domingo, 26 de fevereiro de 2017

O Rumor das Ruas - 5. No linho do lençol

Jean François Millet - Nu reclinado

5. No linho do lençol

No linho do lençol,
máculas de mágoa.
Estrelas abertas
na erva do corpo,
temor e trégua
onde temida
te ergues e deitas.

(O Rumor das Ruas, 1978)

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Camadas sedimentares

Mateo Vilagrasa - Libro III. Sedimentos (1993)

Ler os jornais, dar uma volta pelas redes sociais, ver e ouvir a informação. Tudo isso nos dá sempre a impressão de que cada coisa que acontece na vida social é de tal maneira importante que se estão a viver momentos que o tempo jamais apagará. Na verdade, tudo isto não resistirá à voragem dos dias. A maior parte dos acontecimentos que excitam as opiniões terão sido tragados dentro de semanas. O resto terá sido esquecido em breves meses. Estes acontecimentos que povoam os sonhos e os pesadelos da esfera pública dão materiais de tão má qualidade que a erosão os dissolverá rapidamente. Haverá, talvez no espaço de uma década, um ou outro evento que, apesar da erosão, restará como sedimento amalgamado numa camada que com o tempo será coberta e recoberta de outras camadas com outros sedimentos. Servirão essas camadas para quê? Servirão como chão que aqueles que virão muito depois de nós pisarão sem terem a menor ideia do que estão a pisar.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Silêncio

João Queiroz - Desenho a carvão

O silêncio é, por norma, compreendido negativamente. Abstenção da fala ou ausência de barulho. Este entendimento do silêncio legitima a obsessão pelo ruído. Toda a sociedade está construída para que os seres humanos não sejam confrontados com o silêncio. Não só os indivíduos não suportam estar perante a ausência de comunicação, de música ou do mero bulício, como a própria sociedade se estrutura para que eles não tenham que ser colocados em tal situação. A modernidade foi não apenas a emancipação do mito, essa explicação infantil do mundo, segundo os modernos. Foi também a emancipação do silêncio. O que haverá neste de tão ameaçador e insuportável?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Irmãs da Terra


Notícias como esta (a descoberta de sete planetas idênticos à Terra, dos quais seis poderão ter condições para a existência de vida) deixam-me sempre dividido. A aventura da ciência e o engenho humano são sempre surpreendentes. Como surpreendente é este sistema planetário. Com tantas possibilidades de vida, oferece um panorama muito mais interessante do que o nosso. Imaginemos seis - ou mesmo três - planetas próximos uns dos outros, habitados por seres com uma racionalidade idêntica à nossa. A possibilidade de conflitos interplanetários, com interlúdios para campeonatos de futebol também interplanetários, tornaria a existência muito mais excitante. Por outro, pensar que aqui mesmo ao lado (40 anos-luz) poderão existir seis réplicas daquilo que se passa no nosso pobre planeta parece-me, tendo em conta a experiência terrestre, mais motivo para melancolia do que para grandes comemorações. Seis ou sete irmãs da Terra mais do que um sonho é um pesadelo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Alma Pátria - 17: João Maria Tudella - Kanimambo



Um novo retrato de Portugal dos anos cinquenta e sessenta. João Maria Tudella nasce em Moçambique e é um cantor de síntese entre a cultura social vigente no Portugal metropolitano e a cultura dos portugueses presentes na então colónia portuguesa. Muitas das suas canções têm por tema Moçambique, as suas cidades e regiões. Kanimambo é o primeiro grande êxito do cantor, um êxito de 1959, mas que passou assiduamente na rádio durante muitos e muitos anos. O tempo, naquela época, passava mais lentamente e as coisas tinham a tendência para a demora. Parece que ainda não tinha sido descoberta a urgência. E sem esta, as coisas vinham para ficar. E algumas delas ficaram muito tempo. Seja como for, ouvir João Maria Tudella pode ajudar a compreender esse território estranho que é o passado. Ah, em 1959 ainda não tinham começado as guerras coloniais e tudo, apesar de um ou outro percalço, parecia dormir na paz do Senhor ou do senhor, o de Santa Comba.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Rumor das Ruas - 4. A música da manhã

Caspar David Friedrich - Easter Mornig (1833)

4. A música da manhã

A música da manhã,
e tudo se abre
no cristal da claridade.
A dor do desejo,
a lava da melancolia,
o murmúrio da morte
inscrito nas folhas
ardentes das aspidistras.

(O Rumor das Ruas, 1978)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O mundo como enigma

Mark Tobey - World (1959)

Veio ter comigo outra ideia: o que é preciso investigar. 
O mundo como grande texto enigmático.
(Herberto Helder, Photomaton & Vox)


A ideia do mundo como um texto enigmático, referida por Herberto Helder, merece que se pense nela. O maior dos equívocos seria supor que um qualquer empreendimento científico nos poderia abrir o caminho para despedirmos o enigma em que o mundo, para nós, se constitui. Por muito que se esforce a ciência para elucidar o funcionamento das coisas, sejam os objectos naturais, as realidade humanas ou as relações sociais, o enigma mantém-se na sua integridade e na sua integralidade. O enigma do mundo não decresce pela descoberta da lei gravidade, das teorias da relatividade, da descodificação do ADN, da explicação das razões do comportamento humano. Um olhar atento pode mesmo afirmar o contrário. Quanto maior a luz que a ciência projecta sobre o mundo, mais enigmático este se torna. Se isto é assim com os textos científicos, ainda o é mais se considerarmos a opinião que se produz sobre os acontecimentos sociais e políticos. Este tipo de discurso - que também eu pratico - é radicalmente incapaz de deitar alguma luz sobre o que quer que seja. Fica pela superfície e nunca consegue sequer aflorar o enigma que se esconde numa acontecimento social ou numa conjuntura política. Nessas textualidades, falam os interesses e as paixões, mesmo que os textos se apresentem racionais. O enigma, porém, escapa-nos. Felizmente, pois devolve-nos à nossa realidade, também ela enigmática, de seres finitos e limitados. Resta a poesia, mas ela tem o condão de falar enigmaticamente sobre enigmas.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Entardecer de domingo

Edvard Munch - Evening on Karl Johan (1892)

Não há nada como o entardecer de domingo para que nasça, dentro de mim, aquilo que pomposamente se poderia chamar angústia metafísica. Os fins-de-semana são uma espécie de ilusão. Deixem, por breves instantes, entrever um possível paraíso na terra. Depois, chega o domingo e a tarde de domingo com a sua grande anunciação: a realidade não se compadece com paraísos na terra. E tudo o que é inútil e insensato estará aí à tua espera, mal toque o despertador.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Graças à geringonça


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Os recentes elogios da Comissão Europeia ao desempenho de Portugal representam, por pouco que parte da esquerda goste ou não, uma vitória dessa mesma esquerda. De toda a esquerda portuguesa. Quando António Costa, perante os resultados eleitorais, decidiu formar governo com apoio parlamentar do BE, do PCP e do PEV toda a gente ainda está lembrada da tentativa de fronda lançada pela direita, fronda essa que estaria legitimada num conjunto de profecias que anunciavam que o novo governo não duraria seis meses, que o défice iria disparar e que o país estaria à beira do apocalipse. Apesar da situação continuar muito difícil – devido aos problemas da banca e da dívida – a verdade é que o país ganhou bastante com a actual solução política.

E ganhou – fundamentalmente, mas não só – no domínio político. Para perceber o que ganhámos é necessário pensar o que teria sido a outra solução possível. O que poderia acontecer se PSD e CDS tivessem formado governo com a cumplicidade – através da abstenção – do PS? Duas coisas seriam bastante verosímeis. Em primeiro lugar, uma muito maior instabilidade política derivada à falta de apoio da direita no parlamento, o que traria enormes problemas ao nível económico e financeiro. Em segundo lugar, cada vez que o PS se abstivesse para segurar o governo de direita, o BE e PCP – fundamentalmente, o BE – iriam buscar-lhe uma fatia do eleitorado. Os socialistas estavam em vias de serem trucidados, tal como aconteceu na Grécia e em Espanha. A solução de António Costa não lhe salvou apenas a ele a carreira política. Salvou o próprio PS e segurou a democracia portuguesa dentro da moderação e do equilíbrio.

Ganhou-se ainda mais. Os portugueses perceberam que tanto o BE como o PCP+PEV são parte da solução para o país e não representam qualquer ameaça para as instituições. Não existe esquerda radical no parlamento. Esta solução, cujo mérito deve ser distribuído por todos, tornou a democracia portuguesa mais sólida, porque lhe dá mais alternativas viáveis. Por outro lado, Portugal foi poupado a devaneios como os do Syriza na Grécia e impasses como os provocados pelo Podemos em Espanha. Poder-se-á dizer que tivemos sorte, pois as esquerdas tiveram o ensinamento prévio dos acontecimentos da Grécia e de Espanha. É verdade, mas as esquerdas também souberam ler esses acontecimentos e aprender com eles. Hoje somos um país mais moderado, mais sensato e equilibrado do que éramos no tempo do anterior governo e do que seríamos com um governo minoritário de direita. Graças à geringonça. Não é pouco.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Antropometrias

Yves Klein - Antropometrías (1960)

O princípio da gritaria: o homem é a medida de todas as coisas (Protágoras). Como cada um usa a medida que lhe interessa, o mundo é uma imensa cacofonia. É o problema das antropometrias.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O Rumor das Ruas - 3. Um fruto de sombra

Julia Hidalgo Quejo - Conversación galante (1999)

3. Um fruto de sombra

Um fruto de sombra
solta-se
e anoitece
se cai da tua
na minha boca.

(O Rumor das Ruas, 1978)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Centeno e a política


A situação de Mário Centeno - os ataques que a oposição lhe dirige devido à questão da alegada promessa feita aos ex-gestores da CGD sobre a isenção de entrega da declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional - torna evidente o que está em jogo na política. Se olharmos o desempenho do ministro parece claro que foi um óptimo desempenho, um dos melhores desempenhos no cargo desde há muito. Em política, porém, não é a qualidade do desempenho ou o interesse colectivo que está em jogo, mas pura e simplesmente o poder. O resto é instrumental, serve apenas para conquistar ou manter o poder,

Do ponto de vista das finanças, os últimos dias são um grande triunfo para Mário Centeno e, no entanto, ele encontra-se completamente fragilizado. A oposição, perante a completa derrota das suas previsões catastrofistas, pegou no que tinha à mão, o obscuro assunto da contratação de António Domingues e da sua equipa para a CGD, e, como é natural, não vai largar o assunto enquanto imaginar que isso desgasta o governo. Em tudo o que estamos a assistir só uma coisa está em jogo: a manutenção ou a conquista do poder. E sejamos claros: se fosse ao contrário, a esquerda faria exactamente a mesma coisa.

Para nós cidadãos, este tipo de atitude das oposições é mau? Não. É o papel da oposição e este papel é, na ânsia de chegar ao poder, o de limitar o poder de quem governa. Este papel lembra, a cada momento, que a governação deve obedecer à lei e que todos os seus actos estão sob escrutínio público. Por outro lado, este caso mostra que a política não é para ingénuos. Por norma, são trucidados por desconhecimento real das regras explícitas e, ainda mais importantes, das regras implícitas do jogo. É possível que Mário Centeno seja imolado no processo. Caso isso aconteça, o governo e o país perderão um bom ministro? Claro que sim. Para a oposição o facto de Mário Centeno ser um excelente ministro é uma razão para que ele seja derrubado. Parece imoral? Parece, mas o problema não está aí. A política não trata da moral, mas do poder. São essas as regras do jogo e o jogo não admite condescendências. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Alma Pátria - 16: José Viana - Fado do Cacilheiro



José Viana não era propriamente falando um fadista. Foi um homem de teatro, de um teatro que terminou pouco depois de o regime salazarista se ter finado, o teatro de revista. Este fado é uma das imagens de marca desse teatro e o principal título de glória do artista. O teatro de revista, uma manifestação eminentemente lisboeta, era uma espécie de oposição tolerada ao regime, apesar da censura feroz que se abatia sobre os gracejos mais ou menos brejeiros que os números de revista continham. As piadas políticas, não passavam disso, eram indirectas, leves alusões que o público compreendia e das quais ria. Mas só rimos daquilo que toleramos e o regime sabia disso. Se permitia algumas gargalhadas sobre a sua idiossincrasia, era porque isso não o punha em causa, pelo contrário. Servia como escape das tensões ocultas que atravessavam a sociedade. Por muito que isto possa chocar as leituras do teatro de revista como forma de oposição ao salazarismo, a verdade é que ele se inseria no Zeitgeist e o reforçava. Apesar de múltiplas tentativas de reanimação, não resistiu à democracia e à modernização do país trazida pelo espírito europeu e pelo cosmopolitismo.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Adão e Eva

Yasuo Kuniyoshi - Adam and Eve (1922)

A invenção de um Adão e de uma Eva paradisíacos não serviu apenas para explicar e justificar a lastimável vida que cabe aos homens viver. Deu-nos também a ocasião para a má consciência, a imagem do que deveríamos ser e, por culpa própria, nunca somos.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Descrições fenomenológicas 20. Noite de luar

Leopoldo Novoa - Brun a deux reliefs (1970)

Uma sombra projecta-se na casa, talvez uma velha cabana de floresta, numa parede de madeira castanha, onde desponta uma janela de caixilhos brancos, de duas folhas, compostas por três rectângulos de vidro, que permitem, devido à ausência de cortinas ou de portadas, se alguém tiver curiosidade para tal, ver o interior. Presa ao tecto por um fio esbranquiçado e sujo, uma lâmpada, recoberta com um globo, solta uma luminosidade amarelada e triste, tingida de pétalas secas e saudades apaziguadas. Ilumina os vultos que, por vezes, se cruzam com ostensiva lentidão, sem se olharem ou trocarem palavra, para desaparecerem e deixarem ver a parede da casa. Na rua, o vento recrudesce instante a instante, dobra as flores escassas do jardim, e parece querer empurrar a casa para longe, como se, exaltado e impaciente, a não pudesse suportar, obstáculo à sua fúria de pássaro nocturno, à grande cavalgada a que se entrega, sob o império enluarado da noite, desde as grandes montanhas do norte até às águas frias do oceano. Vestida de preto, da cabeça aos pés, uma mulher está perfilada mesmo em frente ao portão de madeira, que dá acesso ao jardim. O luar oferece ao espectador acidental o rosto da mulher, um rosto branco, de lábios rosados, enrugados pelo frio. Nele não há medo nem expectativa. Pressente-se, pelo piscar de olhos, o incómodo trazido pelo vento, mas apenas isso. Inexpressivo, parece desafiar a lua, para se deixar envolver na sua luz, enquanto o corpo, protegido pela roupa, se mantém hirto, instigando, com ousadia, o vendaval. Uma madeixa de cabelos desprende-se do lenço e esvoaça caprichosa. A mulher, de mãos nos bolsos do grande casaco, olha o astro iluminado e, para além dele, o vento e a noite de onde este se desprende e lhe rouba a sombra para a projectar, não sem violência e mistério, na parede da casa que ela recusa olhar. Uma nuvem esconde agora a luz e a noite cresce em negrume, enquanto a sombra na parede empalidece e se esvai. Por instantes. A lua logo volta exuberante, ajudada pelo cântico do vento, iluminando aquele rosto branco e hirto, para devolver à parede a sombra negra que se projecta daquela mulher petrificada neste lugar cujo nome já ninguém recorda.