domingo, 18 de fevereiro de 2018

Ensaios sobre a luz (23)

Barend Arendsen, Winter in Holland, c. 1910

A luz do Inverno torna tudo mais difuso. A realidade perde a exuberância do contorno e cada coisa parece ansiar por se fundir no magma da indiferenciação.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Igreja, o espírito e o sexo


A minha crónica no Jornal Torrejano.

A recente declaração do cardeal Clemente sobre abstinência sexual dos católicos recasados e a intensa luta, ao mais alto nível da hierarquia católica, sobre problemas de ordem moral tornam manifesta, mais uma vez, a grande dificuldade que a Igreja Católica enfrenta nas sociedades modernas. O problema centra-se no conflito entre a autonomia e liberdade dos indivíduos, uma característica da modernidade, e a reivindicação, por parte da Igreja, de um papel de tutoria, em matéria moral, de preferência sexual, das consciências dos crentes. O que se passa é que cada vez mais crentes, não deixando de o ser, recusam submeter a sua consciência e a sua liberdade à tutoria dos sacerdotes católicos.

O Vaticano II e a acção do actual Papa são tentativas de lidar com este problema. Os ventos vindos do concílio nunca agradaram aos sectores conservadores da Igreja. Pior ainda é a acção de Francisco, a qual gera verdadeiros ataques de fúria e de desobediência por parte desses sectores. Há uma coisa, contudo, que os sectores conservadores têm razão. O aggiornamento proposto por João XXIII, Paulo VI e Francisco não tem conseguido travar o declínio do catolicismo nas sociedades modernas. Os conservadores equivocam-se, porém, quando pensam que uma Igreja reactiva para com a modernidade, fundada no espírito do concílio de Trento, seria capaz de evitar o declínio. Provavelmente, o declínio seria mais rápido.

Há um problema que me parece central neste conflito entre católicos conservadores e católicos actualizadores. É o da discussão se centrar em questões morais. Isto é um problema porque ambos diminuem, na prática, o âmbito do catolicismo. Surpreendentemente, tanto conservadores como actualizadores estão a transformar o cristianismo, tal como o fizeram os protestantes, numa mera moralidade. Ora o cristianismo é mais, muito mais do que uma doutrina moral, farisaica ou misericordiosa. É uma aventura espiritual.

A Igreja Católica possui uma herança espiritual, fundada na mística, que poderia ser uma chave para entrar em contacto com o mundo moderno. Essa espiritualidade tem recursos suficientes não apenas para lidar com pessoas livres mas também para libertar as pessoas. É essa ânsia de liberdade e de libertação que levou muitos ocidentais a interessarem-se pelas práticas espirituais do Oriente, do Tantra ao Yoga ou ao Zen. A Igreja Católica em vez de fazer uso, no mundo moderno, da sua riquíssima tradição espiritual, esconde-a e passa o tempo, literalmente, a discutir o sexo e a moral sexual, como se a vida espiritual dos homens se reduzisse ao coito, interrompido ou não.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Micropoemas - Naufrágios 2


Mark Rothko - N.º 5 (1964)

2. Ser

Ser
e sentido.

Na luz, o negro contido.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Do medo da liberdade

Thomas Hoepker, Old man with his pet bird in Ritan Park. Beijing, China, 1984

Naquele instante em que a liberdade se torna possível, os homens, muitos deles, poisam dóceis na mão do mestre e aguardam que ele, benévolo e paternal, os devolva à prisão que, acima de tudo, amam.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Um país mais liberal

Gustav Klimt - Girlfriends (1916-17)

Não nego, longe disso, a coragem de Adolfo Mesquita Nunes, um talentoso político do CDS da nova geração, e de Graça Fonseca, secretária de Estado do actual governo socialista, de assumirem publicamente a sua orientação sexual. Como salienta João Miguel Tavares no Público, “Portugal deve ser o país com maior distância entre as políticas progressistas no que diz respeito aos direitos dos homossexuais, onde estamos entre os países mais avançados do mundo, e o número de políticos que se assumem como homossexuais no espaço público, onde estamos entre os mais atrasados da Europa”. A coragem deve ser lida como coragem de ruptura com a prática política de ocultar a orientação sexual, se esta é homossexual.

Há contudo uma outra coisa que não é dita nos justos encómios a Mesquita Nunes e Graça Fonseca. Não tem a ver com a esfera política mas com o país. Portugal tornou-se um sítio onde se aceita com facilidade as opções dos outros. Tem crescido, nos últimos tempos, uma cultura liberal entre a população marcada pelo vive e deixa viver. Quem conheceu o Portugal de há 40, 30 ou mesmo 20 anos sabe que houve mudanças radicais no comportamento perante o que os outros fazem das suas vidas. Não é que não haja má-língua, não é que não aflorem, ainda demasiadas vezes, tentativas de intromissão na vidasde terceiros, mas o ambiente mudou radicalmente. Podemos discutir se essa mudança se deve a termo-nos tornado mais tolerantes ou se é fruto da pura indiferença. Talvez as duas sejam verdadeiras.

Seja como for, o acto destes dois protagonistas políticos só se tornou possível porque o país mudou e mudou para melhor, tornando-se mais liberal e mais respeitador das opções de cada um. E o que mostra que o país mudou foi a forma como as declarações de ambos foram recebidas na esfera pública. Esta recepção assim como a crítica acerba, mesmo dentro da Igreja, às declarações do cardeal Manuel Clemente sobre a abstinência sexual dos recasados (um problema que apenas afectaria os católicos) mostram que o país se reconciliou com a sexualidade, que não faz dela uma arma de arremesso político, remetendo-a para a esfera da vida privada e da consciência dos indivíduos, os quais são considerados livres para fazerem o que entendem das suas vidas. E este progresso da cultura do país não deve ser subestimado.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Ensaios sobre a luz (22)

Ergy Landau (Landau Erzsi), Assia, 1933

E na luminosa luz ela é uma sombra suave que se recolhe no severo segredo do sangue, no pulsar puro da pele, na dócil dor do desejo.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Micropoemas - Naufrágios 1

Maria Helena Vieira da Silva - Memória (1966-67)

1. Memória

Memória
branca como lábios.

A vida, som, morte e naufrágios.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Alma Pátria - 41: Francisco Fanhais - Porque



Para este post do Alma Pátria tinha pensado em mais um cantor de intervenção. Havia duas fileiras, digamos assim, para fazer a opção. Uma era a dos que tiveram e têm um importante papel na música popular portuguesa ainda hoje, gente como Sérgio Godinho ou José Mário Branco. A segunda fileira é de homens a que o 25 de Abril não trouxe uma assinalável fortuna na carreira das canções. Aqui poderia escolher entre Manuel Freire, José Jorge Letria, José Barata-Moura e Francisco Fanhais. Optei pelo padre Fanhais. Este seu disco marca uma época de advento de uma consciência crítica do regime dentro da própria Igreja. Fanhais é um marco na cultura oposicionista surgida na parte final do regime. Esta é a outra face da Alma Pátria, a do movimento dos baladeiros, gente que cantava canções de intervenção social apenas acompanhados por uma viola, embora a realidade desse grupo de cantores fosse um pouco mais complexa do que deixa entrever a caricatura que o nome dado ao movimento representa.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A esquerda e os rankings escolares


Vivemos num estranho país. Num país menos estranho do que o nosso, seria normal que as gentes de esquerda quisessem ver publicados os rankings escolares e as gentes de direita – pelo menos, aquela que tem os descendentes nos colégios privados que ocupam os primeiros lugares dos rankings – quisessem que eles não fossem publicados. Mas não é assim. As gentes de esquerda, por norma, odeiam ou, pelo menos, desprezam os rankings, enquanto a direita social gosta deles. Por que motivo, perguntará o leitor, a direita deveria querer ocultar os rankings e a esquerda deveria querê-los públicos?

Relativamente à direita social, a resposta é fácil. Esta não tem qualquer interesse em que se saiba claramente as vantagens que os seus descendentes têm no acesso à Universidade, às melhores Universidades. Quanto menor for a concorrência, quanto menor for a igualdade de oportunidades, quanto maior for o fosso entre os resultados do ensino público e os dos grandes colégios privados e quanto mais secreto for esse fosso melhor. Os descendentes estarão mais à vontade no acesso aos cursos que pretendem, àqueles que abrem às pessoas as melhores oportunidades. Para essa direita, o melhor seria não haver rankings e que ninguém soubesse o desempenho da escola pública.

Relativamente à esquerda social (e política, diga-se) o problema é mais complicado. Por norma, é contra os rankings porque estes hierarquizam as escolas. Um dos argumentos que mais se ouve é que os rankings não avaliam as escolas como deve ser. Este argumento, porém, é uma falácia do espantalho. Os rankings não pretendem avaliar escolas ou professores. Os rankings apenas tornam patente os resultados dos alunos organizados por estabelecimento de ensino. Um segundo argumento diz que os rankings comparam o incomparável. Este argumento é pura e simplesmente falso. O que está a ser comparado são os resultados dos alunos e esses são comparáveis. Mais, a diferença desses resultados tem consequências para o destino de cada um dos alunos.

Por que motivo a esquerda deveria gostar dos rankings? Pelo facto de eles mostrarem como está a saúde das políticas de igualdade de oportunidades. Se os rankings avaliam alguma coisa é o trabalho do sistema educativo na promoção real – e não apenas proclamatória e virtual – da igualdade de oportunidades. Quando os rankings mostram que certas escolas públicas, mas também privadas, apresentam resultados maus ou medíocres está a mostrar-nos que o sistema – tanto a nível central como local – está a falhar no desígnio de assegurar a todos os alunos um acesso semelhante a um bem que é a educação, onde se inclui o acesso à educação superior. A esquerda prefere que isto não se saiba? Que se disfarce?

A esquerda deveria preocupar-se em assegurar condições para que o fosso dos resultados desaparecesse, para que os rankings passassem a mostrar que os alunos pobres e/ou do interior têm as mesmas possibilidades reais – e não meramente virtuais – que os filhos das elites que frequentam os grandes colégios. A esquerda, se estivesse preocupada com os filhos dos seus potenciais eleitores, em vez de esconder a mensagem e tentar matar o mensageiro (os rankings), deveria exigir discriminação positiva eficaz no apoio às escolas em dificuldades e reivindicar condições para um ensino rigoroso e de qualidade em todo o sistema público. Parece, contudo, que a esquerda gosta mais dos seus preconceitos ideológicos (ainda por cima incongruentes) do que das pessoas reais. Infelizmente.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Eugénio de Andrade


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Nos tempos que vivemos, quase ninguém lê poesia. Os poetas correm o risco de escrever uns para os outros, diz-se. Este estreitamento do público dever-se-á, é também o que se diz, à obscuridade crescente das linguagens poéticas, tendo-se cortado o fio que ligava a poesia àquilo que o homem esperava e espera da linguagem. É possível que assim seja. Por isso, neste texto trago uma espécie de contra-exemplo. A linguagem do poeta é de uma grande claridade, apesar do rigor com que cada palavra é colocada nos versos. Falo de Eugénio de Andrade.

O primeiro livro de poesia que comprei foi dele. Juntava, numa bela edição da Editorial Inova, os livros As Mãos e os Frutos, de 1948, e Os Amantes sem Dinheiro, de 1950. Não sei quantas vezes li aqueles poemas. Talvez tenha sido esse livro que me inclinou para as minhas pobres tentativas poéticas, talvez. “Nos teus dedos nasceram horizontes / e aves verdes vieram desvairadas / beber neles julgando serem fontes.” Como é que uma imaginação imatura, como era a minha naqueles anos longínquos, não haveria de ficar deslumbrada com versos como estes?

Dos poemas reunidos nessa edição, aquele que nesses verdes anos mais me marcou foi o poema Adeus. Para o leitor que não o conhece deixo a primeira estrofe: “Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, / e o que ficou não chega / para afastar o frio de quatro paredes. / Gastámos tudo menos o silêncio. / Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, / gastámos as mãos à força de as apertarmos, / gastámos o relógio e as pedras das esquinas / em esperas inúteis.” O que me atraiu no poema foi a combinação da musicalidade das palavras com a ideia de finitude. O amor também ele tem um fim e há uma música própria onde esse fim pode ser dito, um requiem que acaba por prolongar e sublimar aquilo que já morreu.

Toda a o poesia de Eugénio de Andrade é marcada por esta claridade aparente. Ela dialoga e interpela o leitor, atrai-o para o colocar, com ostinato rigore, perante o que é obscuro e enigmático. A claridade da linguagem é uma porta para o mistério do corpo, da natureza, do homem e do mundo que rumoreja em cada uma das suas palavras. Ler poesia não é o mesmo que ler o jornal. Ela exige atenção e cuidado ao leitor. Este, porém, se não tiver pressa e se deixar envolver pela música das palavras, vai descobrir alguma coisa de si mesmo e do mundo, para além do puro prazer do jogo poético. Iniciar-se na poesia com Eugénio de Andrade é entrar pela porta grande. “Assim eu queria o poema: / fremente de luz, áspero de terra, / rumoroso de águas e de vento.” Assim.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Micropoemas - Mármore 6

Marc Chagall - War (1964-66)

6. A luz

A luz
vermelha de fogo.

Ao longe,
homens e pedras cavalgam de novo.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Poesia

A minha crónica em A Barca de Fevereiro.

Em 2017, o padre Tolentino Mendonça publicou um livro de poesia com o estranho título de “Teoria da Fronteira”. A nossa tradição definiu o exercício da teoria como tarefa da ciência e da filosofia, mas não da poesia ou mesmo de qualquer arte. Enquanto ciência e filosofia são saberes racionais sobre os seus objectos de investigação, a poesia é uma saber fazer prático, uma arte. Estará mais próxima do saber andar de bicicleta (ninguém aprende a andar de bicicleta por explicação racional ou investigação teórica) do que da produção de teorias.

Por que motivo um poeta mobiliza o termo teoria para o título de um livro de poemas? Na sua raiz grega, a palavra teoria remete para o verbo “theorein”, o qual contém a ideia de “olhar para alguma coisa” para lhe captar o perfil ou a fisionomia. De certa maneira, esse verbo grego fala-nos do contacto do homem com aquilo que lhe é exterior (coisas, animais, plantas, homens) através do olhar. Sendo assim, a poesia é uma teoria pois é uma arte de olhar. O que fazem os poetas? Os poetas olham através dos olhos que são, para eles, as palavras. E olham para onde? O título do livro de Tolentino Mendonça é muito claro: olham para a fronteira.

A fronteira de que fala não será a divisão artificial que separa duas entidades políticas. Quando ouvimos a palavra fronteira associamo-la, de imediato, às ideias de limite e de separação. As fronteiras delimitam os estados, separando-os. Como a poesia não é um tratado de direito internacional, compreendemos que o poeta utilize a palavra fronteira como uma metáfora. Que domínios separará ela para que o poeta – qualquer poeta – dirija para lá o seu olhar? O território da poesia é o da linguagem. Ela não trata de outra coisa. Sendo assim, a fronteira será essa linha imaginária que separa o território da linguagem corrente, da linguagem articulada que permite o comércio quotidiano das nossas vidas, da linguagem inarticulada do silêncio com que todas as coisas se dão ao olhar.

O poema é, então, um olhar para essa fronteira em que a linguagem, apesar de ainda usar palavras, já as desligou – melhor, já as libertou – do seu uso comunicativo diário. Ao escrever, o poeta olha para essas palavras que já não são bem palavras, mas ainda não são silêncio. Todo o poema é uma arte fronteiriça, um exercício para vencer a resistência – a linha – que separa o articulado da linguagem do inarticulado do mundo dado ao olhar. As fronteiras separam, mas também são pontos de união. O poeta faz da poesia esse tecer de uma fronteira que, ao separar, une o som da linguagem ao silêncio da criação. Talvez a poesia seja apenas a aprendizagem da mudez, da arte de estar calado. 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Pobres mãos

Jean-Michel Basquiat, Hand Anatomy, 1982

De punhos para ferir, fizeram pobres mãos para trabalhar. Nesta meditação poética de René Char, pertencente ao ciclo La Parole en Archipel, o adjectivo pobres é a porta por onde podemos entrar no domínio do sentido, mesmo que a tradução nos roube a entrada no outro domínio central da poesia, o do som. Se Char tivesse omitido a adjectivação das mãos, teria descrito uma metamorfose do mundo, dado uma informação factual sobre a evolução civilizacional da espécie. No entanto, o adjectivo pobres coloca-nos numa situação equívoca. Aparentemente, as mãos são pobres para trabalhar. Nesta pobreza podemos escutar a incapacidade, a ausência de domínio sobre os objectos a trabalhar.

A leitura desvia-se, muito rapidamente, para outra direcção. As mãos que trabalham são já um empobrecimento relativamente aos punhos que ferem. A dignidade primeira da mão residiria então no bater, no ferir e, em última instância, no matar. Trabalhar será assim uma forma de humilhação que a espécie impôs aos seus punhos quando os transformou em mãos. Um leitor informado da história do mundo dirá que o pequeno texto de Char é uma constatação nostálgica da transição de um mundo aristocrático, fundado na guerra, para um mundo burguês, centrado no trabalho ou na exploração do trabalho, se a sua alma se inclinar para uma leitura marxista.

A leitura poética convida-nos, todavia, a não optar por nenhuma destas alternativas de interpretação do adjectivo pobres. O essencial é manter as duas em tensão e deixar-se guiar por elas. Sim, é verdade que a transição do punho que fere para a mão que trabalha é um empobrecimento, mas é-o não porque tenha deixado de ferir mas porque ainda não é suficientemente rica para trabalhar, para que da sua arte saiam obras dignas da nossa admiração. Mais do que um lamento pelo declínio da virtude aristocrática da guerra, na pobreza das mãos que trabalham ressoa o desejo de que elas se tornem mais aptas, mais criativas, para as obras que esperam pela sua destreza. O desejo de que elas não matem nem trabalhem, mas criem. Que as mãos não sejam nem do aristocrata nem do trabalhador, mas do criador, do poeta, desse poeta que ainda não encontrou as mãos à altura de criar a poesia que o aguarda.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Uma doença

Ana Peters - Divertimentos bajo cristal (1966)

Eu sei que a ideologia é como Deus. Está em toda a parte e cuida de nós. No entanto, ao cuidar de nós, a ideologia, seja ela qual for, tem por condão enviesar o nosso olhar, a forma como interpretamos o mundo e seleccionamos os imperativos que comandam as nossas acções. Uma pessoa que sofra de uma qualquer doença deseja, acima de tudo, curar-se dessa doença ou, em caso de ser impossível erradicá-la, diminuir-lhe ao máximo os efeitos nefastos.

Podemos pensar a ideologia como uma doença, uma doença cognitiva que nos faz confiar em crenças que, por norma, pouco têm a ver com a realidade. O normal seria que cada um de nós procurasse, por todos os meios, curar-se da doença. Sabemos que a ideologia, como uma doença crónica, não pode ser erradicada completamente, mas seria expectável que estivéssemos todos empenhados em diminuir-lhe os efeitos nefastos que ela tem sobre o sistema das nossas crenças.

A verdade, contudo, é que a generalidade dos seres humanos – fundamentalmente, aqueles que se interessam pela política – gosta de estar doente. O problema da ideologia não reside tanto nela nos enviesar a compreensão do mundo, mas no facto de nos tornar tão dependentes que queremos permanecer doentes, cada vez mais doentes, de tal forma que se tem honra na patologia que nos atinge e exibimo-la não com o pudor recomendado mas como se ela fosse uma medalha ganha na alta competição ou um troféu de caça.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Ensaios sobre a luz (21)

Michael Inmann, Left Spaces, Vienna 2005

A casa abandonada abre-se lentamente para que a luz a penetre e ilumine a dor que, como um murmúrio, desagua na poeira do esquecimento.