As próximas eleições presidenciais vão medir o grau de
ressentimento político dos portugueses. Em teoria, há quatro candidatos que
podem aspirar a passar à segunda volta. Para usar uma classificação de um
amigo, temos duas rainhas de Inglaterra (Marques Mendes e António José Seguro)
e dois caudilhos (Gouveia e Melo e André Ventura). A métrica seria a seguinte:
Se passarem à segunda volta as duas rainhas de Inglaterra, o ressentimento político
dos portugueses, apesar de existir, ainda não atingiu níveis preocupantes. Caso
passem uma rainha de Inglaterra e um caudilho, o ressentimento social terá
atingido níveis preocupantes, mas não catastróficos. Porém, se passarem à
segunda volta os dois caudilhos, o ressentimento político dos portugueses
atingiu o nível da catástrofe para as instituições e a democracia liberal.
As rainhas de Inglaterra pretendem o normal funcionamento
das instituições, um jogo político dentro das regras habituais. Tenderão a
evitar convulsões políticas e estarão interessadas em baixar o grau de crispação
política existente. Para estes objectivos, a melhor rainha seria António José
Seguro, mais sensato, menos dado a explosões e menos marcado partidariamente,
embora Marques Mendes também será uma rainha dentro do espírito constitucional.
Seja como for, nenhum deles quererá destruir o regime, nem fazer de Belém o
centro da governação. E isso, para quem quer viver num país pacificado e em
liberdade, é uma excelente notícia.
Os caudilhos não representam qualquer segurança
relativamente ao normal funcionamento das instituições. André Ventura não morre
de amores pelo regime democrático-liberal. A sua finalidade – intitulada Quarta
República – é estilhaçar as instituições (veja-se o comportamento do seu partido
na Assembleia da República) e tentar transformar o país num presidencialismo
iliberal, ainda que de fachada democrática. A Presidência é um óptimo lugar
para a guerrilha destruidora das instituições. Quanto a Gouveia e Melo – um
Sidónio do século XXI? – o problema é o seguinte: o que pretende um homem de
acção ao candidatar-se a um cargo que permite pouca acção? Não será apenas um
exercício de vaidade, mas também um sonho de um chefe militar de pôr na ordem a
política e os políticos. Coisa que, como se sabe, nunca dá bons resultados. Os
dois caudilhos têm ambos potencialidades para desestabilizar o regime
democrático e desestruturar as instituições.
A saúde das nossas instituições políticas depende, nos dias
que correm, do grau de ressentimento político dos portugueses: vão escolher
entre a vida normal sob a égide de uma rainha de Inglaterra ou o conflito sob o
comando de um caudilho.
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