segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Pedro Almodóvar, Julieta


O último filme de Pedro Almodóvar, Julieta, construído a partir de contos de Alice Munro, pode ser visto como um questionário sobre a relação entre mãe e filha. Melhor, sobre a dependência que a maternidade, pelo facto de trazer ao mundo um novo ser, institui na construção da identidade da mulher. A estratégia do cineasta não é a de analisar o concreto de um relacionamento, mas extremar o ponto de observação, colocando o foco no impacto da ausência da filha na vida da mãe. Não a ausência trazida pela morte, mas a de uma radical decisão arbitrária, na qual a filha corta, sem que a mãe perceba a razão, todos laços.

O filme de Almodóvar acompanha o processo de construção da subjectividade de Julieta. O que está em jogo é a identidade desta. Este processo mostra-se, porém, muito longe do ideal iluminista de uma autonomia absoluta. Ao trazer outro ser ao mundo, não apenas essa autonomia é posta em causa pela responsabilidade, como se instaura uma espécie de processo que remete, através do vínculo biológico e afectivo, a uma tradição. A autonomia do sujeito é drasticamente reduzida pela dependência perante os filhos, neste caso, a filha. Deste ponto de vista, Almodóvar faz um filme de limites. Torna patente a fragilidade de um projecto de construção de si como alguém absolutamente autónomo. A filha de Julieta, na radicalidade da sua pretensa autonomia, manifesta o limite do projecto da modernidade, do ideal iluminista de autonomia do sujeito. 

O grande revelador desta ausência de autonomia é, contudo, a esperança. Depois, de um primeiro período de desespero, após o desaparecimento da filha, Julieta parece reconciliar-se com a vida e, aparentemente, vive a sua vida, como se tivesse conquistado a sua autonomia em relação à filha desaparecida. Bastou, porém, um pequeno sinal para que a esperança voltasse e revelasse uma estranha menoridade da mãe perante a sombra ausente dessa filha. Contrariamente às expectativas da modernidade, onde a esperança é a esperança de uma progressiva autonomia dos indivíduos, o cineasta espanhol mostra-a como aquilo que devolve Julieta à sua menoridade, à dependência da filha ausente. O filme nos dá a ver como o projecto iluminista esbarra na natureza dos homens, nas dependências que a vida da espécie institui e que nenhum decisão da vontade parece ter poder para anular.