quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Nocturnos 4

Charles Hewitt, Night Time Coffee, London, 1952
A cidade sonâmbula desliza por dentro da neblina, recolhe-se temerosa do bafo fétido da invernia. As cabines telefónicas estão vazias. Apenas uma mulher aguarda o café que lhe permitirá enfrentar o rugir cadenciado das trevas, as mais negras, as que habitam na cave sombria do seu coração.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Arte, público e política

Arménio Dias, Escultura de Pedro Cabrita Reis vandalizada, 2019 (aqui)

Pedro Cabrita Reis, em artigo de opinião no Público, expõe a sua posição perante a polémica que se gerou com a inauguração da sua obra A Linha do Mar, no concelho de Matosinhos. A polémica oscilou entre a questão política – deverão as entidades públicas, à revelia dos eleitores e contra o sentimento estético destes – encomendar obras de arte para o espaço público e a questão estética – saber se aquela obra é ou não uma obra de arte.

O que o autor faz é a afirmação plena do artista, numa autonomia radical perante o público, onde se incluem o mercado e outros agentes que volteiam em torno do mundo das artes plásticas. Arte é aquilo que o artista determina enquanto tal. Esta perspectiva é completada pela ideia de que a obra de arte começa no pensamento do artista ou, para citar o insuspeito Leonardo da Vinci quando se referia à pintura, é uma coisa mental. A arte reside na subjectividade do artista e a obra material é apenas a manifestação dessa concepção subjectiva.

A autonomização progressiva da arte a que se assistiu a partir do Renascimento desaguou no conflito, que se tornou manifesto no século XX, entre parte significativa da arte contemporânea e o gosto do público, que se sente impotente para se transferir para a mente do artista e compreender as operações mentais que geram obras que ele não compreende e, pior, sente como ofensa ao seu sentimento estético. Enquanto a arte se exibe apenas no ambiente climatizado das galerias privadas, o grande público encolhe os ombros, pois nada daquilo lhe diz respeito.

O problema emerge quando, como no caso de Leça, a obra de arte está no espaço público e foi adquirida com dinheiros públicos. Como muitos argumentaram, a obra foi paga com os impostos daqueles que nunca dariam um cêntimo por uma obra de Cabrita Reis, pois não a compreendem, sentem-se ofendidos no seu sentimento estético e na sua ideia do que deve ser uma obra de arte. Este conflito entre a autonomia do artista e o gosto do público não tem solução. A autonomia do artista e da arte são bens que os artistas preservam como tão importantes quanto a vida e não é crível que uma massiva educação escolar tenha poder de alterar radicalmente o gosto do público.

Curioso em tudo isto é o papel dos agentes políticos dentro desta tensão. A sua decisão de escolherem artistas que o público não gosta tem um resultado paradoxal. Transforma uma diferença de percepção do que é ou deve ser a arte num diferendo em que, como no caso de A Linha do Mar, o antagonismo ultrapassa em muito um mero desacordo. Basta ler muitos dos comentários para perceber o grau de rancor e ressentimento que envolve a apreciação do trabalho do escultor. A presença do político gera uma explosão.

Todavia, esta explosão, gerada pela presença do elemento político, tem uma função iluminadora e isso é o outro lado do paradoxo. O público incapaz de perceber a obra de arte é posto perante o facto desta obra. Ela está ali e está iluminada pela polémica. Vai ser obrigado a olhar para ela e começar a vê-la. Ela saiu do espaço da indiferença sombria para uma clareira de onde o olhar não se pode desviar. Sem dar por isso, o público é invadido pela obra e esta começa a trabalhá-lo, a educar-lhe o olhar através do hábito da presença. A imaginação, de forma secreta, estabelece relações inesperadas, o que era negativo e tenebroso transforma-se lentamente no seu contrário. A coisa conceptual gerada na mente do artista torna-se também numa coisa conceptual na mente do espectador. Sentidos começam a nascer, linhas hermenêuticas abrem uma brecha no sentimento estético e começam a iluminá-lo. E isto será o que se pode esperar de uma obra de arte.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Uma teocracia em apuros

Xaime Quessada, La Guerra, 1967
A imagem da república islâmica do Irão - uma teocracia no mundo moderno - não podia ter caído mais baixo do que caiu nos últimos dias. Não bastava já a humilhação de ver abatida uma das figuras mais importantes da estrutura política do país, numa acção de força marcadamente ilegal mas que ficará impune devido à impotência real do Irão perante os EUA, como a sua organização social e militar mostraram fragilidades insuportáveis. No funeral do general abatido, num clima de histeria política produto do acto americano e do discurso inflamado local, mais de cinquenta iranianos morreram esmagados pela turba. Depois, são os próprios iranianos que confundem um avião comercial com um míssil e o abatem, causando, para além das vítimas, muitas delas iranianas, um problema diplomático de não pequena monta. Esta imagem de impotência e fragilidade parece ser o oposto da inflamação dos discursos dos responsáveis em que a combinação da retórica política com a religiosa faz parecer que o Irão tem o poder de trazer o Apocalipse ao mundo ocidental. Enquanto isto, Israel sorri e ganha espaço para agir contra o Irão se tiver de o fazer para sua defesa. 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O discurso do rancor


Vivemos num país cordato e seguro, onde a violência é diminuta e o respeito pelos outros é significativo. Somos, ao mesmo tempo, medianamente ricos e medianamente pobres e, ao longo destes anos de democracia, temos sabido resolver os problemas com que nos deparámos. A nossa economia não é das mais brilhantes, mas também não é das piores. Não existem problemas com a presença de grandes comunidades estranhas à nossa cultura de base nem, tão pouco, nenhum perigo perceptível ameaça a independência e a liberdade da nação. Todos estes dados seriam suficientes para que nos fosse completamente estranho o discurso de rancor que existe nas redes sociais, que se propaga a grande velocidade, fazendo multiplicar as metástases da doença por todo o corpo social.

Esse rancor encontrou agora uma voz na Assembleia da República, voz que ameaça multiplicar-se. Pessoas que até aqui tinham mostrado posições políticas cordatas e razoáveis, onde imperava a tolerância com a diferença, estão a radicalizar-se, fazendo coro com os exploradores do ressentimento. Neste momento, a radicalização e o rancor vêm claramente da direita. Noutros tempos vieram da esquerda, embora nunca tivessem encontrado, nessa altura, a complacência social que existe neste momento para este tipo de discurso de ódio. Frequentar as redes sociais é uma lição sobre a erosão que a ideia de tolerância está a sofrer no nosso país. Esta radicalização social à direita – não nos partidos tradicionais da direita democrática, embora estes estejam já ameaçados por este clima – irá gerar, mais tarde ou mais cedo, idêntica radicalização social à esquerda.

Uma parte do país, ainda pequena mas em crescimento, parece apostada em criar um clima de ódio tal que poderá vir a pôr em perigo as instituições democráticas. O desejo de aniquilar o outro não é uma coisa que se diga apenas em surdina num grupo de amigos. Esse desejo é expresso todos os dias nas redes sociais, onde se multiplica como as células cancerosas no corpo de um paciente. Sabemos que entre fazer um comentário no facebook e passar à acção vai uma longa distância. No entanto, a banalização do discurso do ódio e do rancor social está a criar o clima que legitimará a acção violenta e, acima de tudo, a rejeição das instituições da democracia liberal. Muitas destas pessoas pretendem, a partir do discurso do rancor, abrir o caminho para tempos de cólera. Há gente que sonha com a violência como medida purificadora sabe-se lá de que pecados. Veremos se os nossos brandos costumes são suficientes para travar a raiva que parece haver por aí.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A Origem da Luz 5

Sam Francis, Around the Blues, 1957-1962

Como posso voltar a esta casa e não ver o fogo?
Sou as cinzas, o carvão do olhar no ocaso do dia.
Todas as ciências me interditaram o puro ver,
montanhas erguidas na dor dos meus olhos,
cansados, esquecidos na núbil noite dos ofícios.

Casa branca e fugaz, casa de cal no calor do Estio.
Casa de sombra onde vozes e mãos ecoam,
jogam o destino que em mim se joga. Esqueci-me
das silenciosas perguntas, das faúlhas a ranger
nesta terra azul, na pedra fatigada presa ao céu.

Os mortos não me enlouquecerão pela ausência.
Na Primavera, cabelos de neve traziam o pólen
e na água dos tanques nascia uma imagem.
Imaginando, o corpo crescia e a imagem,
um espelho de onde fujo para a noite a sangrar.

(1981)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Beatitudes (19) O ilimitado

John Gutmann, The Cry, 1939
Não haverá hora mais feliz do que aquela em que um obstáculo é fendido e uma mão acena para além daquilo que tolhe o homem. Quebrar o que limita, abrir-se ao ilimitado é o único caminho para a beatitude.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Nocturnos 3

Izis, Place de la Concorde, Paris, c. 1958
Uma aguarela sombria ou então a história de como a luz brilha nas trevas e estas não a reconhecem. A noite avança, lenta e incauta, em direcção ao dia, que se faz anunciar no artifício eléctrico. Os homens dormem pois temem tudo o que a escuridão torna secreto.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Descrições fenomenológicas 49. Um homem espera

Victor Vasarely, Serigraphie Originale. Avec une Etude de Imre Pan, 1960

A esquina do prédio assinala o cruzamento de duas ruas, daquelas que se encontram nas grandes cidades mas ao serem olhadas com demora lembram as das pequenas vilas de província, se não mesmo de algumas aldeias mais populosas, memórias que vêm agarradas aos corpos e às vidas que para ali foram transplantados. Nas paredes há cartazes anunciando toda a espécie de espectáculos. Teatro, circo, um combate de boxe, até uma representação da Manon Lescault. São assim as grandes cidades, onde em espaço tão próximo convivem espécies que ninguém se lembraria de sentar à mesma mesa. Voltada para a rua principal, existe uma farmácia, com a sua porta metálica e uma montra com produtos de beleza. Entram e saem pessoas com ar sofrido, silenciosas, pois a doença, sua ou de alguém próximo, precipita-as para um irremediável desconsolo, mesmo que o mal não seja mais que uma leve constipação, que o ponderado conselho do farmacêutico ajudará a debelar com brevidade. O trânsito passa indiferente e lento, lançando baforadas de fumo que se elevam, deixando um odor rançoso no ar. No passeio, exactamente na esquina do prédio, um homem especado espera. Tudo nele é anacrónico. O chapéu de abas bege com fita negra, o fato com colete, a gravata com um padrão que se terá usado há um século. A mão esquerda repousa no bolso das calças, enquanto a direita segura um cigarro, levando-o à boca para aspirar o fumo, que logo expele pelas narinas. Forma-se então uma pequena nuvem azulada pela luz. O homem olha fixamente para o fim da rua, indiferente aos clientes que entram e saem da farmácia. Quem ele espera, por certo, não precisará de medicamentos nem de conselhos sobre o estado de saúde. Por vezes, nota-se-lhe na face um rito de desapontamento, mas logo desaparece sob uma sombra de irritação, que acaba disfarçada por um sorriso paciente e uma bonomia jocosa. Parece saber que a espera será infrutífera, embora não possa deixar de se lhe entregar. Nunca é tentado a ver as horas no relógio de corrente adormecido num bolso do colete, como se a sua expectativa não fosse marcada pelo ritmo dos minutos e das horas, demasiado exíguo para assinalar o tempo que terá de aguardar. Quando o cigarro acaba, atira-o com indiferença para o chão, pisa-o com desdém e acende um novo com um fósforo retirado de uma pequena caixa de cartão. O olhar não se desprende do fim da rua, o corpo está grudado ao passeio. Da farmácia sai uma bela mulher, passa por ele, olha-o surpreendida e continua. Os olhos dele nem se movem presos à esperança daquilo que há-de vir do fim da rua e crescer para dentro do seu olhar nunca cansado de esperar.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

E se a democracia representativa acabar?

Juan Barjola, Multitud, 1990

A democracia representativa foi uma invenção genial. Com ela tinha-se o melhor de dois mundos. A possibilidade de todos participarem no processo político e uma barreira sólida, embora discreta, aos desmandos e delírios da massa. A democracia representativa foi inventada contra as pretensões irrazoáveis da massa. Não é perfeita, o seu formalismo pode ser, e tem sido, capturado por interesses particulares, mas nunca prometeu um paraíso na terra. É um regime cordato que tem permitido uma vida civilizada entre homens com ideias e paixões distintas. Agora que a revolução digital está a dinamitar a democracia representativa e a abrir caminho para uma nova forma de democracia fundada no gosto e arbítrio da massa, no seu rancor ao outro, começa a justificar-se toda a desconfiança com que a democracia foi olhada desde Platão. O gosto da massa, os seus instintos mais rudes, a sua incompreensão por aquilo que é mais elevado, o ódio e ressentimento ao que não compreende são o caminho que, não sendo atalhado, destruirá o que ainda há de nobre na democracia representativa, podendo abrir a via para um totalitarismo que, devido ao desenvolvimento tecnológico, fará dos totalitarismos do século XX uma brincadeira de crianças.

domingo, 29 de dezembro de 2019

A Origem da Luz 4

Zao Wou-Ki, 10-2-76

O tempo em que voltavas com os teus mostruários,
pequenos faróis vermelhos, ébrios de tanto caminhar.
Sonolentas bicicletas iam e vinham, cerziam a aldeia
de lés-a-lés, como se um deus infrutífero descesse e
poisasse insensato na calma placidez dos dias.

Aqui, destas janelas, avistei o insuspeitado mundo
e nada era puro ou mácula alguma habitava
o regaço das mulheres. As coisas eram o enorme
incêndio de serem apenas coisas, pedaços terríveis
na sujeição ao tempo, o feroz tribunal sem lei.

Eras a presença tutelar, o meu respeito,
caminho de argila e calcário a abrir-me ao mundo.
Trazias-me as cores e um dever ser, o crime jamais
alguém o pagará. Pedra a pedra o universo cresceu e
sobre mim desabou. Nele um deus infrutífero nascia.

(1981)

sábado, 28 de dezembro de 2019

Dos milagres em educação

Pablo Picasso, Head of the Medical Student, 1907

Fiquei espantado, mas há pouco descobri que nos colégios católicos não se acredita em milagres. Estive a ler a ficha de avaliação de uma aluna dum desses colégios e, para espanto meu, a única coisa em que acreditam é que ela deve trabalhar mais, ser mais organizada, dedicar-se mais. Portanto, se os alunos nesses colégios quiserem ter boas avaliações a única coisa a fazer é esforçarem-se e não esperar pela intervenção graciosa do Espírito Santo. Uma ficha daquelas no ensino público gerava uma revolta parental. Nos colégios privados – bons, pois também há dos outros – os pais pagam e não protestam, não culpam os professores por aquilo que os filhos não fazem. Num colégio privado diz-se aquilo que o aluno tem de fazer, na escola pública – onde, apesar de ser laica, se acredita muito em milagres – aquilo que se indica é o que os professores têm de fazer para que os alunos cheguem ao sucesso, mesmo que estes não queiram fazer absolutamente nada. Quanto a milagres estamos conversados. Os católicos, quando se trata de educação, não acreditam neles, mas os republicanos laicos e socialistas vivem num mundo povoado de milagres.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Dizer não

Johan Hagemeyer, Wires, 1928
Também a orientação dos sonhos que guiam a humanidade é tocada pela volubilidade, ainda que isso não seja sempre aparente. Durante muito tempo sonhou-se em ligar toda a humanidade. Estabelecer contacto era um imperativo moral. A partir de certa altura estenderam-se por toda a Terra milhões de quilómetros de cabos com a esperança que, cingidos os homens pela força do cobre, estes comunicassem e, na hipótese mais favorável, se entendessem. A imaginação, todavia, nunca descansa e, agora que toda a gente parece estar enredada numa teia global, sonha em desligar, cortar a comunicação, serrar os cabos vistos como amarras que prendem as pessoas, numa comunhão que parece estar a tornar-se insuportável. O trabalho da imaginação não começa por ser um reproduzir da realidade nem, tão pouco, criar um esquema que produzirá o que é novo. O primeiro balbucio é quase sempre um dizer não.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Nocturnos 2

Izis, Trafalgar Square, London, UK, 1950

Quantas vezes a noite começa com uma promessa e acaba com uma desilusão. Sábio é aquele que nunca deixa que a ilusão se desfaça e que a realidade invada a noite com os holofotes do meio-dia, que a tudo iluminam e a tudo destroem.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Iluminações de Natal


De todas as coisas que chocam com o espírito de Natal a menor delas não será as iluminações natalícias. Começaram nos grandes centros urbanos e espalharam-se paulatinamente por todo o lado. Com a sua democratização, grandes e pequenas cidades transformaram o Natal numa espécie de Carnaval, muitas vezes de péssimo gosto. As iluminações fazem parte de uma estratégia – gerada espontaneamente ou pela mão invisível do mercado – cujo resultado é rasurar tudo aquilo que é central no Natal dos cristãos, o mistério de Deus que se faz homem num estábulo de Belém.

A degradação do Natal tem uma origem curiosa. A racionalização do mistério da encarnação, a leitura literal da história narrada no evangelho de Lucas, a transformação do cristianismo numa moral social, agora em conflito com outras morais sociais, todas estas coisas fizeram do Natal não um acontecimento a ser vivido por cada um mas uma data comemorativa, uma espécie de feriado cívico de âmbito civilizacional. Comemora-se o Natal no mundo cristão como se comemora a tomada da Bastilha em França, o 4 de Julho nos EUA ou o 25 de Abril em Portugal. Uma grande festa, um momento feérico e uma orgia de consumo, tudo às avessas da história narrada pelo evangelista.

A modernidade, o espírito das Luzes, o triunfo da ciência e da economia de mercado são factores que contribuíram para o desencantamento do mundo, para a perda de sentido tanto dos mitos como dos mistérios religiosos. O cristianismo era, na sua origem, uma religião mistérica, um programa existencial para que cada homem se transformasse em Cristo. Tudo isto se tornou, há muito, radicalmente estranho a todos nós ocidentais, sejamos ateus, agnósticos ou crentes. Mesmo numa época como a nossa em que a irracionalidade das crenças e dos comportamentos cresce rapidamente, em que as próprias Luzes parecem querer apagar-se, o mistério da encarnação perdeu o sentido, tornando-se o Natal num exercício fastidioso de compras, encontros e desencontros.

As iluminações natalícias são o sintoma de que o Natal está morto no mundo ocidental. A luz de Belém foi substituída pelo néon que anima o espírito duma época que fez da compra e da venda a razão suprema e o sentido último da vida dos homens. Ao perder-se a substância do acontecimento, ao ficar-nos vedada a capacidade de compreensão dos símbolos que se manifestam no Advento, resta-nos fingir uma grande alegria embrulhada em presentes, almoços e jantares e nessas iluminações que deixam em nós um desconsolo irreparável. Um bom Natal.

[A minha crónica natalícia em A Barca]

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Serviços públicos, superavit, sistemas eleitorais e vergonha


DEGRADAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS. Existe a ideia de que a degradação dos serviços públicos se resolveria com uma melhor gestão. Qualquer partido a defende desde que esteja na oposição. O problema, porém, é outro, a falta de dinheiro. As políticas de restrição orçamental não terminaram com a saída da troika e o fim do governo de Passos Coelho. Continuaram na legislatura seguinte, baseada numa coligação parlamentar das esquerdas, e continuam agora. A razão é muito simples. A dívida é enorme, os nossos parceiros europeus nem querem ouvir falar na sua reestruturação e o país continua a precisar de ter juros muito baixos. O resto faz parte do combate partidário.

SUPERAVIT ORÇAMENTAL. Consta que o governo, no orçamento para o próximo ano, se propõe alcançar um saldo orçamental positivo. A acontecer será a primeira vez nos últimos 50 anos, o que inclui governos da própria ditadura com saldo negativo. Há quem veja o acontecimento como negativo e ache que o dinheiro deveria ser gasto, continuando o país a endividar-se. No entanto, tem que chegar um momento em que a comunidade – e o Estado é a comunidade organizada para tomar decisões sobre a vida comum – tem de olhar para a realidade e viver com o que tem. Aquilo que foi iniciado no governo PSD-CDS e continuado na anterior legislatura deve prosseguir. As contas em ordem tornam o país mais forte e protegem as pessoas das visitas indesejáveis das troikas.

UM SISTEMA ELEITORAL A EVITAR. As eleições em Inglaterra confirmaram a legitimidade de Boris Johnson e dos resultados do referendo que conduz à saída da Inglaterra do projecto Europeu. O curioso é que esta vitória se dá quando o número de votantes dos partidos pró-brexit é menor do que o número de votantes nos partidos pró-UE. Como se explica isto? Pelo sistema eleitoral inglês, o qual distorce acentuadamente a representação proporcional. O Partido Conservador obteve 43% dos votos mas alcançou 56% dos deputados.

O PROBLEMA DA VERGONHA. Portugal não tem uma comunidade muçulmana significativa nem existe um qualquer problema que ponha em causa a integridade nacional como em Espanha. Estas são as grandes razões que têm feito crescer a direita populista na Europa. André Ventura, retirando alguma animosidade com a comunidade cigana e um coro de ressentidos, precisa de inventar um eleitorado. A estratégia é a indignação e a vitimização. Ferro Rodrigues caiu na esparrela. Os democratas – em particular os de esquerda – devem ponderar bem o modo como enfrentam quem não perderá qualquer minudência para fazer um drama de faca e alguidar. É um problema de luta pelo mercado eleitoral.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]