segunda-feira, 13 de julho de 2020

Descrições fenomenológicas 53. Os vigilantes

Carlos de Paz, Con pensamientos abollados II, 2001

No topo de um arranha-céus quatro homens caminham de um lado para outro. O passo é marcial, apesar de vestirem fato e gravata. As sombras projectam-se ora para a frente, ora para trás. Eles vão de uma ponta a outra e retornam. Por vezes, param e chegam-se ao muro que impede a queda no abismo. Olham demoradamente o fluir do trânsito na avenida, o movimento da multidão que se apressa nos passeios, os eléctricos, carregados de gente, a equilibrarem-se sobre os carris. Depois pegam em binóculos e percorrem as fachadas dos prédios, o topo dos edifícios, demorando-se numa janela, numa entrada, numa varanda. Trocam palavras breves e voltam ao passo marcial, de uma ponta a outra. Fazem-no em silêncio, observando a sombra quando ela cresce diante deles, olhando o céu quando a sombra fica para trás. Por vezes, um helicóptero rasga o murmúrio da cidade e poisa noutro prédio. De lá saem agentes fardados, dão uma corrida e são engolidos por uma porta. Então, o helicóptero ergue-se nos ares, a hélice a rodopiar, um barulho ensurdecedor e desaparece. Lá em baixo, a multidão move-se como uma centopeia e os carros, vistos de cima, parecem carreiros de formigas. No céu, não há nuvens para ofuscar o sol. Na terra, a rotina dirige o destino das pessoas. No alto de um arranha-céus, quatro homens andam de um lado para o outro, marcham como se fossem militares e vigiam o mundo atentos para que a rotina continue imperturbada e tudo se passe como nada se passasse.

sábado, 11 de julho de 2020

Anthony Doerr, Toda a luz que não podemos ver


O romance de Anthony Doerr, Toda a luz que não podemos ver, foi publicado em Maio de 2014 e ganhou o Prémio Pulitzer para ficção, no ano de 2015, bem como a Andrew Carnegie Medal for Excellence in Fiction. A edição portuguesa é também de 2015. O cenário temporal onde se desenvolve a acção romanesca é o da segunda guerra mundial e as duas personagens centrais, Marie-Laure LeBlanc, uma rapariga francesa, e Werner Pfennig, um rapaz alemão, são marcados, cada um deles, por uma perda fundamental. Devido a um problema de cataratas, ela cegou aos seis anos. Ele, por seu turno, é órfão e vive num orfanato. A obra combina as características de diversos géneros literários. É ao mesmo tempo um Bildungsroman (um romance de formação), um romance sobre a segunda guerra mundial, um romance de aventuras e ainda uma meditação sobre o destino, a liberdade e o condicionamento que a realidade envolvente coloca aos seres humanos.

De todas estes aspectos, o mais dispensável, na trama romanesca, é o de romance de aventuras. Essa faceta decorre à volta de um diamante que possui uma maldição. O importante é a escolha de uma cega e de um órfão, jovens durante o tempo dos acontecimentos, para protagonistas. A sua condição é a de estarem afectados por uma perda que condiciona a sua existência e lhes diminui a liberdade, ao ponto de terem a sensação de não a possuírem. Esta condição de perda presente nos protagonistas é o contraponto de um mundo também em perda devido à segunda guerra mundial e à erosão de valores gerada tanto pelo regime totalitário nazi como pelas próprias circunstâncias do conflito, no qual os limites da decência humana são ultrapassados com excessiva facilidade.

Marie-Laure LeBlanc e Werner Pfennig têm de enfrentar, no processo de formação, os seus condicionamentos. Como poderá ela orientar-se num mundo construído sob o efeito da luz, um mundo visual? Como poderá ele, sem família, recolhido num orfanato, condenado a ter ir trabalhar para mina de carvão aos 15 anos, realizar o seu sonho de ser cientista, fugir à escuridão da mina e deixar-se guiar pela luz da ciência? A questão central é se esses condicionamentos possuem uma natureza rigidamente determinada, se são uma consequência inexorável vinda do passado, ou se há a possibilidade de lhes fugir por actos de liberdade. O que se coloca a ambos os jovens não é o mero problema teórico de possuírem livre-arbítrio, mas o que fazer com ele, caso admitam que o possuem. O que fazer nos momentos mais difíceis, como aqueles que se passam Saint-Malo, cidade à qual a guerra os conduz? Ela chegou ali vinda de Paris para fugir com o pai da ocupação alemã, ele integrado no exército invasor com a missão de detectar um posto clandestino de rádio que dava informações cifradas aos aliados, e que funcionava, precisamente, na casa do tio-avô de Marie-Laure e aonde ela vivia.

O romance, ao desenvolver este questionamento sobre a liberdade no processo de formação de ambos, deixa compreender, ao mesmo tempo, algumas facetas da segunda guerra mundial. A obra de Doerr torna manifesto o grau de adesão mística dos jovens ao nazismo, a suspensão por eles da racionalidade, do bom senso e da empatia com os seres humanos, tudo isso substituído por um culto feroz da violência, pela glorificação do mais forte e pela ausência de piedade que se deve ostentar como programa de vida ao serviço Füher e forma de se dissolver no fundo atávico da comunidade. Observa-se também a resistência francesa, a forma como os cidadãos franceses se opuseram à invasão nazi, como se organizaram para enfrentar o inimigo que os humilhara. A obra deixa perceber, todavia, uma realidade matizada e não é um exercício maniqueísta, no qual os bons estão todos de um lado e os maus no outro. Jutta, a irmã de Werner, opõe-se, anda que no âmbito restrito da relação familiar, ao delírio criminoso alemão, enquanto o pai de Marie-Claude é preso pelos alemães após denúncia de um colaboracionista francês.

O processo de formação conduzirá os dois jovens a destinos diferentes. A liberdade – e é possível detectar no romance o eco da ideia sartriana de que estamos condenados à liberdade – é um exercício que, por si mesmo, não nos assegura outra coisa senão sermos livres. Entregues a essa liberdade, as pessoas seguem caminhos diferenciados e chegam a portos também eles diferenciados. Será ela, a liberdade de assumirmos um destino, de fazermos uma escolha, toda essa luz que não podemos ver. A liberdade não é do domínio da experiência empírica, mas a luz invisível que na nossa razão nos guia e torna humanos, que faz de nós mais que meros artefactos manipulados pela espírito da massa.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A Garrafa Vazia 3

Victor Vasarely, Belle-Isle, 1949-52

Não vale a pena
semear o grão
e esperar
o trigo de um verso
para encher
as tulhas
no celeiro do silêncio.

Novembro de 2019

terça-feira, 7 de julho de 2020

Sinais de decomposição

Lajos Kassák, Ataque, 1918
Até para um observador não muito atento, os sinais de decomposição da realidade social em que vivemos são claros. O caos calmo provocado pela pandemia ou os desarranjos do clima, para não falar da implosão da racionalidade dentro da esfera política ou das facécias no mundo da economia. De todos esses sinais, o mais forte será o da negação dessa decomposição, o não querer acreditar que a realidade em que se vive está sob um duríssimo ataque. As pessoas estão a olhar para ela, estão dentro dela, mas não a querem ver e partem do princípio que aquilo que não se quer ver não existe. Organizamos a queda no abismo como se fosse uma grande festa.

domingo, 5 de julho de 2020

A justa distância


Começamos a descobrir que eram exorbitantes as expectativas de que a pandemia fosse um pesadelo que passaria na manhã seguinte. Quando se confinou, a esperança era que tudo voltasse ao habitual passadas duas semanas, talvez quatro. A ideia radicava na inocência e na ignorância. Com o passar dos dias fomos percebendo que a vida iria mudar mais do que gostaríamos. A experiência das últimas semanas está a dar-nos uma percepção da realidade que não esperávamos.

A moral aristotélica coloca a virtude na justa medida. Esta significa o meio termo entre dois vícios. A virtude da coragem, por exemplo, seria equidistante do vício da cobardia e do da temeridade. A pandemia veio trazer outra perspectiva da justa medida. Qual a justa distância entre mim e os outros? Que espaço físico devo manter para protecção de todos? Esta distância espacial que nos está a ser imposta terá, por certo, efeitos na forma como nos relacionamos.

O importante, do ponto de vista moral, é descobrir a distância exacta que devemos manter relativamente aos outros para que não se aproximem demasiado e, ao mesmo tempo, para que não se afastem em excesso. Neste momento, o desrespeito dessa justa distância é já alvo de crítica, quando é propositado, ou de lamento, quando, como nos transportes públicos, parece ser uma inevitabilidade. A justa distância torna-se, deste modo, o objecto central da conduta moral.

Isto coloca um problema político. Não se trata apenas de gerir, através da autoridade e da coerção, a justa distância que os membros da comunidade devem manter entre si, mas de encontrar a justa distância que o político deve manter tanto em relação aos outros políticos como aos cidadãos. Alguns dos debates dos últimos tempos giraram já em torno da justa distância. As comemorações do 25 de Abril asseguravam a justa distância? E a coreografia da CGTP no 1.º de Maio? E a manifestação anti-racista de há dias ou a manifestação do Chega e o jantar que promoveu em Torres Novas? Quantos deputados podem estar ao mesmo tempo no parlamento?

A justa distância impõe uma nova relação, ainda desconhecida, com os eleitores, mas também entre os próprios políticos. À partida parece ser uma questão de cuidado sanitário, mas talvez não seja descabido lembrar que muitos problemas políticos nascem de questões espaciais, e que o espaço que cada um deverá preservar da invasão do outro vai, por questões de saúde, ser investido de forte carga salvífica, isto é, vai tornar-se um espaço sagrado, que só a justa distância respeitará. Não há coisa mais política do que um espaço sacralizado.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Lições do desconfinamento


Com o desconfinamento e a aproximação a uma vida normal, aquilo que fora um êxito em Portugal no combate à pandemia parece estar a dissolver-se com a multiplicação das cadeias de transmissão e a situação particularmente difícil de algumas zonas de Lisboa. Em tudo isto se cruzam razões diversas que tornam o fenómeno complexo. Vejamos algumas, apenas algumas, dessas razões.

As zonas agora atingidas são aquelas em que as condições de vida das pessoas não lhes permitem ficar em casa ou evitar meios de transporte sobrelotados e perigosos. O que a pandemia está a destapar é aquilo que não se tem querido ver. Parte significativa das pessoas que fazem os trabalhos menos diferenciados vivem em condições deploráveis. Os salários praticados são baixos e a vida nas grandes áreas urbanas é muito cara. Por outro lado, faz parte da cultura nacional a inexistência de uma rede de transportes rápida e cómoda. Os transportes públicos, em horas de ponta, implicam a submissão das pessoas à sobrelotação. Nem sequer lhes ocorre que isso não deve ser assim nem tem de ser assim. Estas zonas são um barril de pólvora, agora, do ponto de vista sanitário. Mais tarde, do ponto de vista social.

Uma outra dimensão da realidade é aquela que se relaciona com os comportamentos das pessoas. O governo agiu como se estas – principalmente, os mais novos – se comportassem, por iniciativa própria, de forma razoável e responsável. Não teve em atenção a cultura que está instalada nas sociedade contemporâneas. A rápida gratificação dos desejos e dos apetites, aliada a uma crença disseminada de que o vírus é inócuo para os mais jovens, não se coaduna com os comportamentos necessários à situação em que vivemos. Não parecem descabidas as críticas que se têm ouvido pela forma como se está a fazer o processo de aproximação à vida normal. Rápido demais e sem a preparação devida.

É em situações destas que se percebe a pertinência do pensamento de Thomas Hobbes sobre o papel da segurança na instituição do vínculo político. A segurança não se relaciona apenas com a necessidade de evitar a guerra de todos contra todos. Ela também se liga à resolução de ameaças como a que vivemos, na qual a acção do soberano é central para conter o perigo. Em casos como estes, aos detentores do poder político não lhes cabe o papel de confiarem na responsabilidade das pessoas. Cabe-lhes, antes, o de prever o pior e de agir com determinação para o evitar. E parece ter sido isto que, depois do sucesso inicial, começou a ser esquecido. Possivelmente, não apenas em Portugal.

[A minha crónica no jornal A Barca]

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Descrições fenomenológicas 52. Casal em lua-de-mel

Fernando Lerín, sem título, 1985

Ouviu-se o tilintar da moeda enquanto caía pela coluna do telescópio e desbloqueava a lente, que lhe permitia ver aquilo que os olhos são incapazes de observar. Agora era possível espiar a paisagem e ele, talvez porque haja entre os dois um acordo secreto que o dispensa, mesmo em lua-de-mel, a um acto de gentileza, inclina-se e manipula o dispositivo. A queda das águas estrondeia, num ruído contínuo que hesita entre  a imitação de uma trovoada e o ronco da terra ao tremer. De pernas flectidas, com um casaco que lembra mais um velho avô do que um jovem marido, o homem segura pelo cabo uma bandeirola onde está inscrito o nome da atracção turística onde se encontram. Entre exclamações e comentários sobre a força das águas e o poder da natureza, ele vai apontando para aqui e para ali, enquanto ela, também de bandeirola na mão, tenta seguir o trajecto que lhe vai sendo indicado, com um entusiasmo que só a recente conjugalidade permite compreender. As águas ribombam ao despenharem-se no abismo, a velocidade da queda, a resistência da rocha, o choque titânico com a terra dura. Nuvens de água pulverizada formam-se por todo o lado, como se uma névoa eterna fizesse ali a sua casa. Ela aproxima-se do gradeamento e olha o fundo, mas ele chama-a. É perigoso, diz. Uma vertigem, um desequilíbrio e não há salvação possível. Ela ri e diz deixa-me ver. Espera até que o tempo acabe, depois ponho uma moeda para ti. Gritam para se fazerem ouvir. É a vez dela se inclinar, o vestido curto sobe-lhe mais um pouco, descobrindo-lhe as coxas. Ele olha em volta, certifica-se que não está ninguém, então deixa deslizar uma mão nas pernas dela, fazendo-a subir, mas a mulher, entre risos, afasta-o e aponta para o horizonte. Ele parece desinteressado e, já um pouco inquieto, compõe o casado anacrónico. O arvoredo reluz de humidade e corvos voam entre árvores, numa urgência quase humana. Ouve-se um clique e ela grita acabou-se, vamos. Deram a mão, o marido aponta para uma das quedas, enquanto um helicóptero sobrevoa o local, cobrindo as palavras com o ronco mecânico de quem vigia o universo. As águas não param de chegar e cair. No ar há um cheiro à inocência das flores primaveris. Eles correm e desaparecem numa curva do caminho. A paisagem reverbera solitária, despojada, por momentos, de turistas. A água cai, a terra treme e um vento ligeiro espalha a humidade.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

A Garrafa Vazia 2

William Congdon, Crocefisso 1 b, 1960.jpg

Sou a sombra feita
de sangue,
cobra convalescente
arrastando
a terra contra
o muro,
uma palavra de pedra,
uma cruz de silêncio
nascida
no novelo da noite.

Novembro de 2019

sábado, 27 de junho de 2020

Descrições fenomenológicas 51. Espelhos pintados

Guillermo Pérez Villalta, Aquí y allí, 1989

Numa feira de velharias, um homem alto, com um boné que se usaria nos anos cinquenta do século passado, vende uns espelhos insólitos, daqueles que havia nas casas de banho de gente menos tocada pela sorte, por cima do lavatório, para os homens fazerem a barba vigiando os gestos, a precisão da lâmina no recorte da face, e as mulheres pentearem os cabelos, se tinham de ir a algum sítio mais respeitável, uma visita ao médico ou ao padre para confissão, uma loja para comprar alguma extravagância fora das necessidades do dia-a-dia. Neles, rapazes e raparigas viam-se e mediam a sua beleza, contemplavam-se sem pudor, uns com placidez, outros com fúria. Agora ninguém compra espelhos desses e o vendedor, com ar de pertencer a uma época que expirou há muito, reinventou-os para algum apreciador de curiosidades e coisas destituídas de sentido. Foram pintados com cenas do quotidiano e quem se olhar neles vê o mundo, como se o mundo fosse a imagem de cada um. O homem fala devagar, não força a compra, apenas sorri. É um trabalho de artista, di-lo sem hesitação e expressa-o na face bem escanhoada, que contrasta com o colarinho amarrotado da camisa, a saltar por cima da gola do casaco. Há nestas pinturas uma certa propensão para multidões, gente que se encontra ao acaso em ruas e praças, mas também cenas onde as pessoas se reúnem sob o desígnio de algum objectivo comum, comícios, procissões, jogos de futebol. Noutros espelhos, em menor número, observam-se cenas domésticas, algumas naturezas mortas, uma família reunida à volta de uma telefonia, como se diria há muito, um pai sentado a fumar, enquanto lê o jornal e o filho rebola pelo chão. O vendedor compõe a gravata, abotoa e desabotoa o casaco, que em tempos terá tido alguma glória, boa fazenda, agora surrada, quase no fio. O rosto anguloso contrasta com o de uma mulher, rubicundo e redondo, pintada num dos espelhos. A mão dela ficou presa na eternidade, quando ainda se deslocava para a cabeça onde ia compor os cabelos, ajeitar o gancho que os prendia. Um cliente, homem também ele de outra era, louva o artista, qual o preço daquele ali o fundo, pergunta enquanto aponta para um espelho pintado, preso a um escaparate no extremo oposto. É muito caro, diz, quando o vendedor lhe revela o preço, entre olhares esperançados, treinados na avaliação de quem se propõe comprar. Metade disso, alvitra o apreciador de espelhos pintados. O marchand sorri com condescendência, passa mão pela testa. É um trabalho artístico e é preciso pagar o engenho. Silêncio, não há resposta. Para si, vendo-o um pouco mais barato, um acordo para ficarmos a meio caminho entre o que peço e o que oferece. É uma questão de justiça e, na verdade, faço-lhe, diz com a voz pausada, um favor. Desenha-se no ar um clima de hesitação, as partes avaliam-se, medem desejos e necessidades. O cliente aquiesce e é sua a obra de arte, um espelho pintado onde se vêem duas maçãs avermelhadas sobre um prato verde a imitar uma couve lombarda. O vendedor embrulha a obra com cuidado, protege-a dos choques que o caminho possa trazer, envolve-a em folhas de jornal, que cobre com papel pardo e remata o empacotamento colocando a peça dentro de um saco de plástico azul desmaiado. Para que chegue a casa sem se partir, remata. O outro diz que sim com a cabeça e sorri. Pega no que agora é seu e afasta-se em silêncio, talvez a fantasiar sobre o préstimo a dar àquele espelho onde ninguém se há-de querer remirar.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Nocturnos 15

Micha Bar Am, Father Neophitus, St. Katharina Monastery, Sinai, 1967
Nem a luz quebra o desconsolo trazido pela vigília da noite. As horas passam, o fumo dos cigarros eleva-se e as trevas densas, quando a manhã as expulsa, prometem voltar de novo, com o seu cortejo de lutos e desenganos.

terça-feira, 23 de junho de 2020

A nova realidade

Ilse Bing, Kloster Reichenau am Bodensee, 1929

A evolução da pandemia pelo mundo e também em Portugal parece indicar que o problema veio para ficar, que o vírus se instalou e que temos de conviver mesmo com a sua presença e a ameaça que ela representa. Nos últimos dias, os instintos dionisíacos têm-se manifestado com alguma potência, com pessoas a procurarem grandes aglomerações perante o olhar de um Apolo perplexo, que parece agora, com as medidas anunciadas pelo primeiro-ministro, querer reagir e instaurar uma ordem mais severa. Se as pessoas pensavam que era uma questão de semanas ou mesmo de alguns, poucos, meses, que tudo voltaria ao exacto ponto onde nos encontrávamos, estão a descobrir que a realidade não é bem assim. Parece que vai ser uma longa viagem, onde teremos todos de aprender a viver de uma outra maneira. Se não quisermos cair no mais fundo pessimismo e se um princípio de esperança fizer sentido, ele estará encerrado nas palavras encontradas numa obra medieval de autor desconhecido, Tratado da Casa Interior ou da Edificação da Consciência. A certa altura, o autor diz: e aquilo que fatiga o lutador coroa o vencedor. Tal como as coisas se apresentam nesta hora, só uma luta persistente e cansativa – contra o vírus, mas também contra hábitos e valores ainda em vigência – coroará, se coroar, o vencedor. Parece que precisamos tanto de uma nova casa exterior como de uma interior, para podermos habitar neste novo mundo.

domingo, 21 de junho de 2020

Radicais e moderados


Na segunda-feira passada, o Presidente da República fez uma intervenção na televisão sobre a vandalização da estátua do Padre António Vieira. Chamou a atenção para que nenhum dos verdadeiros problemas da pobreza, da discriminação e do racismo se resolve com estas acções. É verdade, mas este tipo de acções, por idiotas que sejam, tem o poder de revelar o conflito político central dos nossos dias. Este não é entre a direita e a esquerda, entre adeptos do mercado e adeptos do estado ou entre identitários e cosmopolitas, mas aquele que opõe radicais e moderados.

Este conflito é decisivo para o destino da vida civilizada. Circunstâncias múltiplas abriram caminho para o crescimento de programas e práticas políticas radicais. O que significa essa radicalização em termos práticos? De forma crua e simples, significa o desejo de aniquilamento do outro, a afirmação que ele não tem lugar na comunidade e que deve ser suprimido. Dito de outra forma, os radicais desejam a guerra civil. Esta emerge quando os adversários políticos se transformam em inimigos. Estaremos à beira da guerra civil? Em Portugal e nos países da nossa área política, a resposta é não. Contudo, o crescimento de alternativas políticas populistas e o desaparecimento do respeito por aqueles que pensam de maneira diferente são sintomas da doença e esses existem mesmo em Portugal. Há gente a semear ódio e a tentar incendiar o clima político do país.

O mais importante, no actual momento político, nacional e internacional, é que os moderados de todas as causas se façam ouvir, ganhem espaço público, conquistem terreno, para que possam estender a mão aos seus adversários, para que evitem que se entre na lógico do amigo e do inimigo. Ser moderado não significa não ter convicções. Significa apenas que se reconhece que as convicções humanas são falíveis e que ao lado das nossas razões haverá outras que merecem ser escutadas e debatidas. Significa que os homens não devem ser mortos ou espancados por causa das ideias que defendem.

A democracia fornece um dispositivo para decidir, a cada momento, quais as ideias que devem governar, mas ela só pode existir se, para além das eleições, os moderados, da esquerda e da direita, forem largamente maioritários. Quando a democracia se entrega nas mãos de radicais, as paixões exacerbadas destes e a violência acabarão por destruí-la. A questão que nos devemos colocar, à esquerda e à direita, é se gostaríamos de ver Portugal e a Europa transformados em Venezuelas ou em Brasis, para dar exemplos de radicalismos de cores diferentes.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A Garrafa Vazia 1

William Congdon, Black city on gold river, 1949

São de subúrbio as ruas
onde espaireço
a erva da cólera
e gorgolejo a cerveja
bebida à beira
do acaso.

Ergo o gládio e corto
as garras,
palavras que
te enfeitam
irisadas na ira
bebida em tua boca.

Agosto de 2019

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Javier Marías, Os Enamoramentos


O romance de Javier Marías é, ante de mais, uma reflexão prática sobre o que é a literatura, em especial o género romanesco. Há no romance, como há muito foi salientado por Milan Kundera, uma contraposição com a filosofia. Se em Descartes, no início da era moderna, se procura a certeza fundada no que é claro e distinto, se múltiplas tradições filosóficas até aos nossos dias se instalaram nesse registo de busca de uma verdade, o romance, pelo contrário, vive da incerteza, da obscuridade e da indiferenciação. É este registo que deliberadamente Javier Marías explora em Os Enamoramentos, um romance de 2011. A primeira frase da obra torna de imediato claro esse registo. A narradora, Maria Dolz, começa a narrativa dizendo A última vez que vi Miguel Desvern ou Daverne foi também a última vez que a mulher, Luísa, o viu. A imprecisão do nome de Miguel é a chave para o leitor entrar no texto.

Aparentemente, a trama gira em torno do assassinato de Desvern ou Davern, um esfaqueamento perpetrado por um sem-abrigo, meio louco, e tomado pela polícia como um acaso, um azar da vítima estar naquele lugar àquela hora. É quando vê a notícia no jornal que Maria descobre o nome dele, embora o conhecesse e à mulher há muito, espiando-os da mesa do café onde todos iam. O estado de enamoramento que o casal apresentava tinha chamado a sua atenção e dedicara-se durante todo esse tempo a um discreto embora persistente e fantasioso voyeurismo. Este enamoramento modelar, que funciona para Maria Dolz como um arquétipo, é construído por ela não por uma investigação objectiva, não por quaisquer provas consistentes, mas pela apreensão visual de um comportamento no espaço público, embora circunscrito, de um café e das adições fantasiosas que uma imaginação produz em resposta a um desejo erótico que a realidade teima em não satisfazer.

O desejo de se aproximar de Luísa, essa personagem sombra que, como tal, assombra todo o romance, fá-la encontrar Javier Díaz-Varela, o melhor amigo do assassinado e agora protector da viúva. Este, enamorado de Luísa, espera a hora em que ela feche a porta por onde entra a memória fantasmática do marido e a abra para o seu desejo. É neste encontro que nasce um novo enamoramento, o de Maria por Javier, embora sem esperança de passar para além de uma aventura com destino marcado. Esta aventura permite, porém, à narradora perceber que o assassinato acidental Miguel talvez não o tivesse sido, mas decorresse antes de um plano cuidadosamente meditado por Javier. O pior, porém, é que mesmo sendo esse o caso, ela não sabe as verdadeiras razões que o terão movido, se um pacto com o amigo, se o desejo pela mulher deste.

O que torna o romance de Marías particularmente interessante é o facto dele pegar em dois subgéneros romanescos – um trivial romance de amor e um vulgar thriller policial – e conduzir uma meditação sobre a natureza da arte do romance e da sua relação com a verdade e a certeza do que se passa nas vidas humanas. Se nas ciências da natureza ainda será possível aspirar a um conhecimento objectivo, embora revisível, da realidade, nos assuntos humanos, a única coisa que existe são subjectividades que interpretam os acontecimentos a partir do ponto de vista onde se encontram, nunca sendo claras nem as motivações que movem os actores nem, tão pouco, os actos que estes executam. Pode-se ler este romance, sem o violentar, como um exercício de desconstrução das narrativas jurídicas, do valor dos procedimentos que articulam o processo jurídico, da probidade das provas e da pretensão de condenar alguém baseado na verdade dos factos.

O caso de nunca se descobrir a verdade sobre a morte daquele cujo nome era incerto não se deverá, deste modo, à incapacidade de investigação ou mesmo a um truque literário para deixar ao leitor a possibilidade de continuar a obra, completando-a e esclarecendo na sua imaginação recriadora o que se teria passado, mas à própria inexistência de uma verdade. Aliás, isso é reforçado pelo próprio Javier que, na sua ligação fortuita com Maria, fala da novela de Balzac, O Coronel Chabert, um herói das guerras napoleónicas que, como D. João de Portugal, no Frei Luís de Sousa, é dado como morto. Esse equívoco permitiu à suposta viúva refazer a vida e quando ele volta, descobre que está a mais, que não devia ter voltado do lugar da morte. Esta obsessão pela obra de Balzac torna ainda mais obscuro o enredo, porque o leitor não deixará de se interrogar se na verdade o marido de Luísa terá efectivamente morrido. É apenas uma leve suspeita, mas no intrincado das relações humanas não há estatuto epistémico mais elevado que o da suspeita.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Ensaio sobre a luz (83)

Lee Friedlander, New York city, 1966
De súbito, a luz é maculada pela sombra, uma figura recorta-se numa outra, abrindo uma passagem por onde, como num jogo perigoso, o mundo se pudesse precipitar na maior obscuridade.