sábado, 13 de julho de 2013

Meditações dialécticas (14) O papel do negativo

Gerhard Richte - Abstraktes Bild (1994)

O atributo da "abertura", antes um produto precioso, ainda que frágil, da corajosa mas estafante auto-afirmação, é associado, hoje, principalmente a um destino irresistível -, aos efeitos não-planejados e imprevistos da "globalização negativa" -, ou seja, uma globalização seletiva do comércio e do capital, da vigilância e da informação, da violência e das armas, do crime e do terrorismo; todos unânimes em seu desdém pelo princípio da soberania territorial e em sua falta de respeito a qualquer fronteira entre Estados. Uma sociedade "aberta" é uma sociedade exposta aos golpes do "destino". (Zygmunt Bauman, Tempos Líquidos(2007), p. 13)

Por uma vez sejamos hegelianos. Observemos o papel do negativo dado no conceito de globalização negativa. Os agentes da negação são enumerados por Bauman: comércio, capital, vigilância, informação, violências, as armas, crime e o terrorismo. Estes agentes não devem ser pensados como negativos apenas porque destroem um modo de vida que, para muitos de nós, era tido como bom e aprazível, porque desfazem uma vida agora sentida como «exposta aos golpes do "destino"». São negativos porque representam a insatisfação do espírito do mundo com o existente e a necessidade sentida de se libertar do mundo construído, das instituições erigidas e já anquilosadas, do ethos particular em que se tem vivido. Este negativo dirige-se contra aquilo que se poderia chamar as universalidades particulares - a mais importante de todas, o Estado-Nação -, contra o seu carácter limitado e, por isso, injusto, contra o conceito de fronteira.

O desafio mais difícil que esta negatividade nos coloca não se prende à compreensão da natureza sórdida da coligação que une o livre-comércio, a circulação de capitais, a vigilância global - vejam-se as denúncias de Edward Snowden -, o crime organizado e o terrorismo, mas ao poder de sedução do passado, à tentação da nostalgia perante um mundo que está moribundo, à tentação de fingirmos que é possível conservar o que está dado, como se ele fosse eterno e não o produto de uma fabricação que, no seu próprio tempo, foi destruidora. A maior das ilusões, às quais o espírito particular dos sujeitos tende a ceder, reside na sedução exercida por uma memória sublimada do que passou. Esta ilusão é, obviamente, o resultado de um mecanismo de defesa perante o sofrimento que a negatividade traz consigo e faz cair sobre o destino dos indivíduos, ao desarticular-lhes o modo de vida onde nasceram e para o qual foram educados.

A desordem mundial em que vivemos - da qual a nossa presente e paroquial desordem política é um mero reflexo - é uma manifestação dessa negatividade do espírito do mundo - para falar à maneira de Hegel -, de um espírito que já não se sente chez soi nas actuais instituições e que parece apostado em fazê-las cair uma a uma. Perante tudo isto, existem várias posições possíveis. A da consciência nostálgica que sonha isolar-se numa utopia conservadora, de carácter narcisista. A da consciência apocalíptica que antevê na acção da negatividade actual o processo de produção do fim do mundo. A da consciência católica (no sentido grego de universalidade e não de uma religião específica) que suspeita na situação actual o caminho de libertação de particularismos e o começo de edificação de novas instituições, agora de natureza universal, onde o espírito poderá, por um momento, repousar como estando em sua própria casa. Esta consciência católica é a mais difícil pois assenta na crença na positividade do negativo, na crença que se funda na suspeita, para a confirmação da qual não abundam provas, que assistimos, mais uma vez e apesar de tudo, a um processo de libertação. Talvez a pergunta primeira que sejamos obrigados a fazer seja: estamos a libertar-nos de quê?