sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Uma questão de fé

Jan Vermeer - The Allegory of Faith (1671-74)

Pego num livro de Nuno Júdice, O fruto da gramática, e logo no início do segundo poema leio: Desfio um rosário de conjunções / nos dedos da memória. E uma iluminação desce em mim e transporta-me para um longínquo passado, aquele em que – certamente, por inépcia minha – tentava decorar as conjunções recitando-as de enfiada, talvez distinguindo, mas a memória já não recupera esse aspecto, as coordenativas das subordinativas. Descobri, ao ler o poema de Júdice, que aquilo que eu fazia, há bem mais de quarenta anos, era rezar, rezar o rosário das conjunções, ou das preposições, ou dos advérbios. Os dedos da memória de que fala o poeta não são apenas os dedos que nos transportam para essa longínqua experiência. São também os dedos com que eu tentava prender em mim, na precária casa da memória, essas classes de palavras. Julgo que a escola, essa escola que me incitava a desfiar rosários gramaticais, uns atrás dos outros, nunca conseguiu fazer com que eu percebesse para que serviam essas estranhas palavras. Na verdade, para rezar tantos rosários era preciso ter fé, muita fé, e eu, já nesses dias, sofria de uma manifesta falta de fé.