terça-feira, 17 de junho de 2014

Futebol e política

Henri Rousseau - Jogadores de futebol (1908)

Há uma tentação, em certos sectores, para ver o futebol como uma forma de alienação da realidade. Uma notícia como esta (a selecção belga é uma das poucas coisas que une flamengos e valões) torna de imediato manifesto o papel político central que o desporto de alta competição – nomeadamente, o futebol – possui. Por norma, diz-se que o futebol é um factor de estranhamento (alienação) dos sujeitos perante a realidade. Contudo, podemos ver o futebol como um meio de construção de identidades e de geração de consensos que nos permitem viver em comum. O futebol, em grande parte do mundo, é um poderoso meio de construção da própria realidade social. Vale a pena olhar para duas razões que justificam essa ideia.

A realidade social e política não é um conjunto amorfo de factos captados empiricamente pelos sujeitos. A factualidade é enquadrada por dimensões simbólicas que se dirigem a áreas do ser que não são a razão pura. Os domínios do sentimento, da memória e da imaginação são importantes factores que intervêm na ordem política e na construção de uma identidade política. Esses domínios são mobilizados pela dimensão simbólica que o futebol arrasta consigo, nomeadamente quando se trata da representação nacional. As cores, as bandeiras, os estados de ânimo provocados pelas derrotas e vitórias são, nos tempos em que os símbolos mais fortes das identidades desapareceram, um importante dispositivo de construção identitária.

Uma segunda razão prende-se com o papel do futebol na produção do consenso social. As nossas sociedades vivem do equilíbrio entre o conflito de interesses e o consenso que nos permite viver uns com os outros, apesar da divergência acerca da repartição dos bens na sociedade. O que significa, do ponto de vista político, este consenso? Significa a transformação da relação de inimizade política (as partes vêem-se como inimigos que há que exterminar) em relações adversariais (as partes têm interesses diferentes, pretendem ganhar, mas precisam umas das outras e não desistem da aniquilação do outro). O futebol tem aqui um papel central, fornecendo à imaginação um ponto de apoio para o consenso (somos todos a favor dos nossos) e uma imagem perceptível dos limites do conflito político (derrotar o outro mas não o suprimir).

Ver o mundial, que agora dá os primeiros passos, não é apenas a manifestação de um gosto pessoal relativo a uma modalidade desportiva. É um acto político fundamental. Não por nos obrigar a tomar uma posição política sobre os conflitos na nossa sociedade, mas porque tem uma função instrutiva sobre como viver em sociedades onde o conflito de interesses se pode manifestar dentro da ordem previamente estabelecida.