segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Perfis 6. A actriz

Milton Greene, Marilyn Monroe, 1953
Se lhe tocassem os lábios, o corpo explodiria. Resignada, ela mostra-os envolvidos em ardis para atrair o desejo, que ela não deseja, mas que se lhe pega à pele como um animal viscoso, para a ferir com o anzol da peçonha. Vive a meio caminho entre o dia claro e a noite mais escura. Nos olhos, lê-se o espanto da culpabilidade tecido no véu da inocência. Os seus pensamentos são feitos de nada e por isso são puros, sem nódoa, sem a mácula que quem a observa logo neles espalha, cobrindo-a de escórias. Ela entrega-se ao devir, ao tumulto que lhe rasga a alma, que lhe dilacera o corpo coberto pelo tafetá da beleza, embora tramas e urdiduras não cheguem para tecer o sudário que lhe envolverá o corpo morto. Uma perna repousa sobre a outra, mas o medo que lhe transtorna os sonhos não encontra lugar onde descansar. Então levanta-se e corre rua a rua todos os recantos que há dentro de si. Quase canta nas grandes avenidas iluminadas, para logo, trémula e temerosa, se perder em ruas escuras e becos sem saída. Depois volta e torna-se a sentar. Poisa uma mão sobre uma coxa e cobre-a com a outra. Que fazer com estas mãos, pergunta-se. Que fazer com os meus lábios, murmura. Uma oração cresce-lhe no peito, ondula nos seios e ilumina-lhe o rosto. O público olha-a, preso ao fascínio, encadeado por uma luz que não sabe de onde vem, mas que brilha na escuridão, que lhe traz o dia claro, enquanto ela recua lentamente para dentro da casa da noite. Quanto maiores são as trevas onde se afunda mais intensa é a luz que irradia. Tão luminosa está na sua escuridão, que o público grita trouxe-nos o dia, trouxe-nos o dia. Dos seus olhos caem lágrimas amargas, enquanto os lábios se cerram para que segredo algum por eles se escape.

domingo, 25 de outubro de 2020

A Garrafa Vazia 23

Edvard Munch, Melancolia, 1894-5
Desejo enlouquecer
mais devagar.
A loucura tem pressa
e lamenta-se
do limite de velocidade.

Lívido, ponho travões
e ela irrompe
por dentro da sensatez
e semeia-se
na sombra da semente. 

Novembro de 2019

sábado, 24 de outubro de 2020

A decapitação

O ataque terrorista perpetrado há dias em França por radicais islâmicos está sobrecarregado de simbolismo. Não se trata de um mero homicídio, como aqueles que resultam da deflagração de bombas, ataques com armas de fogo ou atropelamentos com viaturas. O facto do professor francês de História, Samuel Paty, ter sido decapitado é uma mensagem simbólica que deve ser lida numa multiplicidade de sentidos. Não é uma mera represália por um comportamento blasfemo para os crentes do Islão. Também o é. No entanto, seria de uma enorme ingenuidade lê-lo apenas dessa forma.

A prática da decapitação não terá sido no mundo islâmico – e, por certo, nos conflitos com crentes de outras religiões – um evento fortuito. O acto de decapitar um ocidental em pleno Ocidente tem uma mensagem dirigida para milhões de muçulmanos, um exemplo que se inscreve numa longa tradição, o qual deverá servir como uma motivação para o empoderamento das vanguardas fundamentalistas do Islão. Por outro lado, a decapitação também toca numa corda muito sensível dos franceses. Apesar do instrumento ser diferente, a decapitação foi o símbolo daquilo a que se chamou o Terror na Revolução Francesa.

O facto de o professor decapitado o ter sido na sequência de uma aula onde se explicava a natureza da liberdade de expressão também é significativo. A liberdade de expressão é um dos grandes valores do Ocidente, uma imagem de marca das suas sociedades. Em nenhum outro lado ela tem o peso que possui no mundo ocidental. Se países de outras culturas a abraçaram, isso deveu-se à influência vinda da Europa e da América. É, porém, um valor que atormenta todo o tipo de fundamentalista – religioso ou político – que não está disposto a respeitá-lo. Esta decapitação serve para dizer aos ocidentais que estão enganados, a sua liberdade de expressão é irrisória perante a lei e a vontade islâmicas.

A separação da cabeça do corpo tem ainda um outro valor simbólico, porventura o mais decisivo. Se a civilização ocidental se afirmou e tornou patente a falência da civilização muçulmana, isso deve-se ao conhecimento, ao projecto da ciência moderna e à valorização que se faz do uso da inteligência e da razão crítica. A mensagem é clara. Nem a inteligência nem a ciência chegarão para conter a ira dos fiéis do Islão. Facilmente se corta uma cabeça, e sem o corpo não há inteligência que assegure conhecimento ou superioridade civilizacional. Quem pensar que a decapitação do professor francês foi um acaso está muito enganado. Samuel Paty foi condenado à morte e a uma morte que significa muito mais do que a supressão de uma vida. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Nocturnos 33

Alfred Cheney Johnston, Woman hands, 1920s
Uma mão prende-se na outra, os dedos entrelaçados, um anel como se fora um amuleto, o cigarro a brilhar na raiz cega de onde chega, hesitante e esquivo, o troar dos cavalos da noite.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Ramón del Valle-Inclán, Sonata de Invierno


A Sonata de Invierno (1905) termina o ciclo de quatro pequenos romances dedicados às memórias amorosas do marquês de Bradomín, talvez o mais admirável dos Don Juan, pois, segundo uma tia, era feio, católico e sentimental. A personagem de Bradomín permitiu, principalmente neste último romance, a Valle-Inclán fazer uma exploração romanesca sobre o carlismo, movimento político antiliberal, defensor do Antigo Regime e oposto tanto aos republicanos como aos monárquicos constitucionalistas. O movimento organizou-se em torno de Carlos VII. Xavier Bradomín, nesta Sonata, está na cidade de Estella, em Navarra, onde se encontra a corte do pretendente ao trono de Espanha, aquando de mais um conflito entre constitucionalistas e absolutistas.

As Sonatas, no seu conjunto, são um autêntico exercício de desconstrução. A estratégia levada a efeito por Valle-Inclán reside no dissimulado contraste entre aquilo que a personagem do Marquês proclama e o modo como é reconhecido pelas outras personagens, por um lado, e, por outro, o que o desenrolar da acção romanesca nos mostra. A estratégia é subtil por que foge ao modelo da demonstração. Aquilo que é afirmado pelo Marquês e pela envolvência é que estamos perante um Don Juan, um católico e um tradicionalista fiel a Carlos VII. O que acontece é que os seus actos e, muitas vezes, as próprias opiniões em vez de confirmarem a tese, acabam por contradizer tanto a sua natureza donjuanesca, como o seu catolicismo e o seu carlismo. O autor constrói a personagem do marquês a partir da tensão entre um ideal, dado pelas três características referidas, e uma existência que, apesar daquilo que o discurso sublinha e engradece, não tem a potência para realizar esse ideal. O glorioso marquês é, a todos os títulos, um falhado.

As aventuras amorosas, quase todas, são inconsequentes ou, mesmo se chegam à consumação sexual, há nelas mais um rasto de derrota do que a afirmação de um D. Juan coleccionador de vítimas, que abandona e esquece. Na Sonata de Inverno, apesar de uma noite fogosa com uma antiga amante aquando da sua chegada à corte de Carlos VII, os seus dois objectivos eróticos – evitar que essa amante opte pelo marido em detrimento dele ou o consumar da sedução de uma jovem educanda num convento – saldam-se da mesma maneira, com um beijo apenas, na verdade um beijo de despedida. Esta natureza equívoca do grande conquistador desenha-se em todas as outras Sonatas, de forma mais acentuada nas de Primavera e de Outono. O donjuanismo é, na verdade, um elemento ideológico e não uma forma de agir ou um modo de existência. Esta visão de Valle-Inclán da figura de D. Juan é uma das mais interessantes, pois desmonta o mito – reduzindo-o a mera ideologia, no sentido marxiano de imagem invertida da realidade – através de um processo que, um leitor ingénuo, acreditará que o reforça.

Em qualquer das Sonatas o apregoado catolicismo de Bradomín choca com a sua aura erótica, mesmo que frustrada. Apesar de ser uma espécie de D. Juan anti-D. Juan, o marquês não deixa de se envolver numa ambiência sensual, na qual mergulha a generalidade dos contactos com o feminino. Os casos consumados ou não com mulheres casadas conflituam com um dos mandamentos que regem a moralidade católica, o de não cobiçar a mulher do próximo. No entanto, o autor é um modernista e como tal não deixa de ser tentado a desafiar as convenções e as próprias convenções religiosas. Tanto na Sonata de Primavera como na Sonata de Inverno o marquês seduz, embora sem consumação sexual, duas candidatas aos votos religiosos. No caso da irmã Maximina, na Sonata de Inverno, há que juntar um outro ingrediente. Há a suspeita de que ela seria filha bastarda do próprio marquês, feia como ele. Desrespeito pela sacralidade do matrimónio, tentativa de destruição através da sedução de vocações religiosas e indiferença perante a possibilidade de incesto, casos que não geram nele nenhum traço de arrependimento, dão a medida da natureza meramente ideológica do catolicismo de Xavier Bradomín.

Resta o seu tradicionalismo, a sua fidelidade a uma aristocracia medieval e à glória antiga de Espanha. Já na Sonata de Verão, passada no México, a revivescência da glória imperial de Espanha, à qual o carlismo se declarava fiel contra a visão dos liberais, é atravessada por uma funda ironia. Na Sonata de Inverno, toda ela perpassada por acontecimentos da história política de Espanha da época em que decorre a acção romanesca, vemos o marquês próximo da Corte, a sua intimidade com Carlos VII, o risco que corre pela causa e até a perda de um braço num recontro com as forças militares inimigas. É aqui que, ao contrário do que tinha acontecido até aí, o discurso vai desmentir a acção. O que será o carlismo e a causa absolutista para o marquês, ele que combate e dá um braço pela causa de Carlos VII? Oiçamo-lo. “Eu achei sempre mais bela a majestade caída que sentada num trono, e fui defensor da tradição por estética. O carlismo tem para mim o encanto solene das grandes catedrais, e já nos tempos da guerra ter-me-ia contentado que o declarassem monumento nacional. Bem posso dizer, sem jactância, que como eu pensava o Senhor.”

Quase no fim da obra, Valle-Inclán deixa a chave decisiva para compreender a personagem Xavier Bradomín, esse falhado D. Juan, falhado católico e falhado carlista. “Eu não aspiro a ensinar, mas a divertir. Toda a minha doutrina está numa só frase: Viva a bagatela! Para mim, ter aprendido a sorrir, é a maior conquista da Humanidade.” A equivocidade do marquês não o aproxima da personagem de D. Juan, mas de D. Quixote. Bradomín é um Quixote dos tempos modernos, um esteta que se diverte com aquilo que finge ser, que ri das suas crenças e da sua falência existencial. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Alma Pátria 66: Filomena Casado e Reginaldo Duarte, Muro do Derrete


 

Este dueto, Muro do Derrete, interpretado por Filomena Casado e Reginaldo Duarte, extraído da revista A Bola, foi gravado em 1931. Uma aparente cançoneta de amor é, na verdade, um exercício ideológico poderoso, traz com ele uma visão que se pretende ingénua e bucólica das relações amorosas, mas que faz parte de uma estratégia política que visa idealizar o mundo puro da terra contra a promiscuidade e a perdição dos grandes centros urbanos. Estes, na verdade, não eram nem grandes nem especialmente urbanos e cosmopolitas. Contudo, enquanto o regime saído do golpe do 28 de Maio de 1926 se procurava consolidar e articular politicamente, a frente cultural não era desprezada pelos novos poderes como forma de legitimação política e de construção de um ideal nacional, baseado na sublimação do mundo rural e da interioridade. Um universo de marias e de manéis felizes, honrados e, claro, pobres.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

A Garrafa Vazia 22

Giorgio de Chirico, La recompensa del Adivino, 1913
O raio que te parta.
Não há verso
como este.

O ruído do ritmo
a raiar o rugoso
das ruas.

No poço, roldanas
rangem,
e o verso rasteja
no raio que se partiu.

Novembro de 2019

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Ensaio sobre a luz (87)

Alson Skinner Clark, Autumn Blaze

A claridade de Outono ilumina o mundo de rosas, amarelos e violetas. Traz consigo uma sugestão de sombra, que logo se transforma em incêndio, a grande fogueira que derramará, no silêncio da casa e no murmúrio dos campos, o calor da vida no arpejo dos corações.

domingo, 18 de outubro de 2020

Nocturnos 32

Eduardo Nery, Nocturno, sd

A noite é um vórtice que desce dos céus e envolve o mundo com a turbulência da quietude e o alvoroço do silêncio. Nela, antigos deuses entram em casas vazias e dormem exaustos, em camas de ferro, o sono da eternidade.

sábado, 17 de outubro de 2020

Beatitudes (30) Contemplação

Gustav Klimt, The Church in Cassone, 1913
Os dias em que te sentas na margem do rio e deixas os olhos poisar nas águas que deslizam para a foz. E naquele fluir incerto imaginas ora o passado com a perfeição do que passou, ora o futuro que lança as raízes no dia que vives. Outras vezes, porém, apenas as águas te ocupam o espírito, se agitadas pela invernia, se repousados pelo Estio. Então esqueces as peripécias em que mergulha a vida e, como se fosse um milagre, sentes o silêncio de onde brota a realidade da tua existência.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Sonhos numa noite de Verão 23

Luís Noronha da Costa, Deus morreu: Morte ao rei, C. 1971-1975
A paisagem sombria, feita de matérias imponderáveis, não facilitava a caminhada. A falta de resistência, estranhamente, retardava o movimento do corpo e agravava o esforço exigido aos músculos para se moverem. Ela, uma beleza singular e resplandecente, dirigia-se para mim com decisão, uma sombra que me fazia arder de desejo. Imaginava-a despida, o contorno do corpo, a firmeza dos seios, as pernas magníficas sob o império dos meus dedos. Quando se aproximou, vi que a seguia outra sombra mais pequena. Não a devias ter trazido contigo, gritei. Ela, porém, passou pelo meu corpo como se fossa um holograma. Acordei sobressaltado e nos meus ouvidos ressoava ainda a sua resposta: esta é a tua morte, trata-a como se fosse filha tua. 
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A Garrafa Vazia 21

Ana Hatherly, sem título, 1969
Do nome sobeja-me
o lodo das letras
e a profissão
qualquer serve.
Trago em mim
a espada da errância.
Com ela separo
do crude do corpo
a curvada cabeça.

Novembro 2019

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A televisão e a destruição da vida política

Tom Wesselmann, TV Still Life, 1965

Anteontem, num dos telejornais da noite, o acto de entrega do Orçamento de Estado na Assembleia da República foi tratado como sendo um acontecimento de importância decisiva para o destino do país. Não me refiro ao Orçamento em si, mas à diligência burocrática de o fazer chegar ao parlamento. Teve direito a directo, no qual, perante o vazio e a falta de actores, a repórter declinou, durante um tempo apreciável, um conjunto de banalidades sobre um não acontecimento. Esta contínua ficcionalização dos pequenos nadas que compõem a vida política, que não deveriam merecer qualquer atenção, tem um efeito perverso.

Quando alguém lê um romance, vê um filme ou vai ao teatro adopta uma atitude de espírito que Coleridge caracterizou como suspensão da descrença. Lemos ou vemos algo que sabemos ser ficcional, algo que temos a certeza de não ser mais que um produto da imaginação, como se se tratasse de um acontecimento da vida real. As personagens e as situações ganham uma densidade e uma realidade que, de facto, não possuem. Fazemo-lo por que isso nos dá um prazer específico. Fingir que é verdadeiro aquilo que não passa de uma mera invenção.

O facto de a comunicação social, com destaque para as televisões, apresentarem os acontecimentos mais ou menos banais da vida política como ficções tem um efeito contrário ao que foi assinalado por Coleridge para a ficção. As pessoas acabam por suspender a crença na realidade. A realidade política, através da ficcionalização a que é sujeita pela comunicação social, perde a sua densidade ontológica e as pessoas passam a senti-la como uma mera invenção telenovelesca, que não se deve levar a sério. As pessoas sentem prazer, agora, em tratar como mera ficção aquilo que é a pura realidade.

É esta falta de seriedade e esta destruição de realidade com que a política é tratada que vai permitir a eleição do primeiro clown bem-falante que apareça. Para coisas que não são para levar a sério ou que são meras ficções qualquer um – de preferência se for mau – serve. Durante muito tempo a comunicação social foi vista como o quarto poder, um poder de controlo dos outros. Hoje em dia, ela não deixou de ser um poder, mas é agora um poder de destruição das instituições e da própria vida política. Faz parte das instâncias dissolventes da racionalidade política e daquelas que abrem o caminho do poder para a praga de aventureiros e oportunistas que parecem nascer debaixo das pedras.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Nocturnos 31

Jorge Barradas, Natureza Morta, 1926

Lentamente, a escuridão desce, com as suas asas de azeviche, sobre a mesa e tudo se dissolve no âmbar luminoso da noite. Pratos, chávenas, jarros, a fruta madura que haveria de alimentar o desejo da luz, a ânsia dos dias.
 

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Beatitudes (29) Artesanato

Júlio Resende, O oleiro, 1954

A revolta contra o poder da máquina ou o cansaço com o mundo da indústria alimentam a suave ilusão de que tudo o que nasce das mãos do homem é mais autêntico e está mais próximo da sua natureza. Os olhos ficam presos à roda do oleiro, enquanto as mãos do artesão afeiçoam o barro, que, como numa metamorfose, percorre o árduo caminho que vai da viscosa lagarta à exuberante borboleta.