sábado, 17 de novembro de 2018

Ensaio sobre a luz (40)

Erwin Blumenfeld, 3 profiles, 1952

A luz decompõe-se com obstinado rigor. Áspera, ardente, alva, vacila sobre os rostos, torna-se crepúsculo se uma rosa se desfolha, funde-se na noite quando o silêncio desce sobre a intimidade de uma boca.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Sonhos numa noite de Verão 6

Erwin Blumenfeld, Pictured in the cat’s eyes -  Lilli Palmer and Rex Harrison, 1950

Sonhei que existia nos olhos abertos de um gato. Se ele os fechava, eu deixava de existir. Quando ele os abria, retornava à existência e contemplava o mundo não com os olhos de um gato mas a partir dos olhos do gato. Não sei se o sonho foi longo ou um dos que, apesar de parecer interminável, dura apenas uns instantes. Quando a luz daquele Verão interrompeu a noite, acordei, bocejei e espreguicei-me. Não me lembro do que pensei, mas sei, ainda hoje, no que me transformei. Sou agora, para minha perdição, um gato, negro e brilhante, que habita nos olhos de um homem.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

No Limiar da Porta 14. Esse corpo, lago

Erwin Blumenfeld, Variant of Vogue U.S. cover March 15, 1945

14. Esse corpo, lago

Esse corpo, lago
de brancura
na porta esquiva
da obscuridade.
Uma geografia
de sombra e sede,
a duna do deserto
a dançar ao sol.

1978

sábado, 10 de novembro de 2018

Joaquim Paço d'Arcos


Foi só agora que cheguei à leitura de Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979). Não fazia parte daquele grupo de escritores tidos por referência, apesar de ter sido bastante lido nos anos 40 e 50 do século passado. Visto como próximo do Estado Novo, no qual foi, entre 1936 e 1960, chefe dos Serviços de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, isso não terá ajudado, numa época em que grande parte dos escritores mais importantes estavam do lado da oposição, a que o seu nome persistisse na memória. Também o seu opúsculo A Dolorosa Razão duma Atitude (1965), onde se demarca da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual era Presidente da Assembleia Geral, quando esta atribui o prémio de Novelística a Luandino Vieira (preso político acusado de terrorismo), terá contribuído para o seu relativo apagamento no panorama literário nacional.

Esta rasura do autor, porém, parece-me claramente injustificada. O ciclo romanesco Crónica da Vida Lisboeta, composto por seis romances (Ana Paula, Ansiedade, O Caminho da Culpa, Tons Verde em Fundo Escuro, Espelho de Três Faces e A Corça Prisioneira), é uma obra de grande fôlego e cuja leitura é essencial para perceber o país entre os finais dos anos 30 e meados dos anos 50. Do ponto de vista literário, a leitura ordenada do ciclo mostra que o escritor vai crescendo de um romance para o outro. Os enredos vão-se tornando mais complexos, as personagens mais ricas e a análise psicológica e social mais subtil. A própria linguagem, que no primeiro romance soa como levemente anacrónica, talvez ainda presa aos costumes da época, sofre uma evolução modernizadora no decurso dos outro romances.

A sociedade lisboeta retratada é a da aristocracia, em fase de decadência, e a da alta burguesia financeira, tendo como pano de fundo o regime do Estado Novo. O retrato destas classes é impiedoso. Um mundo de interesses, de traições, de patetas emproados e videirinhos impiedosos e loquazes. O retrato irónico das classes altas não pode deixar de contaminar o próprio regime, com o seu provincianismo. Ao mesmo tempo, percebe-se, através destes romances, a acção das oposições, tanto dos reviralhistas republicanos, como dos monárquicos saudosos do Rei e, acima de todos, do próprio Partido Comunista. Sobre todos este figurantes do drama nacional daqueles tempos abate-se um olhar penetrante e irónico, uma visão crítica e, surpreendentemente, descomprometida e livre. A leitura destes romances de Paço d’Arcos é fundamental para compreender uma certa Lisboa – e um certo Portugal – de que o país actual, muito mais do que pensamos, é herdeiro e continuador.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Joaquim Paço d'Arcos, O Caminho da Culpa


Se em Ana Paula, primeiro romance do ciclo Crónica da Vida Lisboeta, Joaquim Paço d’Arcos retrata a resistência da moral apolínea, encarnada pela protagonista, aos avanços de Eros, em O Caminho da Culpa, é o Eros vitorioso que se manifesta em toda a sua amplitude e em todas as suas consequências. A fortaleza das convenções sociais, da moral comum e da tradição, as máscaras sob as quais a moral apolínea impõe o seu jugo aos impulsos eróticos, mostra-se impotente para conter o fluxo do desejo que essa mesma moral visa domesticar e ordenar.

Seria uma leitura pobre ver no romance a mera tematização do adultério e do suicídio, tomados na sua dimensão meramente moral e social. O que nos é mostrado é a tensão entre o desejo e a convenção, é a luta entre o ser e o dever. Eros desafia não apenas as convenções sociais mas também, e fundamentalmente, as convenções pessoais e psicológicas, para revelar a realidade crua. O tempo da narrativa é o dos anos quarenta do século passado. A obra foi publicada em 1944 e nota-se nela a percepção de que a guerra, que então grassava pelo mundo, estava a deixar de pender para o lado alemão. Este tempo de convulsão exterior é rebatido numa Lisboa em paz, onde se pode especular sobre o desígnio dos deuses da vitória, sem que os portugueses tenham de se confrontar com a dura realidade da violência e da destruição.

É nesta ambiência morna que os negócios prosperam e as ambições humanas, das classes altas de Lisboa, encontram terreno para a sua concretização. É aí que se movem, como se não lhe pertencessem, o médico Paulo de Morais e a aristocrata Eugénia de Macedo. O médico – que seria, do ponto de vista ideológico, um comunista, embora não praticante – tinha, devido à sua reputação, por clientela os sectores mais elevados da sociedade lisboeta e era entre estes estratos sociais que se movia. Íntegro como pessoa e com um casamento ordenado, fecundo e feliz. Eugénia dedicava-se a uma vaga organização de caridade e mantinha um casamento convencional, do qual não havia filhos, mas que ela nunca pensara pôr em causa ou encontrar, para a monotonia da vida conjugal, uma compensação numa aventura extramatrimonial.

É a aproximação dos dois, por motivo de doença do pai dela, que desencadeia o violento ataque de Eros. Mais do que o adultério e a destruição dos casamentos, o que está em causa é a tensão que o desejo provoca em dois seres tão racionais e tão submetidos a um modo de vida apolíneo, com a submissão às regras que a razão ordena na vida social e pessoal. Não é a instituição social do casamento que o impetuoso Eros atinge, mas a pessoa de cada um dos amantes, a vida dela e a consciência dele.

Como é norma na tradição ocidental, Eros está ligado aos impulsos de vida e de morte e são esses impulsos que tomam corpo em Eugénia. Ela que sempre desejara um filho, estava agora grávida do médico. Por outro lado, os impulsos de morte manifestam-se no surgimento de um cancro no seio. O ponto central do romance joga-se aqui. Paulo de Morais sabe que a doença de Eugénia é mortal, não tendo sido ela, por culpa própria, operada a tempo, sabe que o seu amor não tem futuro e perante a tragédia da mulher amada e a vida que tem pela frente, opta por não abalar nenhum dos casamentos. Apolo estendeu-lhe a mão e ter-lhe-á parecido uma bravata inútil romper as aparências e as convenções sociais. Do outro lado, porém, Eugénia está dilacerada entre a morte que a chama e a vida de um filho – o qual se nascesse abalaria o seu casamento – que tinha surgido no tempo e no espaço errados. O suicídio é a solução do dilema que, literalmente, lhe rasgava a carne.

O romance, na verdade, é uma reencarnação da velha tragédia grega, marcada pela tensão entre o apolíneo e o dionisíaco, entre as forças da ordem e as forças do caos. Paulo de Morais e Eugénia de Macedo, ao libertarem-se do convencionalismo das suas vidas, que fazia deles marionetas dos respectivos papéis sociais, submeteram-se a um senhor mais poderoso e mais impiedoso. As forças dionisíacas levaram para a morte a parte mais fraca, Maria Eugénia, e, apesar do recurso à razão apolínea, abriram uma brecha na consciência do médico perante a hesitação entre o amor sem destino e a convenção da vida respeitável de um médico das classes altas, preocupado com o destino dos desvalidos deste mundo. Com o suicídio dela e a hesitação dele, Eros tornou patente a crueza da realidade e, como é normal, Diónisos e Apolo obtiveram um empate.

domingo, 4 de novembro de 2018

A voz do diabo


Há um poema de Jorge de Sena, escrito em 1971, que começa com a seguinte estrofe: “Passando onde haja túmulos / - e há pó de humanos sempre onde se passe - / quanta maldade jaz ali dispersa / pronta a ser respirada por outros homens / que a têm na carne como herança dela: / quanta traição mesquinha range os dentes / e faz as suas contas de futuro: quanta vileza ainda se espoja em raiva / de não ter sido uma vileza inteira. / E é isto a humanidade.” ( J. de Sena, Exorcismos, 1972) A maldade é a mais persistente das heranças humanas. O cristianismo, na sequência do judaísmo, fê-la nascer no advento do próprio Homem, naquilo que ficou conhecido pelo pecado original. Esse momento simbólico abriu caminho para que, a cada instante, um qualquer Caim mate um qualquer Abel.

Durante muito tempo, na infeliz história da nossa espécie, a violência e a maldade foram respondidas com violência e maldade, muitas vezes acrescidas exponencialmente. A partir do século XVIII, com o Iluminismo, o mundo ocidental começou a moderar as suas respostas a essa violência e a essa maldade. Direitos constitucionais e códigos penais civilizados tiveram o inesperado efeito de ir reduzindo a violência e o mal nessas sociedades. Não devemos, contudo, esquecer as palavras do poeta. Temos a maldade na carne como herança. E a maldade que habita a carne de qualquer cidadão pacato é suficiente para, num tempo como aquele em que vivemos, lhe fazer perder a cabeça e, ao mergulhar a sua voz na da turbamulta, pôr em causa os princípios civilizados que desde o Iluminismo temos vindo – por vezes, com trágicos recuos – a construir.

Quando escutamos a voz do povo – e hoje em dia a voz do povo está nas redes sociais – temos o dever de ficar bastante preocupados. Com frequência, demasiada frequência, vêem-se ataques raivosos aos principais pilares da vida civilizada, pressente-se um desejo de destruição daquilo que foi codificado sob o nome de direitos humanos, observa-se, mesmo num país pacífico e de baixa criminalidade como o nosso, uma pulsão letal para a vingança, para um justicialismo primário e perigoso. Esse mal que habita a nossa carne está cansado de estar contido, de ser obrigado a refrear a sua natureza e está a tomar conta das pessoas. A voz do povo é a voz de Deus, diz um velho provérbio tão ao gosto do senso comum. O senso comum, por norma, engana-se. A voz que se escuta não é a de Deus. É a voz desse mal que habita na nossa carne, é a voz do diabo, cuja língua se está a soltar.

sábado, 3 de novembro de 2018

No Limiar da Porta 13. A fronda da ausência

Sebastião Salgado, Oil wells firefighter, Greater Burhan, Kuwait, 1991

13. A fronda da ausência

in memoriam de Jorge de Sena (2)

A fronda da ausência,
o destino e a distância,
a letra lêveda
moída
na mó do poema.

Pátrias são palavras,
flocos de neve
na poeira do verso.

Na ermida do exílio,
um cometa e erva canária.

1978

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Sonhos numa noite de Verão 5

Justenus van Rijkom, Canal Amsterdam, 1890s

Esse sonho que volta sempre, que me invade as noites com a sua luz irreal para desaparecer chegada a manhã. As águas do canal deslizam sonâmbulas, reflectem o casario gasto pelos anos e eu ali vou, vestido de negro, fúnebre. Do outro lado vem sempre a mesma rapariga vestida de branco. Quero falar-lhe, esboço um gesto e quando ela me olha, os seus olhos são apenas dois buracos vazios. Nesse instante, acordo, a luz da manhã entra pelas portadas mal fechadas. Levanto-me mal refeito da surpresa.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Joaquim Paço d'Arcos, Ansiedade


O romance Ansiedade (1940) é o segundo da Crónica da Vida Lisboeta, um ciclo de composto por seis romances que Joaquim Paço d’Arcos dedica à vida na capital portuguesa, a uma certa Lisboa habitada pela alta burguesia em ascensão e pelo que resta de uma aristocracia decadente, nostálgica de uma monarquia que nem a mão poderosa de um ditador, talvez monárquico, teve condições para a trazer à vida. O título é já revelador da orientação que o autor imprimiu à obra. Um estado de perturbação inscreve-se na acção das personagens pela desadequação entre o mundo ideal, que alimenta as ilusões dos seres humanos, e a realidade crua.

A intriga tem dois focos que se cruzam na personagem de António Coutinho, Toy. Um de natureza política e outro de natureza sentimental. Ao longe, digamos assim, percebe-se uma época de grande agitação política a nível internacional. A guerra civil espanhola e a ascensão do nazismo e a subsequente deriva que levará à segunda grande guerra. No entanto, todos estes sobressaltos tocam apenas ao de leve a existência que as camadas sociais mais altas levam em Lisboa. A vida compõe-se de negócios, alpinismo social e traições amorosas.

O detonador da narrativa é o retorno à metrópole, para usar uma expressão da época, do jovem aristocrata Toy e de um velho republicano, Ildefonso Barradas, um homem do reviralho, cuja coroa de glória fora o seu lugar de vereador na câmara de Lisboa, antes do golpe de 28 de Maio. Apesar das diferenças sociais e de geração, o africanismo uniu-os de algum modo. Na verdade, eram dois exilados. Um, o republicano, exilado político, o outro, o aristocrata, um exilado sentimental. O pai mandara-o para África como forma de o afastar da sua prima Pequenu, com a qual mantinha um namoro equívoco e intenso.

Quando chegam a Lisboa, nem a República velha tinha sido restaurada, para desgosto de Barradas, nem a Pequenu se tinha mantido fiel ao primeiro amor, tendo casado com Carlos Lobo de Castro. Contudo, Barradas e Toy mantiveram-se fiéis às suas idealizações juvenis. O primeiro, animado pelo futuro genro, um engenheiro comunista, e apesar de discordar das ideias redentoras deste, compromete-se na luta contra o regime. Toy, embora não compreenda o casamento de Pequenu, continua a idealizá-la, não sabendo sequer que ela se tornara, com a repugnante e interessada cumplicidade do marido, amante de um dos principais banqueiros do país.

Barradas tenta captar Toy para as suas operações políticas, mas este, marcado por um idealismo de sinal contrário, decide-se, movido pela casta a que pertence, pela fidelidade ao regime e torna-se miliciano, uma figuração dos legionários, uma das organizações para-fascistas do regime de Salazar. Isso, todavia, não afastou os dois homens. Respeitavam-se apesar das diferenças. A ansiedade, que vive da iminência do terrível e que o anuncia, encontra o seu caminho perturbante não apenas na confissão de Pequenu a Toy, onde este é obrigado a tomar conhecimento da conduta da mulher idealizada, como no confronto político-militar entre uma coligação de oposicionistas, onde se encontra Barradas, e as forças leais ao regime, nas quais se integra Toy. O acaso do conflito militar leva a que, sem o saber embora o descubra logo a seguir, Ildefonso Barradas abata Toy.

Há, no romance de Paço d’Arcos, uma crítica implacável dos idealismos. Sejam estes amorosos, sejam políticos. O mundo – neste caso Lisboa dos finais dos anos 30 do século passado – não é um lugar para os puros. A pureza do amor de Toy naufraga na realidade da vida amorosa da mulher que ele idealizou e que, pelas circunstâncias da vida, não corresponde ao arquétipo nascido na adolescência. O idealismo político de Barradas é confrontado pela derrota da insurreição e no peso de ter morto, em combate, o seu jovem amigo. O próprio idealismo político de Toy é compensado com a morte. Nessa Lisboa, sob o olhar atento do ditador (nunca mencionado), a vida é feita de negócios obscuros, do esbracejar dos videirinhos e de traições quotidianas. A razão de Estado (do poder dominante) é mais forte que o romantismo político. A razão do dinheiro e do poder social derruba sentimentos e compra sexo e consciências. Ali, naquela Lisboa, não há lugar para ilusões.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O desejo da barbárie


Vive-se, em Portugal, uma doce ilusão, a de que ainda não fomos tocados pelo vírus do populismo. É um facto que os principais agentes políticos têm evitado recorrer ao mais sombrio populismo político. No entanto, na sociedade desenha-se um desejo mal disfarçado de soluções populistas. O que caracteriza essa ânsia é a contestação de muitos dos progresso civilizacionais. Um caso sintomático foi o da fotografia publicada, após captura, dos três foragidos de um tribunal. O ministro Eduardo Cabrita reagiu, afirmando que aquele tipo de fotografias era inaceitável por parte da polícia de um Estado de direito. As reacções de sindicatos e organizações para-sindicais, assim como de muita gente nas redes sociais não se fez esperar, com ataques ao ministro, montagem de imagens falsas e todo o arsenal de indignações mais ou menos alarves.

O que Eduardo Cabrita – e também Marcelo Rebelo de Sousa – fez foi defender a vida civilizada e as regras segundo as quais esta se deve orientar. Regras essenciais da vida civilizada são as que desligam a Justiça da vingança ou as que não eliminam os direitos dos criminosos. Estas regras, cada vez que existe um crime mais dramático, são postas em causa por uma multidão ululante, que despreza a vida civilizada e o progresso moral que nos permitiu sair da barbárie. Na verdade, é através da Justiça que o populismo entra nas sociedades, dissemina-se e corrói os alicerces que tornam a vida digna de ser vivida. Mesmo em Portugal, um dos países mais seguros e com uma das taxas de criminalidade das mais baixas do mundo, a pulsão para a barbárie é mais forte do que se pensa.

O desejo da barbárie é alimentado de forma insidiosa por programas de televisão e artigos de jornal justicialistas, por telejornais que, no infausto modelo que é o seu, destroem uma visão racional e civilizada da justiça e da própria vida comunitária, vendo-as como um jogo de vinganças, um prelúdio à guerra de todos contra todos. A corrosão da civilidade e a degradação da vida em comunidade são vírus que vivem já entre nós. Estão apenas à espera de um meio ambiente mais propício para mostrarem as garras. Tudo isto deveria merecer uma profunda e redobrada atenção dos agentes políticos. Só um exercício político iniludivelmente virtuoso e uma preocupação com a eficácia e independência da justiça pode evitar que a virose se transforme numa doença mortal. O que me aflige, hoje em dia, não é sequer que os agentes políticos – do governo e da oposição – não percebam o que se está a desenvolver. O aflitivo é que eles contribuam, com palavras e actos, para propagar a doença.

sábado, 20 de outubro de 2018

No Limiar da Porta 12. Poetas são estrelas

Vincent Van Gogh, Orilla del Sena en primavera junto al Puente de Chichy, 1887

12. Poetas são estrelas

in memoriam de  Jorge de Sena

Poetas são estrelas
a morrer no rio.

Palavras de fumo,
corpo calado,
o pão de cada dia.

Poetas são rumores
na água fria.

Uma lâmina de luz,
a estrela morta
no silêncio vazio.

1978

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Irvin D. Yalom, Quando Nietzsche Chorou


O romance Quando Nietzsche Chorou, publicado em 1992, é uma incursão do psicanalista Irvin D. Yalom no território da ficção. Este como outros romances posteriores teriam, no dizer do autor, uma função pedagógica, tendo sido escritos para os seus alunos, futuros psicanalistas. Nem o facto do autor não ser um romancista profissional nem a intenção pedagógica retiram brilho à narrativa, que tem no seu cerne a figura do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Yalom ficcionaliza, a partir de um encontro, que nunca existiu, entre o médico vienense Joseph Breuer e Nietzsche, o nascimento da própria psicanálise, antes mesmo que Sigmund Freud, outro médico vienense e protegido de Breuer, que paira como um fantasma durante todo o romance, a tenha arquitectado e instituído.

O enredo do romance gira em torno do tratamento que Breuer deveria realizar do filósofo. Uma amiga deste, Lou Andreas-Salomé, contacta o médico para que ele tome em mãos o caso de Nietzsche, o qual, desesperado por ela não lhe corresponder no amor, estaria à beira do suicídio. Isso que seria, segunda ela, uma perda inaceitável para o futuro da filosofia. A independência e o cepticismo de Nietzsche, relativamente aos poderes da medicina, levam a que o contacto de Breuer com Nietzsche seja o fruto de uma verdadeira aventura psicológica, na verdade uma trama manipulatória engendrada por Lou Salomé com a conivência do médico e de um amigo do filósofo.

O núcleo central da intriga está num estranho acordo que, em desespero de causa perante a difícil personalidade do suposto paciente, Breuer propõe a Nietzsche. O objectivo do médico era conduzir Nietzsche a falar do seu desespero, para assim iniciar um processo psicoterapêutico através da conversação. O acordo propunha que Nietzsche fosse internado, que Breuer lhe tratasse das enxaquecas homéricas e que aquele, devido à sua perspicácia e capacidade de análise psicológica, ajudasse o médico a confrontar-se com o seu próprio desespero nascido de uma vida recheada de sucessos, mas que estava longe de ter sentido, pois o médico tinha uma paixão amorosa inaceitável pela sua ex-paciente Bertha Pappenheim. Pensava Breuer que falar do seu próprio desespero era um caminho para que o filósofo se abrisse, falasse do seu e assim fosse tratado.

O surpreendente é que no processo há uma inversão de papéis. Breuer é cada vez menos médico e cada vez mais paciente de Nietzsche, paciente esse que acaba por ser curado do seu desespero e da sua fixação infeliz em Bertha Pappenheim, redescobrindo o sentido da sua vida, da sua função e da sua família. Quando nos interrogamos sobre o significado desta inversão de papéis, deparamo-nos com uma ficção que faz da filosofia – no caso, a de Nietzsche – a origem da psicanálise. No entanto, não é apenas a história da psicanálise que é reescrita. Também a filosofia ganha um novo sentido, ao ser sublinhado o seu carácter terapêutico. Filosofar não seria apenas uma interpretação do mundo, mas um processo de transformação não desse mundo, como pensava Marx, mas dos indivíduos. Transformação essa, porém, que não é mais do que uma reconciliação consigo mesmo, um tornar-se naquilo que se é, como ordenava Nietzsche. Um romance que não é apenas dirigido para psicanalistas e filósofos, mas para o público que gosta de uma boa história.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

The Times They Are A-Changin'


Ouvida nos dias que correm, a canção de Bob Dylan não deixa de parecer uma singular ironia, uma ironia que atinge o cerne das crenças que estão no coração das gerações que fizeram da balada dylaniana um símbolo do caminho para o paraíso. No domingo passado, o candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro, quase obteve a maioria necessária para chegar a presidente do Brasil e impor um programa impensável ainda há meia dúzia de anos. Logo a seguir, na segunda-feira, os chefes da extrema-direita italiana (Matteo Salvini, no governo) e francesa, Marine Le Pen, apelavam a uma revolução nas eleições europeias de Maio, de forma a criar, na Europa, um sólido bloco soberanista.

Quando olhamos para os programas destas forças políticas, para a sua capacidade de atracção dos eleitores, corremos o risco de sermos superficiais e tomarmos como causa aquilo que é meramente instrumental. Por exemplo, o papel que as redes sociais possuem na propagação de mensagens imbecis e de fake news. Não se percebe, ou não se quer perceber, a existência, nos eleitorados, de um grande ressentimento relativamente às elites e, em primeiro lugar, às elites políticas democráticas. Esse ressentimento nasce de uma percepção de abandono partilhada por amplas camadas populares, as quais se sentem ameaçadas e procuram uma autoridade que lhes dê segurança.

Os tempos estão a mudar e estão a mudar porque as forças mais radicais de direita vão ocupando o lugar vago deixado pelos democratas de direita e de esquerda ou, como é o caso do Brasil, onde a corrupção do corpo político é de tal ordem que as pessoas se entregam nos braços do primeiro aventureiro. Aquilo que está a acontecer nas democracias não é um fenómeno que lhes seja estranho. Foi a sua degradação que alimentou o extremismo social e político.

Para celebrar a bondade da democracia, cita-se a frase de Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, à excepção de todos os outros já experimentados ao longo da história." Não se percebe, porém, que ela contém um aviso sub-reptício: a democracia é um mau regime, é preciso cuidar dele. A questão que se coloca não é se existe uma força significativa de radicais de direita nas diversas democracias. A questão é de saber se e quando é que essa vaga se torna uma força mecânica que progride por si própria e torna impossível qualquer resistência. Os defensores das democracias liberais parecem sonâmbulos. Esqueceram-se de cuidar do jardim e deslocam-se na paisagem social de olhos fechados. O pior é que, como canta Dylan, The Times They Are A-Changin'.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula, Perfil duma Lisboeta


Ana Paula, Perfil duma Lisboeta é o primeiro romance de um ciclo de seis intitulado Crónica da Vida Lisboeta, da autoria de Joaquim Paço d’Arcos. Publicado em 1938, inscreve-se nos primeiros anos da ditadura do Estado Novo e traça um retrato da vida das classes altas lisboetas. Mostra uma aristocracia em declínio e que, apesar do seu amor monárquico, não perde tempo em procurar um lugar no regime republicano que lhe permita conduzir a vida com a antiga abastança. A obra mostra também a natureza de uma alta burguesia financeira, videirinha, oportunista e implacável.

Este primeiro romance do ciclo tem como tema fundamental a honra, esse valor aristocrático por excelência. Não se trata, porém, da honra do homem aristocrata, mas da honra entendida como persistência da mulher no caminho da virtude e da fidelidade, mesmo quando as circunstâncias, as difíceis provações e as inclinações do coração tornam propício o adultério. Não deixa de ser sintomático que, no dealbar do Estado Novo, a última defensora da virtude aristocrática seja uma mulher e que essa virtude tenha perdido todo o sentido político, reduzindo-se a uma mera questão de alcova, a resistência à tentação da infidelidade sexual.

O drama centra-se no casamento de Ana Paula, filha do Conde da Balsa, uma velhíssima família da nobreza nacional, com um oficial arrivista, herói do Estado Novo, boémio, mulherengo e viciado no jogo. As virtudes másculas de Jorge de Melo seduzem Ana Paula. O casamento para ele é uma porta para um mundo onde nunca poderia entrar e para ela o caminho para uma vida infernal. A boémia, as amantes e, principalmente, o jogo levam a que o oficial, no âmbito de uns negócios militares, faça, para alimentar a vida viciosa, uns desfalques. É detido e julgado, mas salvo por um amigo, advogado Eduardo Reis, o qual através duma retórica exímia consegue um triunfo em pleno tribunal, ilibando o amigo.

O problema é que, durante a detenção do militar e no decurso do processo judicial, o advogado e Ana Paula apaixonam-se. A narrativa mostra-nos então a luta destes dois protagonistas para resistirem à tentação. O advogado, à tentação de abandonar Jorge de Melo, o amigo, à sua sorte, a um destino odioso. Ana Paula, à tentação de se entregar ao advogado. Se a resistência à tentação em Eduardo Reis se deve acima de tudo à consideração de si mesmo e ao medo de surgir com uma imagem degradada aos olhos do objecto do seu amor, em Ana Paula assenta nas convicções religiosas e no sentido da honorabilidade da família e da casta.

Neste triângulo não consumado, Paço d’Arcos acaba por projectar, não sem ironia e algum distanciamento crítico, uma imagem estereotipada da relação entre as classes sociais e a moral. Jorge de Melo, oriundo de classes baixas, é um modelo de leviandade e corrupção moral, incapaz de contenção e de sentido da sua medida. Eduardo Reis simboliza uma moral individualista e burguesa escudada numa forte cultura jurídica e numa tolerância tácita que lhe permite manter-se, com glória, no âmbito dos seus interesses. Ana Paula é a imagem dos velhos valores aristocráticos em rápido processo de dissolução.

Apesar da banalidade da história, contada na terceira pessoa por um narrador omnisciente, o leitor pode fazer uma visita – quase como se o romance fosse um filme – a uma época de Lisboa e do país e aos valores que então guiavam os estratos sociais retratados. O facto do autor se mover nesses meios contribui para que o leitor suspenda a descrença e contemple um mundo feito de interesses obscuros, forças que se movimentam em silêncio, corrupção económica e moral, homens poderosos com as suas garçonnières, raparigas pobres mantidas por senhores ricos. Um mundo onde a influência da religião é, apesar do peso da Igreja no país ser enorme, praticamente nula e onde a virtude moral é compensada com a infelicidade e a vergonha.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Nuvens no horizonte


Se olharmos para o país político, parece que tudo corre com tranquilidade. Alguns conflitos de interesses não chegam para pôr em causa a bonomia que domina a vida política, pastoreada paternalmente pelo Presidente da República. Os arrufos na coligação parlamentar que suporta o governo não põem em causa o casamento, e a oposição substituiu a estridência, uma característica típica das oposições portuguesas, pela colaboração, se não mesmo pelo colaboracionismo. Sem problemas trazidos pela vinda de imigrantes ou de refugiados, os portugueses parecem reconciliados com os ditames financeiros de Bruxelas. A curto e talvez mesmo a médio prazo tudo parece tranquilo na República Portuguesa.

Há, no entanto, à direita do espectro político e social dois fenómenos que, se se interligarem, podem vir a pôr em causa o quadro idílico em que se vive. O primeiro é mais difuso e tem, por enquanto, um contorno mais social que político. Há uma direita social (com traços de extrema-direita) que destila ressentimento. Está ressentida com António Costa, com o Presidente da República, com o Papa, com a esquerda, com o mundo em geral. Tem uma forte militância nas redes sociais e nos blogues, e encontra consolo em alguns cronistas do Observador. Os mais informados suspiram por Steve Bannon. Ainda não chegou o seu tempo e andam à procura do homem que possa dar corpo ao ressentimento.

Mais ameaçador para a democracia portuguesa – até porque pode estimular o fenómeno acima referido – é o sentimento de desrepresentação, digamos assim, que parte significativa de militantes e simpatizantes do PSD sente. Está profundamente desiludida com Marcelo Rebelo de Sousa, com a sua condescendência para com o governo das esquerdas, e não se revê na oposição mole e insubstancial que Rui Rio faz ao governo. Sofre de uma enorme desorientação, pois não encontra uma resposta credível para as suas aspirações. Este problema é muito mais grave para a saúde da democracia do que pode parecer.

A qualidade das governações está ligada à qualidade das oposições. Se estas são frágeis, as governações tornam-se laxistas. E isto não é o pior. O regime democrático vive da representação e se uma parte do país politizado sente que a sua voz não tem expressão, está aberto o caminho para que se procurem vozes fortes fora do sistema partidário democrático. A crise do PSD não é uma mera crise partidária. É um problema da democracia portuguesa que deveria preocupar todos os que, à direita e à esquerda, defendem uma democracia liberal e representativa.