terça-feira, 24 de julho de 2012

O mistério da soberania (1)

Albert Dürer - An Orientela Ruler Seated on His Throne (1495)

Era uma grande família - Viena, o Império, os húngaros, alemães, moravos, checos, sérvios, croatas e italianos -, e dentro dessa família todos sentiam secretamente que no meio dos desejos tumultuosos, inclinações e paixões, o imperador era o único capaz de manter a ordem, que era, ao mesmo tempo, sargento em serviço contínuo e majestade, funcionário público de manga-de-alpaca e grand seigneur, campónio e soberano. Viena irradiava alegria. (Sándor Márai, As velas ardem até ao fim, p. 44)

É nesta ambiguidade do soberano, neste seu ser senhor e, ao mesmo tempo, servidor, que reside o mistério da soberania. Esta não deriva de um cálculo racional dos cidadãos, ao qual se sucede um contrato social, mas a uma relação que a história - isto é, a acção dos homens no tempo - tornou misteriosa. O soberano, quando o é verdadeiramente, é esta figura ao mesmo tempo luminosa e sombria, aquele que é o princípio e o garante da ordem, mas que, de alguma maneira, está fora dela. Por isso, há em todos os verdadeiros soberanos uma aura, uma irradiação muito própria, que a razão nunca será capaz de explicar completamente, mas que o sentimento e a própria imaginação também não são capazes de compreender. O soberano é um símbolo do mistério humano, onde se conjuga a necessidade da obediência e o direito à autonomia e à liberdade. O soberano é o mais livre dos homens e, ao mesmo tempo, o servo mais submisso ao cimo da terra.

Por soberano, não se entende apenas os reis, mas qualquer um que ascende ao poder e ao império sobre os homens. Há reis que não simbolizam nada e há presidentes eleitos que trazem a marca clara da distinção e da eleição divina para o exercício da soberania. O pior é quando, como acontece nos dias de hoje, somos governados por sargentos, mangas-de-alpaca e campónios cuja legitimidade repousa apenas na contagem dos votos, a quem falta a secreta e divina unção vinda do fundo do mistério humano. Nestas alturas, a comunidade está exposta ao maior dos perigos, à sua desagregação e desaparecimento.