quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Atomização do mundo da vida

Arnulf Rainer - Atomização (1951)

Um dos traços centrais da acção das elites económicas e financeiras - um traço que não é de agora, mas que, com esta última fase da globalização, se tem intensificado até ao paroxismo - tem por finalidade a atomização da vida social. Não se trata apenas da destruição dos laços de classe que uniam oficiais do mesmo ofício. A promoção da concentração urbana, por exemplo, tem por consequência a destruição do espírito de comunidade local e as solidariedades entre vizinhos. Onde, porém, o ataque é mais interessante - interessante, porque desmonta muito do discurso conservador sobre a família - é, precisamente, na família. Os portugueses começam a perceber, perante a vaga de emigração actual, que as famílias têm laços frágeis, laços incapazes de resistir a atomização que a actual fase de desenvolvimento da economia-mundo exige. 

O deslassamento das relações de proximidade, com a destruição dos vínculos familiares, comunitários e de trabalho, é um processo fundamental para quem governa o mundo. Nas sociedades ocidentais, a crença na liberdade é, em quase todas elas, um valor importante. Acções fundadas na perseguição das pessoas e das organizações desmentiriam a retórica liberal. Não estando disponíveis soluções desse tipo, resta a atomização do mundo da vida social como forma de deixar os indivíduos, presos na sua solidão, à mercê dos vários poderes. A atomização social significa que cada um fica agrilhoado à sua própria liberdade. Esta liberdade, todavia, é inimiga da liberdade daquele que está ao meu lado, pois este não é um companheiro mas um concorrente. A atomização é a estratégia que tem por finalidade substituir o vizinho, o familiar, o companheiro de trabalho e, mais do que tudo, o cidadão pelo concorrente. A ideia de concorrência que dá estrutura ao mercado está a penetrar, pelos processos de atomização em curso, em todos os planos da vida social, corroendo e destruindo qualquer vínculo que obste à concorrência entre singulares.

4 comentários:

  1. É a "política do salame": cortar, cortar; dividir, dividir, desagregar, desagregar; isolar, isolar. Para, por fim, reinar.
    Só não se sabe bem o quê e quem.
    Abraço

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    1. Um processo de destruição das comunidades. Uma desgraça.

      Abraço

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  2. Á concorrência pode opor-se a cooperação, ao saque pode opor-se a partilha, mas seria um processo de recuperação da comunidade depois de um império do individuo.
    Existem muitas situações onde aconteceu esta transformação, a Argentina ( pós bancarrota) será um dos exemplos de comunidade, o trabalho de muitas ONG no Brasil, nomeadamente no Movimento dos Sem Terra, e até nos EUA ( algumas comunidades no Mississipi).
    Um conceito a explorar será "Commonomics" uma economia que se dirija para as pessoas, todas as pessoas da comunidade, por oposição ao lucro para um grupo de accionistas e exclusão para os demais.
    O texto como reflexão é uma seta mas como horizonte podemos e devemos construir alternativas onde o índice de felicidade seja mais importante do que o PIB.

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    1. Conheço alguns traços dessa "nova economia". Duvido, porém, que ela se possa constituir em alternativa à actual economia empresarial centrada no lucro privado. A situação não será muito diferente da da emergência do movimento cooperativo em Inglaterra no XIX como alternativa ao desenvolvimento capitalista. Não passou de um movimento ingénuo e sem futuro. Enfim, sou céptico.

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