PRIMEIRO SALAZAR. Foi um ditador cinzento e
manhoso. Tinha a virtude de odiar políticos histriónicos e espalhafatosos. Esse
ódio virtuoso, porém, era acompanhado por outros ódios nada virtuosos. Odiava,
antes de tudo, a liberdade. O país que geria com mão de ferro era uma prisão a
céu aberto, pois, para além das prisões políticas, não havia lugar que não
estivesse sob vigilância, notícia, livro, peça de teatro ou filme que não fosse
objecto de censura. Odiava que os portugueses se instruíssem, pois instrução
era coisa apenas para alguns, os de bem. Os outros tinham a miséria dos campos,
a pobreza das fábricas, a mediocridade do dia-a-dia como destino. Odiava a
realidade e arrastou Portugal para 13 anos de guerras coloniais, num mundo onde
a colonização tinha perdido sentido, de tal modo que nem o Vaticano aceitou a
política colonial do beato Oliveira Salazar.
SEGUNDO SALAZAR. Um salazarito histriónico e
espalhafatoso, sempre pronto para berrar. Manhosinho, cinzentão e provocador. O
primeiro Salazar, que não admirava histriões, não o aceitaria nem para
porteiro. Julga que Deus o enviou, mas é claro, para qualquer observador
atento, que aqueles modos, as coisas que diz, os cartazes com que conspurca a
imagem de Portugal, os berros e esgares com que ele e os seus inundam o
parlamento e as televisões, tudo isso é obra do tinhoso, talvez de um belzebu da
classe baixa que anda à procura de promoção nas hostes infernais e esteja
empenhado na perdição dos portugueses. E como todos sabemos, quando alguém, por
influência do tinhoso ou de um seu agente, se perde, vai acabar no
inferno.
TERCEIRO SALAZAR. O mais importante dos três. É,
segundo o dicionário da Porto Editora, um utensílio de cozinha que consiste
numa espátula de borracha presa a um cabo de madeira ou plástico, usado para
rapar tachos ou tigelas. Este salazar é o símbolo dos outros. Quando um Salazar,
ou mesmo um salazarito, toma conta dos tachos e das tigelas, o que fica para os
portugueses, para a maioria, é rapar
tachos e tijelas, como se o seu destino fosse o de permanecer à porta da
cozinha, à espera dos tachos vazios e das tijelas lambidas, para rapar os
restos lá deixados pelos portugueses de bem, sempre disponíveis para trazer a
pátria na boca e o conteúdo dos tachos no bolso. Será este salazar que os
portugueses terão direito, se um dia decidirem eleger um qualquer salazarito
histriónico e sem maneiras, possuído por um belzebu à procura de promoção por
arrastar os portugueses para o inferno.
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