segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A expectação da Virgem, o Natal e o tempo

N. Senhora do Ó, ou da Expectação. 
Pedra calcária policromada. Portugal, séc. XIV. 
Lisboa, Museu das Janelas Verdes

O culto da Senhora do Ó ou da Expectação, em Portugal, teve início, ainda no reinado de Afonso Henriques, em Torres Novas, na antiga igreja de Santa Maria do Castelo. Foi uma importação de Castela. Mas não é a questão histórica que me interessa no dia de hoje, dia em que a expectação da Virgem terá fim com o nascimento do Menino. Gostava de fazer uma leitura desta peça, que faz parte do espólio do Museu das Janelas Verdes. A leitura não será, porém, de índole artística ou mesmo religiosa, num sentido restrito do termo. Volto a um dos meus temas preferidos, o tempo. As espantosas figurações da Virgem grávida facilmente se reconduzem a uma meditação sobre o tempo. A Virgem figura o tempo presente e, de certa forma, o tempo que passou. O facto de ela estar ali e de a sua face estar manifesta a quem a olha são formas de presença. Nessa presença está configurada a dimensão temporal do presente e, sugerida por essa presença, a dimensão temporal do passado, toda ela condensada na figura que se apresenta e, dessa forma, se torna presente. 

A exposição sem ambiguidades da gravidez traz a dimensão, ainda oculta, do futuro. O que nos ensina esta imagem sobre o futuro. Ensina múltiplas coisas. Em primeiro lugar, ensina que o futuro está já presente no próprio presente como expectativa (um tema pensado por Santo Agostinho na sua célebre meditação sobre o tempo) simbolizada na gravidez. Está presente de duas formas. Por um lado, como um processo que está em formação no interior do próprio presente, um processo em que o novo tempo se prepara para ganhar a sua autonomia ao manifestar-se no nascimento. O Natal é o momento simbólico em que o futuro se torna presente, se configura. Esta é a dimensão objectiva da presença do futuro já no próprio presente. Há, ainda, uma segunda forma, de natureza subjectiva, que se simboliza na expectativa da própria Virgem. Há o processo autónomo de formação do presente, mas também a presença da subjectividade humana na configuração tanto desse futuro como da sua recepção e percepção. No tempo, na sua formação, confluem processos objectivos e independentes do homem e processos subjectivos derivados do próprio homem e das suas estruturas psicológicas.

Independentemente de outras interpretações simbólicas, é importante ler as mãos da Virgem. Os gestos são indicadores de uma ética relativamente ao tempo. A mão direita pousada sobre o ventre protege aquilo que está em formação. Indica que o futuro deve ser cuidado e protegido pelo presente. Indica que os homens têm por dever moral proteger a novidade que o futuro é e que o futuro traz. O futuro tem, como se viu, uma dimensão objectiva e independente do homem, mas tem também uma dimensão subjectiva. Esta surge, a partir da imagem da Senhora do Ó, como uma injunção ética de protecção desse futuro. O gesto da mão esquerda, por seu turno, pode suscitar múltiplas interpretações, umas mais esotéricas em torno do número quatro - os quatro dedos erguidos pela Virgem - outras mais profanas, como um gesto de saudação. Podemos ler, contudo, na mão esquerda levantada ainda um sinal ético, o sinal da prudência, o sinal de que não se devem acelerar os tempos, que cada tempo tem a sua hora, que essa hora deve ser respeitada, isto é, vivida na sua plenitude sem querer antecipar o que há-de vir.

O mais interessante é compreender a sacralização do próprio tempo. Jesus Cristo não simboliza apenas o carácter divino do homem, o qual já estava simbolizado na figura de Adão. O Menino que nascerá à meia-noite simboliza também a natureza sagrada do futuro e, por extensão, do próprio tempo. Na expectação da Virgem compreendemos o futuro como tendo um carácter sagrado. Esta carga simbólica presente na temporalidade, neste caso no futuro, explica por que muitos movimentos sociais e políticos dos séculos XIX e XX falavam com esperança no futuro e nos amanhãs que cantam. Todos esses movimentos redentores da condição humana, com o marxismo à cabeça, só são compreensíveis a partir do cristianismo e do conjunto de símbolos que ele oferece. O grande problema, porém, reside na leitura que se faz do sagrado. A contínua racionalização a que o cristianismo foi sujeito fez-nos ter uma leitura empobrecida desse mesmo sagrado, por vezes reduzido a uma espécie de terapia psicossocial de telenovela. Ora a experiência do sagrado é ao mesmo tempo a da misericórdia e a daquilo que há de mais terrível, de tal maneira que nenhum homem poderá ver a face de Deus sem morrer. O futuro é sagrado, como se compreende pela figuração da Senhora do Ó, mas isso não quer dizer que ele seja uma coisa agradável. Pode ser o que há de mais terrível ou pode ser o seu contrário. Que este seja um bom Natal.