quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O equívoco revolucionário


A causa desta meditação sobre o conceito de revolução está não numa leitura política mas de um crítico literário italiano, Alfonso Berardinelli. Refere ele que a poesia italiana dos anos sessenta do século passado, com Pasolini à cabeça, era uma poesia marcada pelo compromisso com o devir histórico e com a revolução social emancipadora. No entanto, a poesia dos anos setenta, de setenta e cinco em diante, indicava que a ideia de revolução, na sua conexão com a poesia, começava a pertencer ao passado. A poesia ter-se-á libertado do fantasma histórico. Isso, porém, terá alguma conexão com a questão política? Tem e de uma forma surpreendente. O conceito de revolução como categoria política emancipadora das classes populares da tutela e da dominação burguesas, para usar uma expressão ao gosto revolucionário, ter-se-á mostrado completamente inadequado.

O destino das duas grandes revoluções ditas proletárias, ocorridas no século XX, são a prova dessa inadequação. A revolução soviética, a primeira grande experiência de um movimento revolucionário anti-burguês, redundou quase de imediato num sistema totalitário e, de seguida, num bisonho sistema burocrático-autoritário, até que colapsou com o estrondo que se conhece, dando lugar a um capitalismo selvagem fundado no autoritarismo. A segunda grande experiência revolucionária, a da China, depois de uma fase, na altura da grande revolução cultural proletária, de um totalitarismo delirante, converteu-se numa revolução burguesa, na qual o capitalismo, que era suposto eliminar, floresce e frutifica, sob o olhar atento do Partido Comunista Chinês. Não há, na história, um único exemplo de uma revolução anticapitalista vitoriosa.

Curiosamente, desde o século XVII, com a Gloriosa Revolução em Inglaterra, até ao século XX, passando pelas revoluções americana e francesa, do século XVIII, a história regista um conjunto de revoluções vitoriosas e que constituíram regimes políticos sólidos e persistentes no tempo. O que há de comum nessas revoluções vitoriosas é que elas são sempre a vitória do terceiro estado, a burguesia, e, do ponto de vista económico, abriram as portas para o desenvolvimento do capitalismo. O que a história nos tem mostrado, por muito que uma parte da esquerda se recuse a vê-lo, é que o fascínio de Marx com a revolução, fascínio esse que se liga ao seu fascínio pela economia liberal e pelo triunfo da burguesia, não lhe permitiu perceber, a ele e à esquerda que se reclama do seu pensamento, que a revolução era um conceito e um instrumento político pertencente ao terceiro estado, um instrumento ao serviço da formação das elites económicas e da consolidação do seu poder. Como instrumento político de emancipação popular, tal como o pretendiam Marx e os seus herdeiros, ele revelou-se completamente desadequado e com efeitos contrários à emancipação pretendida. Como instrumento de emancipação popular, a revolução mostrou-se um equívoco.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Cinza de Pedra - 13. Língua naufragada

Lucio Fontana - Cocetto spaziale (1959)

13. Língua naufragada

Língua naufragada
na ilha da boca,
fruto de erva
perdido
no limbo cru
cerzido em silêncio.

(Cinza de pedra, 1978)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Alma Pátria - 13: Carlos Ramos - Não Venhas Tarde



Não consegui encontrar a data de criação deste fado cantado por Carlos Ramos. Também não sei se a capa apresentada pertence à gravação original. Descobri apenas que ela diz respeito a um disco de 1964, um EP com o título Mas sou fadista. Carlos Ramos faz parte de um trio de vozes masculinas interessantes, que deviam estar no auge na altura em que nasci, em meados dos anos cinquenta. Para além de Ramos, refiro-me a Max e a Alfredo Marceneiro. Isto é uma cultura popular que me é radicalmente estranha. Este Não Venhas Tarde é um retrato social do país que então éramos. Não me refiro à infidelidade, pois essa é, como o amor, eterna. Refiro-me ao tipo de relação homem mulher subjacente ao texto. O homem cindido entre o puro amor e o desejo erótico, cada um deles representado por um tipo de mulher, como se a sua coincidência numa única fosse impossível. Esta ideologia – a da mulher pura, esposa e mãe, e a outra, a dos prazeres eróticos – era também subjacente ao regime político que se vivia na altura. Eros é um deus brincalhão de humor instável, o que não se coadunava com a imagem que o solitário presidente do Conselho gostava de vender para consumo público. Não estou a dizer que foi o regime que a produziu. Diria até o contrário: é este tipo de ideologia social que acaba por permitir e mesmo requerer o tipo de regime que se vivia então. Dito isto, repito, Carlos Ramos tinha uma voz assinalável.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Pós-verdade

Francisco de Goya  - Murio la verdad

Com a eleição de Donald Trump - o corolário de um conjunto de eleições em que os que estão fora do sistema político tradicional nele irrompem estrídulos e ameaçadores - tornou-se um lugar comum verberar esta época maldita em que reina a pós-verdade. O vozear e os ecos que lhe respondem, como acontece muitas vezes, acabam por lançar um véu sobre o problema e, dessa maneira, evitam que ele seja pensado e compreendido na sua efectiva natureza. Passa-se a usar a expressão, neste caso pós-verdade, não como um conceito que pense alguma coisa, mas como um mero chavão ou slogan. Literalmente, pós-verdade significa aquilo que vem depois da verdade. Não se trata da mentira, mas de um registo que está para além do jogo entre verdade e mentira na vida política.

Antes de mais e para desfazer equívocos, convém sublinhar que a verdade não é uma virtude política em si mesma. Ela diz respeito aos sistemas cognitivos e não aos sistemas de poder. A verdade é usada pelos políticos conforme ela os aproxima ou afasta do poder. Se dizer a verdade os afasta do poder, então eles não o fazem. Mentem ou omitem, em conformidade com aquilo que lhes for estrategicamente mais favorável. Isto não significa, contudo, que a política estivesse desde sempre inscrita numa dimensão da pós-verdade. A verdade se não era uma virtude política, era, muitas vezes, uma exigência ou dos súbditos, caso tivessem força para o exigir, ou dos cidadãos, como nas actuais democracias representativas.

Há no século XX experiências políticas que poderíamos ser levados a pensar como estando já na pós-verdade. Os regimes totalitários tinham esse aspecto. Retomo, mais uma vez, a referência ao romance de Thomas Mann, Doutor Fausto. O narrador, Serenus Zeitblom, a dada altura, na época posterior ao fim da primeira guerra mundial, nos tempos em que o nazismo começava a germinar, descreve reuniões de intelectuais onde, explicitamente, se torna claro que a ciência, a verdade e a justiça estão ultrapassadas intelectual e politicamente. No seu lugar estaria a vontade orgânica do povo e o mito, os quais haveriam de redimir os alemães e fazê-los cumprir o seu destino de dominadores do mundo. Repare-se que, nesta perspectiva que abriu caminho para o terror nazi e uma nova guerra mundial, o desprezo da verdade ainda era argumentado. Apresentavam-se razões delirantes, é verdade, mas ainda assim razões. 

O que se passa hoje em dia não tem a ver nem com o habitual uso estratégico da verdade e da mentira por parte das elites políticas, nem, tão pouco, com a produção de uma mitologia nacional e étnica que substitua a justificação racional das decisões políticas por justificações mitológicas. Para compreendermos a ideia de pós-verdade, teremos de olhar para aquela que tem sido a forma de actuação política mais eficaz do presidente eleito dos EUA, o Twitter. Um tweet não oferece razões, mas exprime vontade, desejos, emoções ou sentimentos. Num tweet não há lugar para argumentos. Quando se usam argumentos é porque se considera necessário justificar opções. Essas precisam de ser confirmadas na sua verosimilhança através do uso da razão argumentativa. 

Ao utilizar o tweet como instrumento de acção política fundamental, Donald Trump está a deslocar a acção política da esfera da justificação para a esfera da expressão. Já não se trata de argumentar para convencer um auditório. Trata-se antes de exprimir um sentimento que encontra uma reverberação, através de um processo de empatia, nas pessoas. A pós-verdade é a situação onde a razão argumentativa colapsou na vida política. Os eleitores - ou uma parte considerável deles - não quer saber de razões nem de argumentos, pois não está interessado em saber se aquilo que é dito se adequa à realidade. A retórica não os interessa. Querem a comunhão dos sentimentos e a identificação empática com o líder. 

Note-se, porém, que não estamos, como aconteceu com o nazismo e o fascismo, perante a substituição da argumentação racional por uma mitologia que provenha da unidade orgânico de um povo. Estamos apenas na esfera do sentimento e do afecto, do encontro de um indivíduo com outros indivíduos, que estão perdidos num deserto social que eliminou a própria dimensão do povo. Indivíduos que fazem parte de uma massa que não se configura como povo. A pós-verdade de que se fala representa o triunfo do sentimento sobre a razão. Representa a derrota das estratégias filosóficas, científicas e retóricas perante a explosão expressiva de uma emoção, que se condensa num grito, que é isso o que é um tweet. Às pessoas não interessa se um grito é verdadeiro ou falso. Importa-lhes se esse grito se identifica com o grito que recalcam na zona mais sombria do coração.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O longo braço da história

Paul Klee - Angelus Novus (1920)

Serenus Zeitblom, o narrador de Doutor Fausto, de Thomas Mann, quase no início do capítulo XXXIV, faz uma reflexão sobre a grande guerra de 1914-1918. Diz ele, um filólogo educado no mais estrito humanismo burguês, que tinha a sensação de ver o fim de uma era, que abrangia não só o século XIX, senão recuava até ao término da Idade Média, à ruptura dos entraves escolásticos, à emancipação do indivíduo, ao nascimento da liberdade. Thomas Mann tinha claramente a percepção da profundidade histórica, do longo braço da história. E este braço, cujos músculos nem sempre perdem vigor com o passar do tempo, antes pelo contrário, tem, muitas vezes, uma importância decisiva nos acontecimentos que nós vivemos no quotidiano e que a nossa ignorância, pressa e desatenção apenas nos permitem perceber os contornos que daquilo que nos afecta no momento, das dores do presente.

As querelas políticas que animam – e felizmente o fazem – o debate público na sociedade democrática, as opções dos vários quadrantes do jogo, as próprias avaliações que se vão fazendo, tudo isso assenta numa cegueira estrutural e numa desatenção à realidade mais funda que sustenta a vida vivida. A acção política – esse tricotar da história com as agulhas da paixão e o fio dos interesses – ocorre muitas vezes em terreno arenoso, pois, devido ao fulgor da actualidade, ela raramente tem consciência do longo braço da história, cuja força, sempre dissimulado, nos condiciona no presente. A ânsia dos que disputam o poder bem como a fé dos acólitos e a razão dos críticos sofrem, por sistema, dessa cegueira perante o apertado abraço com que a história envolve a actualidade.

Isto não significa que a consciência clara da existência de grandes condicionantes nascidas na história redima os agentes políticos das más opções ou que retire a glória que cabe às decisões benéficas para a comunidade. Significa apenas que todos – os agentes políticos, os acólitos e os avaliadores críticos da esfera pública – deverão ser um pouco mais cuidadosos no que pretendem, no fervor ideológico na defesa da sua seita e na escolha dos critérios com que se julgam homens e acções. A liberdade de acção, essa possibilidade de escolher caminhos perante os problemas com que uma comunidade se defronta, assenta as suas raízes num terreno, o passado, que, apesar da sua representação poder ser manipulada, é muito menos maleável do que aquilo que se gostaria. A cada momento e em cada decisão, quer o saibamos ou não, o longo braço da história não deixa de nos envolver e apertar, condicionando e limitando os nossos desejos e sonhos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Descrições fenomenológicas 18. O espelho

Ben Nicholson - Hielo - casi azul (1960)

A luz amarela dá uma tonalidade dourada às paredes brancas e cai desamparada pelo chão onde é acolhida por enormes lajes brancas e vermelhas, dispostos em mosaico. Um hall grande e inóspito, também de paredes brancas, com barra púrpura, abre-se, lateralmente, para o corredor. Na parede em frente das portas escancaradas do vestíbulo há um espelho, emoldurado em mogno, onde se reflecte o rosto de uma mulher, de cabelos castanhos, os ombros ocultos por um vestido verde seco e um decote largo que revela, e logo dissimula, a curvatura dos seios. Está parada, como se uma indecisão a tivesse tomado e a paralisasse, na linha onde o corredor e o hall se juntam, uma fronteira bem delineada, o símbolo que demarca o caminho que leva à rua, ao espaço público, e o que dá acesso ao mundo familiar, no qual se dissimula a intimidade e os dramas, se não a comédia, da vida privada. A mulher, vestida até aos pés, tem na mão esquerda um cigarro que vai libertando o fumo que se evola em direcção ao tecto. O espelho deixa ver um rosto ainda belo, mas já marcado pela idade. Nele insinua-se o cansaço da noite, anunciando que a beleza não é eterna. Atrás dela, caminhando em sentido contrário, um homem, vestido com um longo sobretudo cinzento, segura debaixo do braço direito uma pasta de couro. Dirige-se para a rua. Os cabelos grisalhos deixam perceber que é mais velho do que a mulher. As costas encurvadas menos pela idade do que pelas preocupações que afloram no rosto, onde uma barba branca e rasa acentua a sensação de velhice, parecem suportar um peso excessivo para qualquer ser humano. Ao cruzarem-se, olham-se e trocam um cumprimento rápido, quase imperceptível. Ela continua estática, fascinada pelo espelho, mas não é certo que seja o seu reflexo que ali vê. Ouve-se uma porta, a da rua, bater, sem violência, enquanto a cinza se desprende do cigarro e cai desamparada no chão. Ela move um pé, mas fica onde está. A luz vinda do corredor banha-a e projecta-lhe a sombra na madeira escura da porta. Lá fora, ouve-se o ruído de um carro posto a trabalhar e, de imediato, o deslizar suave das rodas no asfalto. O silêncio voltou à casa e ela leva o cigarro à boca sem deixar de fitar o espelho.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Cinza de Pedra - 12. Alvoroço de lama

Albert Bierstadt - Atardecer en la pradera (1870)

12. Alvoroço de lama

Alvoroço de lama
na rédea do calor.
Rosas de chuva
descem no
ventre do desejo
e o visco
turvo da tarde
anuncia o
cavalo da escuridão.

(Cinza de pedra, 1978)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A questão colonial


Estes últimos dias, devido à morte de Mário Soares, foram assombrados, como não o eram há muito, pela questão colonial com os episódios da descolonização e das independências a serem relembrados. Como é hábito, sempre que a questão colonial é levantada, uma parte daqueles que tiveram de regressar de África toma o fundador do PS como bode expiatório da situação. Digo bode expiatório porque, factualmente (embora quando se interpreta a realidade através dos sentimentos os factos contem para muito pouco), a sua responsabilização é delirante. Vale a pena, até porque muitos portugueses não fazem a mínima ideia do que se está a falar quando se fala de colónias, de guerra colonial, de retornados, de descolonização, etc., vale a pena, repito, sublinhar, por isso, alguns pontos.

1. Em 1974, Portugal vivia em guerra há treze anos, um conflito onde os soldados portugueses se tinham de distribuir por três frentes: Angola, Moçambique e Guiné Bissau. O país estava completamente isolado na cena internacional. O próprio Vaticano tinha uma posição desfavorável relativamente às pretensões portuguesas. Não havia solução militar nem, tão pouco, uma solução política disponível. A perspectiva da guerra se prolongar sem fim à vista era real, embora a situação na Guiné Bissau estivesse praticamente perdida. Em Moçambique e em Angola, a situação era menos dramática para o exército português, mas uma guerra de guerrilhas, como a que existia, pode ser combatida mas não ganha, ainda por cima quando os movimentos guerrilheiros têm reconhecimento internacional e o apoio sistemático das grandes potências da época, como era o caso.

2. O 25 de Abril foi feito por militares. Uma das suas finalidades – a principal, diga-se – foi pôr termo à guerra. Dito de uma forma clara, os oficiais que participaram no movimento não queriam continuar a combater. Ainda por cima, os oficiais milicianos – aqueles que eram militares por incorporação obrigatória, mas que não pertenciam à carreira militar – tinham um grande peso e uma clara consciência, formada nas lutas universitárias, da situação político-militar. Perceberam que a situação não tinha qualquer saída a não ser o derrube do regime.  Se alguém foi responsável próximo da descolonização esse alguém é o Movimento das Forças Armadas, isto é, os militares. Os políticos da oposição eram, claramente, anti-coloniais, mas os militares nem sequer lhes pediram opinião. E os militares envolvidos já vincaram isso múltiplas vezes. Foram eles que impuseram a descolonização. Eram eles que, na verdade, tinham o poder. Uma coisa curiosa na transformação de Mário Soares em bode expiatório é que os políticos da direita na época não mexeram um dedo para defender uma solução diferente. Todos eles ficaram aliviados com o fim da guerra e com o processo de descolonização tal como correu.

3. Os portugueses que viviam na chamada metrópole revoltaram-se contra os militares que fizeram o 25 de Abril? Não. Fizeram uma grande festa, mas foi mesmo uma grande festa. Festa pela liberdade, mas, fundamentalmente, porque perceberam de imediato que a guerra ia acabar. Os portugueses que viviam em Portugal estavam cansados da guerra, estavam cansados de ver os rapazes partir para combater e festejaram com exuberância a aproximação do fim. Também é verdade que a generalidade dos rapazes que estavam incorporados – e aqueles que sentiam o aproximar do tempo da incorporação – sentiram um grande alívio. Também eles quiseram de todo o coração a descolonização. A seguir aos oficiais revoltosos, os grandes responsáveis pela descolonização são os portugueses. Não queriam ir combater ou não queriam ver os filhos partir para combater. A generalidade dos portugueses não queria saber das colónias para nada.

4. Dado o 25 de Abril, feito para pôr fim à guerra, dado o facto que, de imediato, as tropas no terreno, na sua maioria, se recusaram a continuar a combater e passaram mesmo a confraternizar com o inimigo, seria possível uma solução diferente daquela que aconteceu? Podemos continuar a especular até ao fim dos tempos, mas para qualquer outra solução – e não se sabe lá muito bem qual seria – era preciso uma coisa, e essa coisa nunca é claramente dita: era preciso que a guerra continuasse, que os nossos soldados continuassem a partir para África e a morrer por lá. Isto é, era preciso que tudo continuasse na mesma. Este facto é sempre ocultado nas diatribes contra a descolonização. E é preciso ser muito claro nisto. Para que todas as pessoas que tiveram de sair de África à pressa continuassem lá, era necessário continuar a combater e a morrer em combate. Sejamos também claros: na chamada metrópole, estavam todos fartos.

5. Há responsáveis políticos? Há mas não são aqueles a quem são apontadas as culpas. No início das guerras coloniais, em princípio dos anos sessenta do século passado, o Dr. Salazar já tinha informação suficiente para perceber que os impérios coloniais tinham os dias contados. As grande potências coloniais foram obrigadas a abandonar as suas colónias e reconhecer-lhes as independências. Podia ter, naquele momento, tentado encontrar um caminho mais negociado, uma transição mais tranquila. Ele percebeu, porém, que a guerra era a forma dele próprio sobreviver, numa altura em que as ditaduras tinham passado de moda e a Europa ocidental, com uma ou outra excepção, se democratizara, após a segunda guerra mundial. Tinha também tido a experiência dolorosa de ver um generalizado apoio à candidatura de Humberto Delgado. Assim, Salazar preferiu a guerra e lançou uma ridícula campanha ideológica, a qual certamente foi agradável para quem vivia nas colónias portuguesas – então, províncias ultramarinas – e que, durante muito tempo, foi recebida pacificamente pelos portugueses que viviam no continente. Salazar e, depois, Caetano não quiseram enfrentar a realidade e conduziram o país para uma guerra sem solução, a não ser aquela que aconteceu. E isso prolongou-se de tal maneira que militares e cidadãos em geral se cansaram. Na década de sessenta talvez fosse possível uma solução mais sensata, embora essa solução teria de passar sempre por uma transição do poder para as maiorias negras e para as suas elites incipientes. Culpar Soares, os políticos democráticos, os militares de Abril pode consolar o ânimo – bodes expiatórios são sempre consoladores –, mas tem pouco a ver com a realidade e esconde, na verdade, a existência de pretensões insustentáveis, isto é, que a guerra continuasse, que as pessoas fossem combater e morrer, por uma coisa que, na verdade, lhes era completamente estranha.

Espero ainda escrever um outro post sobre dois aspectos ligados à questão colonial. A boa integração dos portugueses provenientes das ex-colónias e o papel positivo e dinâmico que tiveram no tecido social português.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A idade da ira

Oswaldo Guayasamín - Ira (1963-65)

A morte de Mário Soares tornou patente, devido à sua intensificação, um fenómeno com que nos deparamos no dia a dia. Há uma ira latente nas pessoas que se manifesta nas redes sociais e nas caixas de comentários dos órgãos de comunicação social online, ira essa que se mostra no insulto que se faz a coberto ou da distância ou do anonimato. E o caso Mário Soares nem é o mais sintomático, pois percebe-se que um conjunto de pessoas o ache culpado, apesar dessa culpabilização ser delirante, da expulsão do paraíso africano em que viviam. Ninguém gosta de ser expulso de um paraíso e precisa, para viver, de ter um bode expiatório. O problema, porém, é que este tipo de insultos, esta ira, não se dirige apenas a alguém que teve um papel político determinante na vida do país. O insulto é generalizado.

Qualquer artigo de opinião - seja escrito à direita ou à esquerda - dá lugar a uma série de comentários insultuosos ao seu autor e gera também uma disputa de grosserias entre os comentadores, numa lufa-lufa para ver quem consegue ser mais soez. E não se pense que isto se passa apenas na política. Se o assunto for o futebol, o padrão é exactamente o mesmo, muitas vezes ainda mais baixo, se tal for possível. Fora do futebol e da política, áreas de grandes paixões, o clima é mais ameno, mas só até certo ponto. Assim que um assunto, trivial que seja, gera conflito de opiniões, começam a chover insultos neste magnífico universo das redes sociais e das caixas de comentários.

Este fenómeno revela várias coisas. Em primeiro lugar, revela a tremenda falta de educação e de nobreza de atitude de muitos dos que se movem neste mundo digital. O insulto na ponta dos dedos ainda é mais fácil do que o insulto na ponta da língua. As redes sociais vieram tornar claro que este mundo não é habitado apenas por senhoras e cavalheiros, antes pelo contrário. Em segundo lugar, mostra também que a cultura do debate, da divergência de opinião, da tolerância de perspectivas diferentes, está longe, muito longe, de fazer parte dos nossos hábitos. Qualquer opinião divergente é sentida como uma ameaça pessoal, um perigo para a nossa identidade, o que desencadeia um chorrilho de impropérios e de insultos. Isto, porém e apesar da sua gravidade, não é o pior.

O pior é a degradação das práticas sociais que nos permitem viver uns com os outros de maneira civilizada e cordata. Tem-se a percepção de que, caso a situação social se desequilibre um pouco, o ódio que é veiculado nas redes sociais e nas caixas de comentários pode transbordar para a rua, para uma confrontação que ultrapasse as diferenças aceitáveis e os conflitos socialmente benéficos e permitidos. Aquilo que merece ser pensado é o grau de frustração social e pessoal que está por detrás de todos estes episódios, a diferença entre o que a realidade nos permite alcançar e aquilo que o desejo - um desejo continuamente atiçado e nunca possível de saciar - diz que cada um deve obter. A libertação do desejo - não foi o homem caracterizado como uma máquina desejante? - representa também a libertação da frustração, pois a realidade está muito longe de poder satisfazer esse desejo libertado. Daí um ódio cego e crescente a tudo o que é diferente de nós, a tudo o que frustra o nosso desejo. Daí que a idade do desejo libertado se transforma numa idade da ira.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Alma Pátria - 12: The Sheiks - Missing You



Para não se pensar que a Alma Pátria é apenas um repositório de canções românticas, nacional-conçonetismo e faduncho, aqui fica uma das primeiras bandas rock portuguesas que atingiu um reconhecimento nacional assinalável. The Sheiks, assim mesmo como The Beatles ou The Rolling Stones, foram formados em 1963. Em 1964 a banda estabiliza com a sua formação mais conhecida: Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Fernando Chaby e Edmundo Silva. Cantavam preferencialmente em inglês e tentavam integrar o movimento de música pop-rock que emergira no mundo anglo-saxónico. Vale, porém, a pena comparar os fatos e os cabelos dos nossos sheiks com os fatos e os cabelos que eram usados, no mesmo ano, por grupos como os referidos mais acima. Percebe-se muito bem o que Portugal era, nesses tempos, e como estava longe, tão longe, da Europa e do mundo ocidental. Os nossos jovens eram tão certinhos, tão certinhos (o respeitinho é muito bonito) e tão catitas. A canção Missing You é um êxito da banda datado de 1965, tem 52 anos ou quase. O tempo passa. 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Mário Soares

Júlio Pomar - Mário Soares (Presidente) (1992)

Em 1974 e 1975, eu não era propriamente um admirador do dr. Mário Soares. Com a idiotice inerente à minha idade, com as ilusões sobre a humanidade e o devir do mundo, com a profunda ignorância da política e da vida, eu militava pela revolução socialista, arvorava a bandeira do esquerdismo radical. Julgava que o socialismo, mas aquele socialismo puro e duro e verdadeiro, seria não só o futuro como a salvação do mundo. Não era nem uma coisa nem outra. De certa maneira, o dr. Mário Soares, a quem nunca vi pessoalmente, salvou-me de mim mesmo, ao contribuir de forma decisiva para o fim de um período onde essas ilusões floresciam. E poderiam ter crescido de tal maneira – Kissinger chegou a pensar que não seria mau que este pobre país se tornasse numa Albânia, para servir de vacina – que era real a possibilidade de o destino fazer com que o meu desejo de então se tornasse realidade. Mário Soares é o principal responsável – não o único, saliente-se – para que os meus sonhos de então, e os de uma parte substancial dessa juventude um pouco tresloucada e ébria de liberdade dos anos 70, não se tivessem tornado num enorme pesadelo, mesmo para aqueles que acalentavam tais sonhos. Quando percebi isso, e não demorei muito tempo a perceber, tornei-me um admirador de Soares.

Descobri, posteriormente, que a minha visão do mundo, conforme a formação ia crescendo e consolidando-se, tinha muitos pontos em comum com a do fundador do Partido Socialista. Em primeiro lugar, a questão da liberdade. Esta é a questão decisiva. Não impor a ninguém as próprias crenças e não ser incomodado por aquelas que se possui. Isto significa respeitar os outros, respeitar mesmo aquilo que se considera profundamente errado, desde que esse erro não elimine a liberdade e os direitos de terceiros. Este respeito é o fundamento da tolerância. E a tolerância foi uma das principais virtudes de Mário Soares. Não perseguiu as figuras do antigo regime, como não perseguiu, posto fim aos devaneios de 74 e 75, aqueles a quem derrotou. Tentou – e na verdade conseguiu – reconciliar os portugueses uns com os outros, mesmo que ele, Mário Soares, seja o bode expiatório onde uma franja, pequena mas activa, da população concentra o ódio, um ódio motivado ou pelo paraíso perdido ou pelo paraíso não conquistado. A sua eleição para Presidente da República foi fundamental para esse fim. Se, por acaso, Freitas do Amaral tem ganho, essa reconciliação teria sido impossível, não pelo carácter do fundador do CDS, mas pela falta de reconhecimento político por uma parte do país. Soares contribuiu não apenas para a liberdade, mas também para um clima de tolerância que ainda hoje vigora.

Há um terceiro aspecto em que me aproximei, desde os anos 70, da visão de Mário Soares. A necessidade do equilíbrio. As sociedades precisam de um certo equilíbrio político e social. Foi a procura desse equilíbrio que levou Soares a enfrentar, em 1975, a deriva esquerdizante da revolução. Foi esse equilíbrio que procurou nas suas presidências. Foi a procura desse equilíbrio que o levou a confrontar o anterior governo e o início da destruição do Estado social patrocinada por Passos Coelho e Paulo Portas sob o véu da intervenção da troika. Nem sempre as sociedades podem ser governadas pelo ideal do equilíbrio político e social, mas isso não significa que não nos devamos bater até ao fim pela busca desse meio termo aristotélico, onde se encontra aquilo a que os gregos chamavam a justa medida. Mário Soares foi, para além de um lutador pela liberdade e pela tolerância, um combatente pela justa medida, pelo equilíbrio, pelo reconhecimento de que todos devem ter um lugar na sociedade. Foi com esta arquitectura que ele construiu o resto. Errou? Claro, não era, e nem pretendia ser, um deus. Contudo, no que era essencial nunca se enganou.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Cinza de Pedra - 11. O teu corpo, lago

Frédéric Bazille - Reclining Nude (1864)

11. O teu corpo, lago

O teu corpo, lago
onde dorme
o navio da morte.

Um murmúrio
de aves e bosques
no cilício da montanha.

Trilho de musgo
aberto no silêncio
de lábios e degredos.

(Cinza de pedra, 1978)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Arthur Conan Doyle


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Será um mistério aquilo que faz com que uns sejam indiferentes à leitura e outros tenham nela uma fonte inesgotável de prazer. Talvez o prazer de ler tenha uma componente genética. Não faço ideia, mas é possível. No entanto, pode também resultar da deusa fortuna, da sorte de encontrar autores que despertem esse prazer quando se é muito novo. Se olhar para a minha história pessoal, descubro dois autores que tiveram uma importância fundamental na génese do meu gosto da leitura. Enid Blyton e Arthur Conan Doyle. Não, não comecei a ler precocemente os grandes clássicos do romance ou da poesia, muito menos os de filosofia. Na verdade, sou mais serôdio do que precoce. Deixo Enid Blyton para outra altura e volto-me para o médico escocês Arthur Conan Doyle, político meio falhado e espírita militante até ao fim da vida. O que lhe devo?

Devo-lhe, assim como milhões de outros leitores, o ter criado essa personagem fantástica que dá pelo nome de Sherlock Holmes. Devo-lhe ainda o prazer de ver a subtileza social britânica encenada nas relações entre Holmes e o dr. Watson. Descobrir as aventuras do singular detective na adolescência não significou apenas ter encontrada uma fonte de entretenimento, mas a abertura de mundos que estavam muito para além da pacata vida numa pequena vila de província de um país periférico, como era – e ainda é, infelizmente – Portugal. Os livros de Conan Doyle contribuíram mais para a formação do meu espírito, para a atracção pela filosofia e o respeito pela ciência, do que todos os professores que tive antes de chegar à universidade.

As aventuras de Sherlock Holmes, com o apreço dado à subtileza lógica e a atenção prestada ao papel da ciência na resolução dos mistérios criminais, não representaram apenas uma espécie de propedêutica ao amor do saber. Foram também uma escada de acesso à literatura e ao prazer de ler. Ler sem poder parar é uma experiência que nem todos têm e que nem todos os autores sabem proporcionar. Tive-a, embora não fosse já novidade, com os policiais de Conan Doyle. A partir dos seus livros descobri outros autores policiais e iniciei-me na grande literatura universal. Há muito tempo que não o leio, mas julgo que um dias destes voltarei a ele. Quem não as conhece – ou as conhece apenas de séries ou de filmes – não perderá tempo se pegar nas aventuras de Sherlock Holmes.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Livro do Êxodo - 40. Sem sombra como herança

Juan Vidales Pousa - sem título

Ninguém entra, ninguém sai. Fecharam a porta, a chave atirada para o entulho, o quintal o tem, e não há quem a descubra. Se viajares, indo vai, toma o caminho, os pés to darão, não voltes mesmo que claros fiquem os dias, embriagados de sol, a prometer êxtases e fogo-de-artifício, vai pelas rotas onde decapitados animais dormem, um céu de chumbo os cobre, essa é a tua senda. Sem flores pelos canteiros, sem pão nas veredas, apenas alguns segredos haverá na mão, palavras obscuras, uma sintaxe aos repelões, sinais na parede pintados, a cal esfacelada, as metáforas moribundas e um pântano onde flutuam restos de madeira, o caruncho os anima, flores em decomposição, violetas, rosas bravias, alguns lírios, jarros maculados, tudo isso murmura na tarde, conspira, tece breves armadilhas de algodão, cardumes de aves metálicas e peixes minerais em decomposição.

Olhei e vi a noite e o fogo estava de noite sobre ele, perante os olhos de toda a casa que, à luz da escuridão, se animava, ansiava caminhos, traçava rotas, desenhava, com mão firme e lápis de carvão, mapas de fronteiras fluidas e estradas em ruínas. Não havia pontes, as que de Roma ficaram, o tempo as levara, desfeitas em pedras, agora distribuídas casa a casa, paredes, muros, fronteiras onde a propriedade se reparte, alguém neles se senta e risca um fósforo, luz na noite, e fica a olhar as estrelas, a compor constelações, a inventar mundos de pedras cálidas e rios de enxofre, uma neblina azotada, rochas maculadas por zinabre, animais em combustão sobre as areias onde desagua um oceano sem barcos, sem peixes, apenas algumas gaivotas e dois corvos do mar, marinhos corvos eles o são.

Havia sacrifícios na acrópole, cristãos por feras no circo chacinados, a multidão berra barrabás, barrabás, o cordeiro será imolado. Atenas, Roma, Jerusalém, tudo se confunde neste mundo de águas roxas, universo de goivos incertos e areias movediças. Ao longe, na tristeza das tardes de domingo, depois da missa do meio-dia, se à missa foste, e do almoço, a memória é saqueada e fica ali em silêncio, sem devoções, caída na tentação do sono, por vezes do sexo, sem coragem para abrir um livro, ou deixar a cidade e para o campo caminhar, ver as searas de trigo, apanhar os chuviscos, a tarde sempre os traz, gritar os nomes de Deus e colher flores silvestres, o tempo as deu. Na memória, tudo se funde, Atenas, Roma, Jerusalém, quem mata a quem? Quem morre? Quem grita? Quem geme? Quem fere? Quem? Quem? Quem? Quem violou a memória e a despedaçou, a roubou aos dedos, lhe tirou o coração, lhe abriu um rombo no peito, e na face lhe pôs a dor e a pena? Quem?

Há um rio de música na fímbria dos dias, uma mão especada no silêncio da entrada, uma corda à espera da garganta, vermelha de inflamação, que se entrega como um hóspede ao cuidado da dona da casa. Há… Há… Há… Tudo neste mundo há, mas a porta está fechada, ninguém entra, ninguém sai, a chave perdida no entulho, a porteira despedida, pegou um táxi, levou a roupa, a comida, e com um gesto obsceno lavrou um destino, ali, naquele sítio, onde a memória tudo funde, atenas, roma, jerusalém, o caminho da índia, colombo, lisboa, antuérpia, paris, londres, tudo se confunde, se prende, se ata, e a chave tão perdida, e uma secura na garganta, uma dor no peito, a faca nas costas, tudo se funde na gruta dos chacais. Colecciono covis, junto dedais, escrevo palavras desconexas, não são cifras, nem sinais, nem punhos, apenas o ar da madrugada, veio um pouco mais cedo, e, ao longe, alguém que desconheço compõe calendários, mapas que não sei, o mundo me roubam, a casa, o quintal, as palavras de minha mãe, os seios das mulheres que amei, um livro, o jardim de goivos, eu caminho, caminho, pés estrada fora, sem meta por destino, sem sombra como herança. Caminho, o quarto vazio, a roupa rasgada, uma cortina caída, a janela escancarada…

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Ilusões perigosas

Pat Steir - Abstraction, Belief, Desire (1981)

O artigo do Público sobre dois filmes - um relativo à vida de Mário Cesariny de Vasconcelos e outro à de Cruzeiro Seixas (ler aqui) - refere um sonho recorrente deste último. É um sonho em que tenta desculpar-se perante o pai e acrescenta que "não foi o filho que este desejava". Este confronto do indivíduo com o fantasma do desejo do pai tem o condão, aliás há muito sublinhado pela psicanálise, de tornar patente os limites da racionalidade dos indivíduos e da sua autonomia. A crença liberal de que nós somos indivíduos que agem livre e racionalmente pressupõe a total transparência, perante a nossa mente, dos actos e das decisões que reputamos como nossos. Na verdade, o indivíduo absolutamente livre e racional é uma ficção. A nossa racionalidade não é uma pura luz. Ela é habitada por sombras e fantasmas, como se aprende com Cruzeiro Seixas, os quais limitam a liberdade e, muitas vezes, subjugam o indivíduo a necessidades que não controla. Isto não serve para afirmar que o homem é destituído de racionalidade e de livre-arbítrio. Serve apenas para limitar as nossas ilusões narcísicas, ilusões perigosas, as quais sustentam crenças que, muitas vezes, nos tornam incapazes de perceber o outro e de agir sem qualquer resquício de piedade e respeito.