No Público de 25 de Outubro, havia uma notícia,
“Nostalgia por Salazar explica voto no Chega e ressoa mais entre os jovens, diz
estudo”, sobre a atracção dos jovens por soluções políticas autoritárias. A
investigação de Luca Manucci foi publicada pela Cambridge University Press, com
o título O Zeitgeist fascista: legados autoritários e a extrema-direita
ibérica. São apresentadas várias explicações para a actual nostalgia
autoritária. O problema surge quando o autor passa da avaliação descritiva para
a prescrição de um remédio para o problema. O tratamento passaria pela criação
de museus e memoriais e “currículos robustos” nas escolas. Diz que “se o
passado não for examinado de forma crítica e transmitido de forma responsável
às gerações futuras, vai continuar disponível para a mobilização política.”
Como antigo professor de Ciência Política, tenho uma visão
menos idílica do papel da escola na formação política dos alunos. Em vários
anos lectivos, a turma de Ciência Política organizou um questionário dirigido a
alunos do 9.º ao 12.º anos, sobre a relação dos jovens com a política. Uma das
questões versava sobre o local de formação política do aluno. Os resultados
tinham sempre duas características. A família é o lugar principal de formação
da opinião política. A escola era sempre vista como o lugar menos importante
para essa formação, com valores irrisórios. Isto mostra uma coisa: a posição
política, por norma, nasce de relações afectivas (a família) e não de uma
análise crítico-racional (o curricular escolar). As democracias liberais estão
em dificuldades porque não têm já capacidade para tocar a corda
afectiva-emocional dos cidadãos, em primeiro lugar dos jovens rapazes, os mais
atreitos ao autoritarismo.
O crescimento da extrema-direita e a nostalgia por Salazar
não surgem da análise racional da realidade, mas da criação e propagação de
mitos. Os mitos não falam à razão. Dirigem-se, através da imaginação, às
emoções, aos estados afectivos, aos sentimentos. Criam imagens de grandeza e de
heroicidade que têm ressonância naqueles que não encontram sentido existencial
num regime democrático, que vive do cálculo, da razão e da responsabilidade de
cada um pelo seu destino. Por robustos que sejam os currículos escolares na
explicação racional do que foi a ditadura de Salazar, isso terá um impacto
quase nulo na formação das novas gerações. Precisam de mitos para darem sentido
emocional a uma existência que parece exigir demasiado de cada um. Se a
democracia liberal continuar a não conseguir atear a imaginação e, através
dela, as emoções e os afectos das pessoas, então tem um destino pouco promissor
à sua frente.
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