quarta-feira, 28 de junho de 2017

Poderes encantatórios

IOP – Institute of Physics, Reino Unido - Descrição geométrica das formas do fotão

Em pequena escala, a luz chega a uma superfície como se fosse um chuvisco de partículas.

Compreender como a luz pode ser tanto uma onda electromagnética quanto, ao mesmo tempo, um enxame de fotões exigirá a completa construção da mecânica quântica. (Carlo Rovelli, Reality Is Not What It Seems: The Journey to Quantum Gravity)

Deve-se a Max Weber a constatação de que no Ocidente se teria dado um processo de desencantamento do mundo. Isso significa, ao nível religioso, a mitologia e as práticas mágico-rituais teriam sido substituídas por práticas de carácter ético. Um factor central neste processo de desencantamento do mundo foi a emergência da ciência moderna a partir da revolução científica dos séculos XVI e XVII. A ciência teria substituído as interpretações míticas e metafísicas do mundo por um saber positivo, fundado na aliança entre a experiência e a razão.

Se se ler com atenção o texto, citado em epígrafe, do físico italiano Carlo Rovelli descobrimos que talvez a morte do mundo encantado tenha sido uma notícia precipitada. Observe-se a estratégia que ele segue para falar da luz. Num primeiro momento, utiliza o tropo da comparação. A luz é como um chuvisco de partículas. Dá a ver aquilo que é invisível aos nossos olhos, a luz, através da comparação com um fenómeno físico, o chuvisco, um pequeno aguaceiro. O mundo desencantado da ciência toma agora uma coloração que o reabre ao encantamento.

O processo, porém, está apenas no seu início. À comparação segue-se a metáfora. A luz é um enxame de fotões. Ao tentar tornar intuitiva a compreensão de um fenómeno que os nossos sentido são incapazes de perceber, Rovelli não tem outra solução que não a de retornar ao território encantado do mito. E esse retorno é intensificado pelo resultado do uso da metáfora. Dizer que a luz é um enxame de fotões implica arrastá-la para o território do animismo. Podemos agora imaginar a luz como sendo constituída por exércitos de abelhas – ou vespas – luminosas. Nada que o mito, nos tempos encantados pré-modernos, não tenha feito.

Tudo isto permite compreender a possibilidade de perceber o mito, a magia, o encantamento religioso e a própria especulação metafísica como tendo origem não num não saber, numa ignorância fundamental do real ou numa desatenção à experiência, mas na faculdade humana da linguagem e da sua constituição intrinsecamente tropológica. O encantamento do mundo é o resultado de nós, seres humanos, possuirmos linguagem, uma linguagem sempre equívoca, onde as ditas figuras de estilo, ou tropos, são o elemento central. Mal usamos a palavra, o mundo encanta-se. E não há positivismo, moralização da religião, desconstrução dos mitos ou definição conceptual que possa alguma coisa contra o poder encantatório da linguagem. Enquanto o homem for um ser de linguagem, o mundo nunca deixará de se encantar.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Um Deus pessoal

Leonardo da Vinci - Vitruvian man

Há em todos nós – talvez esta generalização não seja precipitada – um persistente e melancólico desejo de que os outros sejam melhores. Mais civilizados, mais honestos, mais atenciosos, mais competentes. Nunca as qualidades e as virtudes dos outros, por maiores que sejam, são suficientes para fazer esquecer a sombra viciosa que os toca aos nossos olhos. Este desejo de perfeição do outro não hesita em tomar palavra e desdobrar-se em textos e proclamações orais. A contrapartida disto não é menos interessante. Olhamos para nós, quando o fazemos, e o desejo de perfeição cessa. Os nossos vícios são, aliás e sabiamente, virtudes. É uma dupla graça que recebemos de Deus. Não só nos dotou com um olhar agudo com que perscrutamos o vício alheio como, ao criar-nos à sua imagem e semelhança, não se esqueceu, ao contrário do que aconteceu com os outros, de derramar em nós a sua ilimitada perfeição. Não há nada como um Deus pessoal, pensamos gratos.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Tentações igníferas

Gustavo Torner - Átomos - Los Cuatro Elementos. Fuego (1986)

Quando se tornou patente a enorme desgraça que se abatera em Pedrógão Grande percebeu-se, não através do discurso oficial mas do rumor militante das redes sociais, que a direita tudo iria fazer para lançar uma nova fronda. O terrível do acontecimento seria uma oportunidade, se não para liquidar de vez o odiado António Costa, para o desgastar de forma irremediável. Com o passar dos dias, esse rumor começa a tentar estruturar-se nos agentes políticos. Veja-se o infeliz caso dos suicídios invocados por Passos Coelho (ver aqui) ou a intervenção na televisão do angélico Marques Mendes. Apesar do assunto ser de tal maneira melindroso e ameaçar incinerar quem o transformar em mais um episódio da batalha pelo poder, a tentação, devido à espectacularidade das consequências, é muito grande. Neste momento, governo e oposição ponderam como limitar os danos políticos ou tirar proveito do acontecido. Nem uns nem outros pensam noutra coisa.

O problema para as elites políticas - aquelas que nos têm governado em democracia - é que todas elas são responsáveis por decisões e omissões que contribuíram para criar condições para que acontecessem fenómenos como os de Pedrógão Grande. O caso SIRESP, a crer no que a imprensa tem relatado, é um exemplo - um pequeno exemplo - desse conluio de irresponsabilidade que une, muito para além das diferenças de cor partidária, as várias governações. Exceptuando os que possuem identidades e inclinações políticas mais definidas e militantes, a generalidade das pessoas percebe isto. No entanto, o problema é mais complexo. Não são apenas as decisões políticas e a eventual inépcia técnica as responsáveis. Há todo um modo de vida que se instalou no país, partilhado por cidadãos e dirigentes, que contribui para que acontecimentos destes tenham um tão terrível desfecho.

O pior que poderá acontecer é que a desgraça de Pedrógão Grande se transforme no início de uma batalha pelo poder. Não porque a direita possa ganhá-la. Não porque a esquerda possa ganhá-la. Fundamentalmente, porque isso ofuscará o que está em jogo. E o que está em jogo são as opções que têm sido tomadas ao longo de muitas décadas por múltiplos governos. O que está em jogo é a natureza do funcionamento das nossas instituições, a sua fragilidade estrutural. O que está em jogo é a própria atitude dos cidadãos. Enfrentar estes problemas - que nascem de hábitos implantados e bem consolidados - é muito mais difícil e desagradável do que lançar uma fronda e combater nela. 

Em última análise, essa fronda seria benéfica para o governo e para a oposição. Asseguraria que o essencial se manteria tal como está. Evitaria que se enfrentassem os problemas difíceis e se tomassem decisões desagradáveis, muito desagradáveis, que poriam a nu a natureza maléfica de muitas opções do passado e do presente, que chocariam com os interesses instalados e que seriam contestadas pelos próprios cidadãos. Passado o impacto do momento, o mais provável é que o instinto político dos protagonistas evite enfrentar o desagradável e a tentação frondista se imponha - de início, com certo cuidado - para ocultar os reais problemas que se manifestaram no incêndio de Pedrógão Grande.

sábado, 24 de junho de 2017

A doença do optimismo

Pablo Picasso - Cabeza de hombre (1969)

Um dos argumentos que a direita, entre ela os liberais mas não só, com mais pertinência usou contra o marxismo e as suas pretensões foi o da risibilidade do optimismo antropológico inerente às crenças socialistas e comunistas. Crer que a maldade humana é o fruto de uma sociedade classista e com o fim desta - e da propriedade privada dos meios de produção - essa maldade desapareceria para dar lugar a uma espécie de paraíso na terra, no qual a própria política perderia sentido, é acreditar numa fantasia que nenhum facto corrobora ou sequer indicia.

O mais espantoso é que o cepticismo antropológico que a direita, com acuidade e justeza, dirigiu à utopia marxiana se transforma num complacente optimismo perante a iniciativa privada, o mundo dos negócios, a liberalização e desregulação de tudo e mais alguma coisa. Nem os mais patentes casos de polícia e as desgraças disseminadas que tomam o nome de crises são factualidade suficiente para que a direita se recorde do pessimismo antropológico com que enfrentou o marxismo.

Ora um pessimismo persistente sobre a natureza dos homens é a melhor maneira de tornar a vida civilizada. A civilidade não nasce porque acreditamos na bondade do homem, mas porque desconfiamos dele, das suas intenções e das consequências dos seus actos. Só um pessimismo antropológico persistente suporta, em todas as áreas, políticas prudenciais que limitam sonhos (isto é, desejos de triunfar sobre os outros) e utopias (e como se sabe há utopias comunitárias e utopias individuais). A prudência não resolve tudo, porque há coisas que ultrapassam a medida e o poder dos homens, mas pode impedir que certas catástrofes se tornem um drama sem fim.

Por detrás dos acontecimentos de Pedrógão Grande há um longo percurso fundado no optimismo antropológico, na crença na bondade dos interesses e desejos dos homens. O resultado foi um comportamento generalizado onde a prudência esteve longe, muito longe, de ser preocupação dos políticos (não apenas dos vários governos, mas de vários regimes), dos empresários que vivem da floresta, das instituições e das próprias pessoas. Por norma, estas coisas não se notam, mas há momentos, como o actual, em que tudo se conjuga para tornar patente que a nossa conduta é há muito, e também agora, errada e viciosa.

Aprendemos alguma coisa? Obviamente que não. Iremos passar o tempo a discutir questões técnicas e a tentar tirar proveito político. As facas estão já a ser afiadas e a natureza dos bandos, passado o pudor inicial, virá ao de cima. Não é porque 64 pessoas morreram e arderam uns milhares de hectares que o optimismo antropológico inerente às várias seitas e capelas em confronto irá ser abandonado. Claro que alguma coisa irá mudar, mas apenas para que, como ensinou Tomasi di Lampedusa, tudo continue na mesma. Amanhã outra coisa qualquer ocupará o lugar da indignação, que é a reacção sentimental e naïf pela falência da crença na bondade do homem, no optimismo antropológico.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A Flor Precária 7. A morte espreita na soleira da porta

Odilon Redon - The Masque of the Red Death (1883)

7. A morte espreita na soleira da porta

A morte espreita na soleira da porta,
ergue-se nas ruínas do calendário,
fruto na boca cansada de erva.

Vem vestida de ócio e larvas no olhar.
Vem no carro triunfante de deusa.
Vem no ruído da árdua e escura clareira.

(A Flor Precária, 1979)

domingo, 11 de junho de 2017

Angela Merkel

A minha crónica no Jornal Torrejano.

O comportamento do presidente Donald Trump na sua estadia em solo europeu teve a utilidade de mostrar que a defesa europeia, através da NATO, se encontra nas mãos de alguém que não é minimamente previsível, sem quaisquer princípios políticos ou, tão pouco, sentido de Estado e das conveniências. A presidência americana não está nas mãos dos republicanos, mas de um self made man sem pedigree político nem humildade para perceber a natureza do jogo perigoso que está a jogar. Isto parece entusiasmar intensamente os amantes de aventuras radicais e os adeptos da teoria de quanto pior, melhor. Para as pessoas sensatas é, todavia, um perigo, pois confirmou-se que o amigo americano nos voltou as costas. Este corte pode, contudo, ser uma oportunidade para o projecto europeu.

Depois do brexit e da visita de Trump, a União Europeia encontra-se numa encruzilhada. Pode ceder à pressão anglo-americana e entrar num processo de autodestruição ou pode encontrar, na nova situação, o combustível para refazer esse projecto e dar passos na consolidação da União como um dos grandes pólos da política mundial e não apenas um espaço comercial mais ou menos rico e apetecível. O retorno às velhas soberanias, tentador em sectores cada vez mais largos dos eleitorados, não será apenas um problema económico derivado da destruição do grande mercado europeu. Será o retorno aos nacionalismos e às velhas rivalidades que conduziram o mundo a duas guerras mundiais. Será também a condenação das nações europeias à irrelevância geopolítica. O projecto europeu continua a ser a única alternativa credível a uma decadência irreversível de parte substancial das nações europeias.

Esse projecto precisa de um conteúdo e de uma liderança forte. Quanto ao conteúdo, ele deve ter, agora que os americanos voltaram as costas, um pilar militar estruturante de uma defesa comum credível. Deve, por outro lado, continuar o processo de modernização das economias e dos estados europeus e, ao mesmo tempo, estabilizar os diversos estados sociais. Primeiro, como forma de reforço da coesão interna através do compromisso dos cidadãos com a União e, depois, como barreira ao crescimento eleitoral dos nacionalismos. Estes conteúdos – que não geram consensos facilmente – precisam de uma forte liderança política. E no actual quadro, tendo em conta os dirigentes políticos existentes, a liderança digna desse nome e com capacidade para dar um rumo à União Europeia é Angela Merkel. A chanceler alemã parece ser a única personagem política europeia que detém a autoridade e a força políticas para evitar a queda no abismo e encontrar um caminho de redenção do projecto europeu.

sábado, 10 de junho de 2017

Esperança

A minha crónica em A Barca.

Portugal vive tempos mais confortáveis. Algumas vitórias internacionais em vários domínios, o controlo do défice, animação na economia, com especial destaque para o turismo, onde se soube aproveitar – o que não é mérito pequeno – a crise por que passa o Médio Oriente. O estado de espírito da comunidade é, hoje em dia, diferente do de há uns tempos. Contrariamente ao que defendem alguns, ressentidos pelo simples facto de actual solução governativa ter sido capaz de dar credibilidade a si mesma e ao país, o que se está a passar não é uma mera ilusão. O êxito de um país, contudo, deve-se sempre à conjugação do esforço da comunidade e à iniciativa dos indivíduos.

Devemos ter a noção clara de que a situação continua difícil. O problema da dívida não deixou de existir, a situação internacional é problemática, a competitividade das empresas está longe do necessário, a modernização do Estado é incipiente, a demografia não ajuda, temos uma larguíssima fatia dos portugueses a viver no limiar da pobreza e uma parte não despicienda da população em idade activa não possui nem qualificações nem formação necessárias para enfrentar as duras exigências da economia globalizada. Do ponto de vistas da cultura da comunidade, existem também obstáculos a que possamos ir mais longe. A  inveja e o desprezo pelo mérito continuam muito arreigados, assim como a pouca iniciativa dos indivíduos, os quais confiam mais na cunha do que no mérito próprio.

Este quadro de dificuldades não tem de nos ofuscar e eliminar o princípio de esperança que deve orientar o país. Essa esperança, contudo, não deve ser encontrada em grandes decisões dramáticas, em opções radicais que ponham em causa o conjunto de compromissos que o país possui. Essa esperança, para ser efectiva, terá dois pilares. O primeiro diz respeito à política. Continuar o actual trabalho de quadratura do círculo. Conseguir, ao mesmo, tempo cumprir os compromissos internacionais e evitar que grandes e graves clivagens cresçam na comunidade nacional. O segundo tem de vir da sociedade civil. Esta deve tornar-se mais autónoma, cultivar o espírito de iniciativa e valorizar o mérito. O alicerce desta esperança estará menos no futebol, na eurovisão e mais, muito mais, nas novas empresas que se afirmam no mercado internacional e nas equipas de cientistas que continuam a trazer muitos milhões de euros em projectos de investigação para Portugal. O alicerce da esperança é a vontade de correr riscos, a valorização do mérito e o fomento do conhecimento.