domingo, 16 de dezembro de 2012

Exercícios da memória

Julia Hidalgo Quejo - Memória (1999)

Ontem dei uma volta pelos alfarrabistas que, aos sábados, têm banca montada ali para os lados do Chiado, mais precisamente na Rua Anchieta, em cuja esquina com a Rua Garrett fica a velha Bertrand. Comprei alguns livros a cinco euros. Dois deles remetem, de imediato, para um estranho exercício de memória. O primeiro é o Sémiotique - dictionnaire raisonné de la théorie du langage, de Greimas e Courtés. O livro vem assinado por uma antiga proprietária, que o comprou em 1979, ano em que foi publicado. Fiquei a saber, ao examinar o livro, que foi comprado na FNAC - presumo que a de Paris - e que custou 72 francos. Encontrei ainda um ficha de leitura que reenviava para o conceito de lexema em Greimas, bem como dois marcadores de livros, simples papel pautado de boa qualidade cortado com esmero, onde num estava escrito "20" e noutro "1. Introdução -> as propriedades comuns a todos os textos [mudava de linhe e:] -> as características decorrentes da utlização". Folheio o dicionário e tento imaginar a mulher cujo nome está inscrito numa das primeiras páginas. Perante a incapacidade de lhe dar um rosto, interrogo-me o que a terá levado a vender o livro. Será ainda viva? Continuará a interessar-se por questões semióticas ou foi um interesse passageiro? O comércio tem destas coisas, cruza pessoas que nunca se encontraram. O que me levou, porém, a comprar o livro foi outra coisa. Quando entrei na universidade, na altura em em que o livro foi publicado, Greimas era um autor em expansão, digamos assim, num certo universo intelectual. Não na minha área, a filosofia, mas na dos estudos da linguagem. Sempre tive um interesse paralelo por essas questões e a memória levou-me a comprar o livro.

O outro livro é o romance Os desertores de Augusto Abelaira. O livro foi publicado pela primeira vez em 1960, mas a edição que comprei, a quarta, é de 1978. Abelaira morreu em 2003 e é, hoje em dia, quase dez anos passados, um autor praticamente desconhecido. Mas nos anos setenta e oitenta do século passado era autor considerado e com audiência considerável. Só li um romance dele, Bolor. Mas há dias, o seu nome, entre outros ilustres esquecidos, veio à minha memória e decidira ler algumas coisas dele para tentar perceber, um pouco melhor, o país que é o meu visto pelos olhos daqueles que, nas décadas passadas, escreveram nele e sobre ele. Mas não foi essa decisão que me motivou na compra da obra, mas a memória cruel, neste caso. Como é possível que alguém com certo peso no mundo da cultura portuguesa seja, passados menos de dez anos da sua morte, um desconhecido? Residirá esse destino na própria obra ou será apenas um efeito que o mercado tece, destruindo a memória dos homens para que novos produtos sejam consumidos? Se foi um efeito do mercado, então este talvez tenha um défice de percepção da realidade. Também a memória é ávida, também ela é desejante, também ela é um buraco a preencher. Isto significará que aqueles que pretendem servir o mercado estão pouco atentos a uma das suas dimensões mais importantes, aquela que assenta no fascínio que o passado exerce na generalidade dos homens. A transformação da literatura em mercadoria não tornou, contudo, os mercadores mais inteligentes. A partir de certa altura compramos coisas porque a memória nos convoca ou intima a fazê-lo.