redundem nos maiores benefícios possíveis para os menos beneficiados (maximin); b. sejam consequência do exercício de cargos e funções abertos a todos em circunstâncias de igualdade equitativa de oportunidades.

Rawls, com estes dois princípios, defende tanto as liberdades como a existência de diferenças sociais ligadas, através da igualdade de oportunidades, ao benefícios de todos, com destaque para os mais desfavorecidos. O que é importante para o debate sobre a questão venezuelana é o sistema de prioridades entre princípios proposto por Rawls. O que nos diz ele? Diz-nos que o princípio da liberdade tem prioridade sobre o princípio da diferença e da igualdade de oportunidades. Isto significa que a implementação do segundo princípio, a implementação da igualdade de oportunidades não pode ser feita pela violação da liberdade e dos direitos dos outros cidadãos.

Isto torna claro que, do ponto de vista da esquerda, o apoio a Maduro é indefensável, devido à infracção sistemática do princípio da liberdade. Algumas posições à esquerda assentam numa falácia do falso dilema, dizendo que só há duas soluções possíveis. Ou as políticas de Maduro ou um novo regime cleptocrático das elites sociais. Os princípios da justiça de Rawls são um começo para esboçar uma política à esquerda que não seja um mero caudilhismo assistencialista e cada vez mais negador das liberdades básicas de que todos os cidadãos devem usufruir. E isso seria muito mais útil para as populações do que os devaneios revolucionários bolivarianos.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Alma Pátria - 31: Fernando Tordo - Tourada



Tourada, a canção vencedora do Festival RTP de 1973. Há nela uma inteligência assinalável ao pegar num dos símbolos dos estratos sociais mais conservadores, apoiantes do regime, a tourada, e usá-lo como crítica social e política. Como explicar que esta letra, de José Carlos Ary dos Santos (pouco interessante enquanto poeta, mas um grande letrista), passe pela censura, se apresente a concurso na televisão da ditadura, e ganhe? Só há uma explicação. Uma parte substancial do país já tinha percebido que o regime se tinha transformado numa enorme, embora sofrível, tourada. Esta é uma autêntica canção de intervenção, uma canção que anunciava os tempos que estavam para vir. Se não tivesse mais nenhum interesse, mas ela possui outros, interessaria enquanto facto profético anunciador do amanhã, quase dos amanhãs que cantam. Quem diria uma tonalidade cantante tão vermelha num regime a vacilar entre o cinzento e o negro?

domingo, 6 de agosto de 2017

Descrições fenomenológicas 27. Ruína

Fernando Lerín - Sem título (1998)

Bem ao meio, um buraco negro, quase circular, talvez com uns quinze centímetros de diâmetro, condensa o estado da parede. A antiga brancura há muito que foi ocupada por manchas de humidade, umas mais escuras e densas, outras apenas uma leve poeira de cinza e fungos. Parecem pinturas murais, em gradação de cinzentos, hesitando entre o figurativo e o abstracto, persistindo nessa ténue fronteira que revela uma atracção da própria natureza pelo indeciso ou o desejo de hibridação que o tempo acaba por introduzir em tudo o que toca ao passar. Do lado direito, a tinta caiu, deixando ver o velho reboco, também ele a ameaçar ruir, esfarelando-se em pequenos grãos terrosos. Num primeiro relance, parece o mapa de uma ilha incrustado no oceano cinerário da parede, uma ilha despovoada onde, em tempos recuados, se enterrara um tesouro ou um corpo de alguém amado. A parede une-se ao soalho por um rodapé de mogno mais alto que o habitual. Estranhamente, parece intacto, como se não tivesse sido tocado pelo destino da casa. Batido pela luz vinda da rua, brilha no seu vermelho acastanhado, apenas maculado pelos restos de uma tomada eléctrica, já desprendida da madeira, deixando ver os fios e o seu interior metálico. O soalho, ao contrário do rodapé, parece ter recebido os detritos de um bombardeamento. Restos de tinta, pedaços de estuque do tecto, pequenos buracos, resíduos que se desprenderam das paredes, carreiros de formigas, sinais da presença de ratos. Ouve-se o bater descuidado de uns saltos, os passos aproximam-se, uma sombra e, de seguida, uma mulher ainda jovem, alta, fantasiada de sevilhana. Um vestido vermelho com bolas negras, até aos pés. Encosta o ombro direito à parede e olha a janela do outro lado da sala. Enfrenta a luz com uns olhos enormes e negros, abertos, muito abertos apesar da luminosidade. Naquele olhar, não há nada. Nem espanto, nem medo, nem expectativa. Passados alguns minutos, resvala pela parede e agacha-se, as pernas desenham um ângulo de 45º. Os cabelos escuros, deslizam pelo pescoço e caem sobre os ombros. O cotovelo direito assenta sobre a coxa do mesmo lado e a mão suporta o rosto. O queixo repousa palma e a boca aflora no espaço aberto entre o polegar e o indicador. Na face esquerda, bem abertos, estão quatro dedos longos. Firmes, parecem segurar a face. Ao acocorar-se, o vestido abriu-se do lado esquerdo. Por essa abertura, entrou a outra mão que repousa no seio. As pontas dos dedos parecem pressionar o peito mesmo por cima do coração. Os olhos, ainda bem abertos, ganham expressão. Já não olham para a rua mas para um dos cantos sombrios do compartimento. Foi um longo caminho o do olhar. Da inexpressividade passou pela indiferença e agora é um lago ondulado pelo vento da expectativa. Murmúrios desprendem-se da boca e pairam sobre o lixo do chão e a ruína das paredes. Um floco de tinta desprende-se do tecto e pousa sobre os cabelos, uma mancha branca num fundo negro, tão negro quanto os olhos que expectantes me olham.

sábado, 5 de agosto de 2017

O mistério do PCP

V. A. Serov - Lenine proclama o poder dos sovietes

Hoje, no Público, João Miguel Tavares escreve sobre o Partido Comunista, sobre a sua dupla face. Em assuntos internacionais, o PCP é infrequentável. É aí que se manifesta a sua linha dura. Segundo Tavares, é onde o partido “parece, de facto, estar preservado em formol”. Nos assuntos nacionais, comporta-se como um partido democrático, um partido que, apesar de ter uma clara opção pela defesa dos trabalhadores, não entra em ruptura com o sistema capitalista. Já anteontem, também no Público, Elísio Estanque escrevia acerca das posições ambíguas de certa esquerda sobre alguns populismos internacionais. Relativamente ao PCP não diz coisas muito diferentes de João Miguel Tavares, mas tem uma frase muito interessante: “o PC está dentro [do sistema] fingindo estar fora, no seu estilo esquizofrénico.

Esta perplexidade perante um Partido Comunista que defende coisas absolutamente inaceitáveis fora de portas, desde que tenham um certo odor a revolução ou à luta dos oprimidos, e que dentro de casa é o partido mais consistente e que pauta sempre o seu comportamento – mais que os partidos beneficiários e dirigentes do sistema – pelo puro respeito à lei, pela preservação, muitas vezes de forma conservadora, das instituições e das tradições nacionais, pela submissão estrita às regras e formas de vida da democracia representativa, esta perplexidade, dizia, nasce da incompreensão sobre o PCP e o seu papel na democracia portuguesa.

O PCP não é apenas um partido do sistema democrático como todos os outros. Ele é a pedra angular do actual sistema político português. Ninguém se bateu mais, no tempo da ditadura, do que o PCP por uma democracia representativa. Julgo que os seus dirigentes de então não tinham qualquer ilusão sobre uma deriva revolucionária. A revolução era democrática e nacional e não socialista. Depois do 25 de Abril, cada vez me convenço mais de que a aparente deriva revolucionária mais do que desejada lhe foi imposta pela extrema-esquerda, civil e militar. Todos conhecemos a retórica sobre a derrota do PCP no 25 de Novembro. Mas terá sido, efectivamente, derrotado? Ou terá sido um dos vencedores ao ver-se livre da enorme pressão que a extrema-esquerda estava a fazer sobre os seus apoiantes e a própria sociedade, ao ver-se livre de ter de representar o papel de um partido revolucionário numa situação em que ele sabia que qualquer tentativa revolucionária seria um suicídio?

Depois do 25 de Novembro, o PCP foi o mais institucional dos partidos nacionais. E teve uma função central na preservação do sistema. E continua a ter. Neste momento, o PCP, juntamente com o BE, suporta um governo socialista, alinhado com a União Europeia, a NATO e os EUA, tudo inimigos segundo a retórica internacional do PCP. Este, porém, faz alguma exigência sobre a ruptura com essas instituições? Não faz. Opõe-se à política de redução do défice exigida pela UE? Não opõe. Não é só agora que o PCP é um dos esteios da democracia representativa. Repare-se no seu comportamento no tempo do anterior governo. Na prática, ofereceu a Passos Coelho e a Paulo Portas a oposição de que estes precisavam. Com o seu peso nos sindicatos, dirigiu, dentro da mais estrita legalidade, a contestação às políticas que aqueles puseram em marcha. Não houve desacatos nem destruições, nada. As pessoas protestavam, depois iam para casa. O governo agradecia pela diminuição da tensão social que esses protestos pacíficos representavam e continuava a sua política. Este tipo de comportamento do PCP foi recorrente desde que a democracia se estruturou em Portugal.

Perante o que defende no cenário internacional e o que pratica em Portugal, pode-se ser tentado a perguntar qual destes PCP é o verdadeiro. São os dois. E nisto não há nem esquizofrenia nem duplicidade. Para o percebermos podemos, por analogia, mobilizar o modelo freudiano do psiquismo, o Id, o Ego e o Superego. Como se sabe, o Id é a parte impulsiva e inconsciente do ser humano. Rege-se pelo princípio de prazer. Poder-se-ia dizer que representa a natureza espontânea ainda não trabalhada. Do ponto de vista do PCP, aquilo que se manifesta nas suas posições internacionais é essa primeira natureza, aquilo que advém do nascimento e da matriz onde foi formado. O Id é uma instância tenebrosa tanto nas pessoas como nas instituições. E não é apenas o Id do PCP que é tenebroso, o dos outros partidos não será melhor, como não o é o das pessoas.

O Ego é a parte consciente da nossa mente, lida com o mundo exterior, é a máscara que permite viver em sociedade. O Ego, contrariamente ao Id impulsionado pelo princípio de prazer, é dirigido pelo princípio de realidade. Sabe que satisfazer as pulsões que vêm do inconsciente não leva a bom porto. O PCP desenvolveu, durante a sua história, uma adequação à realidade com uma grande plasticidade. Domesticou há muito às pulsões que estão na sua origem. Não as negou – isso seria negar-se a si mesmo – mas soube-lhe impor estritos limites. É um partido que se autovigia e se autocensura com muita eficácia. Mais, aprendeu a canalizar os seus devaneios revolucionários e utopias – provenientes do tenebroso Id – para locais que não põem em risco a sua integridade, o cenário internacional sobre o qual não tem qualquer influência. Onde o PCP tem influência, em Portugal, é o seu Ego, adequado ao princípio de realidade, que age.

Percebe-se, assim, que para o Ego do PCP agir como age, deverá possuir, apesar das suas pulsões originais, um Superego devidamente estruturado. O Superego é uma instância hipermoral que resulta da internalização das regras socialmente aceites. Tenta domesticar o Id e moralizar o Ego. Onde terá o PCP formado um Superego tão forte, tão inibidor das pulsões mais fundas da sua natureza, tão admirador da ordem e da lei democráticas? Só é explicável pela sua história, pela dura disciplina que adquiriu na luta clandestina. Também pela necessidade de emular e suplantar a modéstia e a aparência ética do seu grande rival, o Dr. Salazar, ao mesmo tempo que, devido a essa rivalidade, aprendia a valorizar a democracia liberal que o seu antagonista desprezava.

Contrariamente ao que escreve Elísio Estanque, o PCP não é um partido esquizofrénico. Contrariamente ao que pensa João Miguel Tavares, não há mistério algum nas aparentes contradições do PCP. É um partido complexo, com uma longa história. As posições internacionais são o escape para as pulsões da sua natureza mais funda, mas há muito que descobriu a realidade e como orientar-se nela. Com isto tornou-se, como foi dito acima, a pedra angular do nosso sistema político, apesar da exiguidade do seu eleitorado. Se desaparecer, o regime tal como o conhecemos também desaparecerá.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 2

Francis Wu - A Village Belle

2. Sombra

Uma sombra no rosto.

E na boca uma rosa
levedada no mosto.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)