segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A Escola e a nostalgia por Salazar


No Público de 25 de Outubro, havia uma notícia, “Nostalgia por Salazar explica voto no Chega e ressoa mais entre os jovens, diz estudo”, sobre a atracção dos jovens por soluções políticas autoritárias. A investigação de Luca Manucci foi publicada pela Cambridge University Press, com o título O Zeitgeist fascista: legados autoritários e a extrema-direita ibérica. São apresentadas várias explicações para a actual nostalgia autoritária. O problema surge quando o autor passa da avaliação descritiva para a prescrição de um remédio para o problema. O tratamento passaria pela criação de museus e memoriais e “currículos robustos” nas escolas. Diz que “se o passado não for examinado de forma crítica e transmitido de forma responsável às gerações futuras, vai continuar disponível para a mobilização política.” 

Como antigo professor de Ciência Política, tenho uma visão menos idílica do papel da escola na formação política dos alunos. Em vários anos lectivos, a turma de Ciência Política organizou um questionário dirigido a alunos do 9.º ao 12.º anos, sobre a relação dos jovens com a política. Uma das questões versava sobre o local de formação política do aluno. Os resultados tinham sempre duas características. A família é o lugar principal de formação da opinião política. A escola era sempre vista como o lugar menos importante para essa formação, com valores irrisórios. Isto mostra uma coisa: a posição política, por norma, nasce de relações afectivas (a família) e não de uma análise crítico-racional (o curricular escolar). As democracias liberais estão em dificuldades porque não têm já capacidade para tocar a corda afectiva-emocional dos cidadãos, em primeiro lugar dos jovens rapazes, os mais atreitos ao autoritarismo. 

O crescimento da extrema-direita e a nostalgia por Salazar não surgem da análise racional da realidade, mas da criação e propagação de mitos. Os mitos não falam à razão. Dirigem-se, através da imaginação, às emoções, aos estados afectivos, aos sentimentos. Criam imagens de grandeza e de heroicidade que têm ressonância naqueles que não encontram sentido existencial num regime democrático, que vive do cálculo, da razão e da responsabilidade de cada um pelo seu destino. Por robustos que sejam os currículos escolares na explicação racional do que foi a ditadura de Salazar, isso terá um impacto quase nulo na formação das novas gerações. Precisam de mitos para darem sentido emocional a uma existência que parece exigir demasiado de cada um. Se a democracia liberal continuar a não conseguir atear a imaginação e, através dela, as emoções e os afectos das pessoas, então tem um destino pouco promissor à sua frente.

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