quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Descrições fenomenológicas 1. A praça

Zao Wou-Ki - 1-3-60

Uma perna fixa no chão, outra erguida e, num impulso, as pernas trocam de posição e o rapaz afasta-se a correr, no seu fato de domingo, calções curtos, meias até ao joelhos, sapatos flexíveis, boné de adolescente. Afasta-se da multidão que chega. Homens e mulheres juntam-se ali, em pequenos grupos que se fazem e desfazem ao sabor das conversas. Pisam a gravilha, que se ouve ranger sob o peso dos corpos, a impaciência dos gestos, o cansaço de domingo. Da praça, abre-se para norte, uma rua de casas negras, de vidraças obscuras, toldadas pelo luto. Anunciam solidões sem fim. Nas janelas entreabertas não se vê vivalma, apenas cortinados levemente entreabertos, de onde ninguém espreitará. A casa é o lugar da solidão. E de lá fogem todos os que desaguam no rossio, onde a conversa parece não ter fim. Não se vê uma árvore. Um pouco acima, as chaminés vomitam o fumo sombrio que se desprende das entranhas das grandes fábricas. Nuvens caprichosas formam-se sobre a cidade, negras, tocadas pelo vento, máscaras com que o céu azul se oculta. Rodopiam e, lentamente, descem sobre os ombros de quem ali conversa, são como um véu de morte nos braços da manhã.