quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O prazer e a transparência

René Magritte - O princípio de prazer (1937)

A sociedade da transparência é inimiga do prazer. Na economia do prazer humano, o agrado e a transparência não se encontram unidos. A economia libidinal é estranha à transparência. Precisamente, a negatividade do segredo, do véu e do encobrimento espicaça o apetite e intensifica o prazer. Assim o sedutor joga com máscaras, ilusões e formas aparentes. A coacção da transparência elimina espaços de jogo do prazer. A evidência não admite sedução, mas somente um procedimento. O sedutor toma por caminhos que são tortuosos, ramificados e enredados. (Byung-Chul Han, A Sociedade da Transparência, p. 29)

O aparecimento da figura literária de D. Juan parece datar da primeira metade do século XVII. Se aceitarmos a tese, aliás bastante plausível, de que a transparência e a sociedade da transparência são inimigas do prazer, a emergência da figura de D. Juan no início da modernidade, sendo contemporânea da aventura filosófica de Descartes e da sua exigência de evidência (a transparência no conhecimento), pode ser lida como uma profecia e, ao mesmo tempo, uma nostalgia.

D. Juan, esse tortuoso sedutor que escolhe caminhos enredados e ramificados, é o sintoma da transição de uma sociedade fundada no segredo e na opacidade - a antiga sociedade medieval em desconstrução adiantada - para a sociedade da transparência. Vai demorar alguns séculos a chegada de uma sociedade que se funda na reivindicação da transparência absoluta, mas ela dava já, nos inícios do XVII, os seus primeiro passos. E esses primeiros passos podem ser lidos - agora que conhecemos o desenrolar da história - como um ataque sem precedentes ao prazer. O desvelar completo do segredo do outro, essa nudez com que, hoje em dia, os corpos se expõem é ainda uma resposta à exigência de clareza e distinção contida em Descartes. D. Juan é, assim, uma espécie de profeta da queda do princípio de prazer.

Como em toda a profecia, também nesta existe uma nostalgia, a nostalgia de uma ordem anterior, uma ordem imaginada, certamente, na qual a própria realidade se organizava de forma a dispensar a tortuosidade do sedutor, pois ela mesma era tortuosa e, por isso mesmo, fundada no princípio do segredo, desse véu que espicaça o desejo e leva o prazer ao paroxismo. Esta ordem era, por certo, imaginária, mas constituía-se como um ideal regulador da vida. D. Juan simboliza também a nostalgia por uma ordem ideal que estava em processo acelerado de destruição, para dar lugar a outra ordem ideal, a da pura transparência e, concomitantemente, à deserotização completa da vida dos homens.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Perplexidades perante o Cristianismo

Capa do CD In Paradisum do The Hilliard Ensemble

Gosto dos homens do Antigo Testamento: são vingativos e tristes. Foram os únicos que pediram contas a Deus, cada vez que quiseram, e que não deixaram escapar nenhuma ocasião de lhe lembrar que Ele é impiedoso, e que eles não têm mais tempo para esperar. Naquele tempo, os mortais tinham instinto religioso, hoje apenas fé – e por enquanto. O maior defeito do cristianismo foi não ter sabido endurecer as relações do homem ao seu Criador. Excesso de soluções e excesso de intermediários. O drama de Jesus adocicou o sofrimento e retirou todo o direito à virilidade nas questões religiosas. Antigamente, levantava-se os punhos para os céus; hoje, só o olhar. (Cioran, Le Crépuscule des Pensées)

O excerto de Cioran está ligado a uma de duas perplexidades que há muito o Cristianismo, nomeadamente o católico, fez nascer em mim. A primeira perplexidade, o nível rasteiro, pimba e piroso da arte (arquitectura, música, escultura e pintura) que serve a vida da Igreja. A liturgia é de uma pobreza franciscana. Toda a vida religiosa (há excepções, claro) está envolvida em elementos estéticos absurdos. Como é que uma religião que deu origem à catedral gótica, à grande pintura da renascença e posterior, à música de Tomás de Luís de Victoria e de Giovanni Pierlugi da Palestrina, chegou a um tão grande grau de decadência? Perante tal tipo de mau gosto, não admira que Deus se tenha retirado para longe.

A segunda perplexidade, a que se prende com o texto de Cioran: o carácter pouco viril do Cristianismo tal como me foi dado a conhecer. É preciso, porém, ter algum cuidado. Foi este mesmo Cristianismo que se casou com o Império Romano, que ordenou o mundo medieval e que sustentou as Cruzadas. Mas, se compararmos Cristianismo e Islão, nota-se claramente uma diferença, o Cristianismo é essencialmente uma religião de mulheres, apesar destas estarem excluídas do acesso à ordenação sacerdotal, enquanto o Islão é uma religião de homens. O discurso sacerdotal é, no Cristianismo, fundamentalmente afectivo. No Islão, o discurso é racional, muitas vezes, de uma racionalidade política. A Igreja Católica acabou por se tornar num lugar de exclusão dos homens, isto é, do elemento varonil e da racionalidade a ele associada.

Mais do que a cultura profana, foi a própria cultura da Igreja que abriu caminho para a decadência da religião no Ocidente, ao tornar-se um espaço de mau gosto estético e de vivência religiosa emasculada. O triunfo do sentimento conduziu, muitas vezes, ao sentimentalismo mais atroz e repugnante. O sagrado, para além do bom gosto, também precisa de homens, daqueles que, como diz Cioran, levantam os punhos para os céus. (averomundo, 2007/03/09)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

As trevas iluministas

Leon Spilliaert - Moonlight and Light (1909)


Se alguma contribuição deu a civilização europeia à civilização universal, ela tem muito a ver com os valores do Iluminismo – a tolerância e o primado da razão. Ora, esses valores que tínhamos como adquiridos deixaram de existir. E há três factores que os contrariam. Em primeiro lugar, os nacionalismos agressivos; em segundo lugar, os fundamentalismos religiosos que não são apenas o fundamentalismo islâmico; e finalmente os conflitos étnicos que não têm justificação nos tempos modernos mas que estamos a ver multiplicar-se de uma forma particularmente agressiva, com o afloramento de formas de racismo e xenofobia, mesmos nas sociedades mais desenvolvidas. (António Guterres, entrevista ao Público)

A entrevista de António Guterres a Teresa de Sousa, no Público, é um excelente documento sobre a perigosa situação internacional em que se vive. Merece ser lida e meditada, apesar das eventuais discordâncias relativas a algumas soluções apontadas. No entanto, o que me interessa é a conexão entre a ideia de decadência relativa da Europa exposta na entrevista e a emergência de três factores que contribuem para a destruição dos valores do Iluminismo (a tolerância e o primado da razão), o principal contributo, segundo António Guterres, da Europa para a civilização universal. Esses factores destrutivos da herança iluminista são o nacionalismo agressivo, o fundamentalismo religioso e os conflitos étnicos. Eu diria, diferentemente de Guterres, que estes factores estão a revelar os limites da herança iluminista, estão a manifestar a carência que habita o iluminismo. Concentremo-nos nos dois valores apontados pelo antigo primeiro-ministro.

A tolerância nasceu da necessidade de pacificar o espaço político dos países europeus, o qual estava a ser dilacerado pelas guerras religiosas resultantes da Reforma protestante. No cerne da tolerância, está a separação das Igrejas do Estado. Este assegura a liberdade de culto e limita a questão religiosa à esfera da subjectividade individual. Na prática, a tolerância começou por ter uma natureza activa mas foi-se transformando num hábito social e tornando-se cada vez mais passiva, até se degradar na mera indiferença, a qual se funda na degradação das convicções. Isto tornou os europeus pouco capazes de lidar com fenómenos como o fundamentalismo religioso, onde superabunda a convicção e a força social que ela traz. A tolerância é um valor positivo, mas limitado, podendo mesmo, em circunstâncias extremas, ser o lugar onde se podem abrir brechas pelas qual entrarão os fenómenos negativos apontados por Guterres.

Também o primado da razão, o valor central do Iluminismo, se revela hoje em dia na sua fragilidade constitutiva. Este primado da razão representou, em primeiro lugar, uma autonomia da razão perante a fé religiosa e, depois, uma ruptura completa entre razão e fé, entre razão e mito, entre entendimento e imaginação. A autonomia teve uma dimensão teórica - a autonomia da ciência - e uma dimensão prática - uma moral e uma política fundadas na mera razão. Esta autonomia original acabou por se degradar numa concepção instrumental e calculadora da razão. A razão que se libertara do mito, da imaginação e da religião tornou-se, com o desenvolvimento da modernidade, numa razão ao serviço dos imperativos económicos e dos interesses particulares dos grupos sociais em confronto. É esta razão instrumental, calculadora e interesseira que se mostra, nos dias de hoje, impotente para lidar com fenómenos como o nacionalismo, o fundamentalismo e o racismo.

A actual crise ocidental nasce dos próprios limites do projecto da modernidade e dos valores do Iluminismo. Nasce do corte entre tolerância e convicção, entre razão e fé. A razão, ao cortar com a dimensão religiosa, cortou as amarras ao domínio da imaginação e do mito. Ora imaginação e mito eram os alicerces que sustentavam a racionalidade ocidental desde a emergência da filosofia na Grécia, como muito bem compreendeu Platão. Quando a racionalidade se separa daquilo que a fundamenta e lhe dá alimento, ela torna-se débil e uma presa dócil e ingénua do irracionalismo. O que estamos a descobrir é que a luz do Iluminismo é, pela natureza das opções que estiveram na sua origem, escura. Podemos falar mesmo em trevas iluministas. Não só o Iluminismo torna obscuras dimensões fundamentais da natureza humana como lança as trevas no mundo, fomentando, ao contrário do que parece pensar António Guterres, nacionalismos, fundamentalismos e racismos.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Os anos de lixo

Jorge Carreira Maia - Ditosa pátria que... (2007)

Na crónica de hoje no Público, Pacheco Pereira, referindo-se aos últimos seis anos de vida nacional falou em anos de lixo. Ele descreve como é que nestes anos o país se afundou. Isso, porém, não me interessa de momento. Prefiro fixar-me na expressão anos de lixo. Na expressão manifesta-se a ideia de que, nestes anos, triunfou a imundície, uma imundície travestida de pseudo-ideologia. O problema é que o lixo, a imundície já se vinham a acumular há bastante tempo, tornando-se agora visíveis, demasiado visíveis. O problema do lixo é a questão central da vida em Portugal. Ele é anterior e, neste momento, muito mais decisivo do que a querela entre uma visão socialista ou uma visão liberal do Estado e da sociedade. Mais, o lixo, a imundície, com o respectivo cortejo de porcarias e de golpes sujos, ofuscam a própria natureza do debate entre duas concepções diferentes de sociedade. O lixo que entope as instituições não é novo. Tem, podemos dizer, uma natureza quase arqueológica. O lixo nasce da irrelevância do mérito em Portugal e do tipo de relações que, tanto no Estado como nas empresas privadas, organizam a vida dos portugueses. Compadrio, nepotismo, protecção dos amigos e da família, ausência de imparcialidade e toda uma panóplia de vícios derivados, de vícios que a desfaçatez habitual apresenta como virtudes. É esta imundície arcaica que, em momentos de crise como os últimos seis anos, toma um aspecto mais sujo e tem um odor ainda mais nauseabundo. Contudo ela não é específica destes dias ou destes últimos seis anos. A lixeira - ou a piolheira como lhe chamava D. Carlos, para a qual também não estava isento de contributos - tornou-se há muito o habitat social dos portugueses e esgravatar no lixo o modo de vida destes. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Cristianismo hoje, para quê?

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Já que estamos em época natalícia, convém retornar a uma questão essencial: O Ocidente, em geral, e a Europa, em particular, ainda precisam do Cristianismo? Não será a religião cristã um produto obsoleto e, por isso mesmo, descartável? Vivemos numa era em que tudo se dissolve rapidamente, os produtos, os costumes, as funções económicas e os papéis sociais. A modernidade tem no seu núcleo central este princípio destruidor e transformador do modo de vida dos homens. É natural que muitos pensem que, numa época como a nossa, uma religião nascida há dois mil anos seja um anacronismo inútil ou mesmo prejudicial ao triunfo do que, a cada instante, se apresente como moderno.

Perante o actual estado de coisas, defendo a tese oposta. O Cristianismo é essencial para o Ocidente e, em particular, para a Europa. É um factor de conservação. Há que defendê-lo e ter a esperança que, onde a indiferença ou a negação religiosa tenham posto em causa o núcleo central dos valores cristãos, possa haver uma reversão. Três argumentos para defender esta tese.

Em primeiro lugar, se o mundo moderno, criado pelo Ocidente, tem uma natureza destrutiva, se tudo é, pela acção social e económica, constantemente destruído, então é necessário a existência de um núcleo de valores e de instituições que resistam, permaneçam e sirvam de referência aos homens e de elo entre as gerações. Esse núcleo, no mundo ocidental, é-nos dado pelo Cristianismo e, como pólo institucional, pelas Igrejas, nomeadamente a Igreja Católica.

Em segundo lugar, os valores fundamentais que ainda presidem à nossa cultura têm a sua origem no Cristianismo ou, se originados no mundo greco-latino, foram por ele retrabalhados e tornados disponíveis pela acção de dois milénios das Igrejas cristãs. Sem o Cristianismo, o nosso núcleo de valores – valores que inspiram coisas tão diversas como a caridade cristã, os devaneios marxistas sobre o homem novo, a separação entre a Igreja e o Estado, etc., etc. – perde sentido, tornando ainda mais precária a forma como nós, ocidentais, nos relacionamos com a vida e o mundo.

Em terceiro lugar, não há, a longo termo, vazios religiosos. Se o Cristianismo desaparecer, outra religião acabará, cedo ou tarde, por ocupar o seu lugar, matando os valores com que temos sido educados, matando, essencialmente, a liberdade, um dos valores centrais que o Cristianismo ajudou a implantar e a respeitar no mundo ocidental.


Depois da desilusão com as ideologias – essas pseudo-religiões políticas –, não resta ao homem ocidental, para permanecer como tal, senão o Cristianismo. Um bom Natal para todos.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O lar originário

Jacob Smits - Evening Landscape (1901-1914)

Os entardeceres frios de Dezembro trazem-me à memória não apenas a infância mas outras vidas que parecem escondidas em mim. Não, não creio na reencarnação nem em vidas passadas, mas alguma coisa nos meus genes traz uma memória de paragens mais frias, menos luminosas, mas também mais severas e puras. Oiço a água correr em regatos que nunca vi, sei de lagos onde nunca mergulhei, sinto o vento frio do norte cortar-me a face. Nas tardes frias de Inverno eu chego à minha pátria, uma pátria que nenhuma arqueologia encontrará, que nenhum registo justificará, mas que eu, no silêncio destes dias, sei ser o lar originário, o heimat de onde alguém partiu e ao qual, tantas vezes, anseio chegar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Modernidade: aceleração e destruição

Rembrandt - Jeremias chora a destruição de Jerusalém (1630)

A burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, por conseguinte as relações de produção, por conseguinte todas as relações sociais. A conservação, sem alterações, do antigo modo de produção era, pelo contrário, a condição primeira de existência de todas as anteriores classes industriais. O permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos distinguem a época da burguesia de todas as outras. Todas as relações fixas e enferrujadas, com o seu cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas as recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se (Obras Escolhidas de Marx e Engels, Tomo I, Edições Avante, pp. 109/10). 


Esta leitura de Marx sobre o papel social das classes empresariais modernas, a que ele dá o singular nome de burguesia, é uma radiografia – melhor, uma ecografia – da natureza da modernidade. A revolução permanente não é uma descoberta do marxismo, ou do trotskismo, mas do mundo empresarial moderno. A dissolução dos costumes e a destruição das tradições são exigências do modo de produção dito capitalista. A burguesia, usando a nomenclatura marxiana, não é, por essência, conservadora. Pelo contrário, devido a tudo o que Marx aí explica, ela tem sempre um papel revolucionário de destruição das concepções e das representações que o homem faz da realidade. Ela, pela sua acção social, gera sempre uma espécie de terramoto epistemológico, onde se vê, lançados por terra, os antigos edifícios do saber e do representar. Esta essência revolucionária está assente em dois alicerces. O primeiro diz respeito ao tempo. A necessidade de revolução permanente do modo de produção e dos mercados gera uma percepção do tempo singular. O tempo social torna-se cada vez mais rápido e afastado da própria capacidade humana. A aceleração do tempo produtivo e de consumo torna as pessoas rapidamente obsoletas, incapazes de acompanhar os ritmos poiéticos e as próprias concepções que lhes subjazem. O segundo é o niilismo. A verdadeira natureza do desenvolvimento empresarial não reside na produção, mas na destruição. Para que novos produtos se imponham ou sejam consumidos, é necessário que os outros sejam abandonados e/ou destruídos. A capacidade produtiva é apenas um epifenómeno do niilismo presente no mundo empresarial moderno. A essência é a destruição, o reduzir à insignificância o produto ontem lançado. Aceleração do tempo e destruição contínua são, objectivamente, os produtos da modernidade. O diagnóstico de Marx está absolutamente certo, a terapia proposta é, porém, completamente inadequada, até porque não há qualquer terapia, a não ser o impossível retorno às formas de vida conservadoras e aristocráticas. (averomundo, 2009/10/05)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Instituições justas

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Paul Ricœur definiu, como ideal ético, “a vida boa, para e com os outros, em instituições justas”. A “vida boa” remete para a felicidade que todos perseguimos. O “para e com os outros” recorda que somos seres em comunidade. Por fim, as “instituições justas” são compreendidas como aquilo que permite que cada um persiga a sua própria felicidade. Instituições injustas aniquilam a liberdade e tornam os homens miseráveis e infelizes.

Não devemos ter em consideração apenas as instituições formais, como o governo, o parlamento e o poder judicial. Sabemos que outras instituições, mais ou menos informais, detêm poder. Por vezes, um poder exorbitante. O mundo das grandes empresas é um terrível poder fáctico, bem como o da comunicação social e, ainda, o da opinião pública difusa e acrítica. Para que todas estas instituições não se tornem injustas é necessário, entre outras coisas, um duplo controlo. Em primeiro lugar, que elas se vigiem mutuamente e se equilibrem. Depois, que uma cidadania esclarecida, activa e crítica as limite.

Isto vem a propósito de um caso em que a combinação do poder da imprensa, do poder judicial e de uma opinião pública justicialista e acrítica, destruiu a honra e a carreira política do ex-Presidente da Alemanha (autodemitido em 2012), o democrata-cristão Christian Wulff. A vergonhosa história começa com uma acusação de um tablóide de um suposto pagamento a Wulff de uma conta de restaurante no valor de 140 euros e de uma estadia num hotel no valor de 770 euros. A imprensa trucidou Wulff e o Ministério Público abriu uma investigação à vida do ex-Presidente, com análise a contas bancárias, escutas telefónicas, buscas a casas, o envolvimento de 24 agentes nas investigações e, segundo o The Economist, um gasto de mais de 4 milhões de euros. Resultado: nada foi encontrado, um juiz declarou-o inocente e o próprio Ministério Público desistiu do direito de apelar da decisão do juiz.


Podemos dizer que a justiça funcionou. No entanto, a vida de Wulff nunca mais será a mesma e a verdadeira tortura porque passou ninguém lha tirará de cima. Esta história mostra como uma aliança espúria entre poderes formais e informais pode provocar desequilíbrios nas instituições e torná-las injustas. Nem sempre onde se grita por justiça – nos tablóides e na praça pública – é o lugar onde os direitos e a justiça são respeitados. Percebe-se como a injustiça das instituições pode destruir a felicidade das pessoas. Na Alemanha, faltou o equilíbrio de poderes. Mas mais do que isso faltou a voz de uma cidadania crítica. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A melancolia erótica

Jean-Léon Gérôme - Interior Grego (1848)

O filósofo de origem sul-coreana Byung-Chul Han tem um livro com o título A Agonia de Eros composto por sete pequenos ensaios. No primeiro, “Melancolia”, questiona as leituras sociológicas da deserotização do mundo. Há algo mais, nesse destino de Eros, do que a ilimitada liberdade de escolha ou as possibilidades infinitas que se abrem ao desejo sexual, segundo alguma sociologia actual. Não é apenas o excesso de oferta de outros que conduz à crise do amor, mas também a erosão do outro, o qual desaparece num “excessivo e ensimesmado narcisismo do mesmo”, sublinha ele como tese.

A questão pouco terá a ver, a não ser na aparência, com a multiplicidade de ofertas, com a liberdade de escolha no mercado sexual ou com a questão do afundamento do self  no lago do narcisismo e a consequente dissolução do outro. É preciso ir mais longe do que vai, neste ensaio, Byung-Chul Han. Tudo isso são efeitos que não têm em consideração o próprio Eros. A agonia de Eros, a sua exaustão, nasce da sua libertação. Ao libertar-se definitivamente, pelo menos nas nossas sociedades e com todas as reservas que merece uma afirmação definitiva, o Eros das garras apolíneas que o subjugavam e continham a sua força propulsora, ele foi obrigado a expandir-se, e nessa expansão começou a perder a potência que fazia dele o assombramento dos homens.

A verdadeira agonia de Eros, o estado moribundo em que se encontra, deve-se ao fim daquilo que lhe opunha resistência. Quando se fala da libertação que a revolução sexual iniciada nos anos sessenta do século passado trouxe, não se compreende muito bem o que se está a dizer. A libertação não significa a emancipação dos seres humanos dos velhos preconceitos tidos como castradores do desejo. A libertação significa literalmente o fim da resistência que Eros tinha que vencer para se manifestar e triunfar. Ora essa resistência fazia parte da razão de ser do próprio Eros. Desaparecida, a ele não restou senão a expansão ilimitada até ao fim das suas forças, o que o conduziu à exaustão e à agonia onde se encontra, para contentamento das almas puritanas.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A essência da história

Goerge Seurat - Gray Weather

Que se suba até ao berço das nações, ou que se desça até aos nossos dias, que se examine os povos em todas as posições possíveis, desde o estado de barbárie até ao de civilização mais refinada, encontrar-se-á sempre a guerra. Por esta causa, que é a principal, e por todas aquelas que se lhe juntam, a efusão de sangue humano nunca está suspensa no universo: umas vezes ela é mais fraca sobre uma superfície maior, outras é mais forte numa superfície mais pequena, de maneira que ela é quase constante. Mas de tempos a tempos há acontecimentos extraordinários que a aumentam prodigiosamente, como as guerras púnicas, os triunviratos, as vitórias de César, a irrupção dos bárbaros, as cruzadas, as guerras religiosas, a sucessão de Espanha, a Revolução francesa, etc. Se houvesse uma tabela de massacres como há tabelas meteorológicas, quem sabe se não se descobriria, ao fim de alguns séculos de observação, a lei que os rege? [Joseph de Maistre, Considérations sur la France]


Para além de mostrar a essência da História universal, a guerra e a efusão de sangue humano, Maistre faz, meio ironicamente, uma curiosa sugestão. Construir tabelas de observação dos massacres em analogia com as tabelas feitas na meteorologia. Esta aproximação a uma certa cientificidade da História, feita em finais do século XVIII, é muito mais interessante do que a de Marx, feita posteriormente. Marx e Engels estavam fascinados pelo desenvolvimento da Física e da Química, e sonhavam com uma legalidade histórica idêntica àquela que determina os acontecimentos naturais. A irónica proposta de Maistre abre a História não à necessidade, presente nas leis da Física clássica de Newton, mas à probabilidade e à previsão, como acontece com a meteorologia. O que faz dele, epistemologicamente,  um contemporâneo. Um mistério, o facto de um reaccionário ser mais moderno do que os revolucionários posteriores. (averomundo 2009/10/14)

domingo, 14 de dezembro de 2014

Impressões (XII) - a quieta cor do dia

Diego Rivera - Casa sobre el puente (1909)

xii. a quieta cor do dia

a quieta cor do dia
desenha uma súbita
promessa de água

e nela ficamos presos
a sonhar gôndolas
onde as não há

nas paredes exaustas
a caliça anuncia
o charco do futuro

e nas janelas avista-se
um rasto de vida
o pássaro da morte

(14/10/2009 - recuperação do ciclo Impressões do meu antigo blogue averomundo)

sábado, 13 de dezembro de 2014

O anjo terrível

Edward Burne Jones - O anjo (1881)

Por causa do conto da minha vizinha da frente publicado na Egoísta, um conto rilkeano a ler pelo simples prazer da boa literatura, voltei às Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke. Mais propriamente à primeira frase da segunda elegia, Todo o anjo é terrível, na tradução de Vasco Graça Moura. Que começo o desta segunda elegia, que estranha proposição esta que, inopinadamente, estabelece ligação entre aquilo que provoca terror e esses seres que aprendemos a ver cindidos entre os que foram arrastados pelo orgulho e aqueles que, benfazejos, olham por nós. Não, não são apenas os anjos caídos que são terríveis, são todos, como indica a proposição de Rilke.

Este começo, como todos os começos nascidos do artifício humano, é apenas um recomeço. Em vez de se continuar a leitura da segunda elegia, o melhor será voltar à primeira, à célebre elegia que começa deste modo Quem, se eu gritasse, me ouviria de entre as ordens / dos anjos? Aí somos instruídos sobre essa conexão entre anjos e terror. No sétimo verso, Rilke diz, quase como se fosse a conclusão de uma inferência poética, Ein jeder Engel ist schrecklich (Todo o anjo é terrível). O adjectivo schrecklich (terrível) envia-nos de imediato para a Schrecklichkeit, que pode ser traduzida por horror. Por esta meditação sobre a linguagem, aprendemos a natureza dos anjos, essas entidades terríveis que, pelo terror que transportam, causam em nós, pobres mortais, o horror.

Seria tentador, agora que falamos de terror e de horror, desviar o nosso caminho e demorarmo-nos na leitura que Walter Benjamin faz do desenho de Paul Klee, Angelus Novus (pode ser consultada aqui), como o anjo da história. Mas não é de história que quero falar. Voltemos à primeira elegia de Duíno: Pois o belo não é mais / do que o começo do terrível, que ainda mal suportamos, e deslumbra-nos assim, porque, imperturbado, / desdenha aniquilar-nos. Na origem do terrível e no fundo do nosso horror encontra-se a beleza. Rilke sublinha aqui a natureza misteriosa - produtora de espanto e de deslumbramento - daquilo que é belo, a sua imperturbabilidade, o seu desdém, a sua produtividade (poiesis) do terror e do horror. Talvez a arte do século XX tivesse, pela primeira vez na história, consciência deste terrível mistério e, assim consciente, tenha abandonado a beleza como a sua ideia reguladora. Compreendida como o motor do terrível e do horror, a beleza tornou-se-nos insuportável. Resta-nos, porém, saber se a eliminação da causa - a beleza - terá conduzido à eliminação do efeito - o terrível. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Fazer crescer o medo


A tragédia política da Europa no século XXI nasceu da conversão dos partidos do arco da governação ao liberalismo mais radical. Antes disso, a direita era representada pela democracia-cristã e a esquerda pelo socialismo democrático ou social-democracia. Na verdade, não representavam soluções políticas muito diferentes. A democracia-cristã – pelo menos, a de inspiração católica – fundava-se na encíclica papal Rerum Novarum, de Leão XIII, e na doutrina social da Igreja, enquanto o socialismo democrático tinha os seus pilares nas lutas operárias do século XIX e na evolução da social-democracia de uma visão revolucionária anticapitalista para uma via reformista das sociedades capitalistas. O que ambas visavam era uma sociedade equilibrada, respeitadora da iniciativa privada, mas na qual as classes trabalhadores vissem reconhecidos os direitos sociais e a sua dignidade.

O que tornou eficiente estas governações, na produção de sociedades menos injustas, foi o medo. Raramente se pensa no contributo do medo para o desenho de posições políticas socialmente equilibradas e equitativas. O medo que assolou a democracia-cristã e o socialismo democrático foi o dos extremismos. À direita, as soluções nacionalistas, fascistas e nazis. À esquerda, a revolução comunista. O talento do centro-direita e do centro-esquerda, na época anterior à queda do muro de Berlim, foi perceber o valor intrínseco da liberdade e a necessidade de não deixar que soluções radicais, à direita e à esquerda, seduzissem o eleitorado. Esse talento, porém, desapareceu e, com ele, o sábio equilíbrio social que existia. Tal talento, contudo, não o esqueçamos, era movido pelo medo dos extremismos. O centro político, agora seduzido pelo dinheiro e sem ameaças no horizonte, perdeu o medo e a vergonha.

O que resta àqueles que, como eu, possuem posições moderadas e defendem sociedades socialmente justas e equilibradas? Resta-lhes um pacto com o diabo. Resta-lhes fazer crescer o medo. Isto significa fazer crescer eleitoralmente os partidos fora do arco da governação e do bloco central, os partidos que contestam o actual rumo da Europa e a desfaçatez que se instalou no poder. Para que a Europa volte à sensatez, para que os valores do equilíbrio e da moderação se tornem dominantes, é necessário um grande susto, é necessário que uma ameaça cresça e se torne credível. Sem este medo, os desequilíbrios sociais irão acentuar-se, as classes médias acabarão literalmente trucidadas, e a velha Europa será cada vez mais parecida com os piores cenários do terceiro mundo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Impressões (XI) - acolhemos o tempo

Pierre-August Renoir - Banks of the Seine at Champrosay (1876)

xi. acolhemos o tempo

acolhemos o tempo
a divina dádiva
e não vemos a garra
na água que corre
nem sabemos a cor
do sangue ao desaguar

se tomamos uma ponte
logo pensamos
que nos furtámos
ao fascínio do rio
mas as margens
devolvem-nos à viagem

(13/10/2009 - recuperação do ciclo Impressões do meu antigo blogue averomundo)

domingo, 7 de dezembro de 2014

O retorno e a imaginação

Jordi Pallarés - Delírio (1989)

Portugal estava (século no início do século XV), de facto, entalado entre o poderoso vizinho e o mar, confinado num espaço periférico, um finisterra não apenas em termos do Ocidente europeu, mas até da própria Península. Daí resultava o que chamámos o impasse ibérico do reino. À época, a única via possível para buscar um caminho próprio era o mar. E desde há muito que o mar ocupava um lugar de grande importância na vida do reino. A extensão da costa, a participação directa das populações do litoral em actividades marítimas como a pesca (em largas zonas da orla costeira), a extracção de sal (em Aveiro, no Baixo Mondego, no estuário do Tejo, no Sado) e até a familiarização com o vaivém de embarcações que faziam navegação de cabotagem ligando cidades e regiões costeiras (sendo esse, por vezes, o meio de transporte mais rápido e seguro), tudo concorria para uma relação de proximidade com os elementos marinhos, não só em termos físicos mas também ao nível das representações mentais. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 172]

Com o fecho do ciclo imperial, em 1974, Portugal volta a uma situação geopolítica idêntica àquela em que viveu até ao século XV, um finisterra europeu e ibérico. A diferença, porém, é que, com o fim da ideologia colonial e dos respectivos impérios, mesmo o mar deixou de ser caminho de saída para o impasse político do país. A partir de 1974, Portugal está perante si mesmo, dolorosamente só. O apelo à razão, isto é, à confrontação com o que somos efectivamente, porém, é substituído, por duas vezes, pelas operações da imaginação que sublimam a nossa situação. A primeira vez que a imaginação opera é nos próprios acontecimentos de 74 e anos seguintes, no denominado processo revolucionário em curso (PREC). A crença utópica numa sociedade socialista, fora do mundo ocidental, onde geográfica e culturalmente pertencemos, ocupou uma largo espaço imaginal nesses anos. Estamos ainda longe de poder compreender o efectivo significado colectivo dessa grande configuração imaginária dos anos setenta.

No entanto, para além de razões puramente fácticas – a longa ditadura, clivagens sociais humilhantes, etc. –, a figura imaginária da revolução surgiu como sublimação de duas feridas narcísicas insuportáveis. Em primeiro lugar, o país tornou-se efectivamente um pequeno país, reduzido a 90 mil km2 na península e a dois arquipélagos perdidos no mar e de dimensões irrelevantes. A história gloriosa e a pátria grandiosa reduziam-se a quase nada. O PREC foi um analgésico colectivo para a dor da perda. Isto dos dois lados da barricada.

Os que eram favoráveis a uma utópica continuação da guerra encontraram nos actores políticos da descolonização o bode expiatório, na figura da traição à pátria dos revolucionários de Abril, para o fim de uma política colonial sem saída. Mas aqueles que, dentro do PREC, tiveram de fazer a descolonização, ainda que ideologicamente favoráveis ao processo, encontraram no PREC um álibi para tranquilizar as consciências perante o que viria a seguir e para não pensar na nova situação do país reduzido à sua dimensão ibérica.

O PREC foi uma poderosa figura do imaginário colectivo que permitiu à direita e à esquerda, bem como à comunidade nacional no seu todo, evitar confrontarem-se com a realidade da nova situação e sublimar as dores que efectivamente o fim do império colonial trouxe para toda a sociedade. Um dos efeitos mais interessantes deste poderoso filtro da consciência foi a integração dos chamados retornados, portugueses que abandonam os novos países nascidos da descolonização. Por muito dolorosa que a partida de cada pessoa e família fosse individualmente sentida, por difícil que tenha sido sentida a integração por aqueles que retornaram a Portugal, a sua integração no todo nacional foi praticamente indolor.

Se a mitologia do PREC e da construção de uma sociedade socialista entra rapidamente em declínio, tornando-se obsoleta já nos finais da década de setenta, Portugal encontra uma nova mitologia, um novo trabalho imaginário que o vai dispensar de se confrontar com a sua realidade efectiva. A nova figura da imaginação portuguesa estava já pronta e era uma realidade bem racional na Europa. Essa figura é a CEE. A generalidade dos países que integram o projecto dos seis fazem-no racionalmente. Portugal fá-lo, porém, de uma forma imaginária. Seria interessante analisar os discursos dos vários protagonistas políticos no primeiro lustro dos anos oitenta. O inconsciente colectivo recebe a CEE como um novo espaço mítico que, por si mesmo, resolveria todos os nossos problemas. Seríamos europeus, coisa a que estávamos desabituados há cinco séculos, sem outra necessidade do que a da integração.

A triste história da integração, desde as narrativas delirantes do pelotão da frente até ao descalabro actual, passando pelo pântano, tornam evidente que a nossa integração nunca correspondeu a um trabalho da razão, mas à sedução proveniente das figuras da imaginação. A CEE serviu, para as habituais manobras de enriquecimento espúrio de alguns, para evitar a dor proveniente do confronto com a nossa pobreza ancestral, a falta de recursos, o desprezo pela inteligência, a fragilidade da população e egoísmo social das elites.

E tudo isto assenta de tal maneira em processos imaginários que o nosso elemento de referência, aquele que foi uma solução para a escassez endémica com que o país sempre se debateu, refiro-me ao mar, foi recalcado, esquecido, abandonado, fora do seu aproveitamento turístico. Com a adesão à CEE, a frota de pesca desapareceu. O que serviu a outros para racionalizar, a nós serviu para destruir, como se a relação com o mar não fosse mais do que um mero sonho. No século XV, o sonho levou-nos mar fora, para outras paragens. Hoje, o mar implica não a fuga, mas a razão, o trabalho, a diligência. Por isso o abandonámos, preferimos alugar camas e a servir refeições a quem passa por cá para olhar o mar com melancolia. (in averomundo, 2010/02/16)

PS. O texto acima data do início de 2010. De então para cá, poderá o leitor pensar, a questão do mar alterou-se. O que estava recalcado voltou de novo à consciência e à linguagem. Há muito que não se falava tanto do mar como desde que o país foi intervencionado pela troika. Representará isto uma reviravolta na mentalidade nacional? Se olharmos para o fundo dos discursos, de imediato se percebe que o mar é um sucedâneo – comprado em fim-de-estação – do PREC e da CEE. A liquidez das águas oceânicas apela à difusa fluidez dos sonhos. O mar está a tornar-se numa nova desculpa (ver esse mapa da extensão da plataforma continental  proposto  à ONU) que tem todos os ingredientes para sustentar o delírio de várias gerações.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A sombra de Salazar


A grandeza política do professor Salazar não se mede pelas suas políticas, mas pela sombra que projectou e que continua a assediar a vida nacional, mesmo em sítios inesperados. A mais persistente ilusão nacional é aquela que deriva da ideia de união nacional. Como se sabe, a revolução do 28 de Maio e a posterior ascensão ao poder de Oliveira Salazar assentaram na eliminação dos partidos políticos e na construção de uma suposta união agregadora de todos os homens de boa vontade, isto é, de todos os interesses que se reviam na nova situação. Supunha-se que a unidade nacional não suportaria a divergência, o conflito de opiniões e de interesses, a alternativa política. Supunha-se também que não haveria interesses divergentes e que todos perseguiam o bem comum, cada um no seu lugar social.

É evidente que este delírio do Estado Novo só pôde ser mantido com a cumplicidade das Forças Armadas, a função castradora da censura e a perseguição dos dissidentes por uma polícia política implacável. Assim que as Forças Armadas abandonaram o regime, este caiu sem que ninguém mexesse um dedo para o defender. A ficção da unidade nacional, contudo, projectou-se pelo regime democrático adentro sob a tenebrosa figura do bloco central. Cavaco Silva parece obcecado com a ideia de um entendimento entre partidos, e agora, são alguns socialistas, com Francisco Assis à cabeça, que arrancam os cabelos por António Costa ter dito que não faria coligações com este PSD. Mas, suspeita-se, o próprio António Costa poderá cair nos braços de Rui Rio, se este liderar o PSD, para assim formarem uma nova união nacional.

Uma vida política saudável não precisa de uniões nacionais. O consenso fundamental está no respeito pelas instituições e pela constituição. Necessita-se de regras muito firmes sobre a transparência das decisões e de projectos políticos verdadeiramente alternativos, que os cidadãos possam escolher. A ideia de união nacional é perigosa por dois motivos. Assenta numa percepção falsa da realidade. Uma percepção que diz que só há um caminho para resolver os problemas, o que além de falso é anulador da democracia. Em segundo lugar, essa ideia de unidade nacional – de bloco central – é a capa para todo o tipo de arbitrariedade e de corrupção, é a porta da nossa presente miséria. Se uma bloco central tácito, como tem existido nos últimos anos, conduziu o país ao lugar onde está, o que acontecerá se ele se tornar efectivo e governar? A sombra do professor Salazar continua a assediar os portugueses e com ela a miséria a que ele nos habituou e fez desejar, como se fosse uma virtude.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O triunfo da bastardia

Emil Hansen - Old King

Eis uma notícia reconfortante (aqui e aqui) para quem não partilha do embevecimento por cabeças coroadas e pelo direito que certas famílias possuem ao trono, devido ao seu pedigree, isto é, à pureza imaculada da árvore genealógica ou, pelo menos, à pureza do seu ramo viril. A análise do ADN veio revelar que entre os monarcas ingleses Eduardo III e o seu tetraneto Ricardo III houve, num qualquer momento, um espermatozóide espúrio que se introduziu à socapa no óvulo de uma rainha e por lá ficou a desenvolver-se até que um pequeno bastardo viu a luz do dia e se preparou, baseado no sangue real do presuntivo pai, para assumir a herança. Cogita-se que este pequeno acidente de percurso, tão corrente na vida dos homens, pode (portanto, é uma impossibilidade) pôr em causa as dinastias dos Tudor, dos Stuart e dos Windsor, isto é, pôr em causa a legitimidade com que assumiram e, no caso dos últimos, assumem o trono. Eu, um pobre republicano, estou maravilhado com os poderes da genética, não tanto porque ela se pode tornar uma terrível arma na caça às infidelidades, mas porque confirma aquilo que sempre se suspeitou, a impossibilidade de manter, por longas cadeias geracionais, um pedigree irrepreensível e à prova de qualquer suspeita. Não menos interessante é pensar que, segundo os códigos dos próprios defensores da monarquia, a generalidade destas careceu de efectiva legitimidade, apenas porque um espermatozóide secreto, ansioso e lânguido entrou por e para onde não devia.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Impressões (X) - as velhas árvores são

Claude Monet - Cap Martin, Near Menton (1884)

x. as velhas árvores são

as velhas árvores são
anjos reclinados
sobre as águas
sombras a pairar
na luz da madrugada

e se um deus nasce
o olhar perde-se
nos ramos exaustos
inclinados para poente
erguidos para a noite

(12/10/2009 - recuperação do ciclo Impressões do meu antigo blogue averomundo)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Uma estranha nostalgia

Autor não identificado - Paysan chinois

Um dos fenómenos mais estranhos produzidos pela modernidade europeia é o da autonomia da arte. Serva da religião ou da majestade, a arte era uma actividade subsidiária que serviria para manifestar a glória do divino ou o poder do príncipe. O padrão que deveria guiar os fenómenos estéticos encontrava-se, em última análise, fora da própria arte. A partir do Renascimento, sob a designação de belas-artes e de belas-letras, dá-se uma lenta emancipação das actividades estéticas. Tudo isto vem a propósito de uma recente decisão do governo chinês. Vai enviar artistas, cineastas e produtores de televisão para o campo (ler no Público). Para quê? Para formarem uma ideia correcta do que é a arte, e assim criarem mais obras-primas e mais adequadas. Não é a primeira vez que tal coisa ocorre aos dirigentes do Partido Comunista Chinês. Mas não é a história política da China que me interessa, mas o significado desta atitude perante a arte. O padrão com que se deve produzir e avaliar uma obra de arte não reside na própria arte, mas é-lhe exterior, agora a vida simples dos campos. Isto significa uma perspectiva tradicional e pré-moderna, o que corrobora uma opinião que defendo há muito. O comunismo, apesar de conter elementos modernos e iluministas, representa uma reacção a essa mesma modernidade e ao próprio iluminismo, uma reacção fundada na nostalgia das sociedades tradicionais e dos seus valores arcaicos. A suposta pureza dos camponeses e da vida no campo não é diferente da glória do divino ou da majestade do príncipe. Aliás é o terceiro vértice do triângulo das sociedade tradicionais, onde encontramos o poder, o saber (onde se inclui a religião) e o povo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A infinita tagarelice

Edvard Munch - Jealousy (1895)

A ideia de esfera pública é uma das idealizações mais persistentes da nossa cultura social e política. Seria esse espaço onde os indivíduos - por certo, cidadãos - tomariam a palavra para, num processo de mútuo esclarecimento, fazerem as melhores escolhas, no quadro de um difícil equilíbrio entre o interesse privado e o bem comum. Esta cordata esfera pública, de ascendência iluminista, deveria ser pouco dada ao entusiasmo, para que a divina razão encontrasse, nos processos argumentativos, as melhores razões para suportar as decisões. O que na realidade nos coube em sorte foi uma imensa cacofonia, um ruído cada vez mais insuportável, um conjunto de dramas de faca e alguidar, tudo envolto numa tagarelice inútil, ofensiva e sem fim. Eu sei - e defendo-a - que a liberdade de expressão se manifesta também na possibilidade dos tagarelas não se calarem. Sabendo isso, sabemos também outra coisa, Sabemos que nada de essencial - por muita importância política, económica ou judicial que possa ter - se passa e se diz na esfera pública. A única dúvida que me resta é se a infinita tagarelice da esfera pública ofusca a palavra decisiva e fundamental ou se não há mesmo nada que valha a pena ser dito, e tudo se resuma a um exercício público de ciúmes pela posição do outro, seja esta real ou apenas potencial.