segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

As trevas iluministas

Leon Spilliaert - Moonlight and Light (1909)


Se alguma contribuição deu a civilização europeia à civilização universal, ela tem muito a ver com os valores do Iluminismo – a tolerância e o primado da razão. Ora, esses valores que tínhamos como adquiridos deixaram de existir. E há três factores que os contrariam. Em primeiro lugar, os nacionalismos agressivos; em segundo lugar, os fundamentalismos religiosos que não são apenas o fundamentalismo islâmico; e finalmente os conflitos étnicos que não têm justificação nos tempos modernos mas que estamos a ver multiplicar-se de uma forma particularmente agressiva, com o afloramento de formas de racismo e xenofobia, mesmos nas sociedades mais desenvolvidas. (António Guterres, entrevista ao Público)

A entrevista de António Guterres a Teresa de Sousa, no Público, é um excelente documento sobre a perigosa situação internacional em que se vive. Merece ser lida e meditada, apesar das eventuais discordâncias relativas a algumas soluções apontadas. No entanto, o que me interessa é a conexão entre a ideia de decadência relativa da Europa exposta na entrevista e a emergência de três factores que contribuem para a destruição dos valores do Iluminismo (a tolerância e o primado da razão), o principal contributo, segundo António Guterres, da Europa para a civilização universal. Esses factores destrutivos da herança iluminista são o nacionalismo agressivo, o fundamentalismo religioso e os conflitos étnicos. Eu diria, diferentemente de Guterres, que estes factores estão a revelar os limites da herança iluminista, estão a manifestar a carência que habita o iluminismo. Concentremo-nos nos dois valores apontados pelo antigo primeiro-ministro.

A tolerância nasceu da necessidade de pacificar o espaço político dos países europeus, o qual estava a ser dilacerado pelas guerras religiosas resultantes da Reforma protestante. No cerne da tolerância, está a separação das Igrejas do Estado. Este assegura a liberdade de culto e limita a questão religiosa à esfera da subjectividade individual. Na prática, a tolerância começou por ter uma natureza activa mas foi-se transformando num hábito social e tornando-se cada vez mais passiva, até se degradar na mera indiferença, a qual se funda na degradação das convicções. Isto tornou os europeus pouco capazes de lidar com fenómenos como o fundamentalismo religioso, onde superabunda a convicção e a força social que ela traz. A tolerância é um valor positivo, mas limitado, podendo mesmo, em circunstâncias extremas, ser o lugar onde se podem abrir brechas pelas qual entrarão os fenómenos negativos apontados por Guterres.

Também o primado da razão, o valor central do Iluminismo, se revela hoje em dia na sua fragilidade constitutiva. Este primado da razão representou, em primeiro lugar, uma autonomia da razão perante a fé religiosa e, depois, uma ruptura completa entre razão e fé, entre razão e mito, entre entendimento e imaginação. A autonomia teve uma dimensão teórica - a autonomia da ciência - e uma dimensão prática - uma moral e uma política fundadas na mera razão. Esta autonomia original acabou por se degradar numa concepção instrumental e calculadora da razão. A razão que se libertara do mito, da imaginação e da religião tornou-se, com o desenvolvimento da modernidade, numa razão ao serviço dos imperativos económicos e dos interesses particulares dos grupos sociais em confronto. É esta razão instrumental, calculadora e interesseira que se mostra, nos dias de hoje, impotente para lidar com fenómenos como o nacionalismo, o fundamentalismo e o racismo.

A actual crise ocidental nasce dos próprios limites do projecto da modernidade e dos valores do Iluminismo. Nasce do corte entre tolerância e convicção, entre razão e fé. A razão, ao cortar com a dimensão religiosa, cortou as amarras ao domínio da imaginação e do mito. Ora imaginação e mito eram os alicerces que sustentavam a racionalidade ocidental desde a emergência da filosofia na Grécia, como muito bem compreendeu Platão. Quando a racionalidade se separa daquilo que a fundamenta e lhe dá alimento, ela torna-se débil e uma presa dócil e ingénua do irracionalismo. O que estamos a descobrir é que a luz do Iluminismo é, pela natureza das opções que estiveram na sua origem, escura. Podemos falar mesmo em trevas iluministas. Não só o Iluminismo torna obscuras dimensões fundamentais da natureza humana como lança as trevas no mundo, fomentando, ao contrário do que parece pensar António Guterres, nacionalismos, fundamentalismos e racismos.