quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Perfis 11. A contestatária

David Turnley, Student Painting Sign for Protest, Beijing, China, April-June 1989

A mão pára, suspende-se sobre o papel, enquanto a consciência se revolve para encontrar a ideia exacta e os caracteres que a hão-de manifestar ao mundo. Parecendo hirto, petrificado, o corpo freme. O sangue, secreto e inviolado, circula impetuoso, tomando velocidades que o hábito não permite. Ela, naqueles instantes, vive no inabitual e, nesta casa, o mais inconcebível é permitido. Há no coração sombras de revolta, paisagens desordenadas, dunas de areia fustigadas pelo vento, ondas alterosas do oceano da emoção. Acocorada e sediciosa, não sabe a natureza de ménade que a possui, que opera dentro das suas células, que a toca no mais secreto que há em si, no fundo que a liga às pulsões do cosmos e às moradias onde os lençóis do ser se tecem em segredo. A jovem estudante pinta no cartaz da revolta a pulsão de eros que a arrebata e faz sonhar, ao longe, outro contestatário, preso no alvoroço, devaneia com aquele corpo inclinado para o papel. Ela é então um ser sonhado pelo desejo de alguém que ela ainda não encontrou, que ainda não desejou. Os cabelos apanhados com simplicidade esperam ansiosos pela mão que os desprenda e faça correr por eles dedos firmes e afáveis, que ao tocar-lhes ao de leve a arrebatem para um paraíso sonhado nos dias aprazíveis. A mão desce, vagarosa e hesitante, e traça no papel o rumo preciso que a levará para os olhos que a desejam. A revolta do coração cresce a cada toque do pincel no cartaz, enquanto o corpo se esquece do tumulto da injustiça e se deixa tomar por uma ordem mais antiga e mais pura, que assegura à vida a sua continuidade, mesmo se o mundo se lhe opõe com cadeias de ferro e lanças de fogo, com o aço inoxidável dos carros de combate incendiando a fragilidade do papel.
 

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