quinta-feira, 3 de abril de 2025

O duplo padrão dos eleitores


Os resultados eleitorais da Madeira são um sinal de uma tendência forte na sociedade portuguesa. A sensibilidade dos eleitores a casos de corrupção é muito mais vigorosa se os casos – ou as suspeitas – vierem da esquerda do que da direita. O actual Presidente do Governo Regional da Madeira, apesar da sua situação judicial, reforçou a sua votação e a sua posição política. Uma leve suspeita, por outro lado, caso seja num governo de esquerda, é suficiente para o fazer cair e para que o partido no poder seja penalizado duramente nas urnas. O mesmo se pode passar com o caso Montenegro. Não se trata de um problema judicial, mas de um conflito entre interesses privados e deveres públicos, em que o principal agente da crise política é o próprio Primeiro-Ministro, que conduziu a situação para que o governo caísse.

A estratégia de Montenegro está fundada numa convicção: o eleitorado é muito mais tolerante com a direita do que com a esquerda. Essa convicção leva-o à crença razoável de que os eleitores, no dia 18 de Maio, não o penalizarão pelos seus pecados; pelo contrário, reforçarão a sua força política. Aquele que desencadeou o processo, através de uma conduta pouco transparente, será, plausivelmente, o grande beneficiário da obscura situação que gerou. A esquerda corre o risco de sofrer uma ampla derrota nas urnas – não apenas o PCP, o BE e o Livre, mas também o Partido Socialista. Parece enigmático este duplo padrão com que os portugueses avaliam os dois lados do campo político, mesmo quando as políticas de esquerda e de direita são semelhantes.

Trata-se de um problema cultural. Existe uma espécie de ideia subliminar de que verdadeiramente legítimos são apenas os governos de direita. Quando a esquerda governa, isso é sentido como uma concessão temporária do povo; quando a direita governa, fá-lo como se ocupasse o poder naturalmente e por direito próprio. Isto não se passa apenas em Portugal. Uma coisa é a legitimidade constitucional; outra é a legitimidade ao nível do sentimento comum. Muito provavelmente, o problema tem a sua génese na Revolução Francesa. Apesar de vitoriosa, a sensação de ilegitimidade dos seus herdeiros nunca desapareceu. A esquerda é herdeira dessa Revolução, enquanto a direita acaba por se filiar, de algum modo, no regime deposto em 1789. Este é o pano de fundo onde se inscreve, ao nível popular, a maior tolerância para com a imoralidade da direita do que com a da esquerda, como se existisse uma mal disfarçada nostalgia do antigo absolutismo real e uma crença popular obscura de que qualquer governo de esquerda é ilegítimo.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Simulacros e simulações (72)

Júlio Pomar, Campinos, 1963

Simulam o vento a varrer a campina, simulam o trovão a ecoar na montanha, simulam os anjos em viagem de salvação. Também de si são simulacro, os campinos. Não lhes pertence nem a montada, nem as vestes, nem a vontade, nem a vida. Da sua realidade, nem a aparência lhes pertence.