terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A consciência infeliz

Jackson Pollock - War (1947)

Comecei a ler Continente Selvagem - A Europa no Rescaldo da Segunda Guerra Mundial, de Keith Lowe. O primeiro capítulo da Parte I tem o título "Destruição Física". Ao lê-lo lembrei-me da justa indignação perante as atrocidades que o denominado Estado Islâmico tem feito em importantes centro histórico-arqueológicos. O capítulo é elucidativo do grau de destruição que atingiu o edificado de muitas cidades europeias e nem sempre esta destruição é fruto de combates, mas de decisões racionais que visaram destruir património histórico, tal como tem acontecido agora no Iraque e na Síria. O que se descobre ao aproximar as duas experiências é que não há qualquer razão para se supor que nós, europeus, somos particularmente civilizados enquanto os outros são especialmente bárbaros. 

A selvajaria contra bens e pessoas a que somos capazes de nos entregar é tão desmedida e odiosa quanto a de quaisquer outros, sejam adeptos do Islão, militantes Khmeres Vermelhos, prosélitos das revoluções culturais, etc., etc. Somos tão humanamente selvagens como todos os outros. Existe, contudo, uma coisa que talvez - e eu sublinho o talvez - nos diferencie um pouco. Os europeus, e aqueles que deles descendem culturalmente, desenvolveram uma consciência crítica dos seus próprios actos. Somos capazes das maiores atrocidades (duas guerras mundiais bastam para o exemplificar) e, ao mesmo tempo, de tornar claro que essas atrocidades são inaceitáveis. 

Esta duplicidade da nossa consciência colectiva é o fruto de um desenvolvimento cultural que teve o seu início há cerca de 2600 anos, com a filosofia. Foi esta que semeou, ao longo dos séculos, uma consciência cindida. A filosofia nunca evitou que praticássemos o mal, mas teve quase sempre a capacidade de gerar em nós uma consciência infeliz pelo mal praticado. Tenho dúvidas que esta consciência dividida pela prática do mal e pela sua crítica feroz nos torne melhores e mais civilizados do que outros. Tem, todavia, a vantagem, de tornar claro que o mal é mesmo um mal, de nos roubar a alegria pelo mal cometido, de gerar na vida colectiva uma consciência infeliz.