quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A batalha das ideias

José Luis Molleda Rodríguez - Ideia

A actual vaga de retrocesso das denominadas conquistas sociais é o resultado de uma clamorosa derrota da esquerda no âmbito da vida política. Este artigo de São José Almeida, no Público, permite perceber uma das causas, talvez a causa mais importante, dessa derrota. Onde a esquerda começou a perder - onde, apesar da situação difícil que a política de direita coloca as pessoas, continua a perder - foi na luta de ideias. Durante muito tempo, a esquerda pensou que tinha o monopólio da inteligência e que era a única fonte produtora de ideias transformadoras do mundo. Este mito cegou-a. Cegou-a de duas maneiras diferentes. Por um lado, não percebeu que, em múltiplas áreas do pensamento, intelectuais de direita, nomeadamente, liberais, elaboravam um pensamento consistente. Por outro, essa arrogância simbólica acabou por encerrar a esquerda num conjunto de esquemas teóricos e doutrinais cada vez mais consevadores e incapazes de responder a dois desafios que a realidade social lhe tinha colocado. Em primeiro lugar, a derrota e o fracasso do comunismo. Em segundo, a ocupação do espaço público pelas ideias provenientes da direita.

O grande problema da resposta à ofensiva neoliberal reside na questão das ideias. Apesar das patifarias da crise do subprime de 2008, apesar da situação desastrosa em que se encontram as pessoas nos países sob intervenção da troika, apesar da experiência mil vezes repetida dos desastres das intervenções do FMI na América Latina, apesar de tudo isso, as pessoas, apesar da revolta que sentem, pouco fazem, mesmo na Grécia, para alterar o rumo dos acontecimentos, pois a esquerda não tem nada para oferecer. Nada significa aqui nada que tenha consistência e que as pessoas sintam confiança para seguir esse caminho. A esquerda deixou de pensar e as concepções do mundo que eram as suas foram derrotadas pela vida. A direita, pelo contrário, fez da fraqueza força, investiu muito no pensamento, construiu modelos teóricos e, depois, como se pode ver pelo artigo referido, tratou, e trata, de os difundir de forma compreensível para a opinião pública. Em cada momento da história, ganha quem ganhar a batalha das ideias. Como dizia um célebre filósofo alemão, quando as ideias mudam a realidade não resiste. Preparar a resposta a tudo o que se está a passar implica, em primeiro, pensar e pensar radicalmente de forma a criar uma configuração de ideias que desaloge e retire legitimidade, perante a opinião pública, àquelas que, neste momento, são triunfantes. A preguiça do pensamento paga-se muito cara.