quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Islão e o Ocidente

Vincent Van Gogh - Natureza morta com Bíblia e candelabro (1885)

Se o Alcorão forma um Livro único e monolítico, geometricamente estruturado, onde as suras se ordenam em função do número decrescente dos seus versículos, a Bíblia apresenta-se, quanto a ela, sob o signo da pluralidade ostensiva, como uma simples biblioteca, uma soma de livros, uma colecção altamente babeliana. Esta sucessividade do Livro, por adjunção de livros, é acentuada no Novo testamento devido ao seu carácter de apêndice às Escrituras judaicas. (Christian Belin, Le Corps Pensant, p. 257)

Esta distinção entre o Alcorão e a Bíblia, constatada por Christian Belin, permite perceber muito daquilo que separa o mundo muçulmano e o mundo ocidental. Não é que o Islão seja destituído de pluralismo - existem várias correntes conflituais -, mas esse pluralismo acaba por surgir, a cada uma das partes, como ilegítimo. O mundo ocidental formado, em grande parte, pela religião cristã tem, no seu próprio Livro, o exemplo de um pluralismo, de uma pluralidade ostensiva, como assinala Belin. Não são apenas os estilos dos diversos livros bíblicos que são diferentes, mas o próprio conteúdo está longe de obedecer a uma uniformidade monolítica. 

O pluralismo político ocidental nasceu da necessidade de construir sociedades, com credos cristãos conflituais, tolerantes. Essa tolerância, contudo, só foi possível porque, desde há muito, as comunidades eram trabalhadas por narrativas estilisticamente diversas, por uma multiplicidade babeliana de vozes, por obras diferentes que se harmonizavam numa totalidade, a Bíblia, que as continha. A tolerância não é o ponto de partida do pluralismo. Ele é um momento onde esse pluralismo preexistente ganha consciência de si e ultrapassa a decisão de eliminar as outras vozes.

O mais pertinente da citação de Belin, porém, pode ser encontrado no confronto entre dois tipos de razão. A razão geométrica - de certa forma, aquela que seduziu Descartes e Espinosa - do mundo islâmico e a razão babeliana constitutiva do mundo ocidental. A razão geométrica acaba por legitimar toda uma ordem derivada da unidade monolítica do Alcorão, enquanto a razão babeliana exige um esforço de tradução, um exercício de compreensão do outro e das suas diferenças. No caso do Islão, o resultado é a Charia. No cristianismo, é o dom das línguas, como o retratado nos Actos dos Apóstolos, 2:1-12, onde aquele que fala é entendido pelo outro, apesar da diferença de idiomas.