quinta-feira, 23 de julho de 2020

Descrições fenomenológicas 54. O túnel

Öyvind Fahlström, Stötar, 1960

Batida pelo sol, a rua mostra o cansaço e as rugas que os anos depositaram na sua pele de tijolo, cimento e alcatrão. Os caixilhos brancos das janelas, de tinta gretada pelo calor, seguram vidros antigos, nem sempre muito limpos, como se a sujidade fosse uma cortina de protecção a quem da rua pretendesse espreitar a intimidade de uma casa, os segredos de alguma alcova, os desvarios de alguém tomado por acesso de loucura. A estrada também teve melhores dias. A profusão de remendos negros deixa perceber que o asfalto é antigo, e que se prefere ir consertando aqui e ali do que pôr um tapete novo. A ladeá-la passeios de um cimento turvo, carcomido pelo uso, cheio de rachas, de onde brotam ervas raquíticas e algum musgo. Duas mulheres, mãe e filha, caminham lado a lado. Por vezes, a mãe sai do passeio e dá alguns passos pela estrada, mas logo volta a pisar o cimento encardido, encostando-se à filha. De uma varanda de um primeiro andar, pende uma bandeira esverdeada, com dizeres imperceptíveis inscritos em amarelo desmaiado pelo sol. Se o vento lhe bate com mais ferocidade, quase levanta voo, sujeitando o mastro a uma pressão a que ele vai cedendo pouco a pouco. Desemboca a rua num túnel sombrio, sem iluminação se é de dia. Dele saem mulheres apressadas, perseguidas pelas suas sombras. Em sentido contrário, três homens entram na escuridão, conversam animados. Um assunto de negócios, compras e vendas, o valor das casas, a recuperação que se pode fazer. Durante alguns segundos as vozes ficam a ecoar até se perderem, como se os seus donos tivessem sido tragados por um buraco negro. De uma loja, uma mercearia, sai uma freguesa, ainda nova, e logo o lojista, agora desocupado, se chega à porta, acende um cigarro e fica a olhar a mulher, que se perde na escuridão do túnel. Depois, inclina a cabeça para baixo e concentra-se num exame minucioso do chão. Por vezes, cumprimenta um transeunte e olha para o outro lado, a rua batida pelo sol, com a esperança de que venha alguém com quem possa conversar e matar aquele tempo, que teima em não passar. Uma rajada de vento ergueu a bandeira, uma janela abriu-se e fechou-se com violência. Os vidros estilhaçados caíram no passeio, onde um cão assutado começou a ladrar, enquanto se afastava perplexo, perdendo-se nas trevas do túnel.

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