terça-feira, 20 de setembro de 2016

A paixão pela igualdade (ii)

Emil Nolde - El escarnio de Cristo

Duas paixões consomem os actores sociais e políticos no mundo ocidental. A paixão pela liberdade e a paixão pela igualdade. A confrontação – por vezes, violenta – que entre elas ocorre deve-se ao facto de possuírem uma raiz cultural comum, que a vida social cindiu, mas que as alimenta, as incendeia e, secretamente, as mantém vivas. Essa raiz é o cristianismo. Não apenas o cristianismo emergiu como um projecto de libertação de uma condição humana vergada às cadeias do próprio desejo, como também trouxe com ele o rastilho que ateou a paixão da igualdade. Cristo não é como um imperador que, para se diferenciar, se proclama deus. Cristo, na economia da religião cristã, é Deus que se torna homem, que se torna mais um entre os homens, um igual. E esse homem em que encarna pertence à grande massa anónima dos homens, os quais são agora compreendidos como irmãos, como iguais entre iguais. A paixão pela igualdade – assim como a paixão pela liberdade – não é um elemento estranho à nossa cultura. Ela tem a sua raiz no que há mais fundo na cultura ocidental.