sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O apartheid português

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Estou obsoleto, definitivamente. Não bastando isso, sou professor do ensino público. Um mal nunca vem só. Na minha juventude, numa espécie de pós-adolescência, julgava que era marxista e acreditava que as classes sociais eram inconciliáveis, o que transformava a luta de classes no motor da história. Ainda jovem, deixei de crer no marxismo e, em vez de advogar a luta de classes, comecei a apreciar a negociação entre interesses diversos que, apesar da sua diferença, se poderiam ir conciliando, para benefício de todos. Isto é, tornei-me um moderado reformista. Dentro do meu reformismo havia uma coisa chamada escola pública, à qual devotei a minha vida.

Para mim, a instrução nunca foi uma mercadoria nem a escola um negócio. Tinha um papel que eu, na minha atávica estupidez, julgava essencial. Era um lugar onde crianças e jovens de todas as classes, diferentes pela origem e pelo status dos pais, eram iguais perante o professor. Esta igualdade não serviria para promover um igualitarismo, mas para desenvolver laços de amizade cívica entre todos. Para que, quando um rico e um pobre, no futuro, se olhassem, em vez de ódio e desprezo, existisse uma recordação dos tempos de escola e de vida partilhada. Isso fomentaria o respeito cívico entre pessoas socialmente desiguais. A escola pública é a única instituição onde é possível fazer isso, construir uma comunidade política fundada no respeito mútuo.


Este meu ideal republicano, que se desenvolveu em Portugal com a democracia, nunca foi aceite pelas classes altas e pelas elites políticas de direita. Muitas vezes, como acontece hoje em dia, o Ministério da Educação da República tem à sua frente pessoas que odeiam a escola pública, a escola republicana, e querem um país onde exista um rigoroso apartheid entre ricos e pobres. O novo estatuto do ensino particular e cooperativo, para além de reforçar a ideia da educação como negócio, é mais um passo para reconstruir, pois ele já existiu, esse apartheid. Somos governados, de facto, por gente que acredita na luta de classes, por gente que não gosta de conciliações, gente que acha que, em vez de amizade cívica entre pessoas diferentes, se deve fomentar a separação, a segregação social, o conflito e a submissão dos mais fracos. Com isto, virá a inveja, o ressentimento e o ódio, de um dos lados. Do outro, o desprezo, a manifestação de superioridade e o sentimento de casta, à qual se deve tudo. Portugal, quase sem se dar por isso, desliza, enquanto comunidade cívica, para a implosão. Não sei se 900 anos de história serão suficientes para o evitar.