sábado, 7 de dezembro de 2019

A questão ambiental


A generalidade dos cidadãos, onde se incluem as elites políticas, não tem qualquer capacidade para julgar se as alterações climáticas em curso são de origem humana ou se são apenas efeitos de uma alteração do clima que ocorre independentemente das acções humanas. A questão é fundamental. Se as alterações climáticas não são de origem humana, poder-se-á argumentar, como o fazem certos sectores, que toda a preocupação é inútil. Se, pelo contrário, as alterações climáticas tiverem origem na acção do homem a partir da Revolução Industrial, há a esperança de, alterando o comportamento humano, impedir um desfecho trágico para a existência do homem na Terra.

Um argumento a favor da crença de que as alterações climáticas actuais são de origem humana é o facto de grande parte dos cientistas que trabalham sobre o clima terem essa perspectiva. Existem também cientistas com opinião contrária, mas são largamente minoritários. Um segundo argumento está ligado às motivações dos negacionistas que, devido a interesses particulares, tendem a negar a realidade. Isso passou-se noutras alturas e o caso mais conhecido é o da indústria do tabaco que, quando a ciência começou a estabelecer a relação entre o fumo e o cancro de pulmão, lançou uma estratégia para criar uma dúvida persistente na opinião pública. A negação relativamente ao clima seria também uma criação dos chamados mercadores da dúvida, os quais operam para desacreditar o trabalho científico aos olhos do público, permitindo às indústrias poluentes continuarem a não ser incomodadas.

Não são precisos, porém, nenhum destes dois argumentos para defender uma radical alteração das políticas e dos comportamentos relativamente ao clima. Podemos admitir que existe grande incerteza sobre se as actuais alterações do clima se devem ao homem ou se decorrem da própria natureza. Essa incerteza basta para que os seres humanos e os dirigentes políticos ajam com prudência, o que significa alterar o nosso modo de vida e ter políticas adequadas a essa alteração. Essa prudência tem uma dupla vantagem. Caso as alterações climáticas sejam de origem humana, a prudência poderá evitar a tragédia que se anuncia. Se as alterações climáticas forem de origem natural, a prudência ajudará a minimizar os efeitos em vez de os agravar. Do ponto de vista político e ético, é indiferente se possuímos uma teoria fortemente corroborada da origem humana das alterações do clima (como parece ser o caso) ou se há uma grande incerteza científica sobre a origem dessas alterações (como pretendem os negacionistas). Os imperativos práticos são os mesmos.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O PISA e as duas culturas


O que nos mostram os resultados do PISA (um programa internacional de avaliação de alunos; ver aqui)? Mais importante do que discutir sobre o desempenho dos alunos portugueses (e do sistema educativo português) é perceber a grande fractura cultural que o estudo torna patente. Esta fractura tem já uma forte componente política e perspectiva um futuro sombrio para o mundo ocidental. Como se pode verificar (ver aqui e aqui), os primeiros lugares são todos eles ocupados por regiões chinesas e Singapura. Também o Japão, com um desempenho menos brilhante na área da leitura, está no topo nas áreas das ciências e da matemática.

O problema reside na diferença de culturas entre estes países e regiões e os outros. Os resultados dos estudantes asiáticos devem-se a uma cultura de disciplina, esforço, rigor, propensão para enfrentar obstáculos e ultrapassá-los. Esta cultura é muito diferente daquela que reina em Portugal e muitos países de cultura ocidental. As virtudes da disciplina, do esforço e do rigor estão desvalorizadas perante uma cultura da gratificação imediata, da desistência perante obstáculos, da ausência de rigor. Argumentar-se-á que não são todos os alunos assim. É verdade, mas também é verdade que muitos são e que a cultura de exigência é mal vista por muitos alunos, muitos pais, parte significativa das sociedades ocidentais e até, de forma mais ou menos sub-reptícia, pela ideologia educativa que se apossou de muitos sistemas educativos ocidentais. Perante estas realidades, não é de espantar o contínuo crescimento da influência política dos povos asiáticos e o decréscimo persistente do peso dos europeus. É na escola que isso começa.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Defender a democracia liberal


Durante algum tempo pensou-se que o mundo caminhava inexoravelmente para a democratização dos regimes políticos. A terceira vaga de democratizações, iniciada em Portugal em 1974 e que se prolongou não apenas na Europa do Sul, mas na do Leste, com o fim dos regimes comunistas, e na América Latina, parecia indicar estar-se num processo irreversível. Olhar hoje em dia para essas expectativas é perceber não apenas quanto se estava errado mas também a própria fragilidade das democracias liberais, isto é, daquelas que aliam à democracia representativa um Estado de direito, com separação de poderes.

O ataque aos regimes demo-liberais ocidentais, vindo de dentro deles próprios e que em Portugal só agora se começa a esboçar, é de tal maneira grande que, nos dias que correm, o tradicional e estruturante conflito entre direita e esquerda, apesar de continuar importante, cede diante da necessidade de concentrar esforços na preservação do bem maior que é o regime democrático, a possibilidade de haver alternância no poder, de os que o conquistam não persigam os seus adversários, enfim que a política não se torne presa dos conceitos de amigo e inimigo, isto é, do prenúncio ou do Estado autoritário ou da guerra civil.

A existência de uma democracia liberal não é uma evidência e não é um destino que esteja fatalmente no horizonte de qualquer Estado. Se olharmos para a história política da humanidade, percebemos que a democracia é quase um acontecimento excepcional, uma espécie de milagre laico da razão humana. As democracias representativas exigem certas condições sociais, políticas e culturais e, para além disso, o esforço dos cidadãos em limitar a sua frustração quando as suas ideias perdem e o seu júbilo quando ganham. Uma vitória em democracia não é nem o esmagamento dos adversários nem uma carta de alforria aos que ganham para fazerem o que querem. Uma derrota não é uma condenação. A democracia liberal nasce do esforço para cultivar limites ao poder.

O problema é que nós seres humanos possuímos, ao lado de uma propensão para a vida civilizada, uma não menor inclinação para a barbárie. Por vezes, como acontece nestes dias um pouco por todo o mundo ocidental, não suportamos as regras civilizadas e, perante o ressentimento e a frustração das nossas expectativas, o bárbaro que há em nós começa a abrir a boca e a agir em conformidade. Esta situação denota que o contrato social que sustentou as democracias se rompeu. É a reconstrução desse contrato que deverá unir todos aqueles que, à direita e à esquerda, crêem na superioridade civilizacional dos regimes demo-liberais.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Alentejo, Alentejo

JCM, Alvito, 2019
Chega-se ao Alentejo e a primeira sensação, a mais superficial, é de imobilidade. Enquanto todo o país foi tomado pela azáfama da mobilização, em que cidades e vilas foram descaracterizadas e, muitas vezes, mortas pelo progresso empreendedor dos empreiteiros e de presidentes da câmara ansiosos de ganharem uma estátua no centro da paróquia, o Alentejo permaneceu estranho à azáfama, tratando de manter a cara lavada. A segunda sensação é a da reconciliação que a pessoa sente ao caminhar naquelas ruas brancas, onde são raríssimos os atentados ao bom gosto. Por fim, começa-se a desconfiar que naquelas cidades e vilas, onde o tempo se recusa à velocidade, a vida é mais autêntica e tudo aquilo tem uma dignidade que não se suspeita já em parte alguma do país. O Alentejo é um país à parte.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A Origem da Luz 1

Jackson Pollock, Alchemy, 1947

Sol incendiando-me célula a célula, nasci.
Grande, o silêncio, o espaço aberto e côncavo.
Aí desconhecia medos e metáforas.
Da serra vinham ventos, ateavam rumores
nas árvores, opalas em teus olhos.

A luz levedava no murmúrio das laranjeiras,
acendia velas nas paredes, archotes nos dedos.
Palavra a palavra cresceu o universo, o enigma
da terra, uma haste de canções, ao
caírem fulgiam na errância dos espaços.

Água, ave de âmbar e coral, brotava
do poço e na poeira floriam ervas e agoiros.
Os cabelos eram cordas, pedaços de arame,
ao erguerem-se, acendiam a lua,
os astros, constelações de sílica e basalto.

(1981)

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Ensaio sobre a luz (74)

Sarah Moon, Yael Raich, 1993
Transfiguração. Vindo não se sabe de que fonte, o silêncio interior cresce lentamente na alma, toma conta do corpo e manifesta-se como luz no esplendor do rosto.

sábado, 23 de novembro de 2019

O desafio da direita democrática


Comecemos pelo trivial, mas que muitas vezes é esquecido. O papel do PSD e do CDS tem sido fundamental para a consolidação de um regime democrático-liberal no nosso país. Uma democracia representativa não pode subsistir sem a existência de pluralidade política e de partidos de direita e de esquerda. Quando a ditadura caiu a 25 de Abril de 1974, a construção da democracia enfrentava um enorme problema. Havia uma esquerda estruturada na oposição, com partidos organizados e passado político de combate à ditadura. A direita estava, com excepções honrosas mas raras, comprometida com o regime deposto. Dissolvida a ANP de Marcelo Caetano, a direita não tinha organização política.

É aqui que entram o PSD e o CDS – ambos com um conjunto notável de personalidades – que vão integrar a direita no regime democrático, contribuindo para a sua consolidação. Nestes 45 anos de democracia, tanto o PSD como o CDS mantiveram-se fiéis à democracia liberal. Defenderam e defendem propostas políticas discutíveis, como as dos outros partidos, mas nunca houve neles uma tentação autoritária. Ofereceram ao país uma direita civilizada, empenhada no jogo democrático, dando representação política a uma direita social com peso significativo na comunidade nacional.

Neste momento, ambos os partidos enfrentam um problema que também afecta o país político. O crescimento dos populismos iliberais de direita na Europa, a súbita explosão do Vox em Espanha e a eleição de um deputado do Chega podem pôr a nu uma situação que a bonança dos tempos ocultou. Uma parte da direita social portuguesa – um pouco à semelhança da espanhola – não se revê no regime democrático, nas suas regras e na obrigatoriedade de tolerar a esquerda. Esta direita, como se está a descobrir, não suporta Marcelo Rebelo de Sousa e não confia já nos partidos de direita do sistema, PSD e CDS, os quais sempre foram mais democráticos do que esses seus eleitores.

O PSD e o CDS – este em estado grave de saúde – enfrentam um desafio importante lançado pela direita autoritária e populista. Como vão reagir à possível deserção, nos próximos tempos, de uma parte da direita social para a extrema-direita? Vão ser fiéis à sua matriz fundadora – e fundadora do regime – ou vão deixar-se arrastar pela facilidade do discurso iliberal e populista do Chega? Este é um problema que a direita enfrenta, mas não só. Uma democracia liberal necessita tanto do suporte da esquerda como da direita. O problema que afecta o PSD e o CDS não é apenas deles, mas também do regime democrático e da própria esquerda que se revê no modelo ocidental de democracia.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O discurso às massas policiais

Kazimir Malevich, Quadrado negro sobre fundo branco, 1915
Penso, muitas vezes, que os agentes políticos são cegos para a realidade. Por mais que esta se exiba à sua frente, eles possuem uma capacidade inultrapassável para a cegueira. Ainda ontem Rui Rio afiançava aos seus correlegionários do Partido Popular Europeu que a extrema-direita era coisa quase inexistente em Portugal e a que havia não era assim tão extrema. A manifestação de polícias de hoje serviu para mostrar exactamente o contrário. Não pela manifestação em si, um acto dentro da conflitualidade democrática e que tem fundamentos justos, mas pelo discurso do deputado do Chega. Este não é um acontecimento trivial. Parece uma inversão simbólica do PREC, onde, numa coreografia leninista, o deputado Ventura fala às massas policiais. Há muita gente desejosa de fazer explodir o edifício democrático e o dia de hoje foi um passo, cuja dimensão desconhecemos, para isso. Não sei se a aritmética de Rui Rio e a geometria dos partidos tradicionais é suficiente para explicar o que está em gestação.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Alma Pátria 57: José Mário Branco, Por terras de França



O último post deste rubrica, Alma Pátria, foi o de Queixa das Almas Jovens Censuradas, de José Mário Branco. Não estava no horizonte mais próximo trazer aqui uma nova canção do mesmo autor. Todavia, José Mário Branco morreu hoje. Para além da importância que ele teve para a música popular portuguesa, não me esqueço do espanto que foi para mim descobri-lo no ano de 1973. Havia nele um mundo musical que ia muito para além do cantor de protesto. Os seus dois primeiros álbuns são aqueles de que mais gosto, talvez porque estejam associados a uma parte da minha vida em que descobria, com a inocência dos verdes anos, o peso da realidade e como, naqueles tempos, era pesada e escura a alma da pátria. 

domingo, 17 de novembro de 2019

Pretérito Imperfeito 10. Pretérito Imperfeito

Cesare Peverelli, Senza Titolo, 1965-66
10. Pretérito imperfeito

Voltamos ao tempo que fomos,
aos dias ungidos pelo sol,
as ruas gastas de tanto
caminhar. Regressamos,
mãos exaustas, olhos
presos na terra.

Voltamos aos dias de Março.
Sobre o pó a chuva cai
cantante e pura.

Voltamos ao que fomos.
Os dias são rosas secas,
caídos entre folhas
extasiadas em mãos
erguidas para a luz.

Na noite, ouve-se um grito
e voltamos.
Ninguém chama por nós.

[Pretérito Imperfeito, 1981]

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Descrições fenomenológicas 48. Rua à noite

Lucio Fontana. Ambiente spaziale, 1967-2017. Hangar Bicocca

Contra a noite vêem-se janelas iluminadas, montras, anúncios que prometem aliviar os homens das suas necessidades. Encostados aos passeios, carros alinhados, tomados pelo sono, suspensos na quietude, à espera que alguém venha, abra a porta e, sentado ao volante, lhes dê vida. Isso será só mais tarde, quando a manhã tiver firmado os seus direitos sobre a escuridão. Numa relojoaria, um relógio luminoso deixa ver o tempo a passar, mas é uma ilusão, pois não há quem para ele olhe e talvez o tempo não passe por aquele relógio. Choveu durante bastante tempo, mas já não chove. A estrada molhada e nos passeios há pequenos lagos onde a publicidade luminosa se reflecte para duplicar a mensagem e tornar o mundo mais ruidoso. Uma janela abre-se, uma mulher espreita. Estica o braço e logo o recolhe. Olha para um e para o outro lado da rua, depois volta-se para dentro e diz alguma coisa. No andar de cima, outra janela ilumina-se e vê-se um homem calvo a caminhar na divisão. Está de pijama e parece preocupado com alguma coisa. Pára, por instantes, e debruça-se sobre uma mesa ou uma secretária. Depois ergue-se e na mão tem um livro. Encaminha-se para a porta e apaga a luz. A vizinha debaixo fecha a janela e também ela escurece a casa. De súbito, um carro avança e pára diante de um prédio. De dentro deste, sai uma mulher jovem apressada. A porta do carro abre-se, ela entra, fecha a porta e a viatura desaparece no fim da rua. A noite prossegue o seu caminho na rua vazia. O relógio indica as horas mas ninguém as vê.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O não chumbo no Ensino Básico e a revolução educativa

Fotografia daqui.

A questão do não chumbo no ensino básico que tanto atormenta certos sectores políticos é apenas um pormenor sem qualquer importância. Tive de dar uma especial atenção aos célebres decretos-lei 54/2018 e 55/2018. Não são alterações legislativas triviais e se levadas a sério não são acomodáveis às tradicionais práticas escolares e às crenças do professorado. Propõem uma revolução na escola portuguesa, não uma simples reforma ou melhoria, mas um virar o ensino não superior de pernas para o ar.

Quanto mais se medita naqueles decretos mais cresce a sensação de desconforto. Há neles qualquer coisa de profundamente tenebroso. Há a ideia de que os alunos são uma matéria plástica altamente moldável. Bastaria uma mudança da forma de trabalhar do professor, agora um diferenciador pedagógico atento ao estilo de aprendizagem de cada um, para que os alunos renitentes à aprendizagem se convertessem às delícias do saber.

Isto não é verdade. Os alunos não são uma matéria plástica moldável ilimitadamente. Como os próprios professores também não o são. Como se pode fazer uma revolução (que vai desde a reconceptualização do espaço e do tempo da aprendizagem até à gestão do currículo e da avaliação) fundado numa crença falsa sobre a natureza dos alunos e contra as crenças pedagógicas de grande parte do professorado? Só através de processos autoritários. Os decretos referidos são um exemplo do mais refinado voluntarismo, o qual faz tábua-rasa da realidade das escolas e dos seus actores.

Uma tentativa idêntica a esta – no tempo de Roberto Carneiro e de Cavaco Silva – falhou estrondosamente, apesar de ter havido um grande incentivo ao professorado, através de valorização da carreira. Onde é que chocou? Na realidade. Foi um choque entre as crenças pedagógicas dos professores, a realidade dos alunos e o voluntarismo maximalista dos governantes. Se tivessem tentado apenas reformar o primeiro ciclo, de forma consistente e com tempo, ter-se-ia avançado alguma coisa. Depois, viria o segundo ciclo e assim sucessivamente. Talvez as coisas fossem hoje muito diferentes.

Os mesmos erros cometidos naquela altura foram repetidos no tempo de Marçal Grilo e de António Guterres. Também Lurdes Rodrigues e José Sócrates ensaiaram a sua revolução educativa, deixando o campo pejado de cadáveres, os professores proletarizados e  furiosos, e tudo pior. Chegámos a António Costa e a João Costa (o autêntico ministro da Educação), também eles se acham revolucionários educativos. Quarenta anos de erros e não se aprendeu nada. Todos querem fazer a sua revolução. Todos se acham salvadores. Todos vêem a autoridade do Estado como um poder revolucionário e violento que dobra os actores. Todos querem tudo ao mesmo tempo. A vida não é assim. O não haver chumbos no básico – coisa que já quase não existia – é uma irrelevância. Em Portugal tem-se sempre a inclinação para discutir com grande alarido o acessório e deixar o essencial de lado.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Beatitudes (17) Vitória

Alfred Eisenstaedt, A jubilant American sailor clutching a white-uniformed nurse in a back-bending, passionate kiss as he vents his joy while thousands jam Times Square to celebrate the long awaited-victory over Japan, New York, 1945

Não há maior beatitude do que estar vivo para comemorar a vitória. Os mortos dormem o sono eterno e aos que a morte esqueceu é dado o instante onde toda a felicidade se resume no inesperado de um beijo, como se a vida fosse uma sombra de um filme de Hollywood.

sábado, 9 de novembro de 2019

Nazismo e comunismo


No mês passado o Parlamento Europeu aprovou uma resolução de condenação dos regimes nazi e comunista. Na verdade, ambos os regimes perseguiram e mataram adversários e o Estado teve neles uma configuração totalitária. No entanto, não se pode dizer que o nazi-fascismo e o comunismo são a mesma coisa ou que o nazi-fascismo foi um regime de esquerda, como pretendem agora alguns adeptos da adaptação da teoria da terra plana à política. Uma das coisas que mais atormenta certa gente à direita é o facto de haver uma reprovação moral do militante nazi mas não do comunista.

Os regimes fascista italiano e nazi alemão são tentativas de corte com a tradição cristã, uma ruptura com os valores que a Europa, a partir da Queda do Império Romano, criou. São regimes que tentaram fazer reviver o mundo imaginário do Império Romano, antes da conversão ao cristianismo, ou do ainda mais imaginário mundo ariano dos povos germânicos. Tentativas delirantes, apoiadas na tecnologia moderna, de inventar tradições míticas de um passado glorioso ou puro. Para além dos crimes, aquilo que não tem permitido acomodar moralmente nazis e fascistas é a sua recusa dos valores cristãos, mesmo que secularizados.

O comunismo pertence a outra tradição e a sua ligação com o cristianismo, apesar do ateísmo filosófico do marxismo, é real. Em primeiro lugar, o marxismo é uma radicalização do liberalismo. A emancipação política e jurídica defendida pelos liberais é radicalizada pelo marxismo como emancipação social. A igualdade formal perante a lei dos liberais é radicalizada em igualdade real na vida social pelos comunistas. O comunismo não é mais do que um liberalismo levado às últimas consequências. Em segundo lugar, o próprio liberalismo, filho do Iluminismo, é uma secularização dos valores cristãos, secularização mediada pela Reforma protestante. O comunismo, por seu turno, apesar de ver a religião como ideologia, não deixou de herdar esses valores cristãos, vindos através do liberalismo, orientando-os para a emancipação na terra e não para a salvação no céu.

Enquanto no mundo ocidental o cristianismo e o liberalismo tiverem algum peso cultural, será difícil olhar para um comunista e ver nele alguém que é do mesmo tipo de um nazi. O comunista é um irmão mais novo que se radicalizou e tem uma visão extremada dos valores que todos partilham, julgando-os possíveis de realizar na terra, através da violência revolucionária, enquanto o nazi é aquele que quer dissolver a ordem que o cristianismo trouxe ao mundo. Isto não iliba o comunismo dos crimes que cometeu, mas ajuda a perceber a tolerância com que os comunistas, ao contrário dos nazis, são vistos. Eles pertencem à família.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Pretérito Imperfeito 9. Deus

Pedro Fernández Cuesta, Murmullos de Dios

9. Deus

Preso ao silêncio, Deus
é um sopro,
uma  história de seda,
fresta de cal, o
rasto de luz
libertado do sal.

[Pretérito Imperfeito, 1981]

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Alma Pátria 56: José Mário Branco, Queixa das Almas Jovens Censuradas



Chegou a vez de José Mário Branco aparecer no Alma Pátria. Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades é o seu primeiro álbum, editado em 1971, em plena primavera marcelista, em França onde se encontrava exilado. Surpreendente é a qualidade elevada de um primeiro álbum, um refinado gosto na escolha dos textos, mesmo nos que têm um tom mais interventivo, sem nunca deslizar para soluções fáceis e tonitruantes. “Queixa das Almas Jovens Censuradas” é um poema de Natália Correia e é um dos retratos mais exactos daquilo que a ditadura nos fez ser. A música de José Mário Branco parece ter sido a fonte original de onde brotou aquele poema e não uma música que se adaptou a ele, e isso diz tudo do génio musical de José Mário Branco.

domingo, 3 de novembro de 2019

Ensaio sobre a luz (73)

Emil Otto Hoppé, Mika Mikum, Poland, 1916
De súbito a luz degrada-se e a imagem projectada no espelho já não é um reflexo, mas a sombra baça que anuncia, na manhã estival, o inverno da noite.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

As direitas


Os resultados das últimas eleições vieram pôr a nu a crise que atinge a direita em Portugal. A direita parlamentar vale neste momento 34,6% dos votos e 86 deputados, enquanto a esquerda parlamentar vale 53,3% dos votos e 140 deputados. Isto coloca enormes desafios à direita democrática para se aproximar do poder. Mesmo que o entendimento parlamentar das esquerdas tenha acabado, nada garante que, em caso de necessidade, não volte a existir. A direita para governar precisa de ter mais deputados que a esquerda. Estamos assim num momento de crise e reconfiguração da direita. Vejamos alguns aspectos.

Comecemos com as novidades. O Chega alcançou o parlamento a partir de algum rancor social, nomeadamente em zonas onde pode haver conflitos com a comunidade cigana. Tem alguma margem de progressão fundada na exploração do ressentimento social e caso se prolongue a crise da direita democrática. A Iniciativa Liberal (IL) aproveitou o desencanto à direita e juntou uns quantos órfãos das políticas de Passos Coelho. Pode herdar algum eleitorado jovem do CDS e do PSD, caso este continue longe do poder. Seja como for, tem um programa que não se acorda nem com a realidade do país nem com a tradição da direita portuguesa. A margem de progressão parece curta e depende do que vier a acontecer no PSD.

A crise que atinge o CDS é gravíssima. Não apenas perdeu muito eleitorado como deixou de ser a única alternativa real aos descontentes com o PSD. Tanto a IL como o Chega podem pescar nas águas onde o CDS pesca. Os sectores mais ultramontanos podem encontrar no Chega a sua representação, enquanto os mais liberais têm agora a IL ao dispor. Não se vislumbrando a emergência de um líder carismático, estando o CDS acantonado num estrato social muito específico e idiossincrático, as últimas eleições podem ter sido o ponto de partida para o seu desaparecimento. Enfrenta uma ameaça real.

O caso mais interessante é o do PSD e a luta entre os adeptos do passismo, representados por Luís Montenegro, e uma velha tradição da direita portuguesa de carácter paternalista, com algumas preocupações sociais e com alguns toques, não exagerados, de conservadorismo, encarnada por Rui Rio. Se Montenegro ganhar o partido, este tenderá a ser mais liberal, o que poderá liquidar a IL mas encolher o campo social do PSD. Se Rio se mantiver, teremos um PSD menos liberal, mais na tradição de Cavaco Silva e mais próximo do centro e da doutrina social da Igreja. Caso saia vitorioso no embate dentro do PSD, não se pense que a esquerda recebe um bónus. Rui Rio, no parlamento e com a aprendizagem feita, será, para António Costa, um osso duro de roer.

[A minha crónica em A Barca]

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A doença das democracias liberais


Em curta entrevista concedida este ano ao Estadão de S. Paulo, o cientista político Yascha Mounk, especialista na crise das democracias liberais, afirmava temer que não se esteja perante um mero episódio de populismo, mas a entrar numa era populista. Os líderes populistas ocupam já parte significativa dos governos em países ocidentais e quando os eleitores percebem que esse tipo de políticos é bem pior que os tradicionais, não volta às opções moderadas mas opta por populistas ainda mais radicais.

O romancista Amós Oz oferece duas razões plausíveis para a emergência desta crise universal das democracias. Uma primeira é a redução da política ao entretenimento. As pessoas votam porque querem divertir-se, excitar-se, querem novidade e escândalo, desligando o voto daquilo que vem a seguir. Se aceitarmos o argumento de Oz, podemos procurar as fontes que promoveram o entretenimento a factor cultural determinante das condutas políticas. A televisão e as redes sociais são uma dessas fontes, pois transformaram tudo em entretenimento, tornando-o no modelo da vida social. Outra vem da própria educação e da retórica contínua que a visa modernizar, substituindo o esforço e a superação pela busca de prazeres fáceis e recompensas imediatas, isto é, pelo entretenimento.

Uma segunda ideia do escritor israelita prende-se com a grande complexidade do mundo actual. A globalização ou a questão climática, por exemplo, são de tal maneira intrincadas que os eleitores não as compreendem. Os níveis de literacia do cidadão médio são insuficientes para lidar com a sociedade em que vive. A consequência é a eleição de políticos que oferecem soluções simples. Por norma, esses políticos escolhem um bode expiatório e acusam-no de todos os males que atormentam as pessoas. Esta mentira é agradável aos eleitores e estes, sem instrumentos para pensar e avaliar a realidade, optam pelo mais fácil e o que lhes parece mais agradável.

É possível que estejamos a entrar numa fase de persistente retracção dos valores democráticos. O mais preocupante é que parece haver pouca capacidade para deter esta onde de irracionalidade. Assistimos a um teste dos mais difíceis que se podem colocar às democracias representativas. Serem vítimas já não de golpes militares ou revoluções, mas dos seus próprios resultados. Os eleitores escolhem democraticamente aqueles que pervertem ou perverterão os regimes democráticos, como se o conjunto de direitos civis e políticos que estes regimes asseguram fossem irrelevâncias que se podem dispensar.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Pretérito Imperfeito 8. Esperança

Albert Gleizes, Composición octogonal, 1922

8. Esperança

Sombras da tarde.
Um toldo de Verão,
restos de calcário,
a esperança vinda
no vinho bebido
pelo copo vazio
do meu coração.

[Pretérito Imperfeito, 1981]

domingo, 20 de outubro de 2019

Portugal, um país a dissolver-se

Daqui
O retrato de Portugal, baseado num conjunto diversificado de estatísticas do Pordata, não é animador. Envelhecido, média de idade das mães no momento do nascimento do primeiro filho e média de filhos por mulher muito pouco animadoras, poucas habilitações literárias, com grandes gastos em saúde (5,4% do rendimento familiar contra 0,4% da média europeia). Vale a pena ver os resultados, alguns são inusitados como Portugal, um país com crónica falta de médicos, ser o terceiro país da União Europeia com mais médicos. Também a instituição casamento já teve melhores dias, pois 54,9% das crianças nasce fora do casamento. Há coisas positivas com o baixo índice de mortalidade infantil, por exemplo. Seja como for, tendo em conta os dados, Portugal parece estar lentamente a desistir de si próprio, num haraquíri silencioso. Ora o principal problema político de uma comunidade é assegurar a sua persistência no tempo, a sua continuidade. Todos os outro problemas - onde se incluem o da justiça distributiva - estão, ou devem estar, subordinados a esse. É incompreensível como esse não é um dos temas centrais do debate político. Um país a dissolver-se.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A Catalunha de novo

Gerda Taro, Crowd outside morgue after air raid,Valencia, Spain, 1937
O problema da Catalunha não está no independentismo, está na própria Constituição. Ao bloquear a possibilidade de se mostrar, através de um referendo legal, aquilo que os catalães querem, a Constituição espanhola torna impossível uma solução. Muito provavelmente, um referendo na Catalunha daria a vitória à continuidade e seria uma pesada derrota para o nacionalismo catalão. Este alimenta-se do nacionalismo castelhano. Agora são as condenações que dinamizam a mobilização popular. Amanhã será outra coisa. Ironicamente a situação da Catalunha está mais próxima do Curdistão - onde os curdos não se podem pronunciar - do que da Escócia, onde a possibilidade dos escoceses poderem escolher está assegurada, já o tendo feito e escolhido ficar no Reino Unido. O normal seria a Espanha estar mais próxima de Inglaterra do que da Turquia, mas as democracias ibéricas são demasiado imaturas para permitir a livre escolha das comunidades e dos indivíduos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A manutenção de Brandão Rodrigues

Martins Barata, A lição de Salazar. Cartaz distribuído nas escolas em 1938
António Costa não é pessoa para tomar decisões sem as calcular. Quando escolheu Tiago Brandão Rodrigues para ministro da Educação pensou-se que era um erro de casting, uma daquelas escolhas que os primeiros-ministros fazem para dar um ar mais independente ao gabinete. O ministro desde cedo tornou evidente que não fazia a mínima ideia do que tratava a pasta que lhe tinha sido atribuída. Durante quatro anos, foi de uma absoluta irrelevância. Deixou a rédea larga a quem tinha planos mais pessoais ou mais mirabolantes, isto é, aos secretários Alexandra Leitão e João Costa. Se o ministro não sabia nada no início do mandato, a situação não melhorou no fim. Pessoas generosas podem ter pensado que António Costa não o substituiu para não fazer um favor à oposição e aos sindicatos de professores.

Com a recondução do ministro, toda a gente ficou a perceber que a escolha de Costa fora, desde a primeira hora, deliberada. Quis uma figura fraca num ministério que quis e quer fraco. Contrariamente ao que pensam muitos professores e sindicatos, não se trata de um particular azedume com os docentes. Trata-se antes de uma visão da educação enquanto política pública. A retórica do tempo de Guterres, com a sua paixão serôdia pela educação dos indígenas, passou de moda há muito. Para os socialistas, tal como o mostrou Sócrates, mas também para a direita, a educação é uma enorme encrenca, onde se dilapidam com gente sem mérito os recursos necessários para outros lados. Quando se escolhe para ministro alguém que não sabe nada da área, que nem sequer é um ministro político, a explicação é simples. Quer-se vincar a pouca importância que essa área deve ter nos negócios políticos da nação.

Enquanto se ganha tempo para entregar toda a educação não superior, incluindo o professorado, nas mãos dos municípios ou na dos privados pagos pelo erário público (não se iludam com a reversão dos contratos com os colégios privados, pois tudo é uma questão de tempo e de oportunidade, isto é, percentagem de votos), faz-se baixar o peso político da área, para que esta não incomode demasiado. Que política é esta? É uma política clara e distinta. Quem tem dinheiro põe os filhos nos colégios privados, caso viva em sítio onde existam, ou paga generosamente a explicadores, se tiver a infelicidade de viver em sítios onde não os há. E os outros? Os outros, os que não têm dinheiro, não contam. Para esses há a flexibilização curricular, as medidas de inclusão, as escolas dos projectos, das articulações curriculares e de outros jogos florais que, desde o tempo de Cavaco e Roberto Carneiro, as elites governativas tentam impingir às escolas, sempre com a acintosa resistência do professorado. O importante é que os alunos sejam felizes, mesmo que não saibam nada. Uma figura irrelevante é a escolha mais sensata para uma pasta que se quer irrelevante. É este o pensamento educativo dos socialistas, como o é, de outra maneira, o da direita.

domingo, 13 de outubro de 2019

O papel da classe operária

Ipsos Sopra-Steria, Fractures Françaises 2019
Quando Jean-François Lyotard veio falar no fim das grandes narrativas - ou metanarrativas - meio mundo caiu sobre ele. O filósofo francês já morreu há mais de 20 anos, mas basta olhar para a tabela acima para compreender como uma das metanarrativas políticas mais influentes e persistentes no século XX foi reduzida a estilhaços, o que parece dar-lhe alguma razão. Refiro-me ao comunismo. Talvez ainda se lembrem do glorificado papel do proletariado como vanguarda que faria a humanidade transitar da opressão capitalista para a sociedade comunista, onde a abolição da propriedade privada, através da acção daqueles que nada têm (os proletários), nos conduziria a uma sociedade sem Estado e, por isso, sem dominação e opressão.  A classe operária encarnava a vanguarda da história.

O quadro apresentado é desolador. Em todos os itens, os operários franceses, em comparação com outros estratos sociais de França, são aqueles que possuem as posições mais retrógradas (melhor, reaccionárias), e as mais ameaçadoras para a existência de uma vida civilizada. São os que mais defendem a reintrodução da pena de morte, são os únicos que, maioritariamente, acham que o Rassemblement Nationale (de Marine Le Pen) é capaz de governar o país. Também é entre o operariado que aqueles que julgam que há outros sistemas que podem ser tão bons como a democracia são maioritários. Isto para não falar na rejeição da mundialização e na relação com os estrangeiros. São também os que mais aceitam a violência dos coletes amarelos, com uma taxa de rejeição inferior a 40%.

Percebe-se que um velho comunista possa sentir-se desolado e amargo. No entanto, aquela história da vanguarda proletária da humanidade nunca passou de uma ficção. O discurso de vanguarda revolucionária foi sempre e essencialmente uma narrativa de intelectuais iluministas radicalizados, os quais arrastaram alguns elementos das classes operárias também com propensões intelectuais e aspirações iluministas. Em muitos países as classes operárias foram reformistas, na melhor das hipóteses, e conservadoras, para não dizer reaccionárias (ver os EUA e a eleição de Trump). Em alguns momentos e lugares, julgaram poder abrigar-se num regime de ditadura do Partido Comunista, mas não por serem revolucionárias, mas por sentirem necessidade de protecção. 

Agora os operários aderem às soluções iliberais e reaccionárias pelos mesmos motivos, por necessidade de protecção de um mundo que não compreendem e que temem com não pouca razão. Na verdade, as classes operárias foram e são essencialmente passivas, embora se possam revoltar aqui e ali (veja-se o apoio aos coletes amarelos). O que mais temem é a iniciativa, pois esta torna-lhe o mundo um lugar  permanente de desconforto. Talvez o grande sonho do operariado - um sonho de que os operários terão uma percepção muito difusa - seja o retorno à situação prévia à Revolução Industrial, ao mundo protegido pela estratificação social em que viviam, onde apesar de tudo tinham um lugar que era o deles. Talvez seja este o significado do seu amplo apoio à política de Marine Le Pen. Isto está a chegar a Portugal, com o atraso habitual.

sábado, 12 de outubro de 2019

Pretérito Imperfeito 7. Ânsia

Emma Fernández, El Bosque, 1996

7. Ânsia

Que fizeste da ânsia 
com que aos dias
te entregavas?

Morreu-te o instinto 
e tudo é sombra
sobre a água do rio,
caminho perdido
onde caem loucos 
os loucos animais.

[Pretérito Imperfeito, 1981]

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Das eleições, leituras


1. APESAR DO PRÓPRIO PARTIDO. O PS teve um bom resultado, mas não excelente. Não conseguiu penetrar significativamente na esquerda e alienou, em campanha, uma parte do centro para o PSD. A governação era propícia para chegar a uma maioria absoluta. No entanto, os portugueses desconfiam do PS. Não foi apenas o reinado de Sócrates. São as ligações familiares, os negócios de ocasião, a forma como parece enrolado em Tancos. Para acabar, até o sagaz António Costa se deixou envolver numa querela sem sentido com um alegado militante do CDS. Se há partido que precisa de uma grande reforma (moral), esse é o PS.

2. UM NINHO DE VÍBORAS. O discurso de domingo de Rui Rio cheirou a desculpa de mau pagador, a uma tentativa de descobrir uma vitória onde houve uma derrota pesada. PSD e PS são duas máquinas vorazes de poder. Fora dele, sem o ter à vista, tornam-se autênticos ninhos de víboras, ainda mais o PSD que o PS. Rui Rio, no seu discurso, não evitou ser viperino. Fez uma boa campanha, ajudado pelo desnorte do PS, mas até ela sempre foi um líder sofrível. O PSD vai discutir lideranças. É inevitável, mas mais do que isso precisa de discutir a sua armadura ideológica e o que quer para a sociedade em que vivemos.

3. O FIM DA JUVENTUDE. O Bloco de Esquerda perdeu cerca de 50 mil votos. Essa, porém, não foi a sua maior perda. Começa a parecer-se com os partidos do arco da governação. Abandonos, cisões, imposições vindas de cima, o BE perdeu a inocência e, apesar de se ter afirmado como terceiro partido nacional, está a dissipar o encanto que arrastou – e ainda vai arrastando – uma juventude idealista e contestatária. Está a transformar-se, mais depressa do que se suspeita, num partido velho e de gente velha.

4. MERCADOS EM RETRACÇÃO. O CDS e a CDU sofrem do mesmo mal, a retracção do seu mercado eleitoral. O mal do CDS é que a sua imagem está colada ao que se poderia chamar um partido de betos. Enquanto não largar essa imagem, as suas possibilidades de crescer são muito limitadas. A CDU, melhor, o PCP sofre de um mal idêntico, embora de sinal oposto. As fronteiras do seu mercado eleitoral são fechadas, o partido não tem capacidade de penetrar fora das paredes de vidro que o fecham numa fortaleza onde ninguém entra, mas de onde os eleitores se vão escapando. CDS e CDU parecem reminiscências de um mundo que acabou.

5. O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO. Grande resultado do PAN, uma nulidade política baseada no animalismo, pintalgado de ambientalismo e sem consistência política. Sinal da natureza disruptiva do tempo que vivemos. Sinal do tempo é também o Chega. Vai-se estruturar politicamente, a partir da Assembleia, e vai explorar o ressentimento que há por aí. Pode não ser coisa passageira. Iniciativa Liberal e Livre são a expressão do cosmos lisboeta, das jovens elites anglofilizadas e embasbacadas com um liberalismo que nunca existiu em Portugal, o primeiro, e a representação da natureza multicultural da capital do país, o segundo. Os quatro são frestas para espreitar o futuro.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Chega, uma voz para o ressentimento

Dos novos partidos que chegaram agora à Assembleia da República, o Chega é aquele que me parece ter uma perspectiva mais auspiciosa de crescimento. A principal razão é a de se alimentar do ressentimento. Podemos encontrar dois tipos de ressentimento no país. Por um lado, o ressentimento de camadas sociais mais baixas, completamente despolitizadas, sem iniciativa tanto na vida pessoal como na cívica, perdidas num mundo que parece não ter sido feito para elas. Um discurso como o do Chega explora com facilidade a inveja latente nestes estratos, que poderão encontrar nas simplificações de André Ventura umas verdades sobre as elites políticas democráticas, a quem não amam e nem sequer temem, e que poderão desejar castigar. Não é este, todavia, o único ressentimento que se pode aninhar no Chega. Há franjas das classes médias que têm uma imensa saudade não propriamente do salazarismo mas da ordem existente num mundo que muita gente desses meios não conheceu mas que imagina a partir das narrativas laudatórias com que foi educada. Votaram durante muito tempo no CDS e no PSD, mas nunca se sentiram representadas por esses partidos, demasiado democráticos e respeitadores de uma ordem onde a esquerda política e uma visão liberal dos costumes podem estar integradas. Em caso de crescimento, será a esta camada que o Chega irá buscar os quadros e os ideólogos. O partido de André Ventura pode vir a casar esses dois tipos de ressentimento social aparentemente antagónicos através do uso do Estado. Ao mesmo tempo que pretende limitar certos direitos liberais - civis e políticos - não desdenha de usar os direitos sociais para anestesiar a deriva iliberal. Descurar o poder do ressentimento na vida política pode ser um erro trágico para uma democracia representativa e liberal.

sábado, 5 de outubro de 2019

O 5 de Outubro

Francesca Woodman, From Angel Series, Rome, Italy, September 1977
Poderia falar da República que faz hoje 109 anos, mas o sábado não me parece propício para tal peroração. Há pouco a rua era percorrida por um vento desagradável, pouco conveniente, a lembrar que apesar dos termómetros o Outono já chegou. Talvez as repúblicas sejam regimes outonais, ao contrário das monarquias. Essa porém é um suposição sem sentido. São muitas as coisas sem sentido que me ocorrem em dias como o de hoje, determinado por lei a ser um dia de reflexão. Também eu me coloquei defronte do espelho para ver se reflectia. Nele, nada vi que me lembrasse de mim. Se havia alguma coisa reflectida não era eu. A data de 5 de Outubro é quase perfeita. Os monárquicos podem comemorá-lo, pois foi a 5 de Outubro que monarquia portuguesa começou. Na mesma data acabou a monarquia e começou a República, o que alegrará os republicanos. Só os anarquistas não têm razão alguma para deitar foguetes no dia de hoje, embora possam correr para apanhar as canas. O sol quando nasce não é para todos.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O crescimento do hooliganismo político


Um dos efeitos colaterais do surgimento das redes sociais é o da expansão do hooliganismo político. Jason Brennan, no seu livro Contra a Democracia, classifica em três tipos os cidadãos dos estados democráticos. Uns são hobbits. Não têm interesse pela política, não possuem opiniões políticas fortes e permanentes. Ignoram factos, instituições, processos e a história política da comunidade a que pertencem. São politicamente passivos. A segunda categoria é a dos hooligans. Possuem opiniões políticas fortes e permanentes. Defendem com ardor as suas posições, mas são incapazes de articular argumentos contra posições adversas. A sua relação com as suas crenças políticas e a dos adversários é enviesada. Ignoram ou desprezam toda a pesquisa científica que contrarie as suas opiniões. A última categoria é a dos vulcanos, possuem uma visão científica e crítica da política. Fundam as suas opiniões na evidência empírica. Possuem um interesse marcado pela política, mas olham-na de forma desapaixonada.

Por norma, aqueles que fazem política e a vivem, desde a militância até ao suporte partidário ocasional, inscrevem-se na categoria de hooligans. O que parece passar-se, a partir do crescimento das redes sociais, é que parte dos hobbits se está a deixar atrair para discursos radicais, reproduzindo-os, tornando-se fonte de emissão de opiniões professadas pelos hooligans. A polarização política que as redes sociais têm fomentado ajuda a explicar este crescimento do hooliganismo político. Um caso interessante é a reacção à figura de Greta Thurnberg. Encontra-se não apenas nos jornais tradicionais como nas redes sociais uma campanha de ódio contra a adolescente sueca. Não examinam as suas razões ou o sentido da sua causa para as rebaterem de forma racional, mas lançam uma terrível campanha contra a pessoa. Campanha essa que é partilhada por muita gente que, noutros tempos, seria indiferente ao assunto.

A prática política – e a questão climática tem uma clara dimensão política – nunca foi o reino dos vulcanos. No entanto, as democracias representativas cresceram e consolidaram-se num equilíbrio tenso entre as pulsões dos hooligans políticos e um conjunto de virtudes sociais que implicavam o respeito pelo outro, a ideia de que há limites para aquilo que fazemos e dizemos. São estas virtudes sociais que estão a ser dinamitadas deixando o hooliganismo político sem freios e contrapesos. Com a ajuda das redes sociais, o crescente hooliganismo político está a escavar os alicerces que suportaram as democracias ocidentais, baseadas num reconhecimento tácito dos adversários e numa forma de vida civilizada. Não me parece uma boa notícia.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Pretérito Imperfeito 6. Anoitecer

Mark Rothkovich. N.º 15, 1957

6. Anoitecer

Entre vestígios de cal
o espaço bravio
onde te pego nos dedos
com a luz do coração.

E a tarde corre
para o anoitecer e
apaga o fogo
que nascia então.

[Pretérito Imperfeito, 1981]