segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O sono dogmático

Jean Édouard Vuillard - O Sono (1891)

Kant diz que foi ao ler as reflexões de David Hume sobre a causalidade que despertou do sono dogmático. A metáfora é extraordinária. Passado este tempo todo, esta combinação entre dogmatismo e sono ainda causa estranheza. Por outro lado, a expressão metafórica permitiu suspeitar uma outra, a da vigília crítica. E foi isso o que aconteceu, Kant acordou desse sono dogmático e decidiu tudo submeter ao tribunal da razão crítica. Contudo Kant não mediu o problema que introduziu com a metáfora que usou. Ninguém suporta estar constantemente num estado de vigília, o sono é reparador e, sem ele, a própria razão não funciona.

Sem querer, Kant acaba por chamar a atenção para a importância do dogmatismo, esse momento em que a razão descansa e, ao suspender a vigilância crítica, permite-se descer a essas terras brumosas do sonho, do devaneio, do inconsciente. O dogmatismo é a cristalização das viagens pelo fundo dinâmico do ser, por territórios que a razão apenas concebe em ideias às quais não correspondem quaisquer experiências físicas em estado vígil. Mas o que importa ressaltar é que a metáfora kantiana introduz, sem que Kant se aperceba, a importância do próprio dogmatismo. Assim como o sono é o momento reparador e libertador das tensões do estado vígil, o dogmatismo é o momento reparador e libertador das tensões críticas. Chegou a altura de recuperar, do ponto de vista filosófico, o bom nome do dogmatismo, integrá-lo no movimento de equilibrio e de balanceamento entre o momento dogmático e o momento crítico da razão. A noite faz parte do dia.