quarta-feira, 3 de junho de 2020

A prudência e o risco


Não creio que a pandemia que se vive abra as portas para um mundo novo. Duvido mesmo que o essencial, passada a fase de maior dificuldade, seja apreendido. E esse essencial não está no futuro, mas no passado, num conjunto de decisões políticas que foram tomadas, ao longo de décadas, sob pressão de uma ideologia radical que tenta impor à política as regras do mercado. Havia um número mais que suficiente de alertas para a possibilidade de emergir uma crise pandémica. Instituições de tipo diverso – ligadas à saúde, à espionagem e à política – vinham alertando os Estados e as elites políticas para que podia acontecer aquilo que está a acontecer.

Ninguém quis saber ou os que quiseram, como Obama, foram cilindrados. Quando os políticos dizem que ninguém estava preparado, deveriam dizer que ninguém quis preparar-se. Por outro lado, mas em consonância com isto, temos assistido nas últimas décadas, por decisão política imposta por uma visão radical do liberalismo, a uma destruição paulatina dos serviços públicos de saúde, à sua descapitalização e à perda de capacidade de resposta aos problemas de saúde das comunidades. Demasiado caros, argumenta-se numa lógica mercantil. A ignorância propositada de um perigo anunciado e a desmontagem dos serviços públicos de saúde configuram, ao nível político, uma grave infracção da regra da prudência que deve orientar os que comandam os Estados.

A partir do século XIX, com um incremento contínuo, a política, no mundo ocidental, foi-se submetendo à economia e o Estado ao mercado. Esta inversão no comando das sociedades tem um preço, o qual estamos agora a pagar. O mercado é o lugar do risco. As empresas, na concorrência entre elas, correm riscos. Este é um factor decisivo na competição. Os Estados, porque são dispositivos criados para a segurança das pessoas, devem evitar o risco e orientar-se pela prudência.

A submissão da política à economia, como acontece nas nossas sociedades, não é apenas uma inversão da tradição política ocidental, nascida na antiguidade clássica greco-romana, mas a subversão da própria função do Estado, que se torna incapaz de prever o perigo e de se dotar de mecanismos de defesa das populações, apostando no risco, com a esperança de que as ameaças nunca se concretizem. O que está longe de ser uma realidade, como estamos a descobrir nestes dias. Seria, todavia, iludimo-nos crer que esta pandemia irá ensinar aos que comandam os destinos das comunidades que a política se deve separar dos imperativos da economia e que a prudência, não o risco, é a atitude fundamental do homem político.

4 comentários:

  1. De etapa em etapa o capitalismo faz tudo para se autodestruir e vai consegui-lo.

    Um abraço

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    1. O principal problema é que não compreende que a função e o tempo do Estado não são os mesmos do que os dos mercados. Depois, a coisa corre mal.

      Abraço

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  2. Oxalá que com o desconfinamento as coisas não piorem. Oxalá que não...
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    Tenha um dia feliz

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