terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Simulacros e simulações (9)

Ricardo da Cruz-Filipe, Questions du Réel, 1976

Toda a realidade começar por se apresentar como simulação daquele que está perante ela. Depois, como simulacro que se deixa ver. Por fim, como uma mancha heteróclita, na qual os objectos ganham contorno, se raptam do cativeiro das aparências e se apresentam na sua inquietante estranheza. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A Garrafa Vazia 40

Juán José Vera, Suburbio, 1963
Vivo no subúrbio
do subúrbio,
na casa estripada
pelo tamborilar
dos rodízios do tempo.

Vivo à beira do bordel,
em que putas
delicadas
vendem broches
a preços de promoção.

Vivo numa rua
esquecida
onde se arrastam
náufragos
de mil oceanos.

Vivo no rugir da ruína
entre os vespeiros
da tarde
e um punhal
cravado no coração.

Dezembro de 2020

domingo, 17 de janeiro de 2021

Nocturnos 47

Sebastian Pether (atribuído), Moonlit river landscape with a ruined priory

Como um romântico cansado das luzes, há que construir paisagens nocturnas e descer ao que há de mais negro em si. Então, encontra-se a pálida luz lunar para que se possa ver, numa paisagem assombrada, árvores exaustas, as águas gélidas do rio da morte e a ruína em que o tempo transformou a vida.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Beatitudes (37) Junto ao mar

Caspar David Friedrich, Monk by the Sea, 1809

A vida não será mais do que um longo passeio solitário junto ao mar. A areia recorda ao caminhante a sua verdadeira natureza, uma grão perdido entre incontáveis grãos. O marulhar das águas ecoa a música do universo, de que ele faz parte e que o transcende irremissivelmente. A solidão revela-lhe a sua condição no mundo, onde tudo o que é essencial se joga na singularidade daquilo que se é.  E a isto se resumem todas as bem-aventuranças nesta terra.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A coluna infame

Francisco de Goya, Esto es malo, edição de 1863

Na introdução do seu livro História da Coluna Infame, Alessandro Manzoni escreve: Parece-nos ver a natureza humana empurrada irremissivelmente para o mal por razões que escapam ao seu arbítrio, como dominada por um sonho perverso e veemente de que não se pode libertar, de que nem sequer adverte a sua existência. Embora a história da coluna infame não seja especificamente um caso de loucura política, mas da submissão de pessoas racionais - juízes - à pulsão enlouquecida das massas, que levou, no século XVII, à condenação e a uma pena brutal de pessoas que não podiam ter feito o crime de que lhes era atribuído, a propagação da peste através de uma matéria untuosa. Isso que exigiria um sofisticado laboratório que, na prática, só o século XX conseguiria produzir. Os juízes tinham perfeita consciência de que o crime não era possível, mas mesmo assim seguiram a pulsão da massa ignara e supersticiosa. É essa mesma massa que se move neste momento um pouco por todo o lado. Foi ela que elegeu Trump e Bolsonaro. É ela que se começa a mover também em Portugal, acicatada pelo oportunismo de pequenos aprendizes de feiticeiro. A apreciação de Manzoni deve alertar-nos para o perigo real, para o facto dos homens serem empurrados para o mal movidos por um sonho perverso, de que não se conseguem libertar nem terem consciência da sua existência. Não se pense que isto são histórias do passados longínquo. O século XX foi pródigo em história dessas motivadas por paixões políticas. Se os homens não acordarem e interromperem o sonho perverso em que parecem deleitar-se, também teremos a nossa coluna infame no século XXI.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O perigo das palavras em política

Darío Villalba, Caída, 1992
Falar não é apenas falar. Todo o acto de fala é uma acção, tal como ensinaram os filósofos John Austin e John Searle. Quando se diz um conjunto de palavras (acto locutivo), fazem-se coisas com elas (actos ilocutivos) e espera-se que tenha algum efeito sobre o auditor (actos perlocutivos). Tudo isto vem a propósito da forma soez como o candidato presidencial André Ventura se referiu aos seus concorrentes e em, com particular agressividade, a Jerónimo de Sousa, que nem é concorrente (ver aqui). As palavras de Ventura não visaram as ideias políticas dos seus adversários. Visaram as suas pessoas, com especial agressividade para com o secretário-geral do PCP. Pretenderam mostrá-las como indignas, como não merecendo o respeito que qualquer ser humano deve merecer. Estas acções ilocutivas (desvalorização da dignidade dos visados) pretendem ter efeitos perlocutivos. Quais?

Desumanizar aqueles que são alvos do chiste. Fazer com que os outros não os considerem como pessoas dignas de respeito pela sua humanidade. Jerónimo de Sousa nem dos netos mereceria paciência. Esta é uma estratégia velha do extremismo político, transformar os adversários em coisas. As coisas não têm direito à palavra e podem sofrer todos os arbítrios, pois foi-lhes retirada a dignidade. Não se trata de uma simples brincadeira, não se trata de liberdade de expressão. Trata-se de aniquilar, simbolicamente, os outros. Este tipo de comportamento linguístico visa desarticular as instituições políticas e abrir o caminho para regimes autoritários. Divide o espectro político entre os amigos (as pessoas de bem) e os inimigos, que não passam de meras coisas que há que destruir. 

Portugal, até ao advento de Ventura no panorama político, tinha uma vida política perfeitamente civilizada. A conflitualidade política era, por norma, centrada em questões políticas. Depois dos tempos quentes da transição à democracia, os portugueses encontraram maneira de conviverem entre si independentemente das suas ideias políticas. Foram décadas de divergência e conflito civilizados, nunca se chegando a este tipo de coisas. Que haja portugueses que não sintam repugnância por este tipo de linguagem é desagradável. Que haja portugueses dispostos a entrar no caminho aberto por Ventura é motivo de grande preocupação. Trata-se não apenas da destruição das nossas instituições democráticas, mas de um perigo para a vida civilizada, onde, apesar de divergirmos, não temos de nos ofender uns aos outros, onde não temos de ver no adversário político um inimigo que há que retirar a voz e o poder de agir. Se há pessoas que riem com as palavras de Ventura, elas não têm graça nenhuma e são muito perigosas. Falar não é apenas falar.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

A Garrafa Vazia 39

Francisco Goya, Lluvia de Toros, 1816-23
Um coro de cabrestos
invade a praça,
deixa uma música
de submissão
às ordens
do grande touro,
o descornado
de olhos vazios
presos
ao furúnculo da morte.

Dezembro de 2020

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Simulacros e simulações (8)

Ed van der Elsken, Pour Aller Faire L’amour, Paris, 1952
Simular um mundo em que se vive de doações é um sonho que qualquer sonhador experimentado nunca esquece de reservar no seu armazém onírico. Depois, o destino decide se o sonho é uma antecipação da realidade ou um mero simulacro onde esta se mostra e logo se oculta.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A infantilização da política


Uma das características mais salientes, mas julgo que não muito sublinhada, nestes movimentos ligados ao populismo é o carácter infantil ou adolescente das personagens, sejam apoiantes ou sejam mesmo actores políticos destacados. Este vídeo de uma infeliz revolucionária do Tennessee é exemplar. A ocupação do Capitólio foi fértil em imagens de crianças com corpo de adulto. O próprio discurso de Trump - e não me refiro apenas ao que antecedeu a tomada do Capitólio, mas ao seu discurso político quotidiano - é de uma infantilidade extrema. Se olharmos para Portugal, o candidato a Trump da paróquia apresenta também as mesmas características, embora mais próximas do adolescente que discute bola com outras adolescentes de clubes diferentes. O universo de todas estas pessoas varia entre o de crianças em idade pré-escolar e adolescentes retardados, ainda com a crise hormonal por resolver. As simplificações com que entendem o mundo, as categorizações que fazem para estruturar a realidade, a forma como se relacionam com aquilo que os contraria, tudo isso denota gente de uma profunda imaturidade. Não admira que o candidato do Chega atraia tantos adolescentes. Estão na mesma onda de vibração.

Esta  infantilização da política não é da agora e não a encontramos apenas nos movimentos populistas de extrema-direita. Ela adequa-se a pessoas que vivem numa sociedade em que o desejo - o desejo de consumir, por exemplo - é continuamente estimulado, que se orientam pelo princípio de prazer, o qual, todavia, choca com a dura realidade frustradora das pulsões. Como crianças que não aprenderam a lidar com a frustração, estas pessoas - uma enorme massa - reagem como crianças e adolescentes que emocionalmente são. Fazem birra, amuam, partem os vidros do carro de quem se lhe opôs. Passam a viver em realidades alternativas, para não terem de enfrentar aquilo que as faz sofrer. São xamãs, chefes índios, cowboys, adeptos da teorias da conspiração, ávidos consumidores de mentiras, de notícias falsas, de tudo o que lhes afague o ego e os conforme nesses patamares da vida onde não se lhes cobra responsabilidade.

Note-se, todavia, que a natureza infantil e adolescentes destas massas e dos seus dirigentes oculta duas coisas. Em primeiro lugar, esconde o quão perigosas são, como se viu no assalto ao Capitólio. Crianças e adolescentes podem ser extraordinariamente agressivos e maldosos para os seus pares, fundamentalmente para os mais fracos. Oculta que por detrás de líderes infantilizados ou dos que permanecem numa adolescência retardada se move gente que não é infantil nem parou nessa adolescência. Descobriram que a infantilização da política é uma forma eficiente para atingirem os seus objectivos de dominação económica e política, de subversão das regras informais e formais da democracia e da destruição do Estado de direito, coisas cuja importância e funcionamento crianças e adolescentes não têm competência nem maturidade para perceber. 

domingo, 10 de janeiro de 2021

Nocturnos 46

Maxfield Parrish, At Close of Day, 1941
Nos dias em que o frio se transforma em neve sobre ruas e casas, o fim do dia e o começo da noite são motivos de júbilo. Fechados em casa, aquecidos pelo fogo antigo que um dia foi a protecção máxima contra os inimigos, os homens entregam-se a longos devaneios, rememorando a vida, enquanto ouvem crepitar a lenha na lareira e o tamborilar suave dos flocos nos vidros das janelas.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Uma visita à direita nacional

A sondagem da Aximage, para o DN/JN/TSF, referente ao mês de Dezembro, dá ao CDS uns miseráveis 0,3%. Os partidos também morrem e o CDS está moribundo. Teve um importante papel na transição à democracia e, também, na vida democrática institucionalizada. No início, integrou, no novo regime, muitos eleitores simpatizantes da ditadura. Fê-lo, assumindo sempre uma posição claramente democrática. Foi um parceiro importante de soluções governativas. Talvez seja há muito um cadáver adiado, que apenas o talento de Paulo Portas evitou morte mais precoce. O erro de casting da actual liderança, depois da desilusão Assunção Cristas e do aparecimento de outros partidos à direita, parece indicar que tudo vai acabar mal.

A Iniciativa Liberal (IL) está em consolidação e abre uma pequena brecha numa cultura política avessa ao liberalismo. Sem capacidade de penetrar no eleitorado popular, possui algum poder de atracção no mundo universitário e em sectores empresariais mais jovens ou com maior formação. Herdará eleitores do CDS. Se conseguir, nas próximas eleições, eleger um grupo parlamentar, abrirá o caminho para afirmar, em Portugal, uma corrente ideológica plenamente liberal, como acontece em múltiplos países europeus. Sem problemas, será parte de uma eventual solução governativa de direita.

O Chega veio dar voz ao ressentimento com a democracia. O partido advoga um liberalismo radical na economia e um conservadorismo também radical em matéria de costumes. Atrai o seu eleitorado, que na verdade não compreende o programa e as consequências que teria a sua aplicação, através da exploração histriónica de causas ao gosto popular, como o ódio aos políticos ou a certas etnias e grupos sociais. O seu principal trunfo é o seu principal problema: O Chega é André Ventura. Sem o hooliganismo político encenado pelo líder, o partido é nada. Todavia, mesmo na Europa, o hooliganismo pode ter mais força do que se pensa e degradar a vida política a níveis inimagináveis.

O PSD vive uma situação crítica. A forma de fazer política de Rui Rio não é particularmente clara, o que deixa as bases numa situação de perplexidade. Isso alimenta sonhos sebastianistas internos, como o do retorno de Passos Coelho à liderança. No entanto, esta crise – que é real – não tem nenhuma novidade. O PSD, tal como o PS, são partidos de poder. Sempre que passam para a oposição entram em crise. Chegados ao poder, a crise passa com a distribuição de lugares e o glamour que o poder ostenta. Nos partidos de poder, crise é estar fora do poder. Com ou sem Rui Rio, é apenas uma questão de tempo até a crise passar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

A Garrafa Vazia 38

Pablo Picasso, Busto de hombre escribiendo, 1971
Não sou poeta, pois não
vivo no fio aguçado
da navalha.

Sem melancolia, uso-a,
à navalha,
para fazer a barba.

Logo, corto o pescoço
e a fina ranhura
sangra em vermelho.

Com lápis cicatrizante,
paro a escorrência
e mato o estro.

Não tivesse eu horror
ao sangue, grande
poeta haveria de ser.

Novembro de 2020

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

EUA, uma ferida narcísica

Frank Frazetta, Encabezamiento para el correo del lector de Famous Monsters of Filmland

O narcisismo norte-americano, que leva muitas vezes uma das mais velhas democracias do mundo a actos inaceitáveis, sofreu ontem um rude golpe com as imagens da invasão do Capitólio para sabotar a nomeação de um Presidente legitimamente eleito. Os EUA vangloriavam-se, com alguma razão, de serem os defensores do mundo livre e do seu governo estar sujeito às regras da democracia e do Estado de direito. Ontem, porém, uma multidão inflamada por um presidente derrotado, mas incapaz de assumir a derrota, transformou os EUA, perante todo o mundo, numa autêntica república das bananas. Nenhum respeito pela democracia, pela lei e pela ordem. Foi nisto que deu a retórica de fazer a América grande de novo. Humilhá-la pura e simplesmente.

Os Estados Unidos sempre se supuserem estar no centro do mundo democrático. Ontem, porém, perceberam que essa sua posição é muito menos sólida do que os americanos supunham. Estiveram a milímetros de se tornarem numa autocracia, submetidos ao arbítrio de um déspota. A ferida narcísica que ontem se abriu talvez não arrede os EUA do centro do mundo democrático. No entanto, ela vai sangrar e, espera-se, que conduza aos que são verdadeiros democratas – tanto no campo democrata como no republicano – a uma profunda reflexão sobre a fragilidade não apenas das instituições, mas da própria democracia. Ontem os EUA foram confrontados com a realidade, com a sua realidade. Veremos se têm capacidade de não fechar os olhos e lidar com o monstro que os habita.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Descrições fenomenológicas 62. Paisagem em azul

Esteban Vicente, Goyescas, 1983

Uma cortina de tule desce do céu sobre a terra e vela suavemente a montanha e a floresta. Nela dançam mil tonalidades de azul, como se a paisagem fosse uma enorme aguarela onde se combinam o índigo, o anil, o cobalto, a turquesa, azuis marinhos ou da Prússia, mil outros matizes, ora mais suaves, ora mais carregados. Os olhos, perplexos da harmonia em azul, levam tempo a adaptar-se ao inóspito da paisagem. Lentamente, apercebem-se da massa rochosa da montanha e descobrem sobre as suas encostas e, no planalto em que se desdobra, a floresta, com as suas grandes árvores, cujas folhas, verdes em dias de sol, se confundem na ambiência que a tudo cobre. Na terra revestida de neve refulgente, pequenas poças de água e gelo cintilam. Um lençol imaculado na sua brancura funde-se no azul que desce dos céus. Restos de arbustos secos erguem-se aqui e ali, enegrecidos pelo frio e pela morte. No centro da clareira, uma cabana com paredes de madeira, um telhado de colmo de duas águas e um alpendre, tudo coberto por uma espessa camada de neve. De uma das janelas sai uma luz que anuncia o fogo a arder na lareira. Vê-se o arfar das labaredas, a metamorfose das cores, o vermelho, o laranja e logo o amarelo, para retornar tudo ao princípio, numa dança que que traz à memória o fluxo eterno, o movimento inconstante do ser, a esperança de que a vida não tenha fim. Vindo da floresta, um corvo pousa na chaminé. O preto que o cobre ilumina-se no contaste com o branco da neve. Na cabana, alguém chega à janela. Fica parado, contempla com demora o horizonte, depois volta-se e desaparece. Os azuis fundem-se lentamente até que tudo se torna negro e a noite acrescente paz à solidão.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Beatitudes (36) Serenidade

Ulrika Victoria Åberg, Landscape in Germany, 1860

Também a serenidade tem a sua gramática, uma teoria das formas e uma sintaxe dos elementos. Depois, junta-se o léxico fabricado com o som das cores. Assim se descobre esse texto antigo em que serenos os homens percorrem campos e florestas e, mergulhados na natureza, enfrentam a dura necessidade para que o dia de amanhã ainda seja o seu dia.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Perfis 12. O actor

Ed Clark, Marlon Brando, 1949

O actor não dorme nem descansa, apenas se representa como quem está a dormir e se entrega ao descanso. A vida de actor é uma representação contínua, que nunca pode ser suspensa, que segue por uma estreita vereda rodeada por precipícios. Se o actor deixa de representar, os pés tropeçam um no outro e a queda é inevitável. Por isso, é vigilante e permanece sempre de vigília, mesmo se aparenta dormir, mesmo se sonha. Quando um sonho lhe chega, ele representa-se a sonhar e sonha-se representando. Um actor é um agente duplo, age na vida como se agisse na vida, espia-se a si como a um inimigo. Na mão, leva o seu papel. Repete-o infinitamente. Primeiro, lendo-o uma e outra vez. De seguida, soletrando-o enquanto caminha na cidade ou nos campos, se apanha um táxi, se se aventura num transporte público, se toma o elevador de um hotel. Por fim, sonhando-o enquanto no sonho se representa a dormir. Noite e dia, o actor é fiel a uma longínqua tradição. Nunca tira a máscara, pois, para ele, não há suspensão da representação. A janela que o ilumina é uma janela de luz incessante, para que o escuro não o envolva e a noite, com a sua armadura de trevas, não o derrote e o faça cair no inferno dos actores, esse lugar frio onde nenhum espectador porá os pés, nenhum sentimento de gratidão se elevará, nenhum realizador ou encenador arquitectará um mundo feito com as suas palavras e os seus gestos. A máscara é o rosto do actor e o papel a sua vida. Essa é a sua riqueza, não se distinguir da máscara e de viver o papel que lhe foi atribuído, não em cada filme ou em cada peça, mas na hora em que nasceu e sobre ele, em segredo, máscara e papel se ergueram para se lhe irem cingindo sem que ninguém, nem ele, o notasse ou quisesse.
 

domingo, 3 de janeiro de 2021

A Garrafa Vazia 37

Juan Barjola, Ambiente cerrado, 1982
Lanças o arado na areia.
Logo nascem
moribundos
matos e matagais.
Crescem regados
pelo enxofre
das águas,
adubados no ardor
da peçonha destilada
pela varejeira do vento.

Agosto de 2020
 

sábado, 2 de janeiro de 2021

Nocturnos 45

Fred Herzog, Jackpot, 1961

Esses locais onde o excesso de luz anuncia as mais negras noites, esses paraísos instantâneos onde o coração se perde e o espírito caminha ébrio, esses pontos de encontro onde o vazio, o desespero, o abandono e a perda tecem as suas conjuras, todos eles fazem parte de uma geografia da queda, de onde emerge uma cartografia sempre em mudança, assinalando os pontos onde os homens se atiram da noite que passa para o precipício das trevas sem fim.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Alma Pátria 67: Carlos do Carmo, Gaivota


 

Gaivota é um fado com poema de Alexandre O'Neil e música de Alain Oulman. Foi composto para a Amália Rodrigues e pertence a um conjunto que veio a renovar o género. Esta interpretação de Carlos do Carmo pertence a um álbum de 1970. No dia em que o mais importante fadista - refiro-me aos fadistas no masculino -, ao lado de Alfredo Marceneiro, desapareceu, o Alma Pátria deixa aqui um testemunho do enorme talento de Carlos do Carmo. Não é fácil aventurar-se num fado ao qual Amália tinha dado já uma interpretação definitiva, mas Carlos do Carmo encontra o seu próprio tom e a sua interpretação é tão decisiva quanto a de Amália. Este fado, como outros onde se encontram letras de grandes poetas portugueses, anunciava já uma saída para lá da colonização que o Estado Novo tentara fazer da canção de Lisboa.