sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Um caso sintomático

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

A nomeação de Franquelim Alves, antigo administrador da Sociedade Lusa de Negócios, entidade que tutelava o BPN, para secretário de Estado do Empreendedorismo (uma secretaria de Estado consagrada à irrelevância) é um caso sintomático da natureza do poder político em Portugal. O novo governante, diga-se, não é acusado de nada, nem sequer é alguém técnica ou moralmente diminuído. O problema não está nele, mas naqueles que o escolheram e o nomearam. 

Como todos sabemos, o caso BPN está a arrastar a vida de milhões de portugueses para um verdadeiro inferno. Não é a única causa da situação em que se encontram as finanças públicas, mas é uma causa com elevado potencial de degradação dessas mesmas finanças. Se fôssemos governados por pessoas que compreendessem a natureza do poder político em democracia, não seria possível que uma personalidade ligada a um assunto tão tóxico quanto o BPN fosse chamada à governação. Não apenas porque se encontra à partida politicamente diminuído – nunca deixará de ser, aos olhos da opinião pública, um tipo do BPN – mas por respeito pelos cidadãos, que se sentirão desconfortáveis ao serem governados por alguém que administrou aquilo que, sem qualquer proveito próprio, lhes custa os olhos da cara. 

Tudo seria diferente se os governantes compreendessem uma coisa muito simples: eles são servidores do povo, por quem são pagos e a quem devem respeito. Esta noção, nos países nórdicos, por exemplo, é levada à letra. Tanto cidadãos como políticos sabem qual é o lugar de cada um na escala hierárquica. E esta é muito clara. Os cidadãos estão em cima e os políticos, enquanto políticos, são meros servidores desses cidadãos. Estando isso claro, não haverá lugar para truques nem para situações obscuras, muito menos para situações de claro desrespeito pelo sofrimento das pessoas. 

Em Portugal, todavia, os governantes (não apenas estes, sublinhe-se) estão acima dos cidadãos, a quem desprezam e enganam sempre que podem. Durante as campanhas eleitorais, esta gente arrasta-se boçalmente por ruas e praças, bajula os eleitores, beija as criancinhas ranhosas e dança com as peixeiras. Eleição obtida, tomam banho e vestem fato novo, e de bajuladores boçais tornam-se em maiorais impiedosos, que ocupam o poder para dar largas à sua vontade. O poder em Portugal não é um lugar de serviço, mas o sítio usado por uns egos, mais ou menos exaltados, para realizarem a sua vontadezinha despótica, com a esperança de se concubinarem com a história pátria, essa grande rameira que se deita com qualquer um.