sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Os liberais portugueses



Depois do predomínio da esquerda nos meios intelectuais, assiste-se hoje em dia a uma maré cheia de intelectuais de direita que, desde a universidade aos blogues, passando pelos jornais e televisão, tomaram conta do espaço público. Apresentam-se como liberais, muitas referências à Inglaterra e aos EUA (republicano e Tea Party, de preferência), citam Hayek, Friedman, von Mises, fazem do combate ao socialismo, que descobrem nos sítios mais inesperados, um modo de vida e um programa político delirante. Fundamentalmente, odeiam França e tudo o que vem de Paris.

O espantoso nisto é que estes liberais são espécie que nasceu de geração espontânea. Não há memória de haver tradição liberal portuguesa e durante a ditadura de Salazar não se lhes conheceu qualquer manifestação ou preocupação com a liberdade, o núcleo do pensamento liberal. Se lermos os seus textos, depressa descobrimos que o liberalismo que defendem é sui generis. Defendem o liberalismo para evitar a concorrência. A liberdade, para eles, só tem valor quando não os obriga a concorrer com os outros e lhes assegura vantagens e privilégios sociais. As suas declarações de amor à liberdade não assentam numa cultura do mérito, mas na defesa, sub-reptícia, de uma competição social truncada e falsificada, onde eles têm todas as vantagens.

Amam a Inglaterra não porque esta seja democrática, mas porque julgam que, se fossem ingleses, teriam lugar cativo na câmara dos Lordes. Nos textos que escrevem, os mais ricos – isto é, os mais fortes e mais poderosos – têm sempre razão, o resto não passa de escumalha cujo desígnio é servir os fortes e, por extensão e graça, também a eles.

Estão sempre prontos a denunciar as ditaduras de esquerda, o colapso do socialismo real e mesmo do socialismo imaginário e, se formos leitores descuidados, imaginamo-los os campeões da luta pela liberdade. Estes intrépidos cavaleiros sempre prontos a defender a liberdade dos mercados e a sua presciência, inimigos ferozes da regulação da actividade bancária e financeira, que todos sabemos o que ela significa nos tempos que correm, têm um coração frágil e sentimental. Não pense o leitor que se comovem com as desgraças dos pobres. Não, eles amam a competição e os pobres perderam. O que os comove até à exaltação é o Dr. Salazar. Nos seus corações liberais, há um cantinho doce e suave para o homem de Santa Comba. Reescrevem a história, negam os factos e adormecem enlevados na esperança de que o homem, um feroz iliberal, reencarne para os proteger. São assim os nossos liberais.