quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O triunfo da bastardia

Emil Hansen - Old King

Eis uma notícia reconfortante (aqui e aqui) para quem não partilha do embevecimento por cabeças coroadas e pelo direito que certas famílias possuem ao trono, devido ao seu pedigree, isto é, à pureza imaculada da árvore genealógica ou, pelo menos, à pureza do seu ramo viril. A análise do ADN veio revelar que entre os monarcas ingleses Eduardo III e o seu tetraneto Ricardo III houve, num qualquer momento, um espermatozóide espúrio que se introduziu à socapa no óvulo de uma rainha e por lá ficou a desenvolver-se até que um pequeno bastardo viu a luz do dia e se preparou, baseado no sangue real do presuntivo pai, para assumir a herança. Cogita-se que este pequeno acidente de percurso, tão corrente na vida dos homens, pode (portanto, é uma impossibilidade) pôr em causa as dinastias dos Tudor, dos Stuart e dos Windsor, isto é, pôr em causa a legitimidade com que assumiram e, no caso dos últimos, assumem o trono. Eu, um pobre republicano, estou maravilhado com os poderes da genética, não tanto porque ela se pode tornar uma terrível arma na caça às infidelidades, mas porque confirma aquilo que sempre se suspeitou, a impossibilidade de manter, por longas cadeias geracionais, um pedigree irrepreensível e à prova de qualquer suspeita. Não menos interessante é pensar que, segundo os códigos dos próprios defensores da monarquia, a generalidade destas careceu de efectiva legitimidade, apenas porque um espermatozóide secreto, ansioso e lânguido entrou por e para onde não devia.