domingo, 21 de outubro de 2012

Ars critica e ars cogitandi

Giorgio de Chirico - The Vexations of the Thinker (1915)


Aquilo que venho fazendo, neste blogue, em torno do romance, mas não só, está longe de se inscrever no que habitualmente se chama crítica literária. Não pretendo julgar as obras que leio. Certamente que numa tradição kantiana, também as obras estéticas, nomeadamente o romance, deverão comparecer perante o tribunal da razão, para aí ouvirem o veredicto desta. Recuso, porém, essa ars critica. Não só não tenho formação para juiz, mesmo de coisas literárias ou de quaisquer outras, nem penso que a estratégia crítica - que se foi complexificando ao longo dos tempos - seja, hoje em dia, a mais pertinente para ler as obras com que nos deparamos.

Na ars critica, o juiz instala-se num plano que se supõe superior ao do artista e ao da própria obra, munido de um saber teórico sobre a actividade que vai julgar e de um código penal, que remete para o jogo das censuras e das recompensas. Mesmo que o juiz fosse a razão pura - e nunca vimos nenhuma razão não encarnada num corpo com sentimentos e interesses - haveria, da minha parte, grande relutância para aceitar os seus veredictos, pois o seu hipotético desinteresse no acto de julgar é o sintoma de um julgamento enviesado. Daí que não profira nos textos que vou escrevendo sobre as obras que tenho estado a ler qualquer juízo de gosto, qualquer opinião sobre se um romance me agrada ou não. Evidentemente, uns agradam-me mais do que outros. Acontece mesmo uma coisa paradoxal. A opinião privada que formulo quando acabo de ler uma obra altera-se, por vezes, pelo simples facto de escrever sobre ela. Isto torna claro para mim que não há leitura efectiva se não houver escrita. Isto significa, como há muito se sabe, que a leitura é um momento de mediação entre duas escritas.

Recuso a ars critica, pois prefiro-lhe uma ars cogitandi. Tomo a obra que leio não como objecto que vou julgar, mas como aquilo que dá que pensar. Em vez do juízo crítico com a sua dimensão sentencial, prefiro o ensaio pensante, o assumir de uma posição de diálogo com a obra, o abrir de um campo de experiência do pensamento. A razão, neste caso, não transporta qualquer verdade universal como modelo de um juízo, mas exerce-se numa dimensão de pura modéstia, marcada pela procura, pela conjectura e pelo diálogo com o que foi efectivamente escrito. Não se trata de bondade moral da minha parte, mas da procura de um caminho em que possa ser surpreendido e assim tenha um cúmulo de prazer. Um caso, na aparência, de puro utilitarismo.

Na verdade, uma razão crítica só pode ser adversa à surpresa, pois esta retirar-lhe-ia a autoridade jurídica e mostrar-lhe-ia a ilegitimidade da sua função ao tornar patente que há algo que está fora do critério que funda o juízo crítico. Ora a arte é aquilo que transcende o critério, o modelo dado, a matriz disciplinar onde o crítico se move. Perante o inusitado de um objecto estético, a única atitude que me parece aceitável é o corpo a corpo, isto é, o confronto entre o pensamento que emana da obra e o meu pensamento, que se descobre nesse corpo a corpo, que se articula em categorias transitórias de acordo com o vento que sopra em cada objecto estético. Eu sei que o rigor do juiz, quero dizer do crítico, tem um alto valor social, pode liquidar e consagrar carreiras (quando se é juiz nos sítios que importam e não num blogue de província como este), mas eu não passo de um cata-vento, movido pelos ventos que sopram daquilo que leio. Mas ser cata-vento - coisa do maior desprestígio social - é o destino daquele que quer pensar, coisa que o tempo e o espúrio casamento da filosofia com a universidade obscureceu, num tempo em que o filósofo, para além de um produtor de papers, se tornou num animador das pequenas multidões, pernósticas e impudentes, ávidas de espectáculos do espírito.