sábado, 14 de julho de 2012

Missa Pro Defunctis (XX)

20. Libera me

Tiraste as algemas e ofereces-te em saldo.
Terei dinheiro para te pagar o valor de um seio,
A mão fria e suada sobre o sexo?
Para quê a liberdade, se o fogo enxameia o quarto
E a ira cresce no frio desvão da janela?

Tantas perguntas que tenho para te fazer.
Adormeço cansado e sonho com os dias de verão,
Quando anestesiado sonhava contigo,
Dentro de sonhos infestados pela ausência,
A fuga para um deserto frio e sem sol.

Trago o chicote e faço-o estalar
E oiço-te uivar mansamente no fundo da alma.
Escuto o murmúrio marítimo das orações,
O balbuciar infinito do meu nome,
A compra do descanso eterno.

Todas as calamidades da terra e a miséria que cresce,
Invade jardins, derruba bosques e florestas,
São a matéria que te compõe, te dá um brilho negro,
Na branca carnação com que entregas o espírito
E ronronas, submissa, sob o peso desta mão.

Flores pálidas habitam o incenso da desolação,
Clamam por água na imensidade vazia do oceano,
Enquanto os barcos passam levando as cartas
Que me enviaste para a moradia velha e escura,
Onde nada em mim te pediu a luz de um rio.

Pobre escrava liberta, o que são dois ou três séculos
De liberdade? O corpo pesa-te, as mãos pedem algemas
E as pernas, a felicidade dorida das grilhetas.
Fecho os olhos e oiço o estalar solitário do chicote:
A cobardia e a traição são a rosa branca da infâmia.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.