domingo, 28 de julho de 2013

Meditações dialécticas (15) Pretérito perfeito

Paul Signac - Boulevard de Clichy (1886)

Quantas vezes olhamos para um quadro antigo e surpreendemos nele uma perfeição inultrapassável? Não é uma questão técnica, pois não é isso que prende, de imediato, a atenção. Trata-se da perfeição do modo de vida que ali vemos representado. Seria, contudo, desavisado pensar que esse sentimento de perfeição nasce de uma nostalgia por algo que se viveu ou que, na impossibilidade temporal de o ter vivido, se desejaria viver. Essa perfeição deriva antes daquilo que, do ponto de vista gramatical, designamos como pretérito perfeito. É o sentimento de algo que está concluído, de um modo de vida que encontrou o seu fim e se perfez, de um mundo que se fechou e, nessa sua oclusão, encontrou todo o seu sentido. A perfeição inultrapassável é então sintoma de um estranhamento. Aquele mundo não é já o nosso e ganhou a perfeição das coisas imutáveis. Todo o pretérito perfeito anuncia a imperfeição do nosso presente inconcluído e inconclusivo.