terça-feira, 23 de agosto de 2016

Diário de um banhista - X

Kazemir Malevich - Bather (1911)

Confortado na certeza de ser o único e verdadeiro banhista, recusei-me hoje a pôr o pé na praia, não vá ele inchar ou tomar-se de urticária. Quem precisar de mostrar que é um banhista que vá a banhos, eu fico-me pela esplanada a enxotar moscas, a ler jornais, a beber cafés e a rodar a cadeira para fugir ao sol. Olho o mar e começo a contar os dias que faltam para, contristado, deixar o lugar idílico a que chamam praia, lugar que o calendário deste mundo infeliz me impõe com a regularidade das estações.

Nem uma aventura, mesmo metafísica, tenho para contar hoje neste pobre diário. Estes tempos fritam-me os neurónios, esfriam-me a coragem, e pouco mais consigo fazer do que balbuciar algumas palavras e deslocar-me, entre as sombras mortais que me rodeiam, com o ar desgastado de quem a vida abusou com trabalhos e sofrimentos, lutas e canseiras. Um banhista, mesmo da estirpe dos imortais como eu, não é de ferro. Estou cansado e, como o divino Ulisses, sonho com o regresso à pátria, que o malfadado Posídon não permite. Suspiro, se oiço o vozear das águas a bater nas areias. Quando chegarei a Ítaca, à minha doce ilha, pedaço de terra rodeada de calor por todos os lados?

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Livro do Êxodo - 22. Tempo de caça

Annibale Carracci - Caza (1595)

Havia restos de caçadas pelo chão, animais em despojos assim frios, o sangue a aflorar a pele contaminada pelo nada, o futuro, sempre tão ávido, o trouxera. Os olhos, agora tão vidrados, escondiam-se nas órbitas e pouco naquelas naturezas mortas, tão pouco natureza e já tão mortas, lembrava o gesto febril com que do destino fugiam, cegos e surdos ao devir, para a ele se entregarem. Para os temíveis caçadores, eram dias de júbilo, na cerca se viviam. As árvores tapavam de sombra as terras e o calor, se aquecia num tempo inóspito, recuava movido pela inquietação das fatigadas folhas ao vento.

As mulheres, em passos de veludo e pensamentos inexplicáveis, levitavam e as saias, pois saias as vestiam, subiam-lhes à cabeça. As pernas brancas, brancas e tão desarmadas, despiam-se perante olhares atónitos, e as mãos acorriam como se socorressem marinheiros dizimados por ondas e naufrágios. Não abandoneis a casa rodeada pela cerca, disseste, pois estrangeiros fostes na terra e agora o que vos cabe é a espera da noite, o tempo atroz, as flores precárias que desenharão na pedra, entre animais tombados pela caça eterna, sinais de luz, uma rosa desfolhada, as nuvens que à lua agasalham, o pano que ao pão, em cesta de vime, esconde.

Foi um tempo de triunfo, a amarga morte só aos animais coubera e de todos os que na viagem tomaram lugar, a nenhum a parca foi pelos deuses, sempre solícitos, arremessada. Quando a tarde descaiu em direcção às trevas, as vozes entoaram salmos e cânticos heróicos, os imortais dias de glória haviam tecido, banhados pela espuma que da folhagem verde das árvores caía. Carne na carne se fundia e das mulheres suspiros da boca se desprendiam. Um desbaratado exército, pela aurora, à vertigem da manhã se entregou, as armaduras desfeitas, as armas pelo chão e no sítio das cabeças a vivaz luz da solidão.

domingo, 21 de agosto de 2016

Diário de um banhista - IX

Paul Cézanne - Bathers at Rest (1875-76)

Chegado a mais um dia de estadia na praia questiono-me: serei um verdadeiro banhista? Terei o direito de escrever este diário? Esta interrogação não cai do céu aos trambolhões, não. Pelo contrário, há motivos empíricos que sustentam o dilema que me assoberba a razão. Quando tudo estava preparado para rumar em direcção à praia, não é que uma súbita angústia se apossa de mim e me faz dizer: vão, vão, sem mim. Cá os espero. E lá foram e eu fiquei dividido entre as cartas de Schiller e uma ida ao café. Acabei por escolher uma esplanada sobre o mar, onde li duas cartas sobre a educação estética da humanidade, bebi uma italiana – em sentido figurado, note-se – e olhei as águas do mar em profunda meditação metafísica.

Foi perante esta inclinação para fugir a sete pés da areia que o meu espírito se interrogou sobre a minha verdade enquanto banhista. Será que sou um banhista? Em desespero, recorri ao dicionário, o da Porto-Editora, passe a publicidade, e encontrei as seguintes definições de banhista: “1. pessoa que toma banho no mar, no rio, ou em piscinas; 2. pessoa em tratamento em local de águas medicinais”. Como se poderá ver pelas definições dadas, senti-me vítima de exclusão. Então eu que não estou em tratamento num local de águas medicinais, nem tomo banho no mar, no rio, ou em piscinas, nem sequer em albufeiras nem em lagos ou lagoas, não tenho direito ao nome de banhista?

Terei de suportar, neste mundo pós-moderno, séculos e séculos de preconceitos fundados na discriminação social e na divisão classista? A revolução francesa não trouxe a igualdade? Não foi para que todos fôssemos banhistas que se cortaram tantas cabeças? Terão sido em vão tantos sacrifícios? Pobre Maria Antonieta, infeliz Robespierre. Nesta profunda angústia existencial, duvidando da minha própria essência de banhista, decido mergulhar mais fundo no dicionário e fazer uma pesquisa em «banho».

Aleluia, aleluia, eis a boa­-nova. Depois de cinco definições literais, denotativas, de banho, surge uma primeira definição figurada. A conotação salvar-me-á, pensei. Banho é “a acção de se impregnar de ou mergulhar em”. Quando vi «impregnar de», desconfiei. Nada de «impregnanços» e ainda por cima equívocos: impregnar de… Meus Deus, de que se impregnarão as pessoas que se impregnam de…? Mas este equívoco, insuportável quando se utiliza o vocábulo «impregnar», tem um carácter salvífico se aplicado a mergulhar em… Esta abertura de sentido mostra, afinal, que eu, aquele que não mergulha em mares, rios, piscinas, lagos, albufeiras e poços, posso (desculpem a cacofonia) ainda assim mergulhar em… e ostentar o glorioso epíteto de banhista.

A meditação leva-me mais longe e revela-me a essência da verdade. Enquanto todos os outros são banhistas de mar, ou de rio, ou de lagoa, ou do quer que seja, eu que não sou banhista de nada em particular, sou um banhista em geral. Pobres banhistas do mundo empírico, enroladas na materialidade das águas, o que sois vós, sombras, ao pé de mim? Eu sou o verdadeiro banhista, a essência de banhista reside em mim, como para Platão a essência do mundo sensível residia no mundo das ideias. Ora se eu sou não um banhista particular e empírico subjugado às especificidades e limitações sensíveis, mas a ideia veraz e imutável de banhista, então não há qualquer razão para a minha angústia. Estou salvo e este diário, de cuja legitimidade eu começava a desconfiar, encontra-se não só justificado de facto, mas também de direito. Ó pobres mortais, vós de banhistas apenas sois a sombra, enquanto eu, aquele que mergulha em…, é o único banhista digno desse nome. Mergulhem onde vos aprouver, que eu mesmo no café já estou imerso em… e nunca deixo, onde quer que esteja, de ser o banhista que sou. A angústia que de mim se apossou é apenas o sentimento de desprazer daquele que sabe o que é a verdade e se vê confrontado com as sombras ilusórias daquilo a que os pobres mortais, de pensamento errante, chamam realidade. Ora, passem bem. (averomundo, 2007/08/07)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VIII

Jean Puy - Plage à Bénodet (1904)

Decisão e coragem são virtudes maiores de um banhista. A mim, porém, são qualidades que me falecem mal enfrento as águas. Saudoso de aventuras marítimas lá me dirigi para uma das muitas praias que por aqui há. Sugeri que fôssemos a outra, mais habitual. Sou um conservador, claro. Perdi a votação. Muito vento, foi o que ouvi como justificação. Parece que aqui se vive numa democracia argumentativa, com direito a justificação das opções e tudo. Lá fomos, armados de chapéu-de-sol, toalhas, cremes contra os ultravioletas e um livro que escondi entre o atoalhado.

Um banhista que não viva numa barraca tem de aliar à decisão e à coragem a perspicácia geográfica de um fundador de colónias. Como os antigos gregos, que saíam da sua cidade natal e iam para a Anatólia ou para a Sicília em busca de território livre e, quando o encontravam, aí fundavam uma nova cidade, colónia da primeira e protegida pelos deuses desta, também os banhistas de chapéu-de-sol e toalha têm de espiar o território, descobrir clareiras, apossar-se com determinação de cada palmo de terreno, delimitar uns metros quadrados, se os houver, de areia, erguer um altar, fazer uma hecatombe, e depois…

Bom, depois, mesmo que não haja necessidade de uma oposição determinada a novos colonizadores, é preciso vigiar as fronteiras e exibir o poderio da nova colónia. Como? Erguendo acrópoles de lona defendidas por muralhas de atoalhados turcos coloridos para ofuscar o adversário. Há quem use corta-ventos, mas faço parte de uma geração apostada em novas formas de defesa, mais imateriais e fundadas na vigilância electrónica e no uso de informação via satélite. Se tivesse propensão para filósofo, seria um novo Bentham, inventaria um panóptico digital. Adoro planos tecnológicos.

Colónia fundada e defendida, dá-se início à função. Os colonizadores cansados da longa viagem começam a despir-se e exibem-se em roupa interior, com o estranho nome de fato-de-banho, como se alguém precisasse de um fato quando toma banho. Esfregam-se com cremes, esticam os peitos, verificam a consistência dos músculos, se são do sexo masculino acomodam aquilo que os faz ser o que são, se são do feminino tentam tapar os pêlos que sempre crescem onde não devem e que as fazem parecer o que não são. Depois, desatam a correr para a água, os mais decididos, ou avançam lentamente, os timoratos. É o que acontece comigo. Mal a água me cobre os pés, sinto uma dor como se os ossos se partissem.

É aqui que a decisão e a coragem se mostram as virtudes maiores de um banhista. Respiro fundo, olho o sol e tomo uma decisão: para a Acrópole e já. Tenho a coragem inaudita de fugir.  Debaixo do chapéu-de-sol, observo o movimento do universo, o ir e vir das águas, oiço a restolhadas das crianças e o ganir dos cães de companhia, a maior parte nas respectivas acrópoles, enquanto os seus donos se espojam areia fora. Abro o livro, ponho os óculos de leitura e mergulho nas páginas batidas pelas areias trazidas pelo vento suave. Amanhã levarei tampões para os ouvidos. Para ler, preciso de silêncio.

Cansados de praia, desfazemos a colónia, guardamos nos sacos os deuses e voltamos à terra pátria. Um banhista não passa de um Sísifo. (averomundo, 2007/08/08)

Rumores de Maio - 8. Luz de Maio

Odilon Redon - Porto na Bretanha

8. Luz de Maio

A brancura da névoa
uma escuridão
na luz de Maio
um sonho sonâmbulo
erguido ao vento
a saudade de um barco
ao partir do cais.

(Rumores de Maio, 1977)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Um árduo caminho


A proibição do uso de burkinis em algumas praias francesas, bem como o apoio que o primei-ministro Manuel Valls tem dado às decisões dos presidentes de câmara, torna evidente que a Europa – a França em particular – está perante um problema de enorme complexidade. Esta complexidade deriva de um choque entre duas visões culturais sobre o que é o comportamento adequado na vida social. O choque, todavia, não fica por aí, pois a situação leva a um conflito no interior dos próprios valores ocidentais. O caso dos burkinis é interessante porque torna a posição das autoridades francesas muito frágil, se se tiver um conta os próprios padrões ocidentais, e mostra bem que estamos numa situação onde não há soluções pré-fabricadas e prontas a aplicar.

Vale a pena ler a argumentação transcrita de Valls para perceber que ela omite duas questões essenciais. A primeira diz respeito ao facto de poderem existir mulheres que, sem qualquer coacção externa, queiram adoptar, por um acto livre, esse tipo de vestuário. Em segundo lugar, o uso do burkini não significa que as usuárias estejam a infringir o secularismo do Estado. Um Estado secular não implica que as pessoas não possuam crenças religiosas e que, em sociedade, se comportem em conformidade com as suas crenças, desde que essas pessoas não interfiram na liberdade das outras.

A França perante o problema posto pela presença do Islão poderia lidar com ele de dois pontos de vista. Valorizar a liberdade negativa. Cada um vive como entende, desde que não infrinja a liberdade de terceiros. Isto significaria valorizar o indivíduo e os seus direitos e liberdades. Significaria ainda que o Estado deveria punir todos os actos que atentassem contra essa liberdade negativa, incluindo aqueles que se passam nas comunidades e famílias muçulmanas. Isso exigiria pôr de lado o multiculturalismo e, acima de tudo, um longo e exaustivo trabalho policial, talvez impossível de realizar.

A França optou por manter-se fiel à sua tradição. Evoca a virtude republicana: o uso do burkini como da burka “não é compatível com os valores da França e da República”. E acrescenta Valls que “a República deve defender-se”. O problema é que as autoridades francesas agem segundo o princípio da suspeita. Suspeitam, como o diz a ministra para os direitos das mulheres, que se pretende “esconder os corpos das mulheres para que possam ser controlados”. Esta é a velha tradição que vem da época do Terror, da Revolução Francesa. Perante a suspeita da falta de virtude republicana, os jacobinos entretinham-se a decapitar pessoas. Hoje a França é civilizada, não usa a guilhotina, mas o princípio da virtude republicana é o mesmo, como é o mesmo o princípio de condenação, a mera suspeita.

Com isto não me estou a tornar advogado dos adeptos dos burkini e das burkas. Estou a mostrar que se chegou a uma situação paradoxal: para defendermos os nossos valores atacamos um dos nossos valores essenciais e raiz de todos os outros, a liberdade. Se permitirmos a liberdade de cada um vestir o que entende, uma parte dos cidadãos – as mulheres muçulmanas que não querem de livre vontade usar este tipo de indumentária – pode ser coagida a fazê-lo por familiares ou pela comunidade onde se insere, pois a República é virtuosa mas não tem meios para fazer cumprir a lei. Se se proíbe certo tipo de indumentária sem que ela ponha causa a liberdade a segurança de terceiros, então não respeitamos a própria liberdade. Seja qual for a solução adoptada, os valores ocidentais perdem sempre.

Esta situação remete-nos para o paradoxo do multiculturalismo referido em crónica de António Guerreiro, no Público. Stanley Fish defende que o “multiculturalismo é uma impossibilidade lógica”. A explicação pode ler-se no texto de António Guerreiro (para ler a argumentação de Fish ir para a jstor). O que me interessa sublinhar, porém, é o perigo que tudo isto representa. O perigo deriva da incapacidade da razão encontrar um caminho para a resolução destas situações de conflito cultural.  O paradoxo revelado por Stanley Fish mostra-nos um limite da razão. Quando a razão falha – e mesmo quando, por vezes, não falha – a saída para os problemas na vida em sociedade torna-se irracional, isto é, comprometida por emoções e sentimentos, os quais facilmente conduzem à violência.

Na actual situação, há todo um trabalho de pensamento - encontrar uma saída para o paradoxo - a fazer para evitar que as sementes de violência, já lançadas, não brotem vigorosas da terra. O que está a ser testado, em todo este processo, é a pretensão à universalidade dos princípios que o Ocidente tem sido porta-voz e a capacidade de encontrar um caminho para partilhá-los. Neste momento, a França enredou-se de tal modo que as soluções que adopta são aquelas que reforçam a posição identitária dos muçulmanos. O problema é de difícil solução. Nem a tarefa teórica nem a tarefa prática parecem fáceis, antes pelo contrário. A situação mostra que o caminho que está pela frente é árduo, muito árduo e de resolução intrincada, se a tiver. O pior, porém, que pode acontecer é entregar o assunto ao sentimento e à emoção, venham estes disfarçados de ideologia multicultural ou de devaneios identitários. É preciso pensar para agir. Fundamentalmente, é preciso não deixar que princípios e valores universais da razão se deixem arrastar, por inabilidade ou por impotência, para o particularismo identitário.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VII

Eugene Louis Boudin - A praia de Trouville (1864)

Aviso: Caro leitor, tenha a bondade de reparar que o texto é de 2007 e que, portanto, não está a ter nenhum pesadelo com o retorno do engenheiro Sócrates como chefe do governo. Nem tudo é assim tão mau na vida.

Apesar da temperatura por aqui ter subido, continua a nortada. Olho a praia sentado numa esplanada, vejo veraneantes infelizes a segurar chapéus, a correr atrás disto e daquilo, a areia a borbulhar. O vento a tudo empurra, isto para escapar ao inevitável o vento tudo levou. As águas ainda estão bravias, a bandeira mais encarnada que a camisola do glorioso, imagino que saiba a quem me estou a referir. Mais um dia de glória, mais um dia sem pôr pé na areia. Como mortal, este triste banhista submete-se aos imperativos do corpo. Há que satisfazer os impulsos homeostáticos. Triste sorte a dos humanos. E lá me desloco ao hipermercado, que não é assim tão hiper, mas enfim, se temos de comer…

Foi assim que me vi mergulhado num mar de pessoas, a ulular em torno de prateleiras e bancas, os olhos vorazes e as mãos como garras a encher cestos e carros, numa orgia de sacos de plástico, dinheiro de plástico, chinelos de plástico, com sonhos de comida de plástico. Alumiou-se então o cérebro e percebi, nesse instante, o sorriso de plástico do nosso primeiro-ministro, o venerando e atlético Eng.º Sócrates. Numa democracia de sacos de plástico, num povo cada vez mais plastificado, quem melhor, para dirigir a plastificação geral, do que um engenheiro de plástico?

Vem uma pessoa a banhos para descansar das fadigas do ano e, sem qualquer meditação filosófica, acaba por descobrir, só por olhar, a essência da nação. Portugal é um país de plástico. O plástico é aquilo que faz com a pátria seja aquilo que ela é. Espero que tenham compreendido. Um dia até a água e a areia serão de plástico. É o plano tecnológico, cheio de inovações e projectos para desenvolver a paróquia. Haja engenheiros, pensei, enquanto passava o cartão de plástico no terminal da caixa. Recolho ao lar, extasiado pela descoberta, e oiço, ao fundo, o bater das ondas e o sopro do vento. Éolo continua indisposto, Posídon não está melhor. Não há plástico que sempre dure, penso comigo, mas sem grandes certezas. É duro ser um banhista numa pátria de marinheiros. Melhores dias virão. (averomundo, 2007/08/07)

J. D. Salinger, À Espera no Centeio


À Espera no Centeio (The Catcher in the Rye, 1951) é o romance mais conhecido de J. D. Salinger. Segundo a Time Magazine é a quarta obra mais interditada (presumo que pelas escolas) dos EUA. É lida como uma incursão no universo da adolescência. A adolescência é usada, porém, pelo autor como um dispositivo para contrapor a inocência da infância ao niilismo e à falsidade da vida adulta. A adolescência tem essa capacidade por dois motivos centrais. Por um lado, ela encontra-se na fronteira entre esses dois mundos. Por outro, pela a sua própria natureza, a adolescência, enquanto discurso, tem uma capacidade hiperbólica que permite, ao exagerar certas características, percebê-las na sua real natureza.

O romance narra-nos três dias da vida de Holden Caulfield, um adolescente de dezasseis anos que acaba de ser expulso, antes do Natal, de Pencey, um colégio frequentado pelos filhos de famílias pertencentes à elite norte-americana. Ao saber da sua expulsão, já a quarta no seu historial, o herói e narrador decide fugir do colégio antes de os pais serem informados. Vai para Nova Iorque, onde a família vive, mas começa por hospedar-se num hotel até que, por influência da sua irmã, ainda uma criança, volta para casa. Estes três dias são um confronto com a realidade da vida adulta e a permanente falsificação da existência que esta representa. O essencial, porém, é o olhar e o discurso do jovem Caulfield sobre esse mundo adulto.

O olhar é servido por uma linguagem hiperbólica que mistura o calão, os lugares-comuns da linguagem dos adolescentes e juízos que emanam de uma contínua generalização precipitada para configurar a vida falsificada dos adultos. A linguagem usada pelo teenager é central, não tanto como caracterização de uma juventude rebelde, embora o livro seja visto como um dos indutores da contracultura dos anos 50 e 60 do século passado, mas porque ela permite, na sua crueza e quase contra-senso, caracterizar a sociedade americana, onde, por exemplo, adultos discorrem longamente sobre quantos quilómetros conseguiram andar com um litro de gasolina. É a linguagem do adolescente que permite perceber o niilismo que se esconde na fachada falsa da vida adulta, uma vida marcada pelo logro, pela batota, por regras infringidas, pela manutenção das aparências. A hipérbole é a lente que dá a ver aquilo que o senso comum esconde.

O romance de Salinger não se limita a tornar patente o niilismo e a vida falsa da elite norte-americana, e, por extensão, da elite de qualquer parte do mundo. O romance retrata também, com a mesma linguagem e precisão, a fonte de onde brota esse niilismo e essa vida falsificada, os colégios privados frequentados pelos filhos-família. Estes colégios, com a artificialidade das suas regras e das suas tradições, com os jogos de subserviência e sobrevivência dos adultos que os dirigem e neles ensinam, são verdadeiras escolas de falsificação existencial. Olhar para o Pencey de Salinger permite-nos perceber como a educação escolar é uma das fontes do niilismo contemporâneo, tanto mais refinado quanto mais a instituição se dirige aos que estão mais acima na escala social.

O desprezo – na verdade, quase um ódio declarado – ao cinema por parte de Holden Caulfield, expresso directamente ou na crítica mordaz que ele faz ao irmão mais velho, um escritor que se foi prostituir, segundo o protagonista, para Hollywood ao escrever para cinema, é um elemento central na denúncia do niilismo e da falsificação da vida presentes na sociedade americana. Na verdade, é o cinema que populariza, entre as grandes massas, o modo de vida das elites. O niilismo e a falsificação existencial brotam dos grandes colégios e são disseminados pelo cinema, todo ele falsificação do real, pura montagem, onde aquilo que parece real não passa de artifício e fabricação.

A adolescência, porém, é um lugar de fronteira. Ela permite olhar, de forma hiperbólica, para dois países, o da idade adulta, que está mesmo à porta, e o da infância que acabou de se deixar. O que atormenta o protagonista é essa perda da inocência. Há no romance dois momentos simbólicos nessa luta pela preservação da inocência. Não da sua, mas a inocência dos que ainda não entraram na adolescência. Quando vai à escola ter com a irmã e se depara com vários foda-se grafitados nas paredes da própria escola, que ele tenta desesperadamente apagar, até que desiste, pois seria impossível apagar todos os grafitos semelhantes existentes no mundo. O segundo momento é aquele que dá o título ao livro. Instado pela irmã sobre o que queria mesmo fazer na vida, Holden Caulfield acaba por afirmar que queria estar num campo de centeio à beira de um abismo, no qual brincassem crianças. O seu papel seria de apanhar aquelas que poderiam cair no abismo. O campo de centeio é o locus da inocência, o abismo é o vazio que, através da queda, conduz à perdição do niilismo, da superficialidade e da falsificação da idade adulta.

A adolescência emerge assim como um posto de observação sobre o paraíso da infância e o mundo após a queda, o mundo da vida adulta. Ela, porém, não é apenas um ponto de observação ou uma fronteira. É ainda um lugar de enunciação. Ela é o lugar de um logos muito específico, um logos  que ainda não foi dominado pelas estratégias retóricas da persuasão. Com The Catcher in the Rye percebemos que a adolescência é, fundamentalmente, linguagem, enunciação, discurso, mas tudo isso no seu estado puro, como se a linguagem nascesse nesse momento na espécie humana, com tudo o que ela pode ter de terno e de selvagem, isto é, com tudo o que há de hiperbólico no acto da fala.


J. D. Salinger (2011). À Espera no Centeio. Lisboa: Quetzal Editores.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VI

Georges Lemmen - Beach at Heist (1891-92)

Frívolo banhista, quem te manda a ti tentar os deuses? Mal sabes tu que eles concedem aos mortais aquilo que estes mendigam. Então, não foste tu que ontem falaste em tempo cinzento, aragens frescas, ventos a cortar a face? Então, toma, aí o tens. Hoje levantei-me decidido a cumprir o meu estatuto de banhista, homem que corta as ondas, lobo-do-mar. Feitas as abluções matinais, tomado o pequeno-almoço, logo exclamei: para a praia. Olharam-me com comiseração. Vi estampado nas faces um juízo irónico sobre a minha sanidade mental, mas ninguém disse o que quer que fosse. Se é para ir à praia, então toca a andar. E lá se foi…

O pior foi sair do carro. Uma nortada das antigas. Não cortava a face, não. Cortava o corpo todo, varria os banhistas da praia, levantava ondas de areia, acastelava as águas, semeava um reboliço que mais parecia um terreiro de feira corrido a varapau. Agora, vamos, sussurraram-me. Gaguejo, conto aquela história do anúncio da Sagres – ao mar, ao mar, ao mar; ao bar, ao bar, ao bar – mas ninguém acha graça. Para a praia, para a praia, exclamam, isto não é o Moledo, sugerem-me. A humanidade tem destas coisas.

Como quem paga uma promessa, ou como se fôssemos um cortejo de penitentes, lá marchámos em direcção ao santuário. Bandeira encarnada, alguns surfistas e uma solidão maior que o mundo. Está frio, comento. Olham-me com desprezo. Acrescento: ao menos vamos a casa vestir umas calças e uns corta-ventos. Sorriem. Qual o quê? Toca a marchar e lá me levam a dar uma volta pela ventania, até que alguém exclama: já chega. Chegou. Sinto risos nas minhas costas, olhares malévolos, desconfio de um pacto com Éolo. Gosto de vento, mas o vento norte podia ser menos frio e cortante, concedo. Amanhã, a saga do banhista continua, se tiver mesmo de ser… Que os deuses me protejam. (averomundo, 2007/08/06)

domingo, 14 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 7. Abria a mão e no limiar

Paul Cézanne - House and Trees (1890-94)

7. Abria a mão e no limiar

Abria a mão e no limiar
da casa tudo adormecia
movido pelo silêncio
coberto pela mágoa.

A raiz da manhã
era centelha aberta
uma flor subterrânea
a florescer sob o céu.

(Rumores de Maio, 1977)

sábado, 13 de agosto de 2016

Uma verdade absoluta

Giorgio de Chirico - Árabe a Cavalo (1935)

O islão é universalista. O multiculturalismo — no sentido de um ideal de convivência de culturas, todas com mesmo valor — é um mal menor para os islamistas na Europa. Em minoria, o multiculturalismo é útil para expandir islão. Quanto ao actual relativismo europeu, não é partilhado pelo crente muçulmano. Pelo contrário, aceitá-lo seria negar o próprio islão. (José Pedro Teixeira Fernandes, Público)

Por que razão a questão islâmica é – para o mundo, em particular para a Europa – muito mais séria do que aquilo que parece ser a um olhar superficial? Não é por causa dos atentados terroristas, por muito dolorosos que, material e simbolicamente, eles sejam. O artigo citado em epígrafe ajuda a perceber essas razões. Vale a pena, contudo, sublinhar dois aspectos que convém ter em mente sempre que se aborda a questão islâmica.

Em primeiro lugar vem a natureza universalista do islão. Os seus adeptos, como em tempos os cristãos, não o vêem como uma religião particular ao lado de outras. O islão é a religião, a única verdadeira religião. Ela superou, à maneira hegeliana, as limitações tanto do judaísmo como do cristianismo, que são agora completados e suprimidos pela revelação islâmica. O islão não é concebida pelos crentes, pelas elites religiosas e políticas, como um particularismo cultural ao lado de outros particularismos. Esta vocação universalista – com o desprezo do multiculturalismo, a pobre panaceia tão ao agrado de certas correntes ocidentais – aliada à tradição político-militar inerente à história da emergência e expansão da religião do profeta é a fonte de todos os problemas. Existe a convicção de que se conhece e possui a verdade, que esta tem um valor absoluto e que é lícito impor essa verdade a quem quer que seja, pelos métodos consagrados pelo próprio islão, dos quais a violência não está arredada. Podemos todos olhar para o lado e fingir que isto não existe, mas muitos milhões de seres humanos acreditam nisso e não mexerão um dedo para defender o direito de outros a possuírem convicções diferentes.

Em segundo lugar vem a questão do nosso relativismo. A relativização que fizemos de todos os valores foi a forma de encontrarmos uma convivência pacífica entre nós. Isso permitiu, antes de tudo, a convivência entre as diferentes interpretações do cristianismo, e levou, de seguida, à possibilidade do pluralismo político e, não menos importante, a um pluralismo ético, onde projectos de vida completamente diferentes existem lado a lado, sem que se sinta a necessidade de se impor globalmente uma forma de vida verdadeira. Este relativismo, que caracteriza a modernidade e é visto pelos ocidentais como virtuoso e a fonte da sua força, é inaceitável pelo islão. Essa não aceitação, por outro lado, conjuga-se com a suspeita, por muitos sectores muçulmanos, de que essa é uma fraqueza do ocidente, fraqueza essa que, do ponto de vista estratégico, deve ser explorada, para que, num futuro mais ou menos próximo, a única religião verdadeira se possa impor.

O que está assim em jogo é o conflito entre aqueles que crêem estar na posse de uma verdade absoluta e aqueles que, pela experiência e pelos seus próprios fundamentos culturais, aprenderam a relativizar as suas crenças, ao instalar o princípio crítico-racional como motor de todas as crenças. O islão é um problema não tanto, como se disse atrás, por causa do terrorismo. Este – como outros terrorismos que já assolaram a Europa – é apenas a face mais ostensiva e violenta da crença ingénua (não criticada) de que se possui uma verdade absoluta, a qual deve ser imposta, custe o que custar. Temos um problema que provavelmente será, por muito tempo, irresolúvel.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Diário de um banhista - V

George Seurat - Bathers, Asnières (1883-4)

Domingo. Hoje não há saga do pobre banhista. Os banhos de mar, quer dizer, as visitas à praia, estão, cá por casa, proscritos nos dias que outrora eram os do Senhor e, hoje em dia, não se sabe bem de quem são. É questão de sanidade mental, oiço dizer. Concordo. Mas uma regra não é uma lei, e há que desconfiar: quando chegará o dia em que a regra dá lugar à malfadada excepção?

Curiosamente, hoje que me levantei tarde, deu-me um súbito desejo de ir à praia e fazer jus à minha condição de banhista ou de pré-banhista. Tempo cinzento, uma aragem fresca, ameaça de chuviscos. É em dias assim que o corpo me puxa para o mar. Sonho com praias vazias, o vento a bater as águas, a cortar a face, o sol oculto por nuvens escuras e o extenso areal libertado da presença humana. Mesmo para os humanos a humanidade começa por ser um cansaço e acaba por se tornar um problema, um problema que tem todas as condições de ser irresolúvel. Hoje, domingo e tempo incerto, será possível que vá à praia?

Comprar os jornais, tomar café, dar um giro e ver as praias desertas. Ingenuidade minha, a humanidade oferece-me o esplendor dos seus corpos sobre as areias, dentro de água, corpos que se agitam como se temessem a imobilidade eterna. Há dias que odeio Heraclito. Resigno-me à derrota de Parménides e, melancólico, penso que ainda não será hoje que a excepção toma o lugar da regra. Vou fotografar naturezas mortas, materiais inúteis, lixos, a sombra projectada pela humanidade, a sombra de uma natureza morta que julga estar viva. Olha-se para uma praia e vê-se logo que, apesar das aparências, não está. A humanidade morreu, penso, mas é demasiado dramático para servir de proclamação.

Balanço: oitavo dia junto ao mar, idas à praia = 1 (uma), banhos de mar = 0 (zero). Não há razão para queixas. Nada melhor que os tempos de praia. (averomundo, 2007/08/05)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Livro do Êxodo 21. Morrendo morrerá

Paul Ackerman - Aubade sur la gondole

Eram tecedeiras. No vagar que era o delas, teciam longas horas, teciam-nas com dedos afilados e um murmúrio entre lábios. Obscuras sombras, ao serem tecidas por violentas e vorazes mãos, a tudo cobriam. Na voz rouca, voz era o que se ouvia, enchiam o lago do tempo, cobriam-no de suspeitas, de injúrias, a lama a crescer, num Inverno de dedos cruzados, para dentro do vazio que habitava cada casa. Os olhos já negros de tanto olhar abriam-se no fundo do rosto, caíam sobre o horizonte e cerravam-se. A vida, precária e sem esperança, era agora vendida a retalho, ao sabor das flutuações do mercado, do deve e haver, as mercearias fechadas e as tulhas vazias.

Não havia cerejas nem laranjas. Não havia vinho e pão. Os cereais tinham acabado e nada restava onde, naquelas tulhas do passado, os braços pudessem mergulhar as mãos, assim os terminavam. Pela noite, soltava-se um instinto mortal e elas, tecedeiras tão ferozes, vogavam pelas casas, cabelos soltos a tocar os seios descaídos, uma ânsia de assassínio no canto da boca, ou a solidão a aplanar o caminho do coração. Vinham à rua e uivavam, a montanha devolvia, num eco de língua lívida, o uivo, e a matilha de mulheres dispersava-se, cada uma para sua casa, limpavam o pó e, com cuidados sem fim, pegavam na tecelagem. Das suas mãos vinha o tecido do futuro, fresco, puro, quase luminoso.

Uma voz desceu dos céus e disse: o que ferir alguém que morra, morrendo morrerá. Elas encolheram os ombros e deixaram o dia escoar-se entre as pernas, coxas férteis dedilhadas lentamente, pele lustrosa no olhar que as olhava. A noite avançou incólume na escuridão sem estrelas, nas trevas primitivas onde tudo abrandava, e a morte cansada deixava a carne em frágil decomposição. Tudo caiu então para dentro da pátria do silêncio, arrastado pelo rio do esquecimento, dragado por uma linguagem nova, tão nova e tão incompreensível. De olhos desmesurados, as tecedeiras adormeceram. Sonhavam longamente, noites e dias sem parar, com impérios desfeitos, camisas de seda, o branco véu, à noiva no altar cobre.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Uma sociedade impotente


Uma país literalmente a arder. Mais uma vez. Sempre que S. Pedro se distrai, Portugal incendeia-se. O João Carlos Lopes (JCL) cita um estuda da União Europeia: Portugal teve mais incêndios que a Espanha, França, Itália e Grécia juntos no período entre 2000 e 2013. Este pequeno país registou, mais concretamente, 54% do número total de incêndios dos países mediterrânicos, quando a sua área total, no conjunto dos cinco, pouco passa dos 10%. Estes dados perturbadores são um espelho fiel da cultura cívica dos portugueses.

Ao começar a escrever este texto lembrei-me de uma passagem do primeiro capítulo de Sexual Personae, de Camille Paglia. Diz assim: A sociedade é uma construção artificial, uma defesa contra o poder da natureza. Sem a sociedade, estaríamos expostos ao mar bárbaro que é a natureza. A sociedade é um sistema de formas herdadas para reduzir a nossa humilhante passividade perante a natureza. (…) A natureza tem a sua agenda fundamental, a qual apenas fracamente podemos conhecer. A pergunta que se coloca é a seguinte: o que se passa com a nossa sociedade que é tão impotente para nos proteger da terrível agenda da natureza. A sua impotência ultrapassa largamente a dos países europeus mediterrânicos.

Há acusações para todos os gostos. A direita acusará a esquerda no governo. A esquerda acusará a direita que governou. Depois, como no texto de JCL, há a indústria do fogo posto, o que parece uma evidência, bem como, segundo outros, o desordenamento do território, o abandono do interior, embora o Funchal não seja propriamente o interior, os interesses da monocultura do eucalipto, etc., etc. Tudo isto, porém, são sintomas de um mal bem mais fundo, de um mal entranhado na nossa sociedade e que nos expõe, para utilizar a linguagem de Camille Paglia, a uma humilhante passividade perante a natureza.

O que a actual situação torna patente, mais uma vez, são três características da sociedade portuguesa e dos portugueses. Em primeiro lugar, uma sociedade débil, mal organizada e corroída na sua organização política, que perante qualquer catástrofe  mostra a sua impotência. Em segundo lugar, uma consciência cívica irrisória. Esta alimenta, por exemplo, a tal indústria do fogo posto. Por fim, uma relação superficial da generalidade dos portugueses com a realidade e com aquilo que têm de fazer. Na verdade, nada é levado até às últimas consequências. Tudo é tratado pela rama. O culto do desenrascanço – culto, pois é louvado como virtude – diz tudo sobre a nossa atitude. Diz tudo sobre a impotência da sociedade portuguesa perante a terrível agenda da natureza. E também ajuda a explicar a débil consciência cívica e, não tenhamos medo das palavras, a puerilidade das elites políticas.

Uma palavra final de gratidão aos bombeiros portugueses, os quais com a sua coragem, a sua tenacidade e a sua solidariedade minimizam as grandes tragédias que a natureza nos envia e a nossa cultura do desenrascanço alimenta fartamente.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 6. O Rio

Kazimir Malevich - River in the Forest (1908 ou 1923)

6. O Rio

O rio que passa nos meus olhos é
um fogo-fátuo, uma pedra
desenhada no sono, a areia onde
te escondes, refúgio da meia-noite.

Nos meus olhos correm águas desse
rio vindo do norte para
se abrir na textura da tarde e
cantar na força hidráulica
com que te vejo passar.

Um sopro, um sorriso, um obscuro olhar
de animal impaciente, a luz
resplandecente do rio em que
despido e cantante mergulho
na vertiginosa voragem dos teus olhos.

(Rumores de Maio, 1977)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Diário de um banhista - IV

Maurice Prendergast - Bathing, Marblehead

É dura a vida de um banhista. Estava ontem muito descansado quando um telefonema lançou o pânico. Para amanhã, a visita de uma amiga. O mundo turva-se, isto de mulheres e praia conjuga-se com tal perfeição que já estava a ver-me arrastado, em pleno sábado, imagine-se, para um areal pejado de corpos espojados pelo chão e alegres trinados das criancinhas. Sim, sim, dessas mesmas que o divino Mestre dizia para deixarem ir até Ele, mas Ele, sábio que era, não ia à praia. Mesmo aquilo no Jordão não foi um banho, mas um baptizado, leram bem, um baptizado, e esse só acontece uma vez na vida, pois uma pessoa não anda sempre a mergulhar nas águas para lavar pecados. Não haveria João Baptista que chegasse, e se querem lavar a alma que vão ao confessionário, não à praia. Estava a ver-me arrastado, dizia, para o espectáculo dos portugueses em roupa interior, há quem lhe chame fatos de banho, portugueses exuberantes, desejosos de mostrar o viço e a peitaça e o coxame e a celulite e o pneu. Era este programa audiovisual que já se desenhava no horizonte da pobre imaginação que me coube em sorte. A coisa foi de tal maneira impressiva que passei a noite a sonhar com praias cobertas de portugueses e eu entre eles a caminhar, como sonâmbulo, a exibir a tristeza da minha figura, metido nuns boxers vermelhos a que toda a gente teimava chamar calções de banho.

Quando me levantei, bem cedo e mal dormido, a coisa piorou. Estava um céu azul e um sol esplendoroso. Ergui as mãos ao alto e disse: Senhor tem piedade das pobres florestas, olha as ignições, ajuda este país malquisto, apieda-te da lavoura, das plantas e dos animais, manda nuvens e chuva e tempo fresco. Nada. Eis o verdadeiro sentido da derrelicção. Senti-me abandonado, desprezado, humilhado. É por estas e por outras que as pessoas deixam a Igreja, esquecem as missas, mandam ao diabo – salvo seja, t’arrenego, ó belzebu – os mandamentos. A manhã caminha por aí fora, toma-se café, compram-se os jornais, e uma voz insidiosa diz ó tanto calor, está mesmo bom para ir à praia, respondo ó tanto calor, está mesmo bom para ficar em casa. E ali se fica naquela indecisão, vai não vai, vais tu, fico eu, e eis que aquela amiga, a que haveria de vir, liga a dizer que sim, que vem, mas não está disposta para a praia. Respiro fundo, agradeço ao Senhor, sinto-me comovido. Talvez sejam incompreensíveis os caminhos do Altíssimo. Salvo in extremis. É dura a vida de um banhista. (averomundo, 2007/08/04)

domingo, 7 de agosto de 2016

O medo e a vida normal

Karl Weschke - Fear (1948)

Espalhar o medo entre as populações ocidentais é o objectivo táctico principal, no que se refere à Europa, do terrorismo islâmico. O medo lança a incerteza e a angústia entre as pessoas e, fundamentalmente, leva-as a desistir do seu próprio modo de vida, isto é, põe em causa a vida normal. Decisões até há pouco tempo inócuas - por exemplo, uma viagem - são agora ponderadas, por muita gente, a partir da ameaça terrorista. Duas notícias de ontem, onde o medo é o elemento central, merecem alguma atenção.

A primeira diz respeito ao atentado, em Charleroi, Bélgica, contra duas polícias belgas. Elas não morreram, ao contrário do atacante. Contudo, este tipo de atentados de baixa intensidade tem um enorme potencial para espalhar o medo, pois não necessita nem de grande preparação nem de meios técnicos que não estejam à mão de qualquer um. Se eles proliferarem, deixarão de poder ser considerados, como ainda parecem ser, questões de mera segurança interna, para se tornarem num dos elementos centrais do terrorismo em solo ocidental, uma forma de pôr em causa a vida normal.

A segunda notícia refere que as autoridades de Lille, França, anularam a edição deste ano da Braderie, a grande feira da ladra, no primeiro fim-de-semana de Setembro, que atrai ao centro da cidade cerca de 2 milhões de pessoas. Razões de segurança, o medo de um ataque terrorista. E este é apenas mais um evento que é anulado. A prudência manda agir assim, mas esta mesma prudência é a confissão de uma derrota e de uma desistência daquilo que é a vida normal.

As organizações terroristas não visam, neste momento e na Europa, um confronto militar com o Ocidente. Conhecem o enorme diferencial militar e tecnológico. Mas têm também uma perspectiva histórica, que recusamos a reconhecer e a reconhecer-lhes. Desarticular a vida normal, por incipiente que pareça ser do ponto de vista militar, pode ser o começo de algo que é pensado a longo prazo, algo que ultrapassa as gerações. O medo que se pretende espalhar não quer derrotar agora o inimigo, deseja apenas começar a prepará-lo para ser derrotável num futuro mais ou menos longínquo. A vida normal é, nesta hora, o bem político e estratégico mais importante, e é essa vida normal, que o medo desarticula, que esperamos ver defendida, custe o que custar.