segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A eleição de Centeno

Alfonso Parra Domínguez - Realidad dialéctica (1977-78)

Nota-se, em certos sectores da direita, mais activos nas redes sociais, um certo ressentimento com a eleição de Mário Centeno. Esse ressentimento manifesta-se, por vezes, de forma enviesada. Anunciam que o BE e o PCP tiveram de engolir mais um grande sapo. Contudo, isto não passa de um equívoco. Quando esses partidos estabeleceram os acordos de governo com o PS, imaginavam que este se tinha transformado num partido revolucionário anti-europeu, um partido que estaria disposto a emular os primeiros tempos do Syriza na Grécia? É evidente que tanto PCP e BE sabiam bem, muito bem, que tipo de partido era o PS. Sabiam também que este, no governo, não desafiaria o essencial da ortodoxia que rege o euro. BE e PCP não foram ao engano. Só para a direita foi uma surpresa o caminho que o país seguiu com a actual solução política.

Dirá essa mesma direita, desesperada por BE e PCP não derrubarem o governo para que ela volte ao poder, que isso contraria aquilo que ambos os partidos defendem. Talvez. No entanto, desconfio que tanto os eleitores do BE como os do PCP estão muito longe de quererem um novo resgate ou uma aventura que conduza ao enfrentamento com a União Europeia e à saída do Euro. Mesmo para comunistas e bloquistas a saída do Euro poderia ser devastadora para os seus partidos e, portanto, não estão dispostos a criar um problema em que se corre o risco de todos perderem, talvez eles mais que todos os outros. Também BE e PCP sabem, e o PCP sabe-o há muito, que a política é a arte do possível e percebem que há que conformar os princípios aos interesses dos seus eleitorados. Coisa que todos fazem. A realidade é o que é.