quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Descrições fenomenológicas 1. A praça

Zao Wou-Ki - 1-3-60

Uma perna fixa no chão, outra erguida e, num impulso, as pernas trocam de posição e o rapaz afasta-se a correr, no seu fato de domingo, calções curtos, meias até ao joelhos, sapatos flexíveis, boné de adolescente. Afasta-se da multidão que chega. Homens e mulheres juntam-se ali, em pequenos grupos que se fazem e desfazem ao sabor das conversas. Pisam a gravilha, que se ouve ranger sob o peso dos corpos, a impaciência dos gestos, o cansaço de domingo. Da praça, abre-se para norte, uma rua de casas negras, de vidraças obscuras, toldadas pelo luto. Anunciam solidões sem fim. Nas janelas entreabertas não se vê vivalma, apenas cortinados levemente entreabertos, de onde ninguém espreitará. A casa é o lugar da solidão. E de lá fogem todos os que desaguam no rossio, onde a conversa parece não ter fim. Não se vê uma árvore. Um pouco acima, as chaminés vomitam o fumo sombrio que se desprende das entranhas das grandes fábricas. Nuvens caprichosas formam-se sobre a cidade, negras, tocadas pelo vento, máscaras com que o céu azul se oculta. Rodopiam e, lentamente, descem sobre os ombros de quem ali conversa, são como um véu de morte nos braços da manhã.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Rumores de Maio 15. Pássaro

Rafael Baixeras - Casa, humo, mar, pájaro (1987)

15. Pássaro

Deter a água do rio, o zumbido da semente a germinar,
a ressaca da memória, se desce pela luz do caos.
E um pássaro traído traz no voo a força do pólen.
Desenha um mapa de cheiros, uma carta de flores,
rios subterrâneos e solares. É uma ave aquática!
Floresce no rio e abre-se ao murmúrio da pedra,
ao tumulto que sopra o lençol alvoraçado do mar.

(Rumores de Maio, 1977)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Pedro Almodóvar, Julieta


O último filme de Pedro Almodóvar, Julieta, construído a partir de contos de Alice Munro, pode ser visto como um questionário sobre a relação entre mãe e filha. Melhor, sobre a dependência que a maternidade, pelo facto de trazer ao mundo um novo ser, institui na construção da identidade da mulher. A estratégia do cineasta não é a de analisar o concreto de um relacionamento, mas extremar o ponto de observação, colocando o foco no impacto da ausência da filha na vida da mãe. Não a ausência trazida pela morte, mas a de uma radical decisão arbitrária, na qual a filha corta, sem que a mãe perceba a razão, todos laços.

O filme de Almodóvar acompanha o processo de construção da subjectividade de Julieta. O que está em jogo é a identidade desta. Este processo mostra-se, porém, muito longe do ideal iluminista de uma autonomia absoluta. Ao trazer outro ser ao mundo, não apenas essa autonomia é posta em causa pela responsabilidade, como se instaura uma espécie de processo que remete, através do vínculo biológico e afectivo, a uma tradição. A autonomia do sujeito é drasticamente reduzida pela dependência perante os filhos, neste caso, a filha. Deste ponto de vista, Almodóvar faz um filme de limites. Torna patente a fragilidade de um projecto de construção de si como alguém absolutamente autónomo. A filha de Julieta, na radicalidade da sua pretensa autonomia, manifesta o limite do projecto da modernidade, do ideal iluminista de autonomia do sujeito. 

O grande revelador desta ausência de autonomia é, contudo, a esperança. Depois, de um primeiro período de desespero, após o desaparecimento da filha, Julieta parece reconciliar-se com a vida e, aparentemente, vive a sua vida, como se tivesse conquistado a sua autonomia em relação à filha desaparecida. Bastou, porém, um pequeno sinal para que a esperança voltasse e revelasse uma estranha menoridade da mãe perante a sombra ausente dessa filha. Contrariamente às expectativas da modernidade, onde a esperança é a esperança de uma progressiva autonomia dos indivíduos, o cineasta espanhol mostra-a como aquilo que devolve Julieta à sua menoridade, à dependência da filha ausente. O filme nos dá a ver como o projecto iluminista esbarra na natureza dos homens, nas dependências que a vida da espécie institui e que nenhum decisão da vontade parece ter poder para anular.

domingo, 25 de setembro de 2016

Livro do Êxodo - 26. Legiões de caminhantes

Alfonso Fraile - Caminantes (1977)

Passavam legiões de caminhantes e nas bocas, plenas de vazio, traziam um símbolo solar, tão escancarado que os dentes sobressaíam no negrume da noite e a respiração ecoava para lá dos muros, a cidade cercavam. Se tinham nome, ninguém o conhecia, apenas se ouvia: lá vão aqueles que vão,  mulheres, crianças e homens. Melhor fora que ficassem em casa, a cuidar das borboletas no jardim, a limpar destroços, os dias os trazem, a cozinhar e na cozinha matar a fome a quem fome tem. Foi assim que aprendi a beber até à última gota, a taça inclinada, a boca sôfrega, o barulho da noite que cai a estrondear, entre relâmpagos e vozes, naquele sítio onde a memória se tornou prisioneira e uma ferida escorre.

Quando o vento ordenou: farás laçadas de azul na ponta de uma cortina, já as janelas eram parede, de lá ninguém via os caminhantes caminhar, e no seu lugar havia apenas um vestígio de pedra, onde rapazes escreviam com lápis de carvão o nome das namoradas e palavras azedas, agora todos as dizem, mal a boca se destapa e os sentimentos se soltam, numa dor de solidão, na pressa contagiosa de mostrar o fundo, o mar das emoções a carregar vagas de algas verdes, por vezes roxas, restos de tecidos, chitas e tafetás, ouvi dizer, um punhado de gaivotas mortas e penas deslaçadas de corpos desfeitos ou de almas amargas.

Se ainda alguém desenha, no lugar vazio da janela, corações e setas de Cupido, é por fastio, um resto de rancor, ou como armadura contra a cólera, das alamedas, outrora de saibro, de tudo tomou conta, como agora homens e mulheres tomam conta de cães, a alçar a perna pelas árvores e no seu ser tão raquítico esganiçam a voz e ladram num arremedo de cão-de-guarda, a marcar no vento fronteiras, estremas fluidas a crescer no pântano, a ciciar propriedades, imensos latifúndios de gerânios, varas selvagens de cobras azuis, um rebanho de varejeiras, ou manadas infinitas de moscas sibilantes, ao longe, tão ao longe, parecem anjos negros, presos na torre da Igreja, se os sinos repicam e os carros zunem e as pessoas olham cansadas as legiões de caminhantes, então passam. Vão levados pelo silêncio

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Uma questão de fé

Jan Vermeer - The Allegory of Faith (1671-74)

Pego num livro de Nuno Júdice, O fruto da gramática, e logo no início do segundo poema leio: Desfio um rosário de conjunções / nos dedos da memória. E uma iluminação desce em mim e transporta-me para um longínquo passado, aquele em que – certamente, por inépcia minha – tentava decorar as conjunções recitando-as de enfiada, talvez distinguindo, mas a memória já não recupera esse aspecto, as coordenativas das subordinativas. Descobri, ao ler o poema de Júdice, que aquilo que eu fazia, há bem mais de quarenta anos, era rezar, rezar o rosário das conjunções, ou das preposições, ou dos advérbios. Os dedos da memória de que fala o poeta não são apenas os dedos que nos transportam para essa longínqua experiência. São também os dedos com que eu tentava prender em mim, na precária casa da memória, essas classes de palavras. Julgo que a escola, essa escola que me incitava a desfiar rosários gramaticais, uns atrás dos outros, nunca conseguiu fazer com que eu percebesse para que serviam essas estranhas palavras. Na verdade, para rezar tantos rosários era preciso ter fé, muita fé, e eu, já nesses dias, sofria de uma manifesta falta de fé.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A doença infantil


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Quem faz política, antes de abrir a boca, deve medir o impacto que as futuras afirmações poderão ter. A arte da prudência é essencial. Era tempo do Bloco de Esquerda (BE) meditar sobre o assunto. A trapalhada relativa ao novo imposto sobre património e o convite, endereçado por Mariana Mortágua, ao Partido Socialista, para este pensar se quer ser alternativa ao capitalismo (sic) são dois tiros no governo. Aquilo que a direita não tem conseguido fazer – abalar o executivo – está a esquerda, com inexcedível empenho, a fazê-lo, e, mais que todos, o BE. A direita exulta com a dádiva caída dos céus.

Grande parte das pessoas que votam à esquerda, onde me incluo, não querem aventuras nem experiências sociais. Não querem descobrir alternativas à economia de mercado. Sabemos todos, bem demais, onde conduzem essas experiências e essas alternativas. Quer que a sociedade funcione melhor, que seja mais justa, mas não possui qualquer interesse em abandonar o concerto dos países ocidentais que têm, no cerne do seu desenvolvimento, a referida economia de mercado. O BE e as outras forças de esquerda devem ter isso em consideração. E um governo, em democracia, não governa para a sua facção. Governa para o todo nacional.

Por outro lado, o BE – mas também a restante esquerda – deve ter a sensatez suficiente para compreender o que poderá acontecer aos estratos sociais que suportam a esquerda, caso o governo colapse e a direita volte ao poder. Não vai ser bonito ver o revanchismo social da direita. E isso só não acontecerá se o governo suportado pela esquerda conseguir convencer os eleitores que possui as melhores soluções para o país. E dentro das soluções virtuosas, para a grande maioria do eleitorado, não se encontra qualquer aventura anticapitalista nem qualquer confronto com a União Europeia, da qual dependemos para não voltarmos a ser reduzidos à miséria mais extrema.

O BE tem todo o direito de querer ser convertido à dimensão da extinta UDP ou do velho PSR. Tem todo o direito de continuar a insistir na doença infantil do comunismo, para citar Lenine. Mas se o BE quer abandonar a fase da adolescência e ser uma organização política com contributos positivos para o país e para as pessoas que representa, como por vezes parece, o melhor é compreender a realidade em que vivemos, as nossas dependências e fragilidades, e adequar o discurso e a acção para, de forma reformista, contribuir para uma sociedade mais justa, mas também mais eficiente do ponto de vista económico e social. Fundamentalmente, deve aprender a moderação na acção e a prudência de pensar mil vezes antes de falar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Rumores de Maio - 14. Na morte de...

Francisco de Goya - El 3 de Mayo en Madrid: Los fusilamientos en la montaña del Principe Pío (1814)

14. Na morte de...

Que sentimento há para se morrer tão jovem?
Queima o asfalto, a calçada que não mais tocarás.
E o grito sufocado pelo anoitecer servirá
ainda de fogo pela rua, fogaréus de pedras
pelas mãos, os braços pálidos e parados,
olhos fixos pela fronteira na morte desabada.

Querias uma hora de liberdade, um tempo de anos
correndo sobre os anos, as mãos presas ao mundo.
A cabeça é agora uma inclinação para a sombra
e de tão caída pede à luz que a suporte.
Haverá no ódio um grito suficiente, uma luz parda
de primaveras ateadas no trabalho do esquecimento?

No hálito da terra, nas pequenas casas da aldeia,
no fumo anoitecendo os campos, há uma voz negra
de nuvens e sonhos, uma voz de energia e dor.
Com ela, vingam as horas pelas terras e sobre a lavoura
dos dias uma suave claridade, a réstia insondável
na esperança cicatrizada, levemente gasta da tarde.

Nada começa sem um caminho de morte, sem a queda
das células pelas mãos sedentas de terra. Uma bandeira
pregada na cúpula da casa. Trémula no ócio,
nos gestos flexíveis e fortuitas que se desenham
nas ruas, nas arcadas silenciosas do coração.
Nela fermenta a morte na crueza fria do firmamento.

(Rumores de Maio, 1977)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A paixão pela igualdade (ii)

Emil Nolde - El escarnio de Cristo

Duas paixões consomem os actores sociais e políticos no mundo ocidental. A paixão pela liberdade e a paixão pela igualdade. A confrontação – por vezes, violenta – que entre elas ocorre deve-se ao facto de possuírem uma raiz cultural comum, que a vida social cindiu, mas que as alimenta, as incendeia e, secretamente, as mantém vivas. Essa raiz é o cristianismo. Não apenas o cristianismo emergiu como um projecto de libertação de uma condição humana vergada às cadeias do próprio desejo, como também trouxe com ele o rastilho que ateou a paixão da igualdade. Cristo não é como um imperador que, para se diferenciar, se proclama deus. Cristo, na economia da religião cristã, é Deus que se torna homem, que se torna mais um entre os homens, um igual. E esse homem em que encarna pertence à grande massa anónima dos homens, os quais são agora compreendidos como irmãos, como iguais entre iguais. A paixão pela igualdade – assim como a paixão pela liberdade – não é um elemento estranho à nossa cultura. Ela tem a sua raiz no que há mais fundo na cultura ocidental.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Uma inclinação para a igualdade (i)

André Masson - Édipo (1939)

Os casos de Jorge Jesus e de José Mourinho são paradigmáticos. O que nos ensinam eles? Ensinam que não apenas há um limite para o hybris (desmedida, mas também, numa linguagem moderna, presunção, insolência, arrogância), como há na mecânica do mundo e da vida social uma certa inclinação para a igualdade. Quando os homens – mesmo que através do seu talento e do seu esforço – ultrapassam a medida, e isso é motivo de arrogância, a realidade encarrega-se de os atirar ao chão e remetê-los para esfera da mediocridade, esfera que é, de certa maneira, a de todos os homens. E a realidade age por si mesma, sem que uma vontade a determine. São os próprios acontecimentos que se encarregam de tornar patente os limites daqueles que, pretensamente, ultrapassam os limites. Na mecânica do mundo e da vida social há um lugar para a diferenciação, mas esse lugar é muito menor do que aquilo que os defensores da desigualdade e os arautos do mérito pretendem. Um leve passo em falso e a fortuna muda. Que o digam Agamémnon ou Édipo. Que o digam Jorge Jesus ou José Mourinho.

domingo, 18 de setembro de 2016

Livro do Êxodo - 25. Viajantes do sopro

Ernest Biéler - L'Été et les moissons (1918)

Por vezes corria um sopro, o ar ao de leve tocava as folhas da macieira e enxertava vida nas pedras, brancas de tanto uso, e dissolvia-se no horizonte. Se o perscrutavam, apenas ouviam o zunido nos telhados, a música rangia, misteriosa música a do vento sobre as casas. As pessoas passavam e olhavam, como se ao olhar ouvissem, mas tudo voltava à apressada calma com que os dias enchiam as horas vagarosas da infância, os olhos, nunca cansados, perdidos em aventuras. Chegavam naqueles livros de papel reles, trocados na azáfama com que os leitores preenchiam as tardes, as de verão, digo, naquela terra morosa e arrastada de uma vida ainda no começo, sem saber que a sombra da morte regia os dias e as noites. Era uma terra cheia de sapateiros e latoeiros e tanoeiros e barbeiros, um exército de carpinteiros, todos eles prontos para o grande combate, dia a dia ele chegava, insinuava-se aqui e ali, segundo uma lógica, estranha lógica era, nascida das necessidades dos que por ali viviam, se a morte não os levava.

Ouvi quando disseste: também farão uma arca de madeira. Mas eles, levados pelo sopro, partiram, foram colher flores nos campos, depois afastaram-se cobertos de nuvens, presos a névoas e neblinas, um grande nevoeiro, traçando ruas de azevinho, casas remendadas de giestas. Afastaram-se uivando, esquecidos da arca de madeira, esquecidos de ti, não sabendo o nome, pois lho roubaram ao pôr os pés no chão, ao  inscreverem no musgo rasgos de solidão. Soletravam crepúsculos, agitando mãos, se carros passavam deixando-os na poeira, gritando pelas tarde de paixão, quando a cruz se elevava e corria um sopro, o ar ao de leve tocava as folhas da macieira e enxertava vida nas pedras brancas, então as guardavam nos bolsos das calças, uma ainda resta, presa no fundo negro, tão negro e tão vazio, onde habita o coração.

Assim se afastavam da infância, levados pelo sopro, pelo desejo que desata os nós que prendem o corpo, tão submisso à gravidade, à terra que o viu brotar, entre ânsias e o choro que rasga o mundo e o alerta para que mais alguém, nunca convidado, vai entrar no grande palco para representar, na arte que for a sua, o papel que lhe cabe. E a infância tornava-se uma terra estranha onde morriam, um a um, sapateiros, latoeiros, tanoeiros, barbeiros e carpinteiros, deixando a memória vazia, apenas preenchidas pelo cheiro das primeiras chuvas, das tangerinas colhidas pelas mãos e as flores de erva-canária que nascia, e era uma lembrança quase amarela, quase amarga no fundo da boca, no limiar dos olhos. A arca de madeira repousava esquecida ao fundo da igreja, de onde os anjos debandaram, levados, também, eles pelo sopro do desejo, da ânsia por um corpo de carne e sangue, por uma noite de sexo num quarto esconso, numa viela perdida na solidão.

sábado, 17 de setembro de 2016

Saraivadas, sexo e sociedade

Bill Jacklin - 42nd Street Interior (1988)

Consta que o arquitecto Saraiva escreveu um livro, que Passos Coelho, sabe-se lá porquê, irá apresentar, com revelações sobre a vida sexual de muitos políticos. Eis um nicho de mercado que faltava explorar, e o antigo director do Expresso e do Sol parece ser homem de iniciativa. Como tinha o produto em armazém decidiu comercializá-lo. Também é isto a sociedade de mercado. Que contribua para degradar a vida comum, que acelere a corrosão dos valores da vida social, isso é irrelevante no clima niilista em que vivemos.

Se os políticos cometeram, por motivos ligados ao sexo, crimes, Saraiva deveria tê-los denunciado à polícia e não escrever um livro. Se eles não cometeram quaisquer crimes, a sua sexualidade - desde a orientação até às infidelidades, passando pelas práticas - deveria ser mantida no recato, mesmo que os visados não a tenham preservado, mesmo que o arquitecto tenha, por motivo da sua profissão de jornalista, servido de confessor ou de psicanalista.

Este tipo de saraivadas, para além de poder contribuir para o aumento do património do autor, só serve para alimentar o que há de mais mórbido na cultura de massas em que vivemos. Espera-se de uma pessoa que exerceu os elevados cargos que Saraiva exerceu na imprensa portuguesa que contribua para a moderação do voyeurismo social. Não se espera - ainda por cima de alguém que se arvora em inimigo dos totalitarismos - que alimente, com a miséria pessoal a que teve acesso (sim, o sexo acaba sempre por estar ligado às nossas pequenas misérias), uma sociedade tornada um big brother contínuo, uma sociedade que se aproxima cada vez mais do panóptico carcerário idealizado por Jeremy Bentham.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Rumores de Maio - 13. Noite

Harald Sohlberg - Night (1904)

13. Noite

Noite, herbário de sangue
aberto à traição e ao amor.
Uma campânula de vento,
pássaros poisam na flor.

Noite, guerra inviolável
exposta na face que é a tua,
segredo precário que vacila
no ruidoso ruído da rua.

(Rumores de Maio, 1977)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Sócrates, uma telenovela portuguesa


Quando a telenovela Gabriela, Cravo e Canela se estreou em Portugal, em 1977, os portugueses estavam muito longe de compreender que o género não apenas iria ganhar raízes na televisão como se tornaria o modelo de toda a vida pública. A informação e a política são, há muito, modeladas pelos enredos telenovelescos. Também a justiça se rendeu, talvez desde o caso Casa Pia, à dimensão dos folhetins televisivos. O auge da dimensão telenovelesca é atingido na Operação Marquês, que envolve o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

O efeito disto sobre a opinião pública é extraordinário. Quando a justiça tem por arquétipo a telenovela, deixa de ser importante se os acusados são culpados ou inocentes, se tudo decorre segundo as regras da justiça e os princípios da moral. O que interessa agora à opinião pública é a cena do próximo capítulo, não por que ela nos diga alguma coisa de efectivo sobre o caso em si mesmo, mas porque é necessário alimentar a curiosidade e o desejo de saber o que vai acontecer a seguir, independentemente da virtude e da verdade desse acontecer.

O juiz de instrução dá uma entrevista. Óptimo, que belo capítulo. Sócrates pede o afastamento do juiz, ainda melhor. O procurador pede mais seis meses para continuar a investigação, temos a cereja em cima do bolo. A telenovela ideal é aquela que não acaba, que prende continuamente o espectador com novos acontecimentos e reviravoltas. A telenovela José Sócrates tem todos os ingredientes para se aproximar do ideal da telenovela: um contínuo de episódios sem fim. Não interessa já se Sócrates é culpado ou inocente. Pouco importa se Carlos Alexandre ajuizou bem ou mal. É irrelevante saber se a investigação é bem ou mal conduzida. O importante é que o suspense se mantenha, de preferência enquanto as audiências estiverem em alta e o auditório não se canse. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Caçar pokémons


A linguagem é uma coisa terrível. Muitas vezes mais valia não a usar. O primeiro-ministro, perante o desespero da oposição com um putativo resgate (que ela, diga-se, espera com beato ardor), achou por bem apresentar o extraordinário argumento mais vale dedicar-se à caça de pokémons do que esperar encontrar o diabo (o diabo do resgate, leia-se). Não vou já argumentar sobre a necessidade de manter alguma gravitas no exercício da política, nem sobre o dever de respeitar o papel da oposição, por muito que esta diga coisas que parecem absurdas a quem está no poder. Este é um dos papéis que a democracia atribui às oposições. Interessa-me outra coisa.

Interessa-me o universo que se oculta nesta ideia de caçar pokémons. E o universo que se oculta é o das graçolas da pós-adolescência, o universo das jotas partidárias, onde, à falta de formação e de informação, abunda, para além de vontade de trepar no aparelho do partido, a tendência para fustigar os adversários com pilhérias que só esses pós-adolescentes acham graça. Estes gracejos são um ritual que reforça a coesão do grupo e serve para, através da risota, evitar o drama da dúvida. O caso actual é apenas um exemplo. Passos Coelho, apesar do ar engravatado que coloca, não é melhor. Toda esta gente que domina os aparelhos partidários fez a sua escola política no mundo da pilhéria barata, do riso fácil, da piadola sem gosto. Na verdade, o universo de todos eles foi e continua a ser o dos pokémons. Sair da adolescência é uma tarefa hercúlea. Ou então eu estou a ficar demasiado velho para me rir.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

As coisas técnicas


Visitar o passado é um belo exercício de confronto com as nossas ilusões, com as ilusões que a vida social faz nascer em nós e que, sem oposição, nós deixamos que elas cresçam. Na verdade, toda a vida social está focada em criar um manto de ilusões, um véu de Maya, com que se torna aceitável. Esta belíssima imagem de propaganda a um transístor portátil da Grundig (1958) foi vampirizada do Dias Que Voam, um blogue que merece bem estas vampirizações, para além de inúmeras visitas e leituras. Aliás, há lá outro anúncio notável da Grundig (1957), uma verdadeira lição de sociologia da época. Este transístor seria então, segundo a publicidade, uma jóia. Pequena, mas autêntica. Se pela autenticidade a Grundig nos assevera o seu carácter verdadeiro, oposto a uma falsificação, pela associação com uma jóia faz evocar em nós o que é belo e aquilo que resiste ao tempo, aquilo que é eterno.

Eis aqui, porém, a mentira da técnica. As coisas técnicas, na sua verdade, podem ser belas, mas apenas num momento. Não, porém, eternas. A beleza delas decairá rapidamente, ultrapassada por outras mais belas com que o mercado animará o nosso desejo. Para não falar no facto de todos estes objectos serem produzidas para se tornarem obsoletas e, em última análise, para deixarem de ser belos. Todos nós já experimentámos, perante um novo gadget, o deslumbrado embevecimento da rapariga do anúncio. Mas também já todos fizemos a experiência que esse novo objecto representa já o passado. A beleza que ele oferece ou o conforto que proporciona serão em breve ultrapassados por um novo objecto que se oferecerá imperativo, pelo saber da técnica e do design, à nossa voluptuosa faculdade de desejar. Passados tantos anos quem achará belo o pobre rádio transístor da Grundig? (averomundo, 2010/01/15)