sábado, 17 de setembro de 2016

Saraivadas, sexo e sociedade

Bill Jacklin - 42nd Street Interior (1988)

Consta que o arquitecto Saraiva escreveu um livro, que Passos Coelho, sabe-se lá porquê, irá apresentar, com revelações sobre a vida sexual de muitos políticos. Eis um nicho de mercado que faltava explorar, e o antigo director do Expresso e do Sol parece ser homem de iniciativa. Como tinha o produto em armazém decidiu comercializá-lo. Também é isto a sociedade de mercado. Que contribua para degradar a vida comum, que acelere a corrosão dos valores da vida social, isso é irrelevante no clima niilista em que vivemos.

Se os políticos cometeram, por motivos ligados ao sexo, crimes, Saraiva deveria tê-los denunciado à polícia e não escrever um livro. Se eles não cometeram quaisquer crimes, a sua sexualidade - desde a orientação até às infidelidades, passando pelas práticas - deveria ser mantida no recato, mesmo que os visados não a tenham preservado, mesmo que o arquitecto tenha, por motivo da sua profissão de jornalista, servido de confessor ou de psicanalista.

Este tipo de saraivadas, para além de poder contribuir para o aumento do património do autor, só serve para alimentar o que há de mais mórbido na cultura de massas em que vivemos. Espera-se de uma pessoa que exerceu os elevados cargos que Saraiva exerceu na imprensa portuguesa que contribua para a moderação do voyeurismo social. Não se espera - ainda por cima de alguém que se arvora em inimigo dos totalitarismos - que alimente, com a miséria pessoal a que teve acesso (sim, o sexo acaba sempre por estar ligado às nossas pequenas misérias), uma sociedade tornada um big brother contínuo, uma sociedade que se aproxima cada vez mais do panóptico carcerário idealizado por Jeremy Bentham.