domingo, 1 de março de 2026

O ressentimento


Se se olhar com atenção para o que se passa nas sociedades ocidentais, descobre-se que a causa fundamental do mal-estar que se manifesta em todos os lados é o ressentimento. É este que está a corroer os fundamentos das democracias-liberais e ameaça mesmo a paz pública. Quase sempre, a vocalização desse ressentimento dirige-se contra o imigrante, contra o estrangeiro, contra aquele que não partilha a cultura e os valores que, presumidamente, são os dos cidadãos autóctones. Não poucas vezes, essas manifestações arrastam  estranhas posições. Por exemplo, argumentar ao mesmo tempo que certas comunidades instaladas num país não respeitam as regras da democracia-liberal e aproveitar essa presunção para atacar a democracia-liberal e tentar forçar soluções políticas autoritárias. 

Contudo, e apesar de ser real o sentimento de desgosto perante o estrangeiro, não será a causa central do ressentimento que mina as nossas sociedades. O estrangeiro surge como bode expiatório que cristaliza, em si, o despeito que atinge amplas camadas dos países ocidentais. Este despeito tem a raiz nas políticas que, após a queda do Muro de Berlim e o fim da ameaça comunista, se foram impondo, nos países demo-liberais. Estas políticas têm tido duas consequências. Destruição da ideia de elevador social, que permitiria o progresso na escala social. As novas gerações sentem ter muito menos possibilidades de ascender socialmente do que tiveram os seus pais. Sentem que as suas vidas serão piores que as das gerações anteriores. A segunda consequência, ligada a esta, é o desgaste e destruição do Estado Social. Mesmo quando este não é desarticulado, os serviços de educação, saúde e protecção tornam-se muito piores. 

Tudo isto está a criar legiões de pessoas ressentidas com as elites. Curiosamente, esse ressentimento não se volta contra as elites económicas beneficiárias das políticas que estão a empobrecer as pessoas, mas contra as elites políticas democráticas, bem como contra aquelas que têm um peso estruturante nas sociedades: cientistas, intelectuais, pessoas com formação superior. Este ressentimento está a transformar-se numa onda negra, cada vez mais volumosa, que pode vir a destruir os regimes democráticos e, por arrasto, um conjunto de benefícios que foram produzidos, na sequência do Iluminismo (um dos alvos das correntes populistas), como a ciência, os direitos cívicos, políticos e sociais e a própria vida civilizada. Se as democracias ocidentais se pretenderem salvar e salvar um modo de vida civilizado, terão de enfrentar as causas do ressentimento e corrigir o caminho que têm seguido desde os anos noventa do século passado.