A estratégia de Montenegro está
fundada numa convicção: o eleitorado é muito mais tolerante com a direita do
que com a esquerda. Essa convicção leva-o à crença razoável de que os
eleitores, no dia 18 de Maio, não o penalizarão pelos seus pecados; pelo contrário,
reforçarão a sua força política. Aquele que desencadeou o processo, através de
uma conduta pouco transparente, será, plausivelmente, o grande beneficiário da
obscura situação que gerou. A esquerda corre o risco de sofrer uma ampla
derrota nas urnas – não apenas o PCP, o BE e o Livre, mas também o Partido
Socialista. Parece enigmático este duplo padrão com que os portugueses avaliam
os dois lados do campo político, mesmo quando as políticas de esquerda e de
direita são semelhantes.
Trata-se de um problema cultural.
Existe uma espécie de ideia subliminar de que verdadeiramente legítimos são
apenas os governos de direita. Quando a esquerda governa, isso é sentido como
uma concessão temporária do povo; quando a direita governa, fá-lo como se
ocupasse o poder naturalmente e por direito próprio. Isto não se passa apenas
em Portugal. Uma coisa é a legitimidade constitucional; outra é a legitimidade
ao nível do sentimento comum. Muito provavelmente, o problema tem a sua génese
na Revolução Francesa. Apesar de vitoriosa, a sensação de ilegitimidade dos
seus herdeiros nunca desapareceu. A esquerda é herdeira dessa Revolução,
enquanto a direita acaba por se filiar, de algum modo, no regime deposto em
1789. Este é o pano de fundo onde se inscreve, ao nível popular, a maior
tolerância para com a imoralidade da direita do que com a da esquerda, como se
existisse uma mal disfarçada nostalgia do antigo absolutismo real e uma crença
popular obscura de que qualquer governo de esquerda é ilegítimo.