domingo, 10 de dezembro de 2017

Alma Pátria - 40: Francisco José - Olhos Castanhos



Este era também um dos "cromos" que não poderia faltar nesta "colecção" de Alma Pátria. Temos a reprodução da edição de Olhos Castanhos em 78 rpm, a primeira gravação, efectuada pela etiqueta Estoril. Foi graças ao blogue IÉ-IÉ que descobri que Francisco José é irmão do cientista Galopim de Carvalho, esse mesmo, o dos dinossauros. Olhos Castanhos é uma magnífica canção, talvez a mais conhecida de Francisco José. Talvez fosse mais indicado uma outra, Guitarra Toca Baixinho, mais de acordo com o espírito da rubrica. Mas fiquemos pela taxonomia dos olhos, que não deixa de ser um catálogo de fidelidades e traições. Se não tiver olhos castanhos, paciência. Acontece aos melhores.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (17)

Dennis Stock, Venice Beach Rock Festival. California, 1968

A luz do Verão nasce no centro do mar e derrama-se, furtiva, no desejo dos corpos que, entediados, esperam a revelação de um segredo ou da volúpia de uma deusa.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Descrições fenomenológicas 30. Algumas mulheres 3

Rothko, N.º 5, 1964

Foi assim que a vi pela última vez. Um fundo negro, de um negro mais espesso que a noite, onde o rosto fulgurava na púrpura da escuridão. Não falava com ninguém, pois não havia quem dela se aproximasse. Olhava, com os olhos azuis, demasiado azuis, para um ponto indefinido. Os lábios deveriam ter incendiado muitas paixões, mas agora não havia neles nada que cantasse, nem sequer a promessa de um amor de ocasião. Estavam fechados, como fechada estava a face. Não havia sombra de desafio, nem uma nuvem de desilusão. As narinas, por vezes, abriam-se ligeiramente para deixar passar o ar. Nessas alturas, as pálpebras tremiam e o brilho dos olhos diminuía, mas logo se recompunha. Quem a via poderia pensar que esperava, mas nada o indicava, pois nela não ardia a tocha do desejo. A mão direita saiu da obscuridade e pousou no pescoço. Os dedos finos e compridos, belos como os olhos, eram agora ramos que nasciam do corpo. Os anos ainda não tinham passado por eles. Seguravam, na sua palidez, o fulgor que se desprendia do silêncio do rosto.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Uma comédia

Jean-Louis Hamon - La comedia humana (1852)

Fátima Bonifácio terminava o seu artigo no Observador, sobre a eleição de Mário Centeno, assim: Sintomaticamente, as reacções mais do que reservadas do PCP e do Bloco à promoção europeia de Mário Centeno foram mais do que cautelosas. António Costa que se cuide. Mais do que uma aviso a Costa, a articulista estava a expressar um desejo. Um desejo, aliás, partilhado por largos sectores da direita. Esse desejo não é outro senão que o BE e o PCP façam o trabalho que a direita parece incapaz de fazer: derrubar o governo para que ela, direita, retorne ao poder.

Ontem, por um acaso, ouvi, na SIC Notícias, Mariana Mortágua dizer, sobre a eleição de Centeno, duas coisas. Primeira, que a eleição de uma pessoa não implica uma alteração das políticas de uma instituição e que não é expectável que haja qualquer novidade vinda do Eurogrupo. Segunda, que sempre houve uma divergência de fundo entre o BE e o PS sobre as questões do euro e das políticas que estão com ele relacionada. Apesar disso, acrescentou, tem havido condições para um acordo político. Não muito diferente será a posição do PCP.

O interessante é a conjugação das duas afirmações. Dito de outra maneira. No plano dos princípios, há uma divergência entre o PS e os partidos à sua esquerda. No entanto, e apesar da posição socialista implicar o respeito pelas políticas europeias, essa divergência não é fundamental. Não tem a importância suficiente para impedir um acordo e uma convergência de esforços das esquerdas. Há duas maneiras de ler a situação. Uma é a desejada pela direita: que esta divergência cause o colapso da geringonça. A outra é aquela que a direita teme e recalca: na prática e apesar de alguma retórica, BE e PCP aceitaram as regras do jogo e os princípios de equilíbrio orçamental e de combate ao défice público.

Dois anos de governação e três orçamentos parecem provas empíricas suficientes para suportar esta última afirmação. Por que razão a esquerda – que a direita, em desespero de causa, não se cansa de chamar radical – aceitou as regras do jogo? A coisa explica-se em poucas palavras: a Grécia e a governação Syriza. Quem quer copiar, seja onde for no mundo ocidental, as peripécias dos primeiros tempos do Syriza? Quem quer sofrer a humilhação que este sofreu? Os partidos políticos também aprendem.

O resultado de tudo isto não deixa de ser caricato. A grande clivagem política que animou o debate público, nos últimos dois anos, sobre a governação do país era pura e simplesmente inexistente. De uma maneira ou de outra, uns através dos princípios e outros através das práticas têm estado de acordo. Estas encenações com as suas liturgias, contudo, não servem apenas para satisfazer as clientelas ideológicas dos partidos. Servem também para esconder a sua falta de ideias sobre o que fazer do país. Na verdade, uma comédia. E é aqui que está o problema.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Micropoemas - Mármore 2


2. Pedras

Pedras,
fantasmas no fundo da serra.

Jazem mortas,
frias para quem as espera.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Um tronco cortado

Jean Dieuzaide, Vacances dans ma maison, cytologie, 1975

Olhamos para o tronco cortado e, no lugar de vermos o trabalho da morte, descobrimos o fascínio de uma geometria que nos faz imaginar símbolos que remetem para mundos desconhecidos ou sinais de um segredo que, sem sabermos porquê, sentimos que queremos desvendar. A morte na figura do animal, com a putrefacção da carne e do sangue, causa-nos nojo e horror. A morte no mundo vegetal acorda em nós sonhos e desejos que nos conduzem ao louvor da vida.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A eleição de Centeno

Alfonso Parra Domínguez - Realidad dialéctica (1977-78)

Nota-se, em certos sectores da direita, mais activos nas redes sociais, um certo ressentimento com a eleição de Mário Centeno. Esse ressentimento manifesta-se, por vezes, de forma enviesada. Anunciam que o BE e o PCP tiveram de engolir mais um grande sapo. Contudo, isto não passa de um equívoco. Quando esses partidos estabeleceram os acordos de governo com o PS, imaginavam que este se tinha transformado num partido revolucionário anti-europeu, um partido que estaria disposto a emular os primeiros tempos do Syriza na Grécia? É evidente que tanto PCP e BE sabiam bem, muito bem, que tipo de partido era o PS. Sabiam também que este, no governo, não desafiaria o essencial da ortodoxia que rege o euro. BE e PCP não foram ao engano. Só para a direita foi uma surpresa o caminho que o país seguiu com a actual solução política.

Dirá essa mesma direita, desesperada por BE e PCP não derrubarem o governo para que ela volte ao poder, que isso contraria aquilo que ambos os partidos defendem. Talvez. No entanto, desconfio que tanto os eleitores do BE como os do PCP estão muito longe de quererem um novo resgate ou uma aventura que conduza ao enfrentamento com a União Europeia e à saída do Euro. Mesmo para comunistas e bloquistas a saída do Euro poderia ser devastadora para os seus partidos e, portanto, não estão dispostos a criar um problema em que se corre o risco de todos perderem, talvez eles mais que todos os outros. Também BE e PCP sabem, e o PCP sabe-o há muito, que a política é a arte do possível e percebem que há que conformar os princípios aos interesses dos seus eleitorados. Coisa que todos fazem. A realidade é o que é.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (16)

Andre de Dienes - Paris, 1936

O silêncio nascido da luz abre-se como um vendaval a rodopiar na noite que despiu as árvores para as revestir com a gélida glória das névoas de Dezembro.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Gravitas

A minha crónica em A Barca.

Os antigos romanos possuíam quatro virtudes que estimavam acima de todas as outras. A pietas (piedade), a dignitas (dignidade), a iustitia (justiça) e a gravitas (gravidade). A tradução portuguesa de gravitas por gravidade não consegue reter a riqueza e densidade semântica do vocábulo latino. Literalmente, gravitas significa peso. Este peso, todavia, não é um peso físico mas moral. O peso que alguém ostenta devido à profundidade da personalidade, à seriedade, à responsabilidade e ao fundo compromisso com o dever. A gravitas foi vista como o pilar do gentleman inglês nas épocas Vitoriana e Eduardina. Até ainda bem dentro da segunda metade do século XX, um político que se prezasse ostentava a gravitas como forma de legitimar a sua presença no poder.

Sem se perceber muito bem porquê, talvez devido aos eflúvios do Maio de 68, a gravitas deixou de ser uma virtude que um homem político devesse ostentar. Talvez as câmaras da televisão, depois da grande revolução dos costumes, convivam mal com personagens graves, profundas e sérias. Elas precisam de outro tipo de actor político para animar o show business. Ora a decadência da gravitas não representa apenas a substituição de políticos com peso na sociedade por políticos cuja característica seja a leveza. A diluição da gravitas arrastou com ela o desaparecimento dos atributos que a compunham. Não apenas desapareceram as personalidades profundas, como desapareceram o culto da seriedade, da responsabilidade e o compromisso com o dever. Não vale a pena dar exemplos tanto em Portugal como por essa Europa fora. Talvez com a excepção da senhora Merkel, o mundo político é risível.

Em tudo isto há um sintoma de uma doença profunda que atinge as nossas democracias. Essa doença, porém, não tem a sua origem nas elites políticas mas nos cidadãos e nas comunidades. Estas, com o desenvolvimento da democracia e do bem-estar, tornaram-se complacentes com as elites dirigentes. São os eleitores que permitiram, primeiro, e exigiram, depois, que a gravitas desaparecesse da vida política. São elas que escolhem políticos risíveis, que veneram gente irresponsável. São elas que desligaram, nas suas concepções de vida e de comunidade, a relação entre dever e política. Assim como os monarcas absolutos, no Antigo Regime, se libertaram da tutela do papado, também os políticos actuais estão a libertar-se da tutela dos cidadãos. Estes são agora cúmplices da leveza com que as elites governativas tratam do bem público. Ora, contrariamente ao que se possa pensar, a democracia não é um regime irrevogável. Um dia poderá cair por falta de gravitas.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Micropoemas - Mármore 1

Imagem daqui

1. Branca cal

Branca cal
tisnada de cinza e sangue.

Rumores de outono e vida exangue.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O que se perfila

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Apesar dos trágicos acontecimentos ligados aos incêndios e de algumas patetices governamentais, a esquerda continua, nas sondagens, a ser largamente maioritária. O problema começa agora que os acordos, que estabeleceram a coligação parlamentar, estão praticamente cumpridos. O primeiro problema é o próprio tipo de solução política existente. O facto do governo não ser de coligação, com um acordo político sólido e com a responsabilidade partilhada por toda a esquerda, conduz a que todos comecem a calcular o que pode ser mais benéfico para si próprios. Um governo de coligação distribuiria mais justamente pelos três partidos os méritos e os deméritos da governação, sem que tivéssemos de assistir ao espectáculo impúdico que, por vezes, nos é oferecido do regatear de méritos na praça pública.

O segundo problema é que a partir de agora a idiossincrasia de cada partido vais ser mais forte do que a necessidade de sustentar uma solução política consistente. O PS está a retornar ao que é há muito. O caso das rendas da EDP é um sinal importante de que assim é. Como foi sublinhado por Miguel Sousa Tavares, o silêncio do governo – mas também da oposição de direita – perante o discurso de Mariana Mortágua, na aprovação do Orçamento, foi revelador de que o PS não deixou de ser o que era. Juntamente com o PSD e o CDS, um sustentáculo dos interesses instalados que devoram a fazenda pública e a privada. Parte dos socialistas parece ansiosa em libertar-se do apoio da esquerda para voltar às suas velhas políticas, que conduziram o país onde se sabe.

Também o BE e o PCP estão pouco dispostos a trocar, no futuro, o conforto ideológico de partidos de contestação por um papel de partidos de governo dentro do actual quadro de compromissos do país na esfera europeia e do euro. O que o país precisa das esquerdas é de um programa sério de reforma do Estado, construindo uma transparência que não existe, um projecto de diminuição do papel dos governos na instrumentalização das instituições públicas, um desígnio de modernização da economia e um plano sólido da preparação dos cidadãos para enfrentar os desafios da economia globalizada. Tudo isto dentro de um quadro de reforço da liberdade de iniciativa privada e de igualdade de oportunidades. O que o eleitorado de esquerda vai ter à sua disposição, a continuarmos no actual caminho, será bem diferente. Um PS amancebado, mais uma vez, com os grandes interesses, o BE preso em causas fracturantes e o PCP limitado à reivindicação social. O país e o eleitorado de esquerda mereciam outra coisa.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Os gregos

Maynard Owen Williams - Two actresses at Delphi Festival adorn costumes of classical Greece, 1930

Não é possível ficar indiferente ao mundo que suscitou aquilo que vemos na fotografia de Maynard Owen Williams. A ilusão apolínea é uma promessa, nunca cumprida, de ordem, mas de uma ordem cuja rude racionalidade é envolvida pela beleza. E assim como o mundo dionisíaco continua a povoar os nossos sonhos nocturnos, o apolíneo persiste nos sonhos que sonhamos em estado de vigília. Enquanto não nos libertarmos dos antigos gregos não deixaremos de ser europeus. Se um dia, por um destino nefasto, os esquecermos, será que mereceremos estarmos vivos?

terça-feira, 28 de novembro de 2017

As coisas modernas

Pierre Dubreuil - Lyres Modernes, 1930

Num primeiro impulso, podemos ser levados a pensar que a passagem do tempo, quase 90 anos, tornou o título, Liras Modernas, anacrónico. Olhamos e o que vemos são velhos discos de 78 rpm. De 1930 para cá, tornaram-se obsoletos. A partir de 1948 começaram a ser substituídos pelos LP de vinilo. Estes foram-no pelo CD, embora sejam, nos nossos dias, objecto de culto que lhes dá nova vida. O CD cedeu perante ficheiros armazenados, primeiro, num dispositivo pessoal e, agora, numa nuvem impessoal. Apesar de toda esta história, o título nada tem de anacrónico e continua pleno de sentido. Faz parte das coisas modernas, como os velhos discos de 78 rpm, tornarem-se rapidamente obsoletas. A obsolescência não é uma mera consequência extrínseca ao objecto devido à passagem do tempo e à inovação técnica. A obsolescência é parte integrante da natureza do objecto moderno. Este não é fabricado para a eternidade mas para o momento. No projecto da sua produção está o desejo da sua morte. No entanto, onde se surpreende a modernidade do título é na metáfora que designa os discos como liras. Uma lira real exige uma dura e esforçada aprendizagem para ser tocada e distribuir prazer pelo ouvinte. Um disco não exige mais esforço que o da compra. O objecto moderno é aquele que democratiza o prazer sem democratizar o esforço que conduz ao prazer.  O objecto moderno, ao dar a ilusão de uma democracia do consumo, cria, na verdade, aristocracias quase impermeáveis, da produção e da performance.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Árvores

Erich Angenendt - Tanz der Birken, 1949

Raramente, na economia das relações do homem com o mundo que o rodeia, se presta atenção a esses seres silenciosos que são as árvores. Aqueles que, nos campos, delas dependem ser-lhe-ão mais atentos, eventualmente, do que os homens da cidade. Em muitos, seja qual for o lugar em que vivem, a atenção dada deve-se à utilidade com que medem a sua presença. Haverá, porém, uma outra dimensão que estabelece uma relação mais funda e fundamental entre homens e árvores. Como a fotografia de Erich Angenendt torna manifesto, as árvores permitem uma contemplação desinteressada, uma contemplação estética, onde um prazer nos aproxima do segredo que habita esses seres silenciosos que nos observam impassíveis. E nessa aproximação, que o prazer estético proporciona, pode o homem descobrir que também ele pode aprender a olhar, impassível e silencioso, o mundo. Pode aprender uma estranha fraternidade com esses seres que dançam sobre a terra ao erguer os seus ramos para os céus.

domingo, 26 de novembro de 2017

Micropoemas - Elementos 8

Edward Burne Jones – Hope (1896)

8. Esperança

Esperança,
um vento frio que te açoite.

Escuto e oiço um som velar a noite.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)