sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Livro do Êxodo - 23. O zunir das varejeiras

Piet Mondrian - De boerderij Weltevreden bij Duivendrecht (1905)

Se os dias aqueciam, e se aqueciam, fechavam-se as portadas, depois de correr as cortinas, e o vidro reflectia o sol, inundando de raios o pequeno quintal, tão pequena nesta memória desmedida, onde as varejeiras zuniam sem descanso. Por vezes, sombras havia na cal que infestava de branco as tensas paredes, agitavam-se, as terríveis sombras, como pássaros ao luar e recolhiam-se casa adentro. Outras ficavam por ali a anoitecer, girando lentamente, uma lentidão premeditada como um grande crime, enquanto o vento soprava da serra e tingia o calor com nódoas de frescura vindas sabe-se lá de onde.

Na estrada, passavam gigantes empoleirados em cavalos, agora bicicletas de grossos aros, imitavam heróis de corridas, e assim se levantavam do selim, pés presos aos pedais, músculos retesados sob calças apanhadas por mola de madeira, e atacavam o leve declive, antes de desaparecerem, a curva os escondia, como se uma multidão os esperasse e uma meta lhes desse com o fim da cavalgada uma grande glória. O cavaleiro, em suor desfeito, podia então, em fonte de pedra, lavar a cara, matar a sede e olhar o vazio, que a tudo rodeava. Não haveria banquete, nem coroa de louros, nem glória rutilante, tão pouco um Píndaro o cantaria, como aquele o fez a Hierão ou a Crómios, ambos de Siracusa, quando ganharam, em imortais sprints, as corridas, nos jogos, os deuses aos homens os impunham.

Quando agora as janelas se abrem, se as abrem, vê-se, ao olhar para fora, a erva rala em terreno aberto, um resto de trigo, vento e sol o batem, maçãs e laranjas ao abandono, pelo chão, o cansaço as tomara por dentro e a férrea vontade, que às árvores as ligavam, decaída, um sentimento de ausência as acometeu e afrouxou do pedúnculo a firmeza e, com surdo bater, um baque dir-se-ia, o chão as recebeu, entre ervas, pedaços de lama, gravetos caídos e já secos pela inclemência da luz. Neste abandono, noutros tempos, havia mãos que cuidavam de apanhar os frutos ainda não tocados e uma voz dizia: e do sobejo comam os animais do campo. Uma pequena procissão por ali vinha com andores, anjos saltitando, e um gato amarelo, daqueles que havia nas padarias, fugia de um inimigo imaginado e entrava, por um buraco, para uma casa de tijolo vacilante, branqueado pela cal, onde se guardavam utensílios de lavoura, restos de coisas que a vida trazia, chapéus de chuva, as varetas partidas, sacos de plástico, um monte de jornais velhos, a carcaça de algum brinquedo, as mãos criminosas, impuras de tanta inocência, de uma criança o desfizera.

Se os dias aquecem, fecham-se as portadas depois de correr as cortinas e o vidro reflecte o sol. As sombras, tão secretas na claridade da memória, partiram e o meio-dia é sempre tão escuro que os cavaleiros, exaustos de tanta cavalgada, deixaram as bicicletas em casa, passam velozes em carros de combate e os céus enchem-se do chiar dos pneus e do trovão dos klaxons. Aos caídos frutos ninguém apanha, nem procissões de animais vêm, no fulgor da tarde, roer os sobejos que a terra ainda dá. O gato amarelo, daqueles que havia nas padarias, morreu, e a última vendedeira de pão fechou a porta, onde já ninguém passava a pé ou a cavalo duma bicicleta. Ao longe, aqui tão perto, quase dentro de mim, apenas as varejeiras zunem.