domingo, 25 de setembro de 2016

Livro do Êxodo - 26. Legiões de caminhantes

Alfonso Fraile - Caminantes (1977)

Passavam legiões de caminhantes e nas bocas, plenas de vazio, traziam um símbolo solar, tão escancarado que os dentes sobressaíam no negrume da noite e a respiração ecoava para lá dos muros, a cidade cercavam. Se tinham nome, ninguém o conhecia, apenas se ouvia: lá vão aqueles que vão,  mulheres, crianças e homens. Melhor fora que ficassem em casa, a cuidar das borboletas no jardim, a limpar destroços, os dias os trazem, a cozinhar e na cozinha matar a fome a quem fome tem. Foi assim que aprendi a beber até à última gota, a taça inclinada, a boca sôfrega, o barulho da noite que cai a estrondear, entre relâmpagos e vozes, naquele sítio onde a memória se tornou prisioneira e uma ferida escorre.

Quando o vento ordenou: farás laçadas de azul na ponta de uma cortina, já as janelas eram parede, de lá ninguém via os caminhantes caminhar, e no seu lugar havia apenas um vestígio de pedra, onde rapazes escreviam com lápis de carvão o nome das namoradas e palavras azedas, agora todos as dizem, mal a boca se destapa e os sentimentos se soltam, numa dor de solidão, na pressa contagiosa de mostrar o fundo, o mar das emoções a carregar vagas de algas verdes, por vezes roxas, restos de tecidos, chitas e tafetás, ouvi dizer, um punhado de gaivotas mortas e penas deslaçadas de corpos desfeitos ou de almas amargas.

Se ainda alguém desenha, no lugar vazio da janela, corações e setas de Cupido, é por fastio, um resto de rancor, ou como armadura contra a cólera, das alamedas, outrora de saibro, de tudo tomou conta, como agora homens e mulheres tomam conta de cães, a alçar a perna pelas árvores e no seu ser tão raquítico esganiçam a voz e ladram num arremedo de cão-de-guarda, a marcar no vento fronteiras, estremas fluidas a crescer no pântano, a ciciar propriedades, imensos latifúndios de gerânios, varas selvagens de cobras azuis, um rebanho de varejeiras, ou manadas infinitas de moscas sibilantes, ao longe, tão ao longe, parecem anjos negros, presos na torre da Igreja, se os sinos repicam e os carros zunem e as pessoas olham cansadas as legiões de caminhantes, então passam. Vão levados pelo silêncio