domingo, 11 de novembro de 2012

Meditações taoistas (3)



O ensino sem palavras
A eficácia do não-agir
Nada poderá igualar-se-lhes.
Lao Tse, Tao Te King, XLIII

De súbito as palavras secaram na boca, quebraram-se em sílabas que se desfizeram letra a letra. Na areia da língua, no pó vocálico que então se desprendeu, cresceu uma radiação infinita. Não foi um milagre, nem os deuses desceram sobre a terra. Apenas um silêncio fulgurou iluminando as folhas do castanheiro, as ervas bravias que, como dedos de cimento, cresciam pelas bordas dos caminhos. Vinda pela estrada, a mulher estancou, aspirou com suavidade o ar da manhã e desfez-se lentamente das roupas que a cobriam. Era um corpo silente que se desnudava, que se abria ao pó da terra, ao afago do vento marítimo. Naquele instante, o mundo recomeçava a sua caminhada e tudo era, aos olhos incendiados de Eva, novo e sem finalidade.

Sentado no centro do universo, Adão olhava os seios de Eva, o corpo suave que a eternidade agora lhe restituía. Não esboçou um gesto, nem uma palavra cintilou na sua boca. Uma aragem fresca tocou ao de leve o corpo da mulher, eriçou por breves instantes os pêlos do púbis e perdeu-se na planície sem fim. Frente a frente, homem e mulher fitavam-se e, em alguns momentos, lágrimas afloraram-lhes aos olhos. Adão aprendera a inutilidade de todo o gesto e Eva, tranquila, abraçava-o. No quieto silêncio que os habitava, deixaram que as bocas se tocassem. Abriram-se então as portas do Jardim do Éden e Deus, mudo e plácido na sua sabedoria, sorriu quando o silencioso corpo de Eva pela quietude de Adão foi tomado.