sábado, 22 de setembro de 2018

A maior perfeição

Mark Shaw, Gitta Schilling, Dior Glamour, 1960

Não há maior perfeição que a do passado. Luminosa, imóvel, intocável. Suspende-se diante do olhar e oferece-nos uma réplica da eternidade. Fechamos os olhos e ao reabri-los o tempo já nos arrastou para o pântano do presente.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Ensaio sobre a luz (38)

Z. Datuashvili, Graphics, 1977

São reinos inóspitos aqueles que o furor da luz revela. A brancura da neve, o agreste das encostas, a solidão de uma ave presa à premonição da sua morte.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

As exéquias da escola pública

Julio Romero de Torres, Mira que bonita era, 1895

Há pelo menos duas formas de encarar, do ponto de vista crítico, as constantes mudanças que o poder político, nas últimas décadas, tem introduzido no sistema educativo. Uma, ingénua, considera que, no fundo, essas mudanças constantes são fruto das idiossincrasias dos responsáveis políticos, dos seus caprichos, do desejo de deixar o nome ligado a uma mudança estrutural num sector fundamental para o futuro da comunidade. Mais que malevolência, esta perspectiva ingénua vê uma inconsistência, dos responsáveis políticos, fundada no desconhecimento da realidade do sistema e na vaidade pessoal.

Outra visão tenta compreender a coerência e os objectivos que são perseguidos através de uma girândola de mudanças que nunca sacia a fome de mais e mais alterações. Se olharmos para as sociedades contemporâneas vemos que o professorado vive ainda preso ao mundo da longa duração. Tornar-se professor no ensino público, pensa-se, é entrar numa carreira a longo prazo. Esta ideia de longo prazo é, contudo, inaceitável no âmbito da economia actual. Tudo nesta é visto no domínio do curto prazo, desde as funções até aos contratos, passando pelas relações pessoais. Quer-se pessoas flexíveis que possam sofrer sem protesto a mudança, a alteração rápida do que fazem, a perda de emprego e de sentido da sua vida.

É num livro já com 20 anos, The Corrosion of Character – The Personal Consequences of Work in the New Capitalism, que um sociólogo norte-americano, Richard Sennett, chama a atenção para os efeitos que este tipo de economia tem sobre o carácter das pessoas. Os traços fundamentais do carácter estão, desde sempre, ligados ao longo prazo. A lealdade, o compromisso e todas as características que fornecem um sentimento de persistência no tempo de si mesmo exigem relações e experiências de longa duração. Essas características eram desenvolvidas nas famílias, nas escolas e nas empresas, tendo, tanto a escola como a empresa, um papel fundamental na estabilização desses traços de carácter. Hoje em dia, as exigências do mercado de trabalho chocam de frente com a existência de um carácter forte e solidamente formado.

Como os Estados ocidentais ainda não conseguiram desestruturar completamente o Estado social e a escola pública, os agentes políticos entendem transformar uma carreira de longo prazo, o professorado, com o seu processo lento de maturação, numa carreira que resulta da soma de inumeráveis experiências, com exigências arbitrárias, muitas vezes antagónicas, obrigando os professores – que ainda não podem ser despedidos – a reformular de um ano para o outro a sua função e, consequentemente, a forma como desenvolvem o seu trabalho. Aquilo que parece um caos insensato não é outra coisa senão a transformação de uma carreira de longo prazo num conjunto de funções de curto prazo, que não acrescentam experiência nem sabedoria ao professor, não contribuindo para a consolidação de um carácter forte.

O objectivo de tornar a escola flexível – é este o desiderato actual do poder político através do eufemismo da flexibilidade curricular – é de criar ambientes do curto prazo naquilo que tradicionalmente era visto como sendo de longo prazo. Como se compreenderá, o que se pretende é corroer o carácter dos professores e, como consequência, o dos alunos. Os governos já não querem escolas que fortaleçam os compromissos, que desenvolvam as lealdades, que fomentem os traços que persistirão ao longo de décadas. A volubilidade organizacional e curricular das escolas é o modelo que os indivíduos – professores e alunos – deverão adquirir e ostentar. Volúveis, centrados no curto prazo, receptivos aos caprichos e ao arbítrio dos que ordenam o mundo. Fundamentalmente, pouco senhores de si. O que se assiste em Portugal, como noutros países, é ao fim da educação e a sua substituição pela formatação, em workshops flexíveis,  de personalidades sem carácter, sem lealdades, sem compromissos, sem sentido de si mesmas.

A escola pública, aos olhos das elites políticas, é um anacronismo, uma relíquia de um mundo que acabou. Como ainda não é possível um amplo consenso para acabar com ela, os partidos que ocupam o governo empenham-se em desestruturá-la, corroê-la, falando sempre na sua defesa e na educação para todos. Aquilo que está a acontecer, com mais uma reforma drástica do sistema, não é uma tentativa de reanimação de uma escola pública moribunda. Esta é já um cadáver e aquilo que se desenrola sob os nossos olhos é as exéquias, que serão dolorosas e prolongadas, mas não deixarão de ser exéquias.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Sonhos numa noite de Verão 2

Arnulf Rainer, Blu nero, 1957-59

Como a vida também um novelo se desenrola puxando por um fio. E enquanto se puxa, a trama de memórias, segredos, desejos, traições desdobra-se, toma forma, cresce para dentro do dia, e logo se suspende dos dedos, até que a mão se cansa e tudo se perde na poeira da solidão.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

No Limiar da Porta 9. Palavras - II

William Turner, Tempestad de nieve, barco de varpor frente a Harbour's Mouth, 1842

9. Palavras - II

Palavras, punhais de vidro
no comércio do corpo.

Crescem
em silêncio e cio.
Troam
em tempo de temporal.

1978

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A exumação do ditador

Barcelona bombing, 1938

Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortos. Mateus 8:22

Por mais que pense no assunto, ainda não compreendi a utilidade política da exumação do ditador Francisco Franco. O que ganha o governo socialista com o acto e, mais do que isso, o que ganha Espanha em remexer num passado, o da Guerra Civil, que deixou profundos traumas de ambos os lados da barricada? É verdade que a guerra terminou há 79 anos (em 1939) e serão já poucos os espanhóis que terão memórias reais do conflito. No entanto, há muitos filhos e netos, de ambos os lados, que transportam uma memória cultural terrível.

Os espanhóis tiveram, até agora, a imensa sensatez de deixar o tempo passar, como se soubessem que só os anos podem sarar feridas muito dolorosas. Na Espanha democrática, os descendentes políticos dos derrotados da guerra civil já governaram diversas vezes, sem qualquer problema. Retirar Franco do Vale dos caídos, independentemente da pertinência das justificações, é atiçar uma fogueira que se deveria extinguir.

Se o general Juan Chicharro (presidente da Fundação Francisco Franco) tiver razão, se estivermos perante uma manobra para desviar a atenção dos reais problemas que Espanha enfrenta, estaremos perante uma conduta absolutamente oportunista. Se Pedro Sánchez acha que o deve fazer por motivos ideológicos, como uma forma de compensação dos derrotados, uma espécie de vingança ou de reescrita da história, o mais provável é que esteja a reabrir feridas que começavam a ficar esquecidas, o que é, no mínimo, irresponsável.

O que ressalta de tudo isto é a falta de densidade política do actual Presidente do governo Espanhol. Não é os vivos que o preocupam, mas o lugar do morto. Quer sepultar de novo o ditador, não compreendendo que ele mesmo é um morto, um daqueles a quem Mateus se referia quando punha na boca de Cristo a frase Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortos. Os nossos vizinhos já passaram por melhores dias. Uma crise sem fim à vista na Catalunha, uma tentativa de reacender os velhos ódios, que o talento de Adolfo Suárez e de Santiago Carrillo começaram a apagar há mais de 40 anos, e, à frente do governo, um morto preocupado com os mortos.

domingo, 16 de setembro de 2018

Sonhos numa noite de Verão 1

Zao Wou-Ki, 1-3-60

Também o coração, muitas vezes, borbulha de cansaço e no lugar da ordem deseja o caos. Exausto, sem destino, procura no informe o lugar em que a memória se dissolva e todas as figuras percam o contorno. Ali, sente-o então, estaria a liberdade. O vórtice, porém, expele-o de novo para rudeza das ruas, para a ordem onde reina a estrita necessidade.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O quarto milagre de Fátima


A minha crónica no Jornal Torrejano.


O começo do ano lectivo é marcado pela generalização de uma nova reforma do sistema educativo. A ideia que está na base de mais uma aventura na educação portuguesa prende-se com a convicção da actual equipa do Ministério da Educação de que o trabalho realizado pelo professorado está globalmente desadequado às exigências do século XXI. Esta é uma crença que depende da fé e não, obviamente e por impossibilidade factual, de nenhuma informação empírica sobre o que será o futuro. Portanto, a reforma faz-se, como sempre, em nome da ideologia. Para além da minha profunda desconfiança com a ideologia educativa que suporta as novas orientações, saliento dois problemas que me parecem fatais.

Em primeiro lugar, a sua preparação. Alterações destas num sistema educativo exigem anos de estudo, planeamento, experimentação, avaliação dos processos e dos seus resultados, antes que se chegue a uma generalização a todo o universo escolar. O que vai entrar em vigor este ano não seguiu nenhum desses trâmites. Não corresponde nem a um estudo nem a um planeamento sólido (é apenas um conjunto de crenças da equipa ministerial). Teve um ano de experimentação – o ano lectivo transacto – em escolas que se voluntariaram, mas, como qualquer pessoas perceberá, um ano não permite qualquer avaliação séria de processos e ainda menos de resultados. Vamos generalizar uma reforma educativa que ninguém sabe se aumenta ou diminui as aprendizagens dos alunos.

O segundo problema diz respeito à exequibilidade material dessa reforma. Em primeiro lugar, ela impõe alterações drásticas na fora de trabalhar com os alunos. Ora isso exige um período relativamente longo de preparação do professorado para que este possa compreender, experimentar e apropriar-se daquilo que o governo pretende. A generalidade dos professores – e não por culpa destes – está a zero (a definição do currículo aconteceu no final de Agosto), sem qualquer tipo de formação. Em segundo lugar, o que se pretende não se compagina com turmas grandes, como continuam a ser, nem com a forma como estão organizados os espaços e os tempos escolares. Só a reforma do número de alunos por turma e a dos espaços escolares implicaria um investimento incomportável para o país.

Em resumo, a educação vai entrar, por iniciativa do governo, num processo que não foi planeado e avaliado seriamente, para o qual os professores não foram preparados e que exige, para que não seja uma catástrofe, recursos humanos, financeiros e de equipamento que não existem nem existirão nos próximos tempos. Talvez os responsáveis políticos acreditem num quarto milagre de Fátima.

domingo, 9 de setembro de 2018

Ensaio sobre a luz (37)

Antonio Reynoso, Una Mujer, 1944

Escondida, atemorizada pela luz exterior, uma mulher declina: primeiro, uma sombra; depois, um traço negro na cinza da parede; por fim, a escuridão perdida no oceano das trevas.

sábado, 8 de setembro de 2018

No Limiar da Porta 8. Palavras - I

André Kertész, Les quais, 1961

8. Palavras - I

Palavras, sombra de giesta
na árvore por escrever.

Sílaba a sílaba, a seiva
desliza e levita
na leveza das letras
na flor que espreita.

1978

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Um equívoco no BE


Este artigo do Público estabelece uma certa ligação entre o chamado caso Robles e a queda nas intenções de voto do BE. Essa relação existe mas não como se poderá pensar. Não é por aquilo que Robles fez que o BE poderá perder eleitorado. O caso Robles teve o condão de chamar a atenção para a inconsistência política do partido dirigido por Catarina Martins. É possível que durante muito tempo uma certa petulância e algum espectáculo na praça pública disfarcem a inexistência de ideias substantivas sobre como governar o país ou a existência de más ideias sobre o assunto. Basta, porém, um pequeno e inesperado acontecimento (e o caso Robles não passa disso) para que as pessoas pressintam, mesmo que de forma obscura, a falta de substância e comecem a equacionar se, à esquerda, não haverá melhores opções de voto. Se o BE pensa que a eventual perda de eleitorado se deve a Ricardo Robles, arrisca-se a não compreender o principal e o principal está na pouca consistência de muitas das suas propostas políticas e no próprio modo de fazer política.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Ensaio sobre a luz (36)

Wolf Suschitzky, Prinsengracht, Amsterdam, 1934

A luz ergue-se das águas e das pedras e, sorrateira, deixa cair flocos de melancolia sobre os ramos despidos pelos vendavais da invernia. Nas ruas, solidões passeiam-se iluminadas pela sombra do silêncio.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Knut Hamsun, Os Frutos da Terra


O sucesso internacional de Os Frutos da Terra (Markens Grøde, no original norueguês), publicado em 1917, é apontado como uma das causas decisivas para a atribuição a Knut Hamsum do Prémio Nobel da Literatura, em 1920. O romance é, na verdade, uma espécie de epopeia centrada na glorificação da vida na terra e do valor da persistência do indivíduo perante os problemas que a natureza e a sociedade lhe colocam. No centro da narrativa está um herói inesperado, o colonizador de terras pantanosas da Noruega, Isak de Sellanraa. Esta epopeia, apesar da poeticidade inerente ao apelo da Terra e ao carácter ferozmente individualista do herói, inscreve-se claramente no combate que Knut Hamsun – ele que foi um dos grandes modernistas na literatura – trava contra a modernidade, em nome de uma relação mais profunda do homem com a natureza.

Apesar da importância no desenrolar da intriga  de figuras femininas como Inger, a mulher de Isak, Oline, parente de Inger e personagem perigosa pelo seu oportunismo e tendência para a coscuvilhice, e de alguns vizinhos, a obra funda o seu sentido em quatro protagonistas masculinos. O herói Isak, os seus filhos varões Eleseus e Sivert e o meirinho da aldeia próxima da quinta de Isak, Geissler, o qual foi destituído do seu posto ainda numa fase inicial da narrativa. Isak representa o ideal do homem em contacto com a natureza. Duro, persistente, trabalhador, mas marcado pelo grande amor à terra e à família. É a personificação do ideal do homem do campo, aquele que está em contacto com o que há de mais essencial na vida. Um individualista que, apesar desse individualismo, se liga à grande tradição dos homens que transformam, pelo trabalho, a terra num jardim. Tudo nele o afasta da modernidade, enquanto projecto ideológico contaminado pelo liberalismo económico e pela visão burocrática e desencantada do mundo. Curiosamente, Isak, o inconsciente herói anti-moderno, não desdenha as conquistas tecnológicas trazidas pela modernidade.

O meirinho Geissler é a personagem mais misteriosa do romance. Ele próprio se designa como sendo nevoeiro. Vê o que é certo, mas não tem o poder para o realizar, segundo afirma. Tudo nele é nebuloso. É nebulosa a história que o leva a perder o lugar de meirinho, como é nebulosa a sua vida posterior e os poderes que possui, entre eles a sua capacidade económica e a de influenciar a justiça. Desde o início que se constituiu como uma espécie de anjo protector de Isak de Sellanraa e da sua família. Ajuda Isak a adquirir os terrenos da sua quinta ao Estado, ajuda Inger, devido a um caso de infanticídio, perante a justiça, proporciona alguns negócios lucrativos à família. Tudo isto em troca de nada. No último capítulo, Geissler pergunta a Sivert quantas quintas há naquela zona. Este responde que são dez. Geissler diz então: Dez propriedades? Bem estou satisfeito. O país precisa de 32 mil homens como o teu pai, digo-te eu, que o calculei. Geissler é o anjo da ideologia, uma espécie de deus ex machina que resolve certos problemas e dá uma orientação e um sentido: Escuta, Sivert: alegra-te! Têm (os de Sellenraa) tudo porque viver, tudo com que viver, tudo em que acreditar, nascem e dão à luz, e são essenciais à terra. Nem todos o são, mas vocês sim: essenciais à terra. Sustentam a vida. Persistem de geração em geração e sentem-se completos ao simplesmente procriar; quando morrem, os filhos tomam o vosso lugar. É este o significado da vida eterna.

Sivert é importante na narrativa não apenas porque escutou a anunciação do anjo da ideologia, mas porque é o continuador da saga iniciada por Isak. Sivert é o segundo filho varão mas será ele que tomará em mãos a tradição sagrada do homem da terra. Não é a sua acção no tempo da narrativa que lhe dá importância, mas o facto de ele assegurar que a epopeia terá seguimento e que a terra continuará a ser trabalhada por gente vista como essencial. Eleseus é o elemento contrastante da família. Esteve, ainda jovem, num grande centro, onde adquiriu hábitos adversos à vida na terra. É a presença do mundo moderno no seio da família de Sellenraa. Um burocrata pouco vigoroso, talvez pouco masculino, demasiado preocupado com a aparência e incapaz para o confronto com a natureza. Mais do que os empresários e engenheiros ligados a uma mina de cobre adjacente à quinta de Isak, Eleseus é o representante do mundo moderno e liberal. Inquieto, consegue com a ajuda fraternal de Sivert algum dinheiro e parte, com promessa de voltar, para a América, o lugar do mundo moderno por excelência. Nunca voltou.

O que significa o facto de Eleseus nunca ter voltado? Significa que dali, onde a modernidade se instala, não há retorno possível a um lugar onde a vida seja autêntica. A América não é meramente um país, mas o território da modernidade liberal, o lugar daqueles que vivem rapidamente – que são relâmpagos, como assinala Geissler – e que confundem os meios com os fins. O lugar da confusão. Não se fica a saber nada do destino de Eleseus, apenas que não voltou. Este silêncio, na economia da narrativa e da ideologia do autor, não é inocente. Seja o que for o que lhe tenha acontecido, o fracasso ou o triunfo, isso é irrelevante, porque a vida no mundo moderno é destituída de significação autêntica. A autenticidade reside no solo pátrio, na luta individual do herói com a natureza, até a domesticar. Este silêncio é revelador de uma opção ideológica do narrador e do próprio autor. Por muito que simpatizemos com Isak e Sivert, por muito atraente que seja a epopeia narrada, por genial que seja a técnica de Hamsun – o uso da corrente de consciência e do monólogo interior, por exemplo –, o livro não deixa de ser inquietante e ajuda a perceber muito bem a atracção do autor pelo nazismo germânico, onde encontramos muito desta ideologia. Seja como for, uma grande obra a ler com toda a atenção.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A decência do possível e a loucura do impossível

Giorgio de Chirico, Melancholy of a Beautiful Day, 1913

A esquerda que se situa à esquerda da social-democracia tem dois exemplos, na vida política actual, que valem a pena serem meditados e compreendidos no seu significado profundo. Por um lado, o caso grego e, por outro, a Venezuela. Estes dois casos relacionam-se exemplarmente, embora de forma antagónica, com a frase atribuída a Otto von Bismarck que afirma ser a política a arte do possível. Como sublinha o filósofo alemão Peter Sloterdijk (Dans le même bateau), esta perspectiva relaciona-se com os actores políticos que são politicamente adultos, aqueles que agem segundo o possível, e aqueles que permaneceram crianças deslumbradas pelo impossível.

O Syriza de Alexis Tsipras, na Grécia, chegou ao poder com um programa de deslumbramento e alimentado pelo desejo do impossível. Preso ao sonho alimentado na oposição, conduziu o país à porta da saída do Euro e, nesse momento crucial, Tsipras deu provas de uma maturidade política impensável. Entre o duro caminho daquilo que era possível fazer e a utopia que, por milagre, transformaria – imaginava-se – impossíveis em realidade, despediu a utopia, os seus representantes, e decidiu trilhar o dificílimo caminho do possível. Por muito rude que seja o caminho dos gregos, Tsipras encontrou uma abertura para um futuro mais decente. Mais decente não significa paradisíaco, mas apenas que pode não ser infernal.

Inferno é aquilo em que a Venezuela se transformou, com a chamada revolução bolivarista de Chávez e Maduro. A utopia bolivarista estava ancorada, como todas as utopias políticas, num desejo do impossível, numa desadequação dos objectivos políticos com a realidade existente. O resultado é aquele que está à vista de toda a gente. Não é que a situação anterior ao chavismo fosse paradisíaca. Não era. Aliás a situação normal da América Latina varia entre o duro purgatório e o inferno, com breves e esporádicas passagens pelo limbo. No entanto, o desejo do impossível, essa infantilidade política que anima certos sectores de esquerda, transformou o duro purgatório num inferno insuportável.

Não se pense, por outro lado, que a questão da política do possível se relaciona apenas com os meios para chegar a um certo destino político, à sociedade socialista onde desapareceria a exploração do homem pelo homem, digamos assim. O problema está mesmo nesse fim. Não se trata de trazer à terra uma sociedade perfeita, onde a justiça reinaria de forma absoluta sobre o egoísmo humano, mas de, paulatinamente, promover sociedades menos injustas, tornando as pessoas mais fortes, mais capazes de gerirem a sua vida, de fazerem frente às armadilhas que o destino – seja a natureza ou a sociedade – lhes estende. Entre a loucura do impossível e a decência do possível, por certo que a generalidade das pessoas agradece que a dispensem de aventuras que acabam sempre na falta de liberdade e de comida na mesa.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

No Limiar da Porta 7. A angústia cintila

Giorgio de Chirico, A angústia da partida, 1913-14

7. A angústia cintila

A angústia cintila
na lava do levante.

Átrio de alegria.
Sangue de súbito
pelo fogo devorado.

1978