quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Sócrates, uma telenovela portuguesa


Quando a telenovela Gabriela, Cravo e Canela se estreou em Portugal, em 1977, os portugueses estavam muito longe de compreender que o género não apenas iria ganhar raízes na televisão como se tornaria o modelo de toda a vida pública. A informação e a política são, há muito, modeladas pelos enredos telenovelescos. Também a justiça se rendeu, talvez desde o caso Casa Pia, à dimensão dos folhetins televisivos. O auge da dimensão telenovelesca é atingido na Operação Marquês, que envolve o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

O efeito disto sobre a opinião pública é extraordinário. Quando a justiça tem por arquétipo a telenovela, deixa de ser importante se os acusados são culpados ou inocentes, se tudo decorre segundo as regras da justiça e os princípios da moral. O que interessa agora à opinião pública é a cena do próximo capítulo, não por que ela nos diga alguma coisa de efectivo sobre o caso em si mesmo, mas porque é necessário alimentar a curiosidade e o desejo de saber o que vai acontecer a seguir, independentemente da virtude e da verdade desse acontecer.

O juiz de instrução dá uma entrevista. Óptimo, que belo capítulo. Sócrates pede o afastamento do juiz, ainda melhor. O procurador pede mais seis meses para continuar a investigação, temos a cereja em cima do bolo. A telenovela ideal é aquela que não acaba, que prende continuamente o espectador com novos acontecimentos e reviravoltas. A telenovela José Sócrates tem todos os ingredientes para se aproximar do ideal da telenovela: um contínuo de episódios sem fim. Não interessa já se Sócrates é culpado ou inocente. Pouco importa se Carlos Alexandre ajuizou bem ou mal. É irrelevante saber se a investigação é bem ou mal conduzida. O importante é que o suspense se mantenha, de preferência enquanto as audiências estiverem em alta e o auditório não se canse.